quarta-feira, 28 de junho de 2006

Enquanto ouço, ao fundo, a bela "Na cadênica do samba (que é bonito é...)", automaticamente me lembro daqueles lances ancestrais do Canal 100... Hoje, mesmo com os avanços da tecnologia, com câmeras nos mais inusitados ângulos e em cima da jogada, o Futebol anda bem inferior àqueles tempos de glória! Só ver um Portugal e Holanda, verdadeira guerra européia! E o que dizer do modorrento segundo tempo de hoje, de Brasil e Gana? Tudo bem, ganhamos de 3 a 0, mas... Desse jeito, contra Gana? Tudo bem, Ronaldo fez um gol às antigas, Ricardinho entrou e jogou bem (!) e ganhamos fácil, fácil de uma seleção sem pontaria ou talento (quantos erros de nossos laterais), mas é incrível como a Seleção não evolui, tal como a cabeça de Parreira! Podemos até ser hexa, dado o futebolzinho dos demais, mas será com sofrimento, pior que em 94! E por falar em passado, sigamos para uma volta no tempo: estamos classificados para uma revanche contra a França (mon Dieu!) e o coração esfria só de lembrar 98... Por isso, na ROTATÓRIA ESPECIAL FUTEBOL desta semana, trago um hilariante texto do gênio Luis Fernando Veríssimo sobre as "verdades" daquela final macabra - que, esperemos, não se repita no próximo sábado!!!


O que realmente aconteceu
Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e Zero Hora, 26/7/98.

Para encerrar de uma vez por todas a questão, eis o que realmente aconteceu no domingo, 12 de julho, antes de o Brasil entrar em campo para decidir a Copa do Mundo. Todas as outras versões dos fatos são incorretas ou fantasiosas.

11h: Os jogadores acordam normalmente, como todos os dias. Dunga vai no quarto de cada um e o derruba da cama.

11h15: Zagallo convoca uma reunião para tratar da estratégia que usarão contra a Noruega. Ninguém lhe dá atenção. Zico lembra a Zagallo que o jogo será contra a França.

11h30: Café da manhã. Todos parecem descontraídos. Há a habitual guerra de coalhada, vencida por Roberto Carlos. Dunga pede voluntários para limpar uma clareira atrás da concentração de pedras e tocos de árvores, mas acaba indo sozinho. Ronaldinho recebe um telefonema da Adidas, dizendo que seqüestrou a Suzana Werner. Zagallo volta para a cama.

12h: Almoço. Todos estranham a mudança do pessoal da cozinha, e do menu. As suspeitas crescem quando um dos escargots servidos ao Ronaldinho tenta fugir do prato mas cai, com evidentes sinais de envenenamento, antes de chegar muito longe. O escargot é atendido pelo Dr. Lídio, que diagnostica estresse e autoriza a sua volta para o prato de Ronaldinho.

13h: Descanso. Os jogadores vão para os seus quartos, ignorando uma convocação do Zagallo para estudar tapes dos últimos jogos da Croácia, para não serem surpreendidos. Júnior Baiano pede um dos livros do Leonardo emprestado e pergunta se o Schopenhauer é com figurinha. Isto parece afetar estranhamente Ronaldinho, que tenta esgoelar Roberto Carlos. Ninguém intervém e alguns até o incentivam. Ronaldinho só pára com a chegada de Ricardo Teixeira com a notícia de que a Nike comprou a CBF, pretende redimensioná-la, investindo em outras áreas, e quer perder a Copa para sinalizar ao mercado que está abandonando o futebol.

14h30: No quarto, Roberto Carlos raspa a cabeça de Ronaldinho e nota um pequeno dardo espetado na sua nuca. Ronaldinho diz que pensou que fosse uma mordida de mosquito e os dois não dão maior atenção ao fato.

15h17: Roberto Carlos acorda da sesta e vê Ronaldinho caminhando no teto.

15h20: Depois de tentar, inutilmente, puxar Ronaldinho para o chão, Roberto Carlos vai procurar ajuda. Encontra Dunga no corredor, fazendo embaixada com uma escrivaninha. Os dois correm para o quarto e descobrem Ronaldinho de pé em cima da cama, coberto de pêlos, rosnando e com o chapéu do Napoleão na cabeça. Chegam correndo César Sampaio, Cafu, Aldair e Júnior Baiano mas nenhum deles consegue impedir que Zidane seja o primeiro a entrar no quarto.

15h42: Depois de examinar a situação, o Dr. Lídio recomenda repouso e muito líquido e receita duas aspirinas e um calmante para Roberto Carlos.

16h05: Em pânico, César Sampaio enfia o dedo na boca e tenta desenrolar a língua de Zé Carlos, até ser convencido de que ele fala assim mesmo. Zagallo acorda da sesta e, ao ser informado do ocorrido, pergunta: "Que Ronaldinho?"

18h52: Ronaldinho é levado para um hospital francês, onde é substituído por um sósia.

20h30: O sósia de Ronaldinho assegura à comissão técnica que pode jogar. Intrigados com o fato de o jogador estar falando com um forte sotaque francês, a comissão ouve dos médicos a explicação de que aquilo é comum em casos como o do Ronaldinho, seja ele qual for.

20h50: A seleção entra em campo com o sósia do Ronaldinho, que não joga nada. O Brasil perde o jogo e a Copa.

(Luís Fernando Veríssimo, Portal Literal/Terra)

domingo, 25 de junho de 2006

Aproveitando a folga da tarde da última segunda-feira, pela primeira vez em muito tempo, finalmente assisti a três filmes que já andavam à beira de sair das telonas: dois badalados 'blockbusters' da estação e uma produção nacional feita com a alma interiorana de outros tempos. Só restou um tal Código, que Jandira, por mais que tenha insistido, ainda não conseguiu me arrastar para ver...

Cine Morcegos: Três Sessões


Na primeira sessão: Tapete Vermelho, encantador trabalho do diretor Luiz Alberto Pereira, homenagem ao antigo campeão de bilheteria do cinema brasileiro, Amacio Mazzaropi. Matheus Nastchergaele (em mais uma ótima atuação, compondo uma mistura de imitação do falecido comediante paulista com um caipira típico do interior de São Paulo), desejoso de cumprir uma antiga promessa a seu pai, leva mulher (Gorete Milagres, irregular, pelo menos distante da repetição da Filó) e filho para a primeira cidade que encontrar exibindo um filme de Mazzaropi, partindo numa espécie de 'road movie' com comédia gostosa e leve, baseada no qüiproquó dos personagens, algo como visto em A Marvada Carne. Entretanto, ao contrário desse pequeno clássico do recente Cinema Nacional, Tapete Vermelho é irregular tanto na técnica quanto no enredo, pecando em enveredar por desvios de narrativa envolvendo temas diversos (como os sem-terra e o draminha do sumiço do filho), perdendo-se a partir da metade final. Entretanto, diante do sentimentalismo presente em algumas produções de Mazzaropi, a homenagem parece ter ficado mesmo completa: mesmo com tantos baixos, é diversão garantida para toda a família!

Segunda sessão: X-Men - O Confronto Final, terceira e aparentemente última adaptação dos famosos personagens mutantes da Marvel. Dirigido pelo competente Bret Rattner (Dragão Vermelho), que pouco mudou na trama conduzida com precisão cirúrgica por Bryan Singer (responsável hoje por outro super-herói, que em breve voará novamente nas telas do mundo inteiro), o novo X-Men tem mais ação, muito mais mutantes (tirando as promessas do segundo, Jubileu e Noturno, que não repetem seus papéis aqui) e um pouco mais de ritmo que os anteriores, arriscando-se em cobrir ainda mais períodos dos quadrinhos: depois de dada como falecida no último filme, Jean Grey ressurge como a Fênix, com poderes incalculáveis e segredos só agora revelados (no que difere um pouco da origem da personagem nos quadrinhos) e se alia a Magneto na guerra contra a cura, alardeada por uma empresa de bioquímica como uma possibilidade de transformar mutantes em pessoas comuns. Assim, mutantes morrem, outros perdem poderes e uma intensa reformulação é feita, para a surpresa dos não iniciados no universo dos 'action comics', onde personagens morrem e renascem constantemente - falando nisso, atenção ao fim dos créditos, onde uma grande revelação sugere uma ponte para uma nova leva de filmes...

Quase que sem querer, aproveitando a oportunidade e o horário da sessão, o último filme do dia (já à noite): Missão Impossível 3, terceiro filme de uma franquia já cansada e sem identidade (cada filme foi dirigido por um diretor diferente, devendo ser considerado como de crédito unicamente o primeiro, do mestre Brian dePalma), cujo personagem "de ligação" ainda é vivido pelo produtor Tom Cruise, o Ethan Hunt da série original (sem esquecer do personagem vivido pelo sempre bom Ving Rhames, presente em todas as produções). Com muita correria e muitas seqüências de ação, a "trama" quase não dá espaço para o tão alardeado vilão vivido pelo excelente Philip Seymour Hoffmann (oscarizado neste ano por Capote) e termina por enterrar a série como apenas um filme ligeiro de ação. Nada de mais! Somente filmes demais para um dia só...

sábado, 24 de junho de 2006

SEMANA ESPECIAL CHICO BUARQUE



Ao longo de cerca de 40 anos de carreira, Chico Buarque gravou aproximadamente 35 discos, fora álbuns especiais em outras línguas (como o italiano, por exemplo, tendo vivido dias difíceis em Roma na época do auto-exílio), quase 10 DVDs e inúmeras coletâneas. Difícil dizer qual teria sido o melhor disco, tamanha a constância da qualidade de todos os seus trabalhos: além de ser impossível definir uma "melhor música", mais ainda seria dizer qual dos seus discos teria reunido mais "clássicos"... Teria sido Chico Buarque vol. 4, com pérolas como Cara a Cara e Essa moça tá diferente? Ou talvez Chico Buarque (78), com Cálice e Apesar de você? Ou ainda Chico Buarque de Hollanda (66), com a fineza de sambas antológicos do esplêndido início de carreira, como A Rita, Olê, Olá e Pedro, Pedreiro? Realmente não é tarefa fácil para ninguém, que dirá para um fã ardoroso de sua obra completa como este pobre escritor que vos fala... Por isso, tentando reduzir o "multiverso" deste tão fantástico compositor, minimizemos todos estes clássicos à também já clássica compilação Chico Buarque, 50 Anos, onde, se não foi possível todos os maiores títulos de suas quase 400 canções, pelo menos o hercúleo trabalho do crítico Tárik de Sousa foi, dentre todas as coletâneas, a que mais se aproximou da perfeição!

Ainda que a coleção de gravações originais dos 5 CDs não traga material extra, como fotos ou letras das músicas (o que seria mais do que merecido para uma legião de adoradores da poesia do mestre carioca), Chico Buarque, 50 Anos traz em seu bojo, além de perfeições absolutas como Samba e Amor, Atrá da Porta, Cotidiano, Você vai me seguir, Bye, Bye, Brasil, O Meu Guri, Geni e o Zepelim, Flor da Idade, A Banda, Até o fim, dentre outras tantas, uma divisão das canções (feitas desde 1966 até 1994, ano de lançamento dos discos, que já tiveram inúmeros relançamentos) de acordo com os vários temas abordados pelo eclético compositor. Assim temos o disco O Amante, área em que foi um mestre tanto no pessoal como no profissional; O Trovador, com 12 composições do Chico tal como nos tempos áureos do Pré-Romantismo; O Cronista, uma das grandes características de sua obra, baseada que sempre foi num eterno narrar de estórias, cheias de jogos de narrativas temporais (como a que o querido blogueiro de plantão ouve ao fundo neste 'blog', Vai Passar); O Malandro, cujo hino, sem dúvida, é Vai Trabalhar, Vagabundo, composto para o filme homônimo de Hugo Carvana; e O Político, arte maior do mestre, impossível lembrar alguma canção "despolitizada" de seu repertório, especialmente ao longo dos negros anos da Ditadura...

"Descobri" Chico Buarque por volta dos 13 para 15 anos, garimpando LPs nas casas de amigos e de parentes. Ouvi esta coletânea, pela primeira vez, quando com ela minha amada Jandira presenteou-me de aniversário, já na era dos CDs - nem preciso dizer qual é a minha coleção favorita! Mas é curioso como o universo orquestralmente grandioso das gravações de Chico (especialmente as dos anos 70, como a maior de todas, Construção) parece tão reduzido e esterilizado na tão alardeadamente superior qualidade de um 'compact disc'... Não concordam?

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Tijolo por tijolo num desenho mágico, Chico começou como compositor e cantor (e um ótimo intérprete, diga-se de passagem, ainda que pesem as más línguas: voz precisa e melodiosa, acompanha com afinação as suas notas mais difíceis), lançando o excelente disco Chico Buarque de Hollanda (66), indo na contra-mão do samba Bossa Nova e voltando às raízes do samba de Noel e companhia! Depois veio o Chico "garoto-da-mídia", o Chico dramaturgo, com pérolas como A Ópera do Malandro (e até ator, no bom e excêntrico filme de Cacá Diegues Quando o carnaval chegar, de 72), o Chico escritor (com uma Literatura competente e evoluindo a cada livro) e, na casa dos 60, novamete o "garoto-da-mídia", com uma série enorme de DVDs, prova da força de Chico tanto com a geração antiga como com o público mais jovem, através de seus trabalhos mais recentes somados aos clássicos eternos... Por todo o talento destes 40 anos de carreira: Chico, Deus lhe pague...

E hoje, dando continuidade à SEMANA ESPECIAL CHICO BUARQUE, a homenagem vem em dupla face: a primeira, na forma de versos, que rabisquei em homenagem a uma de suas canções mais perfeitas Samba e Amor; a segunda, na forma de depoimento apaixonado de quem trabalhou com o Mestre carioca - Ruy Guerra, diretor no Cinema de duas adaptações da obra de Chico (A Ópera do Malandro e Estorvo).



Samba e Amor, TV, Poesia e Vazio


Vejo televisão, falo ao telefone
Como pão e faço versos
Até mais tarde
E tenho muito sono o dia todo, o tempo todo
Sem o colo da companheira ou o corpo do violão
Me ressinto no ardor da correria do dia
E da profissão,
E tenho um monte de gente
Para quem prestar satisfação
(Especialmente para mim),
Gente que contorna a minha cama
E que reclama de meu quarto fechado,
Abafado
- Por que é tão difícil adormecer
E acordar e renascer...
E em meio ao certo e ao direito
E a minha preguiça tão covarde
Eu tenho é mais poesia que fazer...

(Dilberto Lima Rosa, 2004 Poemas, 2004)



"Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua - tudo à flor do coração, em carne viva... Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma ficção - saibam! Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção."

(Ruy Guerra, cineasta e escritor, outubro de 1998)

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Ô, Bussunda: não teve a menor graça...

Menos engraçado ainda foi aquele jogo de ontem! Ronaldo e Roberto Carlos escorregando e tropeçando nas próprias pernas e sem domínio de bola, Dida saindo nas horas mais erradas... E Ronaldinho Gaúcho na defesa?!?! Algo tem que ser feito urgentemente! Haja coração... Vai passar?...

E hoje é aniversário de um dos maiores gênios da Música: Francisco Buarque de Hollanda (62 anos). Tombemos esse dia como feriado nacional! Louvemos ao mestre maior Chico Buarque! Façamos uma prece por ele que, tanto como Tom, Villa-Lobos, Noel e outros nomes tão grandes como o seu, perpetuou nossas mentes com genialidades e brindou a MPB (no tempo que esta sigla tinha algum valor, fazia algum sentido!) com um rótulo de qualidade e de beleza 'ad eternum' - e que seja ele eterno, vire pedra (mas pedar de cantaria), e dele emanem canções perfeitas, onde letra e música se casam como casamento nenhum jamais funcionou! E que se case com todas as mulheres por quem se apaixonou, vez que se apropriou de suas almas para sempre em suas retinas esverdeadas... Ao mestre, com carinho, por Construção, Cotidiano, Pedro Pedreiro, Januária, A Rita, Cara a Cara, Samba e Amor, As Vitrines... E pelo seu futebol, em letra, música e chuteiras canhoteiras, o obrigado de uma nação que inspira Futebol e expira Chico, professor maior, craque driblador em tantas artes!

Iniciando a SEMANA ESPECIAL CHICO BUARQUE, e aproveitando a série ROTATÓRIA ESPECIAL FUTEBOL deste mês de junho, publico hoje, de autoria de Chico, O Futebol, tal como nas próprias palavras do mestre: "há certos momentos de genialidade no futebol, daquela capacidade de improviso, alguns relances que acontecem no futebol, que artista nenhum consegue produzir"... Que a Seleção te ouça, meu caro amigo!



O futebol
Chico Buarque/1989
Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)

1989 © - Marola Edições Musicais Ltda.

domingo, 18 de junho de 2006

E hoje é o grande dia: finalmente a Seleção vai demonstrar se mereceu mesmo todo aquele entusiasmo mundial (esmaecido depois da fraca partida de abertura) ou se vai entregar a Copa para aqueles jogadores de rúgbi disfarçado de futebol... E no Cine Morcegos de hoje, nada melhor que lembrar um grande filme sobre o polêmico entusiasmo com o tri de 70 sob o punho pesado da Ditadura - cuja canção-tema é tocada aqui, mais pela beleza de hino em que se tornou que pelo simbolismo macabro e cego daquela época...

Cine Morcegos

"90 milhões em ação, pra frente, Brasil, do meu coração"! Assim conclama a clássica e polêmica marcha de 1970 de Miguel Gustavo, em pleno período áureo da Ditadura Militar... Assim, enquanto centenas de pessoas "desapareciam" nos porões dos DOICODs, uma nação cegada pelo brilhantismo de Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson e cia. e pela idéia do então iniciado "milagre econômico" vibrava o simples fato de ser brasileiro...

Este é o cenário real onde se desenrola a trama de Pra frente, Brasil, um dos grandes momentos do Cinema Nacional, dirigido pelo sempre competente Roberto Farias (do clássico Assalto ao Trem Pagador, de 58, também com o irmão famoso, Reginaldo): produzido em 1983, quando da abertura política brasileira, o filme narra as desventuras de um pacato cidadão de classe média que, confundido com um ativista político, é preso e torturado por agentes federais em plena Copa de 70.

Vencedor do prêmio C.I.C.A.E., no Festival de Berlim, e dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Edição no Festival de Gramado, Pra Frente, Brasil é um dos poucos filmes que retratam as atrocidades cometidas durante esta negra página de nossa História... E, a despeito dos costumeiros problemas de fotografia e de som da época, o filme tem direção impecável, roteiro e atuações memoráveis (Fagundes, Farias e um inesquecível Zara, tirando uma Natália do Vale deslocada, em início de carreira), sendo Cinema-Denúncia de qualidade num período em que os brasileiros começavam a acordar da letargia mortal dos tempos de chumbo... E é com um trecho deste memorável roteiro que eu termino o Cine Morcegos de hoje, com um libelo contra qualquer tipo de dominação ou manipulação - até mesmo através do Futebol!



INT Avião
Sarmento - Tenho a impressão que desta vez o Brasil ganha o tricampeonato.
Jofre - É? Toda vez que a Seleção sai daqui vaiada ela acaba ganhando lá fora.

O avião chega ao Rio. Desce no Aeroporto Santos Dumont. Na fila do táxi, Sarmento é o primeiro. Jofre está logo atrás. Pára um táxi. Sarmento vai entrar. Volta-se.

Sarmento - Você vai para onde?
Jofre - Vou para o Centro.
Sarmento - Quer aproveitar o táxi?
Jofre hesita, sorri e entra. O táxi parte.

O rádio do carro transmite um noticioso: "O Governo do General Onganía decretou, ontem, a pena de morte na Argentina. Carlos Lamarca é condenado a 24 anos de prisão em São Paulo, por furto de armas. O Presidente Médici afirmou ontem que é preciso que se tenha bem presente que o desenvolvimento de países em processo de explosão demográfica não prescinde de atrair créditos internacionais de ajuda a investimentos ou de exportar riquezas naturais, visando ao aumento da renda nacional. União Soviética lança em órbita terrestre nave Soyuz..."

Uma Veraneio azul com cinco homens começa a seguir o táxi. Jofre e Sarmento conversam animadamente. Não estão prestando atenção ao noticioso. Jofre sorri.

Jofre - Engraçado, a gente conversou esse tempo todo e ainda não se apresentou... (Tira um cartão). Meu nome é Jofre.
Sarmento, recolhendo o cartão - O meu é Sarmento. Só que eu não tenho cartão. Eu te procuro.

A Veraneio emparelha com o táxi. Um homem armado grita:
Dr. Barreto - Pára esse carro!

Sarmento reage imediatamente. O homem simpático de momentos atrás torna-se violento. Saca de uma arma e ordena:

Sarmento - Toca esse negócio. Mete o pé!
Jofre - Que é isso, rapaz? Pára com isso?
Sarmento - Não enche o saco, porra! Fica quieto.
Dr. Barreto - Encosta!
Jofre - Você está louco, cara? Está louco?

Sarmento atira na direção do Dr. Barreto. Um dos homens do Dr. Barreto aponta uma metralhadora e dispara na direção de Sarmento. Sob a estupefação de Jofre, Sarmento é atingido várias vezes. Jofre se encolhe atrás do banco. Sarmento cai por cima de Jofre, mortalmente ferido.

EXT Táxi
O táxi roda, desliza e sobe a ilha que separa as duas pistas. Os homens saem de dentro do outro carro. Comem para o táxi.

Mike - Puta que pariu! Matei o cara.

Jofre é puxado de dentro do táxi com violência. Cobrem-lhe a cabeça com um capuz, metem-no dentro do carro e partem. Por sobre o corpo de Sarmento começa-se a ouvir o entusiasmado locutor anunciando para dentro de alguns instantes o início do primeiro jogo do Brasil na Copa.

Locutor - "... E vem aí mais um campeão de audiência do escrete do rádio, Jorge Cúri: Alô, alô, amigos brasileiros! A seleção brasileira inicia hoje, 03 de junho de 1970, no Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara, a disputa da Copa do Mundo, visando à conquista do tricampeonato, já que o Brasil foi o vencedor em 1958 e 1962... O Brasil joga pelo Grupo..."

(Roberto Farias, trecho do roteiro original de Pra Frente, Brasil, páginas 2/4)

quinta-feira, 15 de junho de 2006

"Andá com fé eu vou, que a fé não costuma faiá"... "Só não se sabe fé em quê"! Mais um feriãdão para uma fé cada vez mais esvaziada e mais um dia para não se fazer nada! Feriado para a Igreja continuar fechada, para o Brasil continuar parado, para Ronaldo continuar irado ("O que terá Ronaldo?!" "Viva o passado de Ronaldo!")... Acendamos uma vela diante da imagem fria e aqueçamos a fé no mês de todos os santos...


Uma Vela no Altar

Poesia
Na chama da vela, a tremular,
Tardia,
Ao aguardar a dura e triste sorte
Sombria
De guardar mesma em si a própria morte...
Esguia,
Frágil e humana vela no altar
Da guia:
Luz que queima só na sacristia
Vazia,
Prostrada acesa ao pé de uma imagem
Tão fria,
Queimando a vida e a fé de passagem
- Magia
Que acaba, sem força, em pleno dia...

(Dilberto Lima Rosa, 2004 Poemas)

terça-feira, 13 de junho de 2006

"Abrem-se as cortinas e começa..." O espetáculo?! É, meus queridos blogueiros de plantão: o mestre Gigliotti se foi antes da festa, o "baile" que se esperava ficou adiado e a vitória saiu magrinha, magrinha, diante de uma Croácia que não metia medo em ninguém, mas que marcava bem uma Seleção apática e esvaziada... Com um Ronaldo mais para Romário num jogo do Vasco em fim de carreira que um fenômeno que desperta sempre ao início de cada Copa, um Gaúcho displicente, um Cafu levando bolas nas costas e um Adriano ruim como nos tempos do Flamengo, salvaram-se poucos, como Kaká com seu gol de craque, e Lúcio, um guerreiro sempre no lugar certo! Mas, sendo pragmáticos, "a vitória é o que interessa" e bola pra frente contra a Austrália no próximo domingo - com placares mais magros no bolão daqui pra frente, por favor (o meu foi 3x0)!

E hoje, dando continuidade ao desfile de craques das nossas crônicas esportivas de toda terça, até o final de junho, na Rotatória - Futebol, eis que a bola sobra para o sábio jornalista zen Juca Kfouri, com seu indispensável Blog do Juca, de onde extraí este texto fresquinho da hora (ele chega a publicar 5 'posts' diários), com sua abalizada análise!


ROTATÓRIA - FUTEBOL

Juca Kfouri

Ronaldo não merece

Aos 36 anos de carreira, acompanhando, profissionalmente, Copas do Mundo, desde 1970, jamais me vi diante de situação tão angustiante.

Em respeito a Ronaldo, é preciso apelar: não o escale mais, Parreira.

Ronaldo parecia um pugilista pesado e grogue no ringue, depois de um soco na ponta do queixo. Não sabia o que fazer com a bola, não se ligava no que acontecia em sua volta, não nada.

Não fosse Kaká fazer um gol salvador e Dida, algumas defesas importantes, e a Seleção Brasileira não teria estreado com vitória diante da Croácia e não teria alcançado a primazia mundial de ser a única que venceu oito jogos seguidos em Copas do Mundo.

Sim, pior fez a França também do já cansado Zidane, que além de apenas empatar 0 a 0 com a Suiça, completou seu quarto jogo sem marcar gol em Copas do Mundo.

Mas a França é problema dos franceses. O nosso, neste momento, é um só: preservar Ronaldo.

(Juca Kfouri, extraído do 'post' do dia 13/06/06, do Blog do Juca)

segunda-feira, 12 de junho de 2006

O mundo de hoje parece já ter-se acomodado com a efemeridade de tudo: lanche no lugar das refeições, bate-papo em lugar de uma boa conversa e 'internet' como veículo maior da pressa (textos curtos e atorados ao invés de boas leituras, namoros virtuais que duram enquanto se está conectado etc.)... O mais triste são as gafes que se pode cometer num mundo tão breve! Final do ano passado, por exemplo, aconteceu mesmo comigo: reencontrava uma conhecida que, uns cinco anos antes, havia-se casado com um grande amigo da faculdade "- Olá, como vai? E o Alberto?" "- Nós nos separamos há um ano..." "- Sinto muito...", como se se tratasse de algo digno de pêsames, aquele casal, que se amava tanto... Ao que ela respondeu: "- Que nada, é a vida!". Será? Bom, só sei que, com Jandira, as coisas têm mais envolvimento, profundidade e amor pelas coisas mais simples, como o simples estar junto, o confiar, o amanhã, que se repete depois, juntamente com a vida... Com ela tenho tantas certezas... A principal é a que, com ela, não tem risco de amigo nenhum cometer gafe alguma: "- Cadê Jandira? Vocês ainda estão juntos?!" "- Sim, e pode ficar tranqüilo em me perguntar isso para todo o sempre que a resposta será a mesma..."

Hoje, em homenagem à Jandira, a todos os namorados de alma (e não aos apenas de ocasião) e a todos os felizes com suas caras-metades, repito 'post' do dia dos namorados do ano passado, que conta um pouquinho da nossa história, participando do Post Comunitário da prima Micha

Post Comunitário


No 1° ano do 2° grau achei muito bom conhecer aquela nova colega que viera da cidade de Codó para a Capital estudar no Colégio Dom Bosco, uma escurinha inteligente, charmosa e excelente companhia. Aos poucos, de colega de classe ela foi se tornando amiga, e, ao final do 3° ano, depois de uma paixão frustrada minha, às vésperas dos vestibulares, entreguei-me a ela num namoro de exato um ano, cujos desencontros me levaram dela embora, de forma desorganizada e impensada... Envolvi-me com tantos outros carinhos femininos; ela, bonita e elegantemente, esperou por mim, firme... Pela universidade, os encontros fortuitos passaram a ser inevitáveis depois de um tempo, e a ex-namorada, próxima e mais próxima, passou a ampliar nossa comunicação, e, aos poucos, tornou-se novamente minha namorada, agora definitiva companheira, anos depois da separação incomunicada, anos depois dos reencontros... Passamos a não contar mais os anos, nem a lembrar as perdas do tempo, mas a falar de nós dois: falamos pelos cotovelos, falamos que nos acabamos, conversamos com a boca, com os olhos e com a pele; sabemos mais um do outro do que de nós mesmos...

Meu Bem, escrevo-te com a mão envolta por nossa aliança de serenidade, amor e gratidão mútuos: sigamos a rir do mundo moderno e permaneçamos no nosso mundinho atemporal, dos finais de semana sem datas, do companheirismo eterno - eu te amo de todas as formas, Jandira, e tu, de volta, traz-me, de recompensa diária, amor em dobro (olho a vida com teus olhos e me lembro de mim, já com saudades de ti)... Pelos anos de vida a dois, pelos 5 vídeos, 5 DVDs, 10 livros e 20 CDs e pelos tantos outros presentes sempre tão bonitos, pelos incentivos, pela paixão sempre reacendida, pelo amor: feliz Dia dos Namorados, noiva, namorada, esposa e amiga...

sábado, 10 de junho de 2006



Os Grandes Romances do Cinema - Imagens e Letras

O Cine Morcegos de hoje relembra alguns filmes que marcaram as retinas apaixonadas de namorados de todas as épocas... Minha mãe, por exemplo, sempre falava do "Tema de Lara", mais pela linda música de Maurice Jarre, estouro nas rádios da década de 60, que pelo belo, porém frio filme dramático do Mestre David Lean, Dr. Jivago! Já uma amiga um pouco mais velha que mamãe e dona de uma locadora, acabou por me convencer um tempo atrás a alugar Candelabro Italiano, por ter sido o "filme mais romântico" que ela já havia visto... Resultado: quase duas horas de uma xaroposa e vazia excursão à Itália, sem conteúdo nenhum, mas que, de alguma forma, marcara muitas moçoilas daquela época...

Difícil estabelecer uma "lista padrão" de filmes de romance, este subgênero do Drama que geralmente agrada mais às mulheres: com estilos dos mais diversos, que vão desde comédias românticas (como os inteligentes Harry e Sally, feitos um para o outro, Um dia perfeito e A história de nós dois, e as simpáticas Sintonia de Amor e Mensagem pra você, com a dupla Tom Hanks e Meg Ryan) até dramalhões lacrimosos (como Love Story - "nananananan"... -, Lagoa Azul - ah, Brooke Shields... - Amor além da vida, com aquela inesquecível direção de arte, e, não podendo esquecer, Titanic, que não curto, mas respeito o fenômeno que representou...), a coisa toda varia de acordo com a época e com o tanto de lencinhos que cada moça carrega na bolsa...

No ano passado, depois de muita insistência de Jandira, acabei assistindo Diários de uma paixão, filme competente, que convence mais com o drama do elenco idoso que a estória de amor adolescente que alinhava o filme. Mas termino esta ligeira incursão no mundo romântico cinematográfico com dois grandes filmes de épocas bem diferentes e com amores impossíveis: o primeiro, clássico absoluto e um dos mais completos filmes de todos os tempos, Casablanca (vencedor de três Oscars em 42), e o versátil, inteligente e sensível Antes do amanhecer (merecedor de uma igualmente ótima continuação, em 2004, Antes do pôr-do-sol)...

O romance, sem dúvida, sempre terá espaço no Cinema - na profundidade ou na superficialidade, em qualquer época... E, na dificuldade de abarcar este universo num 'post' só, elenco a seguir os meus favoritos como grandes filmes que são...






E para você: qual o seu filme de Romance favorito?

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Ronaldinho amarelando mais uma vez, Brasília arroxeando-se entre os hematomas da Câmara e o meu bolso sem quase nenhuma verdinha... Com a Copa finalmente começando, acabo por preferir mesmo outras cores, algo como o preto e o vermelho... Não, meu coração futebolístico continua alvinegro e nunca se renderia ao excomungado rubro-negro! Hoje, dando um tempo no Futebol, é tempo de celebrar a vida e volto às minhas memórias e raízes musicais com dois discos de minha coleção de que gosto muito...

Para Adriana - Obrigado por tudo! Dilberto


Há cerca de uns 8 anos, por volta da época do Clube dos Amantes do Cinema, ganhava então o meu primeiro CD (até então eu só tinha fitas k-7) da banda de Liverpool: no meio da correria de mais uma exibição de uma de nossas mostras no SESC-Deodoro, lá chegava a eternamente festejada e adorada 'blogmaster' (uns 6 anos depois de então seria ela a responsável por me ingressar neste louco mundo virtual) Adriana, vindo com o meu então presente de aniversário atrasado! Tratava-se do bom CD Beatles - Past Masters Vol. 1 (o famoso disco "preto" do 'revival' meio chocho daqueles tempos idos), predominantemente com alguns dos primeiros sucessos da fase iê-iê-iê (com alguns cantados também em alemão, num curioso repeteco de três canções no mesmo disco, relembrando o sucesso inicial da banda no atual país da Copa - levemente mostrado no filme Backbeat). Nem preciso dizer o quanto adorei, especialmente vindo de uma das maiores "beatlemaníacas" que conheço!

E o que dizer quando, uns quatro anos depois, quando da compra casada de um outro exemplar para ela mesma, eis que sou ofertado com outro ótimo exemplar em estilo de coletânea dos "besouros": Beatles - 1 conseguia a quase impossível tarefa de reunir o melhor da banda (pelo menos os sucessos de que mais gosto, com pérolas como A hard day's night, Help, A ticket to ride, We can work it out, Eleanor Rigby, Can't buy me love, All you need is love - que toca ao fundo, já antecipando o romantismo do dia dos namorados -, Something - que Sinatra considerava a mais bonita canção romântica já feita, dentre tantas outras)!

O engraçado é que nunca mais comprei disco algum dos Beatles, tamanho o preenchimento que estes me causaram! Nada daquelas mais que clássicas e maravilhosas capas... Até porque, no mundo do som digital, satisfaço-me mesmo com as coletâneas de músicas que eu só tinha em LP ou K7! E é só! Não me deterei a falar do óbvio, de como esta é a maior banda do mundo de todos os tempos e de como ela influenciou os costumes e fundamentou o rock como o conhecemos, servindo de ponte entre o ReB e o resto: tudo de que precisamos é amor e sigamos juntos - segure minha mão e... Olá e adeus!

terça-feira, 6 de junho de 2006

Mais uma novidade deste mês de junho nos Morcegos: a cada semana teremos os melhores nomes da crônica esportiva batendo um bolão por aqui em homenagem à Copa que se aproxima - a apenas uma semana do primeiro jogo da Seleção! Hoje, o mestre estilista Armando Nogueira (com dois livros lançados, "Bola na rede" e "A chama que não se apaga", sobre as cinco olimpíadas que cobriu como jornalista) desfila seu talento que ultrapassa a narrativa futebolística e beira a magia de seu grande talento poético e dramático.


ROTATÓRIA

Pelada de Subúrbio
Armando Nogueira

Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos.

A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.

Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.

Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.

A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.

No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.

(Armando Nogueira, extraído do livro "Os melhores da crônica brasileira")

domingo, 4 de junho de 2006

Mês de junho no ar e as novidades aportam nos Morcegos: a partir deste domingo, com o fim da Retrospectiva 2 Anos, falarei de Cinema com o quadro Cine Morcegos, sendo que, a cada semana, um novo tema estará em evidência! Nesta "primeira sessão", um olhar sobre o universo da atual animação, mais especificamente de uma novidade dos estúdios Disney em sua primeira empreitada em 3D sem a parceira Pixar...




Um Marco na Disney!

Não só porque se trata do primeiro longa em 3D da Disney (o último a usar a animação tradicional foi o simpático Irmão Urso) ou por se tratar de algum novo clássico do estúdio do Mickey (que já ofereceu ao mundo obras-primas como Fantasia, Dumbo ou O Rei Leão), não, meus queridos blogueiros de plantão, Chicken Little (em DVD já há alguns meses) é inovador por um apresentar um aspecto nem sequer debatido até agora: o primeiro personagem gay da história da animação - apesar de os personagens do clássico Bamby já terem apresentado comportamentos efeminados, tudo era previsto no contexto da época e o que houve foi apenas uma exacerbação da infantilidade dos inocentes animaizinhos!

O que pode parecer estapafúrdio é a mais pura verdade! Chicken Little, divertida estorinha (com cara de episódio de alguma série de animação, que recicla uma velha fábula) de um galinho adolescente, menor que a maioria de sua idade, que acredita que o céu esteja caindo e acaba aprontando inúmeras confusões, apresenta, entre os bichinhos impopulares amigos do Galinho do título, um porco covarde, gordo, infantilizado e perseguido por seus colegas de escola! Até aí, nada além que a velha fórmula dos "perdedores do colégio" sendo requentada para as animações infantis... Só que há algo a mais: Raspa do Tacho (adaptação em Português do nome do porquinho) coleciona escondido de seus amiguinhos os discos da Barbara Streissand, adora as Spice Girls, canta como uma garotinha quando tocam "Lolypop" e, na seqüência mais importante do filme, toma coragem ao ouvir o grito de guerra de sua música favorita - "I Will Survive" (hino das drag queens)!

É, o mundo está realmente mudando! E até no mais conservador lugar da terra, a Disney, um personagem infantil começa a apresentar às criancinhas as diversidades do mundo atual... Tudo bem que, na maioria das vezes, somente os pais vão entender as insinuações, mas Chicken Little mostra algo mais que as inovadoras técnicas de 3D:em sua estorinha aparentemente infantil, explora temáticas adultas como a necessidade do diálogo com os pais, a diversidade das raças (na cidadezinha cosmopolita com cara de 'cartoon' vemos todos os tipos de animais, de mamíferos como bois e ovelhas, até peixes, que andam em receptáculos cheios de água - cuja espécie nos brinda com o personagem mais engraçado do filme) e outros tipos de personalidades... Algo com que talvez o velho Walt nunca tivesse sonhado em 1937, quando do lançamento de Branca de Neve e Os Sete Anões... Será que não, mesmo?!

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Salve, queridos blogueiros e torcedores de plantão: encerrando a SEMANA ESPECIAL "RUMO AO HEXA", publico hoje uma crônica inédita que sintetiza um pouco da magia daquela Copa apenas mediana de 94 - a mesma Copa que pude acompanhar, pela primeira vez na vida, um título mundial...



A Magia de 94

O ano era 1994 e a magia estava no ar: quase não nos tínhamos classificado para a Copa do Mundo pela primeira vez na história dos mundiais e nunca uma seleção deixava o País rumo a um mundial tão desacreditada; na escola, vivia eu então o "último ano da inocência", com os últimos namoricos antes da "amada imortal", ao mesmo tempo que o mais desesperador em nível pessoal para um estudante, o terceiro ano do ensino médio, às vésperas do tão esperado vestibular! Assim, no finalzinho das minhas provas bimestrais do mês de junho, o Brasil se preparava para parar diante de cada televisor tão logo soassem as preciosas horas de cada jogo da Seleção, e o microcosmo de meu colégio desdobrava-se com aquele desespero diante do casamento preciso da conclusão do bimestre antes das férias com a maior paixão nacional, que futuro nenhum traria a nenhum daqueles pobres estudantes...

Ainda me lembro do jogo das oitavas de final: com uma Nação inicialmente desacreditada, agora, depois dos satisfatórios resultados contra a Rússia, Camarões e a Suécia (todos com gols de um baixinho envolvido na mágica transcendental do Futebol), tudo era diferente e, no caminho que levava a minha casa na volta da última prova, era como se participasse do cenário de uma cidade fantasma digna dos antigos faroestes norte-americanos - e era contra eles, os donos da casa, que tínhamos que desafiar o traumático fantasma da "água argentina" na mesma fase em que tínhamos sido eliminados da Copa de 90. E, com mais uma vitória (graças à mágica química entre uma dupla tão dinâmica quanto à famosa dos quadrinhos, Bebeto e Romário), a confiança naquela seleção que começara tão mal começava a aumentar... E seria a última vez que os livros e fardas monocromáticas voariam para o longe depois das exaustivas provas, substituídas quase que magicamente pelo verde e amarelo das superstições de praxe!

E nas férias então seguíamos para a melhor ocupação de todas: prostrar-se diante do televisor em clima de festa para acompanhar o Brasil de Romário, Bebeto, Dunga (até Dunga jogando razoavelmente? Só podia ser mágica!) e agora - depois daquele mais que mágico chute encurvado do jogo contra a Holanda - do desacreditado Branco! Ainda que sem as boas promessas de Raí e de Leonardo (com certeza vítimas de alguma magia negra de um adversário vingativo perdido em algum ponto obscuro de New Orleans), aquela seleção ainda teria que enfrentar uma Suécia pela segunda vez para que a magia desfrutada somente por nossos pais e amigos mais velhos havia mais de vinte anos, com o mágico time de 1970, estivesse tão próxima de ser novamente vivenciada...

Entretanto, nada se compararia à final daquela Copa Mágica, quando somente mais de 90 minutos de intenso nervosismo só antecederiam a maior magia de todas: a primeira final sem gols de um mundial, com tudo a ser decidido, pela primeira vez, nos pênaltis, o que corroborava o nivelamento mediano de todos os times envolvidos, especialmente dos melhores daquele ano, Brasil e Itália - sem esquecer do que viria a ser decidido, também, lá em casa...

Lgo no comecinho, o amigo Ricardo apareceu lá em casa, para assistir ao jogo, de surpresa. E tome xingamentos para cada gol perdido e para cada sufoco passado... Até que tudo já estava pronto para os pênaltis - com as devidas preparações psicológicas de cada membro da família: mamãe ficava naquela de "não quero nem ver", afastando-se sempre rumo ao corredor e voltando para observar o que saía; papai, meio na dele, porém de pé; Ricardo, também de pé, restando eu sentado, com uma espécie de cabo de vassoura na mão, depois de ter derrubado sem querer aquele instrumento usado como bastão de ginástica por minha mãe... Respiração presa em suspense, o tempo parou de repente: o capitão Baresi, da Itália, seria o primeiro a bater! Nisso, acabava de passar o bastão para Ricardo para que fosse posto mais adiante, que não ali na passagem... Baresi desperdiçou a cobrança chutando para fora! Vivas e urras e outros xingamentos de extrema alegria em comemoração! "-Ricardo, vais ter que segurar no pau até o final dos pênaltis, para dar sorte", no que meu amigo deu de ombros...

Não deu outra: o zagueiro Márcio Santos chutou forte, mas em cima do goleiro Pagliuca, que não teve dificuldade em espalmar! Dali para a frente, Albertini e Evani converteram para a Itália. Ricardo reconsiderou e, no ato do chute de Romário e de Branco, segurou na "corrente do bastão", e os dois também fizeram seus gols para o Brasil. Então era só farra: "- Segura no pau, Ricardo, que a gente vai ser campeão!" O goleiro brasileiro Tafarel defendeu o pênalti cobrado por Massaro e o capitão Dunga colocou o Brasil em vantagem.

Faltando uma cobrança para cada lado, o placar mostrava Brasil 3 a 2. O ídolo da Itália, Roberto Baggio, foi encarregado da cobrança. "- Segura no pau, Ricardo!", no que ele ria, tanto pela tensão como pela brincadeira idiota de duplo sentido, mas que, naquele momento, não poderia ser deixada de lado! E não deu outra: o budista italiano chutou e bateu por cima e para longe do travessão de Tafarel, dando o título ao Brasil. Pela primeira vez, nossa geração podia comemorar a conquista de um título mundial, assitindo tudo pela TV - só mesmo com muita magia e muita, mas muita mandinga... Tanto nos EUA como na minha própria casa!


 

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