domingo, 11 de setembro de 2016

Uma Simples Canção Genial Demais...


Noutro dia, encontrando uma brecha na agenda sempre corrida, eis que consegui visitar as boas, velhas e bagunçadas Lojas Americanas de longa data, da época de adolescente, como rato que eu era de CDs, DVDs e livros (alguns deles feitos "brindes" mesmo, tempos pré-Direito, sacomé...) - e, nos poucos minutos em que por lá fiquei, consegui me atualizar entre os lançamentos de colecionáveis, brinquedos, livros, Quadrinhos, filmes e discos. E eis que, "de repente, não mais que de repente", como no famoso soneto do Poetinha, encontrei algo que me fez voltar ao passado ainda mais, por inúmeras razões... Tratava-se do clássico Canção do Amor Demais, espécie de disco de apresentação da "Santíssima Trindade" que consolidaria a Bossa Nova como "gênero brasileiro de exportação": João Gilberto, com sua revolucionária e definidora batida peculiar ao violão, fundindo-se ao lirismo dos belíssimos arranjos e melodias de Tom Jobim e da Poesia popular, porém profunda, do "poeta e diplomata" Vinícius de Moraes.

Mas minha viagem no tempo nem foi tanto pelo saudosismo em relação às tão famosas interpretações da "Divina" Elizete Cardoso naquela obra tão cultuada da MPB - sigla que, entretanto, só seria lançada, de fato, anos depois, em meados dos anos 60, já com o fim da Bossa Nova. Na verdade, além de eu jamais ter ouvido antes esse disco, imortalizado na própria obra da dupla Tom e Vinícius no clássico Carta ao Tom 74 ("Rua Nascimento Silva, 107/ Você ensinando pra Elizete/ As canções de Canção do Amor Demais"), a alegria saudosista foi mesmo por ter encontrado esse clássico disco naqueles moldes de "edição popular informativa", no caso, uma produção do jornal A Folha de São Paulo, que, algum tempo atrás, poderia ser comprado junto ou em separado às edições de domingo daquele jornal - o que, por sua vez, em muito me lembrava dos meus tempos áureos de descoberta da Música brasileira, do início de minha juventude, quando várias de minhas coletâneas e discos clássicos, que possuo até hoje, de gênios como Djavan, Noel, Adoniran e Cartola, eram vendidas nas mesmas Americanas por preços promocionais, advindas de encartes similares de bancas e livrarias!

Obviamente que nem pestanejei e comprei, no ato, para já ouvir no carro e viajar um pouco na volta para a dura vida cotidiana - mas qual não foi a minha surpresa quando aquele disco (ouça-o, na íntegra, aqui), tão almejado por qualquer simples colecionador como eu e tido como divisor de águas na década de 50, acabou por se mostrar como extremamente datado e enfraquecido pelo tempo?! Pois é: mesmo sendo o début do então vice-cônsul do Itamaraty Vinícius na Música brasileira e contando com, além da primeira reunião oficial daquele genial triunvirato, a inigualável voz da Divina nas primeiras gravações de obras-primas absolutas como Serenata do Adeus e Chega de Saudade, não dá para dizer que seja este o "marco-zero" da Bossa Nova - que se daria, verdadeiramente, com o LP Chega de Saudade, de João Gilberto, alguns meses depois, já em 1959... Tampouco era possível não perceber o tom "pesado" do disco, seja porque João não teve total liberdade para desfilar a leveza da sua genialidade (sua pequena participação nem foi creditada na primeira edição deste disco), seja pela escolha do repertório (pouca bossa e mais sambas-canção ou modinhas em tom de valsa), seja ainda pelo estilo de Elizete, que, talvez por não ter dado ouvidos às dicas do mestre Gilberto, acabou trazendo uma interpretação mais "bolerão" para canções que exigiam sutileza, como a "já-nascida clássica" Eu não existo sem você - que tão bem melhor se elevaria, décadas depois, na sublime voz de Maria Bethânia.

E é justamente essa canção que, creio, define a genialidade aparentemente simples do que viria a ser a Bossa Nova - basicamente alicerçada pela dupla de seus compositores maiores, Tom e Vinícius: se, nos primeiros versos, resta a aparente ingenuidade da maioria das composições desse período - Eu sei e você sabe já que a vida quis assim/ Que nada nesse mundo levará você de mim -, logo em seguida a Poesia do grande Poetinha nos dá uma analogia demolidora - Que todo grande amor só é bem grande se for triste... E, mesmo com algum jogo de palavras somente divertido - Que todos os caminhos me encaminham pra você -, segue-se um conjunto inigualável de analogias poéticas que, mesmo simplistas, são belíssimas e coisa de raros compositores - Assim como o oceano só é belo com o luar/ Assim como a canção só tem razão se se cantar/ Assim como uma nuvem só acontece se chover/ Assim como o poeta só é grande se sofrer - até o arrebatamento que dá título a essa pequena obra-prima - Assim como viver sem ter amor não é viver/ Não há você sem mim/ Eu não existo sem você (tal qual o "Porque era ela/ Porque era eu" de outro gênio, o Chico Buarque - adaptando a já clássica manifestação de Montaigne)... Assim como Caymmi, outro gigante da simplicidade de clássicos como O Bem do Mar, Vinícius igualmente "fez" isso, simples e genialmente - e tudo "de repente, não mais que de repente"... Para o mais simples deleite de alguém que se deixa maravilhar com a simplicidade de lembranças como a das primeiras descobertas musicais na adolescência...

 

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