domingo, 31 de julho de 2016

'Tá rindo do quê?!
De Jô a Gentili: a tradição preconceituosa e rasteira do Humor brasileiro...

Apesar de ter procurado manter-se longe das polêmicas desde o famoso incidente com uma piada infeliz sobre o filho de uma cantora famosa, o humorista Rafinha Bastos jamais se livrou por completo do estigma que acompanha o "Novo Humor" desta geração - que parece somente emular, só que com mais grosseria, os mesmos preconceitos e baixarias de sempre: em seu recente programa no Multishow, Tá rindo do quê?, Rafinha, acompanhado de convidados, segue a mostrar que, ao menos em seus shows, ainda aposta nas piadas ofensivas contra pobres, "feios" e pontos periféricos das cidades em que se apresenta...  

Depois de um cansativo dia de trabalho, muitas vezes tudo o que se pede é um bom canal na televisão para se desligar dos problemas, de forma extasiada, até o dia seguinte, certo? Porém, diante do nada farto cabedal de opções nas grades de programações, tanto faz se na rede aberta ou na paga, parece que um dos últimos recursos nesta busca por um "desligamento de qualidade", atualmente, seja mesmo o escapismo saudosista por programas antigos, numa derradeira e nostálgica saída para se distrair com os "bons tempos que não voltam mais" - afinal, tudo, inclusive televisão, "era muito melhor nessa época"... Será mesmo?

Recorrendo a um desses canais que reciclam suas produções, como o já famoso Viva, do Império (do Mal) Global, atualizei-me com a programação (coisa que normalmente não faço: por absoluta falta de tempo, só me resta zapear a esmo quando defronte da TV) e voilá: aquela noite parecia bastante promissora! Primeiramente, Viva o Gordo: ah, que maravilha seria rever o Jô em seus tempos áureos ("pam-pam-pam-pam pampampam": a empolgação já começava com a divertida abertura, com o comediante interagindo com personalidades mundiais ao som do tema "roubado" de Hello, Dolly!), quando eu o via às segundas, mesmo sem entender algumas sátiras políticas e ironias maliciosas do alto dos meus 7 ou 8 anos! Só que não: o cansativo formato de personagens e quadros com jargões que então criavam moda já incomoda, pela falta de graça, nos primeiros minutos... Entretanto, muito mais do que pelo humor envelhecido, a triste constatação da rápida proliferação de piadas pejorativas, racistas ou misóginas - que, na época, passavam despercebidas, talvez porque ninguém discutia racismo ou machismo naqueles tempos "inocentes" daquele nosso "Brasil sem preconceito" -, em pouquíssimos minutos de re-exibição, passou a incomodar muito mais!

Primeiramente, nenhum negro no elenco (o mais "mulato" era o Eliezer Motta) e um incômodo "complexo de vira-lata" no último grau dominando a maioria dos quadros (algumas vezes justificável, já que o ano era da "retomada democrática" pós-Ditadura Militar); aqui e ali, várias piadinhas grosseiras com pobres e favelados; belas mulheres em exibição - incluindo uma ainda bela Sandra Bréa -, sem fala alguma ou a repetir piadinhas em que se mostram ora como interesseiras, ora como burras e mero objeto sexual (formato até hoje repetido por um dos últimos humorísticos jurássicos da televisão, A Praça É Nossa)... Mas o terror do "humor misógino", e mesmo criminoso, viria em seguida: aquele dentista do famoso bordão "Bocão!", com investidas nada sutis em cima de suas pobres pacientes, começava agora o já absurdo e abusivo esquete "fazendo graça" (com direito àqueles irritantes risos da claque) de um... estupro! Sim, isso mesmo: uma moça acordava seminua (calcinha fio dental, sutiã e meias pretas) na cadeira rebaixada daquele dentista se perguntando o que fazia ali, daquele jeito, e o personagem vivido pelo Jô tinha a pachorra de declarar que se valeu da anestesia (!) e que o tal "bocão" da mulher "havia sido uma loucura (!!), no que ainda marcava, com "hilário" jeito de tarado, para "repetirem a dose na semana que vem" (!!!) - Jesus, em que universo um estupro de vulnerável (abuso sexual de uma mulher dopada) é divertido?! Só se for no do Abdelmassih!

Mas "calma, calma, que, de acordo com o guia aqui, logo depois virá a TV Pirata e aquele pessoal genial redimirá esse humor reacionário e preconceituoso do Jô Soares", dizia eu para mim mesmo, com esperança de não ter perdido completamente aquela noite tão almejada em salvação pela nostalgia televisiva! Só que não: muito daquele precursor programa brasileiro parecia bastante datado no besteirol oitentista e envelhecido pelos quase 30 anos que me separavam daquelas hilárias terçar-feiras repletas da criatividade de gente do calibre de Luís Fernando Veríssimo, Laerte, Patrícia Travassos, Luís Fernando Guimarães, Cristina Pereira e o recentemente falecido Guilherme Karan, só para citar alguns dos brilhantes nomes da redação e do elenco incríveis...

Ainda assim, aqui e ali ainda era possível rir bem mais que o ultrapassado e repleto de preconceitos "humor" que a turma do velho Max Nunes e cia. faziam no humorístico do Jô (gentes que tão bem já haviam criado na rádio e na televisão, mas que, nos anos 80, já se mostravam desgastados)! "Tudo muito bom, tudo muito bem", até que... Surge na tela uma cena de blackface, prática deplorável dos tempos do vaudeville norte-americano, que consistia em ridicularizar negros pintando atores brancos de preto e fazendo-os agirem com atitudes exageradas ou idiotizadas! Pois é: também não havia atores negros na TV Pirata e, pelo que me lembrei na hora, era muito comum, naquela época, esse lamentável recurso "cômico", geralmente disseminando preconceitos como quando surgia uma Regina Casé de "mãe de santo preta velha", com seus "hum-hum" e "misifios" ou um Diogo Vilela dizendo que "negro gosta de pagode", tudo com direito a muito olho esbugalhado e gingados macaqueados, como se negros vivessem a dançar ou a se balançar freneticamente...

Não adianta fugir ou querer se enganar: humor ruim e preconceituoso sempre existiu, faz parte da cultura do patriarcado brasileiro, que, desde os tempos da nossa básica formação casa grande/senzala, parece querer justificar que o dominador faça troça do dominado e, consequentemente, "inferior" - é tão comum e popular no inconsciente coletivo que vem sendo aceito, há séculos, pela ampla maioria dos próprios ofendidos, grupos-alvos como os dos negros, das mulheres, dos homossexuais, que normalmente sempre riram de ataques preconceituosos a eles próprios! Consciente desta triste sina e já bastante desanimado, aceitei, por fim, dar uma olhada no derradeiro programa da noite: A Escolinha do Professor Raimundo, já numa de suas últimas edições globais - e, portanto, sem o brilhantismo de medalhões como os então já falecidos Walter d'Ávila e Brandão Filho -, de cara, já me fazia questionar a idolatria que sempre sentira pelo genial Chico Anysio, com uma esquete dentro daquela atração com piadas absurdas sobre violência doméstica naqueles tempos pré-Lei Maria da Penha: a boa comediante Nádia Carvalho, vivendo a personagem Santinha Pureza, "brincava" com as "mulheres que gostam de apanhar", e, após narrar nada cômicos casos em que era constantemente agredida ou explorada pelo marido violento em serviços pesados, vinha com o bordão "Eu góstio" - ou seja: não lhe sendo suficiente fazer apologia à "mulher de bandido" que não se dá valor, de quebra conseguia debochar do "jeito errado de falar" do nordestino (a personagem dançava e cantava um xaxado para "espantar os olhos invejosos")!

Que falta sempre fez um pouco de bom senso no Humor brasileiro - e um tantinho que fosse de um mantra a ser repetido à exaustão por qualquer um que queira ser engraçado de verdade não faria mal a ninguém: "Ria do opressor; jamais do oprimido", como no bom dizer do grande Gregório Duvivier, excelente humorista do bem-sucedido Porta dos Fundos e um dos maiores expoentes de uma geração mais consciente - que conta, ainda, com gente bacana com Marcelo Adnet, que, em seu recente e elogiável Tá no ar, vive um "revolucionário pirata de esquerda" e, roubando o sinal televisivo da Globo, critica tudo e todos relacionados à opressão daquela emissora - de que algo deve ser mudado em relação a esse deboche contra quem sempre foi saco de pancadas... Graças a Deus, aqueles que os defensores desse cruel "humor que não ofende" chamam de "patrulha do politicamente correto" (e eu chamo de "questionadores conscientes") têm levantado bandeiras e feito barulho a cada "piadinha inocente" sobre "pretos" inferiores, mulheres burras ou objeto sexual e "bichinhas" que gostam de apanhar ou ser estupradas, conclamando não só os ofendidos de tanto tempo a ficarem espertos e não tolerar mais o avanço de tamanhos preconceitos instituídos como "normais", como também têm gerado um crescente movimento de conscientização na sociedade como um todo, que passou a prestar atenção que, sim, há limite para o Humor: ele deve ser engraçado! E, definitivamente, não há graça nenhuma,, em plena segunda metade da segunda década do século XXI, comparar um negro, até hoje discriminado socialmente, a um macaco comedor de bananas... Deixemos, pois, gentes como os Gentilis da atualidade presos em seus próprios zoológicos sem graça até descobrirem que talento na nobre arte de fazer rir é para poucos que sabem criar sem ofender ninguém!


Em retrospecto, a Televisão nos mostra que isso é velho, mas, infelizmente, ainda não ultrapassado, dado que muitos são os seguidores destas velhas práticas "de fazer rir"... Danilo Gentili, pouco tempo após a famosa "pérola" racista contra os judeus (até quando tentou fazer crítica social aos preconceituosos moradores de um tradicional bairro paulista, ofendeu - no caso, as vítimas do Holocausto: "Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz"), redirecionou o seu "humor" para os negros: comparando-os a macacos ("original"...), ofereceu bananas a um empresário negro que o confrontou no Twitter... Sério, Danilo: isso é o que você chama de engraçado?!
 

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