quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Marcha da Quarta-Feira de Cinzas

Confete e serpentina. Foto: Reprodução de Internet

No carnaval de 1938, não tinha pra ninguém - só dava Braguinha, o famoso João de Barro, pseudônimo adotado pelo arquiteto de formação Carlos Alberto Ferreira Braga (em razão de ser esse o "pássaro construtor" e de, em sua família, ninguém àquela época querer saber de um compositor de Música popular!), que dominou aquele ano com duas marchas da sua lavra: Touradas de Madri, bem ruinzinha (Eu fui às touradas em Madri,/ Pararatimbum, bum, bum, pararatimbum/ E quase não volto mais aqui/ Pra ver Peri beijar Ceci... Urgh!), e As Pastorinhas (1934/1937), esta, sim, uma belíssima composição em parceria com meu famoso "tio-avô" Noel Rosa (na verdade, uma marcha-rancho natalina, porque inspirada nas cantatas de Dia de Reis) e que adoro cantarolar até hoje, dada a sua bela estrutura melodiosa, que aprendi a amar na voz do saudoso Nelson Gonçalves:
A estrela d'alva
No céu desponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor
E as pastorinhas
Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor

Linda pastora
Morena da cor de Madalena
Tu não tens pena
De mim que vivo tonto com o teu olhar
Linda criança
Tu não me sais da lembrança
Meu coração não se cansa
De sempre e sempre te amar

Sempre gostei de marchinhas... Não das escrachadas e chulas, como as comuns aqui em São Luís do Maranhão (tolamente conceituadas como "irreverentes"!), mas das divertidas, animadas, inteligentes; dessas que não morrem e não caem em desuso - enfim, das que duram pra sempre sem ofender ninguém, como o faziam as grosseiras e preconceituosas O teu cabelo não nega ou Cabeleira do Zezé, para citar apenas dois exemplos, bem mais do que politicamente incorretas nos dias atuais... Gosto de sentir o carnaval como uma festa simplesmente alegre, romanticamente bem diferente do tom sexual e alcoolizado que foi adquirindo com o passar dos anos... E, por isso, simpatizo tanto com a alegria das marchas eternas, como que a simbolizar um carnaval que, pelo menos pra mim, nunca vai ter fim...

Sim, eu sei de Todo carnaval tem seu fim (Deixa eu brincar de ser felizDeixa eu quebrar o meu nariz...) e, para muito além dos modernosos Los Hermanos, sempre gostei muito do tom amargo e desesperançoso por trás da Felicidade desesperada que festas como o carnaval mascaram (A felicidade/ é como a gota de orvalho/ numa pétala de flor... como diria a dupla dinâmica Tom e Vinícius)! O sempre genial Chico Buarque já se guardou pra Quando o carnaval chegar e mesmo este humilde escritor amador que vos fala já saracoteou bastante por versos amaríssimos sobre a mais que idealizada Festa de Momo, com Sempre chove nos carnavais e Carnaval Atemporal... Ainda assim, acho que carnaval não tem fim, dada a alma carnavalesca do brasileiro e a alegria incontinente e inconteste que pulula suspensa o ano inteiro por entre os olhos mais ávidos por dias melhores no amanhã... Sim, eu creio na santidade da Poesia maior contida (e reprimida) que tanto simboliza essa festa pagã! E se você ama, nunca se chega ao fim...

E assim se tenta dourar a pílula entre o mais amargo e o mais doce da alegria etérea e ideal: para os fracos e para os fortes da vez, sigamos crendo na vida após a católica quarta-feira de cinzas das dores e das culpas e vivamos intensamente a promessa do Poetinha Vinícius de Moraes de "tantas coisas azuis", "tão grandes promessas de luz" e de "Tanto amor para amar que a gente nem sabe"... Sim, porque "mais que nunca é preciso cantar", e alegrar não só a cidade, como também este bairro, o caminho entre as nossas ruas, e pavimentá-lo com alguma coisa semelhante aos velhos confetes e serpentinas coloridos e acreditar no que sustentou nosso carnaval até aqui... Porque por mais desgaste que possa haver, a gente só se afasta do carnaval - mas ele continua aí, para quem quiser ver... E assim, o "Velho Vina" (em parceria com Carlinhos Lyra) dosou bem os pesos quando escreveu sua marcha para este dia cinza, nublado e com gosto de ressaca - pois "A tristeza que a gente tem/ qualquer dia vai se acabar"...:


 

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