quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

De repente Braga:
Crônicas & Poesias
que se amam e se conversam...

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Por essas coincidências do destino, após terminar a leitura de um pequeno grande livro-compilação de crônicas de Rubem Braga (autor que tanto já li, mas que sempre se reapresenta novo a mim, ainda mais num voluminho desses, tão gostoso quanto na época de juventude) que se me apareceu de repente para uma longa viagem, na última sexta, dia 12 de janeiro, onde estava escrito que Rubem Braga nascera... no dia 12 de janeiro (de 1912)! 105 anos do nascimento do Mestre Cronista: isto merece um post!

Amo a sintonia de certas coisas poéticas que, vira-mexe, caem em nosso colo sem pedir licença, ora causando assombro, ora nos lembrando de quão poéticos podem ser os caminhos - mesmo os aparentemente mais simples ou doídos nos têm tanto a ensinar... Como este lindo trecho de A Visita do Casal, em que o Grande Cronista brasileiro tece poeticamente algumas linhas líricas, ao ver subir para a sua residência um casal amigo, sobre a essência de um casal - a nos lembrar que não somos nós tão individuais quanto pensamos:
Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam; mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas. 

Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos.

De repente, apesar de embebido por estas e outras crônicas, sinto-me envolvido por uma forte imagem poética: a de uma cama, ocupada por uma moça, de um quarto inteiro, que se vai como um navio, a derrubar o restante da casa com quem a pobre dona não conversa mais... Assim que sair do avião, do hotel, deste parque, desta serração... hei de escrever algo: vai que renda um poema...

Viagem longa para o Sul, por vezes tosca, sempre muito cansativa, cheia das gentes empachadas numa cidade maquiada, onde não se vêem negros (nem rodas de pessoas, nem samba, nem pobres, nem supermercados ou padarias por perto, nem pontos simples onde se compre uma fruta ou um cachorro-quente - como confiar numa cidade em que não se encontre gente negra, gente das mais lindas e autênticas deste País? Mas havia hortênsias por todo lado... E isso, mesmo tendo sido plantado (para a cidade que se quer nevada em espuma ter ainda mais "cara europeia") pelos arbustos de cada encosta, acaba me agradando, porque gosto de hortênsias... O que não gosto é de cidades que não se queiram brasileiras: pois que façam como na minha imagem poética (que ainda não virou poema...), que saiam rasgando-se do resto brasileiro com que não conversa mais e rume para a Europa!

Mas mesmo depois da viagem, já descansado, com as crianças então esgotadas e estressadas com a longa viagem e agora também descansadas e felizes com seus brinquedinhos e com seu chão, ainda me sinto engasgado, como se algo estivesse com sede dentro de mim... Algo com força e com pressa para singrar o mar, em busca do horizonte (aquele que nunca chega, mas não deixa de ser um rumo...): sim, com licença que eu quero escrever Poesia:

De repente uma cama numa praça

Eu vejo ao longe,
Alojado numa praça que não é minha,
Uma moça deitada em sua cama
- Cama que não é a minha...
Parece que ela me sente
De alguma forma, ela me vê observá-la
Mas jaz dormente
Ouvindo um jazz
Ou uma bossa nova reticente
(Da boca de alguém novo
Que nem sabe compor nem cantar)

E de repente,
A moça que há tanto não falava,
Mas só escutava,
Pareceu murmurar algo pra si
Em feitio de oração
- E entre lágrimas, estremeceu-se
Com a força de sua canção silenciosa...
Tirou os fones de seus ouvidos,
Desligou seu telefone
E se levantou finalmente
Com seu resto de força,
No que todo o seu quarto estremeceu...

E eu,
Sem nem saber direito o que ali fazia
Via diante de mim a sua partida
Em seu quarto, em sua cama
Rasgando as ruas,
Singrando as avenidas,
As banquinhas e as lojas chiques,
Em direção ao mar...

E eu, que nem a conhecia,
De repente sentia o calor dos seus desejos
Me dando conta de que nem sabia como a via
Antes mesmo desse poderoso lampejo
- E fiquei feliz em perceber
Que o restante da casa
Que com ela não tratava
Se quedou paralisada
Sem acreditar
Nem saber o que fazer...

De repente eu me vi parado
Naquela estranha praça alojado,
Assim sem saber direito
Para onde seguir...
Triste
- Quanto mais longe aquela cama seguia
Menos eu me acalmava!
Nada aplacava a sensação de nuvem fria
Da minha praça estrangeira
De onde eu nunca aterrissava...

(Dilberto L. Rosa, janeiro de 2018)

Assim, meio que de repente ("Não mais que de repente", como diria o Poetinha...), surgiram-me esses versos, um instante atrás... Mas a sensação de sede, de engasgamento, não passa! E agora há pouco (logo em seguida), guardando o restante das malas desfeitas, eis que reencontro o livrinho querido do Rubem (sim, eles acabam nos sendo íntimos com o tempo...), o mesmo da viagem. E "reencontro" seria mesmo a melhor palavra para definir o sentimento de estranho e poético pertencimento, daqueles a que me referia no início desta longa postagem: primeiramente, porque este danadinho já tão antigo se me perdeu por alguns instantes na viagem - e, angustiado, livro antigo e amado, encontrei-o uma hora depois, ainda no voo, num outro compartimento de mochila esquecido, e o abracei como uma criança reencontra um brinquedo perdido; em segundo, porque foi só terminar este poema da minha tão cara imagem poética que por dias perdurou sem um corpo em meus pensamentos e só agora se fez Poesia, eis que vejo o seguinte trecho, segundos atrás, após folhear a esmo o mesmo livrinho, como que automaticamente a procurar algo em seu interior antes de guardá-lo na empoeirada estante de aço:

(...) talvez lá dentro, no bojo do imenso prédio, estivesse estirada numa rede, meio inconsciente, minha impassível amada, talvez doente, talvez sonhando um sonho triste, e eu precisaria estar a seu lado, segurar sua mão, dizer uma palavra de ternura que a fizesse sorrir e a pudesse salvar.

E a partir deste belo trecho, segui a "crônica-quase-conto" Marinheiro na Rua, em que o grande Braga narra a simples desventura de um marinheiro batendo insistentemente à grande porta de um prédio sem sucesso de ser atendido, até o seu fim, num belo e surrealista desfecho: 

Quando ele seguiu lentamente pela calçada, fiquei a olhá-lo de minha janela escura, até perdê-lo de vista. A rua sem ele ficou tão vazia que me veio a impressão de que todos os habitantes haviam abandonado a cidade e eu ficara sozinho, numa absurda e desconhecida sala de escritório do centro, sem luz, sem saber por que estava ali, nem o que fazer.

Sentia, entretanto, que estava prestes a acontecer alguma coisa. Olhei a fachada escura do prédio em que ele tentara entrar. Olhei... Então lá dentro todas as luzes se acenderam, e o edifício ficou maior que todos na rua escura; sua fachada oscilou um pouco; alguma coisa rangeu, houve rumores vagos, e o prédio começou a se mover pesadamente como um grande navio iluminado - e lentamente partiu.

E eu, ainda emocionado com estas coincidências da danada da sintonia poética com o acaso (minha imagem poética do "quarto-navio" tinha nascido antes ou depois de relido essa crônica do Marinheiro, para a qual atento só agora?!) e ainda um aprendiz na Grande Arte da Crônica, lembro-me de outro fato curioso em minha relação afetiva com Rubem Braga: minha primeira crônica (com cara de conto, assim como muitas do Mestre de Cachoeiro do Itepemirim), apesar de escrita aos meus 15 anos de ainda ignorância da obra do Velho Braga, já possuía uma influência amiga do estilo de imagens poéticas que tanto agradava o genial cronista que conheceria somente alguns anos depois...

É, meu querido blogueiro de plantão e minha cara leitora amada e conhecedora das artes em geral de ontem e de hoje: jamais será possível estabelecer-se uma fronteira entre o que se escreve, de onde vem ou para onde vai cada ideia, cada linha escrita... Tampouco quem nasce primeiro: o amor, a Poesia, a Crônica, Rubem, este pobre escriba que vos fala... Ele, com certeza, primeiro... Eu venho em seguida, com minhas mal traçadas linhas de observador e amante, em verso ou em prosa. À Poesia, sempre em primeiro - a Crônica sobre esta surrealista viagem absurda das sintonias vem logo depois!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"Porque eu acabei guardando Música pra depois
E agora passo a colecionar anos, histórias e canções..."


"Lamento,⁄ não sei tocar um instrumento⁄ nem compor canções pra ti" - escrevi isso há mais de 20 anos... Porque, mesmo até hoje um grande amante da Música, jamais aprendi a tocar nada e segui a adorar, dentre outros, o piano e vários tipos de sax e trombones somente ao longe, pelas melhores peças eruditas e pelas maiores big bands ao longo dos anos... Guardei discos em LP, CD e pen-drives ao longo dos tempos e hoje sou mais colecionador que um ouvinte amador... Mas dessa coleção, "Instrumentos Musicais", da Salvat, acabei comprando esses dois números promocionais nas bancas, a tuba e o violão da foto acima, e eles acabaram virando um belo pedacinho do meu universo colecionável, compondo uma fração de carinho entre os inúmeros itens de minha grande coleção de miniaturas - que, neste novo ano, prometo mostrar aos poucos...

E falando neste novo ano, neste primeiro dia de reflexões solitárias como peças de uma coleção e de renovação de sonhos e desejos como os de um menino que vai guardando as figurinhas e os bonecos pra depois, tudo o que mais desejo a toda gente que ama e quer viver é muita Música no coração! Porque a dança nunca pode parar... E eu, mesmo afastado de tantas artes em geral, só agora reaprendendo a ver o Cinema, a brincar com o Desenho e a ouvir boa Música, estou revendo cada pedaço do que colecionei e abandonei nalgum canto do meu escritório e da minha vida... Porque eu, vivendo e me perdendo, acabei também guardando muita Música pra depois - e, agora, passo a colecionar anos, histórias e canções...

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