domingo, 26 de fevereiro de 2006

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Carnavais

Jamais gostei de carnaval (letra minúscula, festa pagã)... Eu, que não bebo, nunca apreciei a idéia do "beber até cair" ou do "dançar que se acabar", da folia pela folia, do prazer puro e simples, num hedonismo rasgado como se aqueles fossem os últimos dias do mundo...

Nunca apreciei o carnaval, mesmo ainda bem criança, quando, nas vesperais do Clube do Lítero, percebia outras crianças que, como eu, não sabiam o que ali estavam fazendo a não ser que para agradar os desejos foliões dos pais... Gostava menos ainda da batida forte das colossais caixas de som que eu sentia vibrar o chão e o coração e que me incomoda tanto até hoje, parecendo agressão - especialmente pelas costumeiras músicas de péssimo gosto que a época sempre trouxe, começando pelos sucessos da Xuxa, passando pela explosão imbecil do "axé" bahiano até as atuais marchinhas maranhenses com suas toscas grosserias de um sentido apenas...

Gostava, entretanto, quando podia ser, mais tarde, ainda na infância, o super-homem, o pirata ou o fofão, e adorava o refúgio da casa de meus avós, onde era deixado para que meus pais e o meu irmão pudessem "pular" carnaval - lá eu podia começar a admirar meu avô a ouvir sambas de qualidade, brincar com meus primos menores e assistir aos desfiles pela TV, que iam até quase às 9 da manhã (Mangueira, que sempre admirei, de dia, quase apagada)...

Apesar de nunca ter visto com bons olhos a volúpia latente à flor da pele, o "ninguém é de ninguém" e o "fica-fica" de beijos e de sexos gratuitos, com as passarelas repletas das "modelos" a se vender para a primeira revista masculina como carne em exposição, sempre apreciei a nudez das esculturais mulheres, com seus maravilhosos seios e bundas cobertos apenas de purpurina - com certeza, minhas primeiras "experiências sexuais", ainda criança, diante da televisão...

Gostaria ainda dessa época, apesar do carnaval, em que, na casa do amigo Ricardo Alexandre, alguns anos depois, seus pais e seus tios faziam da garagem e das salas da frente da casa um grande galpão para a confecção das suas fantasias dos desfiles, enquanto Ricardo e eu aproveitávamos para desfrutar de nossas pré-adolescências com suas lindas primas em secretos e intermináveis "cai no poço" e "salada mista", nos quartos dos fundos... Vivia então o carnaval de meus 11 anos pelas ruas do Maranhão Novo, bairro que, além de acompanhar nossas divertidas batalhas com metralháguas e "bazucas de cano" (valíamo-nos das poças deixadas pelas "chuvas de carnaval" da noite anterior...), presenciou também a "evolução" daqueles ateliês improvisados até a formação do bloco Jeguefolia, do pai de Ricardo, S. Raimundo, capaz de "criar", dentre outras atrocidades, a Dança do Jeguerê, a mandar os foliões abrir as pernas e levantar a "tromba" - e, pior de tudo, por cima da bela marchinha Coração Corintiano...

O meu último carnaval, o último que "brinquei", aconteceu há exatos 10 anos, no hoje extinto Clube Jaguarema: depois de uma desilusão com a namorada da época (as eternas separações que traz a folia...), simplesmente "fui" para o baile da "segunda-feira gorda": mesmo ainda sem saber, seria a minha despedida daquele universo caótico e sem conteúdo, eu e meu peito doído pelo amor pisado... Diante do certo vazio que sentia e do domínio das tolas músicas baianas da moda, acompanhei, como um observador de fora, a maioria das pessoas bebendo, cheirando loló e imitando as idiotas coreografias pré-estabelecidas, como se não se divertissem, mas estivessem ali apenas por causa do carnaval - e eu assistia a tudo como se não houvesse música, ainda que a batida continuasse muito alta... Lá ainda pude presenciar as últimas cenas patéticas típicas daquela "alegria fugaz", como o porre do amigo Flávio Augusto, a "dança do saci" de Sérgio Ronnie (depois de ter torcido o pé nuns amassos com minha prima nos fundos do clube!), até acabar conversando sobre assuntos de outros mundos (incluindo Religião!) com amigos de velhos carnavais, enquanto apreciávamos a bela fauna feminina do local...

Enfim, nunca mais gostaria do carnaval, especialmente de agora em diante, quando carnaval é todo dia, a cachaça e a música alta nos botecos das esquinas, a gratuidade do sexo e das mulheres nuas e os shows horrorosos de "axé" e de "forró" são constantes o ano inteiro... - E, com a folia e os sambas todos iguais, nenhum carnaval, para o bem ou para o mal, parece marcar mais ninguém...

domingo, 19 de fevereiro de 2006

É fato notório que amo Cinema, verdadeiro vício explícito do qual sou profundamente dependente. Jandira também o sabe bem. Tanto que, vira, mexe, ela me dá de presente um filme em DVD - tal como aconteceu na última semana, em que comemoramos o "Segundo Final de Semana do Mês" (espécie de "data comemorativa" sem data específica, que comemoramos todo mês e engloba a sexta, o sábado e o domingo) de fevereiro, quando ela me deu Splash - Uma sereia em minha vida, verdadeiro "clássico" dos anos 80, a grande era do "cinema pop"!

Curiosamente, na mesma semana, quando consegui parar em casa e ter enfim duas horas de descanso, pude acompanhar, pela Record, outro "ícone" dos 80, porém de bem menos qualidade que o filme de Ron Howard: alguém aí se lembra de O Garoto do Futuro, com Michael J. Fox, onde um adolescente se transformava em lobisomem e virava a atração da escola? Pois é, caros blogueiros de plantão, esta "pérola" de menor importância marcou meus primeiros anos em frente ao SBT! Tudo bem que o filme é bem fraquinho, naquela linha de "seja você mesmo numa 'high school' norte-americana" - e o esdrúxulo título era uma forçada tradução de 'teenwolf' só para aproveitar o sucesso de De Volta para O Futuro, com o mesmo astro de então (hoje o filme é distribuído como "O Lobisomem Adolescente" -, mas é inegável como aquela mágica década possuía a capacidade de qualificar produtos de qualidade duvidosa e transformá-los em ícones globais para todo o sempre...

Mas, saindo dos anos 80, esta "Sessão de Cinema" de hoje volta para os anos 40 - mas sem Deloreans! - e celebra um dos melhores filmes de todos os tempos e um dos favoritos de Jandira (não por acaso, ela o tem em VHS): Casablanca. O texto que segue foi extraído do programa de rádio que apresentava em 1998 ao lado de Sérgio Ronnie, amigo e companheiro de adoração ao Cinema...


Marrocos, Segunda Guerra Mundial. Refugiados de toda a Europa procuram desesperadamente por passagens para a América, longe do alcance nazista. É nesse ambiente que se desenvolve Casablanca, dirigido por Michael Curtis, que, além de ser um dos mais completos filmes da história, apresentava um dos mais completos elencos: Humphrey Bogart, como um cínico dono de um bar em Casablanca, no Marrocos, Ingrid Bergman, sua antiga paixão, Claude Rains, Peter Lorre, dentre outros.

Com uma combinação perfeita entre romance, intriga e suspense, esse filme mostra o reencontro dos personagens Ilse e Rick, em seu bar, o Rick's - Café American, refúgio para aqueles que queriam um visto. Só que Ilse não volta só, e sim casada com um grande nome da Resistência, Victor Laszlo, e pede ajuda a Rick para que ela e seu marido possam fugir dos alemães. Assim, dividido entre a magia do passado e a realidade do presente, Rick se vê diante de seu grande amor...

Casablanca ganhou os Oscar de melhores filme, direção e roteiro adaptado, e se tornou um dos filmes mais amados e cultuados da história do Cinema. Trata-se de um filme único, verdadeira aula de roteiro, entre romantismo e realismo - tudo que poderia parecer um lugar comum, assume aqui uma dimensão mágica: trilha sonora de Max Steiner, a beleza de Ingrid Bergman e a dureza e o cinismo de Rick, na magistral interpretação de Humphrey Bogart, que esconde por trás da fachada de amargura um grande amor do passado vivido com Ilse em Paris, antes de ser ocupada pelos alemães.

São, com certeza, 102 minutos de uma história que reúne momentos inesquecíveis. Aliás, não há cena de adeus que se compare à seqüência final de Casablanca, com a mais bela despedida do Cinema, no meio da neblina de um aeroporto. Assim como também é difícil se encontrar canção romântica tão marcante como As Time Goes By, de Hermann Hupfeld...

(ROSA, Dilberto Lima, Estação Cinema, 2005)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Hoje é dia de POST COMUNITÁRIO, da "prima" Micha (veja o destaque da Família Morcegos na Coluna Lateral), tratando sobre o nome do blog nosso de cada dia...



Já se vão quase dois anos desde quando uma amiga me convidou para este diletante mundo dos "diários virtuais", e, justamente por isso, por causa de sua denominação, relutei tanto para ingressar neste universo - afinal, meus costumeiros versos e prosas, ainda que falem de quando em vez a respeito de algo pessoal, sempre foram envolvidos em torno de algo maior, de um texto literário a ser servido, passando ao largo de um "diário"... Foi então que ela me mostrou a imensa gama de possibilidades que cercava o universo dos blogs, e o grande número de blogs que, apesar de apresentarem uma estrutura pessoal de diários, apresentavam uma qualidade superior se comparadas com o preconceito que até então tinha a respeito.

Foi assim que, entre o final de março e o início de abril de 2004, surgiu o meu dileto Morcegos, nascido no "quase finado" Weblogger, e que recentemente passou por uma terceira e necessária reforma (graças ao novo layout desenvolvido pela querida "sobrinha" Lelinha).

Muitas foram as mudanças daqueles idos até hoje, mas as únicas coisas que nunca mudaram foram a busca incessante por qualidade para os meus caros visitantes e o nome deste espaço, que espelha uma metáfora contida em meu primeiro poema, Morcegos, de 91, cuja passagem "como morcegos a voar por sobre a minha cabeça" ilustra a solidão de alguém à beira da morte, e que, por estar ligado a vários outros símbolos (como a "Geração Byroniana" ou mesmo o mundo das HQs de personagens como Batman), caiu como uma luva sobre o que queria abranger em termos de amplitudes artísticas - por isso, ao contrário do que muita gente pensa, não sou um dos "morcegos" do título!

Assim, Morcegos surgiu quase automaticamente, graças ao título homônimo de meu poema, e encabeça meu template logo ao lado do interessante símbolo que minha amiga encontrou na NET e que tão bem se casou com as temáticas do blog - "Cinema, Literatura e Artes em Geral", que acabou nascendo paralelamente ao título, graças a este ambiente artístico cada vez mais pop de que costumo cercar-me, tendo gerado, inclusive, uma "família" de amigos virtuais: a Família Morcegos (cuja mais nova "parente" é a "prima" Micha), surgida em meados do ano passado e que, em breve, resultará num blog comunitário...

E, neste ano, além de muito feliz com a comemoração dos dois anos do blog Morcegos, fato que revolucionou minha vida artística, tamanha a produção semanal que me vi obrigado, de início, a criar, e que depois voltou a se incorporar em mim numa grande produção de prosas e de versos, comemorarei também os quinze anos de Poesia, juntamente com os quinze anos de minha cria favorita, o poema Morcegos, de quando eu tinha meus tenros quatorze anos de idade, bem antes mesmo de Jandira aparecer por esta cidade...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Todo casal que se preze tem uma música só sua, um filme especial, tais "marcos" se dando, geralmente, logo no início do namoro - aquelas famosas "coisas do casal", mesmo sem prestar nenhum tipo de direito autoral aos devidos artistas... Cantei muitas canções para Jandira ao longo dos anos, mas apesar de gostar de cantar (e, modéstia às favas, cantar bem), nunca mais o fiz... Cantei, cantei (e jamais cantei tão lindo assim...) e algumas vezes acabaram se tornando especiais ? como nos casos de Wave e Chega de Saudade, do Tom, e Fly me to the Moon, com Sinatra ("Vou cantar uma música pra ti...", "Canta uma nova...", "Lá vai: Fly me to the Moon...", "De novo?"). Mas a primeirinha, aquela usada com o "ignóbil" ardil da conquista, mesmo antes de o romance começar, pouca gente lembra: no nosso caso foi o gostoso samba-canção Manias, dos irmãos Celso e Flávio Cavalcanti e imortalizado na voz perfeita de Nelson Gonçalves... O curioso é que a letra, tratando de manias banais, aborda o tema lançado pela Micha na semana passada e acaba por evidenciar as minhas (que são poucas, juro!) - a não ser as relacionadas ao fumo -, sendo, sem dúvida nenhuma, a maior de todas, gostar de Jandira...


Manias

Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você
Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porque
Mania de querer bem, às vezes de falar mal
Mania de não deitar sem antes ler o jornal
De só entrar no chuveiro cantando a mesma canção
De só pedir o cinzeiro depois da cinza no chão
Eu tenho várias manias, delas não faço segredo
Quem pode ver tinta fresca sem logo passar o dedo
De contar sempre aumentado tudo o que diz ou que fez
De guardar fósforo usado dentro da caixa outra vez
Mania é coisa que a gente tem mas não saber porque
Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você...

(CAVALCANTI, Celso e Flavio, Manias. Para ler as cifras: Letras Terra)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Hoje a ROTATÓRIA é especial: trata-se de trecho da genial peça Auto da Compadecida, do mestre Ariano Suassuna, bastante popular depois da corretíssima e histriônica adaptação de Guel Arraes para a televisão em 97 (depois levada para o Cinema, com alguns cortes). Para Jandira e para todos vocês rirem a valer (apesar de longo o quadro, impossível não ler tudo, tamanha a perfeição do ritmo do gênio paraibano de alma pernambucana, também autor da divertida O Santo e A Porca)!


III QUADRO

SACRISTÃO: - Mas um cachorro morto no pátio da casa de Deus?
PADEIRO: - Morto?
MULHER (mais alto): Morto?
SACRISTÃO: - Morto, sim. Vou reclamar à prefeitura,
PADEIRO: (correndo e voltando-se do limiar) É verdade, morreu.
MULHER: - Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu.
(Correm todos para a direita, menos João Grilo e Chicó. Este vai para a esquerda, olha a cena que se desenrola lá fora, e fala com grande gravidade na voz.)
CHICÓ: - É verdade; o cachorro morreu. Cumpriu sua sentença encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.
JOÃO GRILO: - (suspirando) Tudo o que é vivo morre. Está aí uma coisa que eu não sabia! Bonito. Chicó, onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é que não saiu, que eu sei.
CHICÓ: - Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez.
MULHER: - (entrando) Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai!
JOÃO GRILO: - (mesmo tom) Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! (Dá uma cotovelada em Chicó)
CHICÓ: (obediente) Ai, ai, ai, ai, ai,! Ai, ai, ai, ai, ai! (Essa lamentação deve ser mal representada de propósito, ritmada como choro de palhaço de circo)
SACRISTÃO: - (entrando, com o padre e o padeiro) Que é isso, que é isso? Que barulho é esse na porta da casa de Deus?
PADRE: - Todos devem se resignar.
MULHER: - Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essas horas ele ainda estava vivo.
PADRE: - Qual, qual, quem sou eu?
MULHER: - Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro.
PADRE: - Enterro o cachorro?
MULHER - Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é?
PADEIRO: - É, em latim não serve.
MULHER: - Em latim é que serve!
PADEIRO: É, em latim é que serve!
PADRE: - Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum.
MULHER: - Está cortado o rendimento da irmandade.
PADRE: - Não enterro.
PADEIRO: - Está cortado o rendimento da irmandade!
PADRE: - Não enterro.
MULHER: - Meu marido considera-se demitido da presidência!
PADRE: - Não enterro.
PADEIRO: - Considero-me demitido da presidência!
PADRE: - Não enterro.
MULHER: - A vaquinha vai sair daqui imediatamente!
PADRE: - Oh mulher sem coração!
MULHER: - Sem coração, porque não quero ver meu cachorrinho comido pelos urubus? O senhor enterra!
PADRE: - Ai meus dias de seminário, minha juventude heróica e firme!
MULHER: - Pão para casa do vigário só vem agora dormido e com o dinheiro na frente. Enterra ou não enterra?
PADRE: - Oh mulher cruel!
MULHER: - Decida-se, Padre João.
PADRE: - Não me decido coisa nenhuma, não tenho mais idade para isso. Vou é me trancar na igreja e de lá ninguém me tira. (Entra na igreja correndo)
JOÃO GRILO: - (chamando o patrão à parte) Se me dessem carta branca, eu enterrava o cachorro.
PADEIRO: - Tem a carta.
JOÃO GRILO: - Posso gastar o que quiser?
PADEIRO: - Pode.
MULHER: - Que é que vocês estão combinando aí?
JOÃO GRILO: - Estou dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão.
SACRISTÃO - Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?
JOÃO GRILO: - Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, e é claro que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão.
SACRISTÃO: - (enxugando uma lágrima) Que animal inteligente! Que sentimento nobre! (Calculista) E o testamento? Onde está?
JOÃO GRILO: - Foi passado em cartório, é coisa garantida. Isto é, era coisa garantida, porque agora o padre vai deixar os urubus comerem o cachorrinho e se o testamento for cumprido nessas condições, nem meu patrão nem minha patroa estão livres de serem perseguidos pela alma.
CHICÓ: - (escandalizado) Pela alma?
JOÃO GRILO: - Alma não digo, porque acho que não existe alma de cachorro, mas assombração de cachorro existe e é uma das mais perigosas. E ninguém quer se arriscar assim a desrespeitar a vontade do morto.
MULHER: - (duas vezes) Ai, ai, ai, ai, ai!
JOÃO GRILO E CHICÓ, mesma cena.
SACRISTÃO: - (cortante) Que é isso; que é isso? Não há motivo para essas lamentações. Deixem tudo comigo. (Entra apressadamente na igreja).
PADEIRO: - Assombração de cachorro? Que história é essa?
JOÃO GRILO: - Que história é essa? Que história é essa é que o cachorro vai se enterrar é em latim.
PADEIRO: - Pode ser que se enterre, mas em assombração de cachorro eu nunca ouvi falar.
CHICÓ: - Mas existe. Eu mesmo já encontrei uma.
PADEIRO: - (temeroso) Quando? Onde?
CHICÓ: - Na passagem do riacho de Cosme Pinto.
PADEIRO: - Tinham me dito que o lugar era assombrado, mas nunca pensei que se tratasse de assombração de cachorro.
CHICÓ: - Se o lugar é assombrado, não sei. O que eu sei é que eu ia atravessando o sangrador do açude e me caiu do bolso n'água uma prata de dez tostões. Eu ia com meu cachorro e já estava dando a prata por perdida, quando vi que ele estava assim como quem está cochichando com outro. De repente o cachorro mergulhou, e trouxe o dinheiro, mas quando fui verificar só encontrei dois cruzados.
PADEIRO: - Oi! E essas almas de lá têm dinheiro trocado?
CHICÓ: - Não sei, só sei que foi assim. (O sacristão e o padre saem da igreja)
SACRISTÃO: - Mas eu não já disse que fica tudo por minha conta?
PADRE: - Por sua conta como, se o vigário sou eu?
SACRISTÃO: - O vigário é o senhor, mas quem sabe quanto vale o testamento sou eu.
PADRE: - Hem? O testamento?
SACRISTÃO: - Sim, o testamento.
PADRE: - Mas que testamento é esse?
SACRISTÃO: - O testamento do cachorro.
PADRE: - E ele deixou testamento?
PADEIRO: - Só para o vigário deixou dez contos.
PADRE: - Que cachorro inteligente! Que sentimento nobre!
JOÃO GRILO: - E um cachorro desse ser comido pelos urubus! É a maior das injustiças.
PADRE: - Comido, ele? De jeito nenhum. Um cachorro desse não pode ser comido pelos urubus.
(Todos aplaudem, batendo palmas ritmadas e discretas, e o padre agradece, fazendo mesuras. Mas de repente lembra-se do Bispo)
PADRE: - (aflito) Mas que jeito pode-se dar nisso? Estou com tanto medo do bispo! E tenho medo de cometer um sacrilégio!
SACRISTÃO: - Que é isso, que é isso? Não se trata de nenhum sacrilégio. Vamos enterrar uma pessoa altamente estimável, nobre e generosa, satisfazendo, ao mesmo tempo, duas outras pessoas altamente estimáveis (aqui o padeiro e a mulher fazem uma curvatura a que o sacristão responde com outra igual), nobres (nova curvatura) e, sobretudo, generosas (novas curvaturas). Não vejo mal nenhum nisso.
PADRE: - É, você não vê mal nenhum, mas quem me garante que o bispo também não vê?
SACRISTÃO: - O bispo?
PADRE: - Sim, o bispo. É um grande administrador, uma águia a quem nada escapa. JOÃO GRILO: - Ah, é um grande administrador? Então pode deixar tudo por minha conta, que eu garanto.
PADRE: - Você garante?
JOÃO GRILO: - Garanto. Eu teria medo se fosse o anterior, que era um santo homem. Só o jeito que ele tinha de olhar para a gente me fazia tirar o chapéu. Mas com esses grandes administradores eu me entendo que é uma beleza.
SACRISTÃO: - E mesmo, não será preciso que Vossa Reverendíssima intervenha. Eu faço tudo.
PADRE: - Você faz tudo?
SACRISTÃO: - Faço.
MULHER: - Em latim?
SACRISTÃO: - Em latim.
PADEIRO: - E o acompanhamento?
JOÃO GRILO: - Vamos eu e o Chicó. Com o senhor e sua mulher, acho que já dá um bom enterro.
PADEIRO: - Você acha que está bem assim?
MULHER: - Acho.
PADEIRO: - Então eu também acho.
SACRISTÃO: - Se é assim, vamos ao enterro. (João Grilo estende a mão a Chicó que a aperta calorosamente) Como se chamava o cachorro?
MULHER: - (chorosa) Xaréu.
SACRISTÃO: - (Enquanto se encaminha para a direita, em tom de canto gregoriano) Absolve, Domine, animas omnium fidelium defunctorum ab omni vinculi delictorum.
TODOS: - Amém.
(Saem todos em procissão, atrás do sacristão, com exceção do padre, que fica um momento silencioso, levando depois a mão à boca, em atitude angustiada, e sai correndo para a igreja.)

(SUASSUNA, Ariano Auto da Compadecida, 1957 - fonte: Academia Brasileira de Letras)

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Para Jandira e para Vinícius...



O negócio mesmo é ser diplomata
Apor ao novo livro umas erratas
Sentir-se livre numa casamata
E amar... Que por amor se vive
Que por amor se morre e se mata

O negócio é ser poeta
E fingir saber sobre poesia
E errar na poesia
E sobre a poesia
Sem saber...

O negócio mesmo é estar vivo
Pouco antes de morrer!

(Dilberto Lima Rosa, Com um pouco de esforço e de pena por sobre o lodo a coisa toda pode até virar um poema..., 2006)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Jandira sempre gostou de artistas plásticos como Tarsila do Amaral e Salvador Dali... Comigo conheceu Monet, Portinari e Constable, além de muitos outros, através de minhas coleções de livros de pinturas... Ainda no curso do Mês Especial Jandira e na absoluta falta de tempo em que me encontro atualmente, o post de hoje é diferente: quatro obras de alguns dos maiores mestres da pintura universal, para o deleite visual dos lutadores desta semana que chega hoje ao fim! Bom descanso...

P.S.: E também por absoluta falta de tempo não apresentarei um perfil destes gênios que tanto adoramos, mas deixo os links de cada artista para quem quiser saber mais...



John Constable

(A Catedral Salisbury Vista do Jardim da Casa do Bispo)




Tarsila do Amaral


(Manaca)




Claude Monet


(Campo de Papoulas)




Cândido Portinari


(Crianças Brincando)




Salvador Dali


Rosa Meditativa

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Ao lado, segue o Mês Especial Jandira, com um novo poema; abaixo, as Ligeirinhas, com a acidez e o humor de que tanto Jandira já sentia falta; ao norte, nada de chuvas, e em Brasília... 19 horas!

LIGEIRINHAS

- MÚSICA E TELEVISÃO



Jota Cá e Acolá: muito estamos aprendendo com a minissérie JK! Como, por exemplo, que o próprio Juscelino Kubitscheck, quando não estava realizando suas santidades como médico ou como político, dançava o dia inteiro El día en que me quieras com D. Sara... Ou ainda entender o quanto a personagem meio real, meio fictícia (e meia-boca) Salomé, "interpretada" pela "mulher-de-diretor" Débora Evellyn, foi importante para a História do Brasil!!!

"Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai..." - é o que deve estar dizendo o nosso amado Jorge Ben Jor toda vez que ouve o novo sucesso de Vanessa da Mata, (aquela cantora que justifica o sobrenome, cultivando uma moita na cabeça): vocês já notaram como esta música é a cara de Taj Mahal, clássico do velho Jorge?!

"Pega ele aí, pega ele aí... Pra quê? Pra passar batom...": alguém aí viu o Luís Caldas nas imagens de um dos 'shows' do Festival de Verão de Salvador, ou só eu consegui graças aos meus dons supramediúnicos?!

Big Bosta Brasil: alguém ainda assiste a isso? Digo, sem um gay literato "lutando contra o preconceito", um pobre muito pé-rapado ou um bobalhão completo na jogada, fica muito difícil um programa já tão imbecil conseguir alcançar mais de 1% de audiência... Ou eu estou errado?

Na Roda do FHC: Fernando Henrique Cardoso no programa Roda Viva de ontem - sugestões de reformas à educação e críticas à corrupção e à conseqüente omissão do Governo Lula... Peraí, esse não é aquele mesmo que "governou" o País por 8 anos???

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Música, Maestro!



Um jazz quente e cheio de swing tocando, Duke Ellington ao piano, Ben Webster ao sax, Winton Marsalis forte no trompete, Billy Higgins na bateria, Lino no baixo, Charlie Brown na guitarra e Snoopy e Woodstock a dançar sem parar... É aniversário de Jandira Helena, e as alegrias de todas as homenagens são para ela, em forma de música...

E, falando em homenagens, não há como negar que é ela a "rainha de minhas homenagens" (a ponto de ter o Mês Jandira Especial neste humilde espaço virtual ao longo de fevereiro), a minha "eterna fonte de inspiração" (tanto que a ela já dediquei mais de vinte poemas), "minha noiva, amiga, segunda mãe e um pouco minha filha menina" (dada a completude de nossa relação) e tantos outros epítetos carinhosos com que já lhe tratei ao longo destes tantos anos de mar e de convivência...

Infelizmente, as ondas deste mesmo mar nos levaram um ano de águas paradas sem precedentes há pouco, o que acabou por deixar a preparação para este sarau jazístico um pouco mais desanimado... Mas nada que deixe este seu pobre cantor afastado dos sonhos nababescos que construo a esmo, tijolo por tijolo, até as mais altas torres do mundo aberto - cada ano de vida ao teu lado sempre é uma feliz construção... Que também o seja para ti a partir de hoje!

Assis Valente já diria - Minha embaixada chegou: deixa meu poema passar... Meu blog pede licença pra na batucada desacatar! O jazz, o samba, todos os melhores ritmos pedem passagem, minha discreta Billie Holliday, tu com tua voz singular; tu que quase não cantas, mas que encantas todos à tua volta, musa marrom: achemos nossas vagas neste imenso cordão e nos vistamos a rigor, que nossa festa particular, longe das agitações e nos rigores dos teus maiores recatos joaogilbertianos, está para começar - vou te contar...

Adorada

Teadoro, Jandira,
E a cada dia te reinvento
Em minha poesia
Na jornada reino acima
Seguimos de braços dados
A pisar nos restos torcidos de nós mesmos
De nossas tantas peles trocadas
Que já vivemos tanto
E tanto
E, no entanto, ainda há tanto
Para dizer
Adorada simplesmente
De alma transparente, essência pura
E eu querendo definição
Da essência do amor,
Logo o amor, que tanto se dissipa
Para, em seguida,
Ser reunido e recontado
Num beijo nosso
De céu de boca estrelado
De poema rasgado
De poeta empobrecido
Adorada como santa
No altar, eu te louvo
Como um trovador fora de moda
Em versos infantis
Meu sangue no flagelo da prensa
De minhas páginas vis
Minha voz rouca de repetir
Meus terços de nossas metades
No todo de ti,
Adorada,
Sigamos a rir
De nossas mentes pontuais:
Mesmo atrasado, vou e construo minha eterna morada
Logo abaixo dos teus umbrais...

(Dilberto Lima Rosa, Um breve desabafo em antítese..., 2006)



Parabéns a Jandira, pela primeira vez no mundo virtual!
 

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