quarta-feira, 28 de junho de 2006

É vero! Veríssimo!

Enquanto ouço, ao fundo, a bela "Na cadência do samba (que bonito é...)", automaticamente me lembro daqueles lances ancestrais do Canal 100... Hoje, mesmo com os avanços da tecnologia, com câmeras nos mais inusitados ângulos e em cima da jogada, o Futebol anda bem inferior àqueles tempos de glória! Só ver um Portugal e Holanda, verdadeira guerra europeia de bárbaros! E o que dizer do modorrento segundo tempo de hoje, de Brasil e Gana? Tudo bem, ganhamos de 3 a 0, mas... Desse jeito, contra Gana? Ronaldo fez um gol às antigas, Ricardinho entrou e jogou bem (!) e ganhamos fácil, fácil de uma seleção sem pontaria ou talento (quantos erros de nossos laterais), mas é incrível como a Seleção não evolui, tal como a cabeça de Parreira! Podemos até ser hexa, dado o futebolzinho dos demais, mas será com sofrimento, pior que em 94! 

E por falar em passado, sigamos para uma volta no tempo: estamos classificados para uma revanche contra a França (mon Dieu!) e o coração esfria só de lembrar 98... Por isso, na ROTATÓRIA ESPECIAL FUTEBOL desta semana, trago um hilariante texto do gênio Luís Fernando Veríssimo sobre as "verdades" daquela final macabra  que, esperemos, não se repita no próximo sábado!!!

O que realmente aconteceu
Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e Zero Hora, 26/7/98.

Para encerrar de uma vez por todas a questão, eis o que realmente aconteceu no domingo, 12 de julho, antes de o Brasil entrar em campo para decidir a Copa do Mundo. Todas as outras versões dos fatos são incorretas ou fantasiosas.

11h: Os jogadores acordam normalmente, como todos os dias. Dunga vai no quarto de cada um e o derruba da cama.

11h15: Zagallo convoca uma reunião para tratar da estratégia que usarão contra a Noruega. Ninguém lhe dá atenção. Zico lembra a Zagallo que o jogo será contra a França.

11h30: Café da manhã. Todos parecem descontraídos. Há a habitual guerra de coalhada, vencida por Roberto Carlos. Dunga pede voluntários para limpar uma clareira atrás da concentração de pedras e tocos de árvores, mas acaba indo sozinho. Ronaldinho recebe um telefonema da Adidas, dizendo que seqüestrou a Suzana Werner. Zagallo volta para a cama.

12h: Almoço. Todos estranham a mudança do pessoal da cozinha, e do menu. As suspeitas crescem quando um dos escargots servidos ao Ronaldinho tenta fugir do prato mas cai, com evidentes sinais de envenenamento, antes de chegar muito longe. O escargot é atendido pelo Dr. Lídio, que diagnostica estresse e autoriza a sua volta para o prato de Ronaldinho.

13h: Descanso. Os jogadores vão para os seus quartos, ignorando uma convocação do Zagallo para estudar tapes dos últimos jogos da Croácia, para não serem surpreendidos. Júnior Baiano pede um dos livros do Leonardo emprestado e pergunta se o Schopenhauer é com figurinha. Isto parece afetar estranhamente Ronaldinho, que tenta esgoelar Roberto Carlos. Ninguém intervém e alguns até o incentivam. Ronaldinho só pára com a chegada de Ricardo Teixeira com a notícia de que a Nike comprou a CBF, pretende redimensioná-la, investindo em outras áreas, e quer perder a Copa para sinalizar ao mercado que está abandonando o futebol.

14h30: No quarto, Roberto Carlos raspa a cabeça de Ronaldinho e nota um pequeno dardo espetado na sua nuca. Ronaldinho diz que pensou que fosse uma mordida de mosquito e os dois não dão maior atenção ao fato.

15h17: Roberto Carlos acorda da sesta e vê Ronaldinho caminhando no teto.

15h20: Depois de tentar, inutilmente, puxar Ronaldinho para o chão, Roberto Carlos vai procurar ajuda. Encontra Dunga no corredor, fazendo embaixada com uma escrivaninha. Os dois correm para o quarto e descobrem Ronaldinho de pé em cima da cama, coberto de pêlos, rosnando e com o chapéu do Napoleão na cabeça. Chegam correndo César Sampaio, Cafu, Aldair e Júnior Baiano mas nenhum deles consegue impedir que Zidane seja o primeiro a entrar no quarto.

15h42: Depois de examinar a situação, o Dr. Lídio recomenda repouso e muito líquido e receita duas aspirinas e um calmante para Roberto Carlos.

16h05: Em pânico, César Sampaio enfia o dedo na boca e tenta desenrolar a língua de Zé Carlos, até ser convencido de que ele fala assim mesmo. Zagallo acorda da sesta e, ao ser informado do ocorrido, pergunta: "Que Ronaldinho?"

18h52: Ronaldinho é levado para um hospital francês, onde é substituído por um sósia.

20h30: O sósia de Ronaldinho assegura à comissão técnica que pode jogar. Intrigados com o fato de o jogador estar falando com um forte sotaque francês, a comissão ouve dos médicos a explicação de que aquilo é comum em casos como o do Ronaldinho, seja ele qual for.

20h50: A seleção entra em campo com o sósia do Ronaldinho, que não joga nada. O Brasil perde o jogo e a Copa.

(Luís Fernando Veríssimo, Portal Literal/Terra)

domingo, 25 de junho de 2006

Aproveitando a folga da tarde da última segunda-feira, pela primeira vez em muito tempo, finalmente assisti a três filmes que já andavam à beira de sair das telonas: dois badalados 'blockbusters' da estação e uma produção nacional feita com a alma interiorana de outros tempos. Só restou um tal Código, que Jandira, por mais que tenha insistido, ainda não conseguiu me arrastar para ver...

Cine Morcegos: Três Sessões

Na primeira sessão: Tapete Vermelho, encantador trabalho do diretor Luiz Alberto Pereira, homenagem ao antigo campeão de bilheteria do cinema brasileiro, Amacio Mazzaropi. Matheus Nastchergaele (em mais uma ótima atuação, compondo uma mistura de imitação do falecido comediante paulista com um caipira típico do interior de São Paulo), desejoso de cumprir uma antiga promessa a seu pai, leva mulher (Gorete Milagres, irregular, pelo menos distante da repetição da Filó) e filho para a primeira cidade que encontrar exibindo um filme de Mazzaropi, partindo numa espécie de 'road movie' com comédia gostosa e leve, baseada no qüiproquó dos personagens, algo como visto em A Marvada Carne. Entretanto, ao contrário desse pequeno clássico do recente Cinema Nacional, Tapete Vermelho é irregular tanto na técnica quanto no enredo, pecando em enveredar por desvios de narrativa envolvendo temas diversos (como os sem-terra e o draminha do sumiço do filho), perdendo-se a partir da metade final. Entretanto, diante do sentimentalismo presente em algumas produções de Mazzaropi, a homenagem parece ter ficado mesmo completa: mesmo com tantos baixos, é diversão garantida para toda a família!

Segunda sessão: X-Men - O Confronto Final, terceira e aparentemente última adaptação dos famosos personagens mutantes da Marvel. Dirigido pelo competente Bret Rattner (Dragão Vermelho), que pouco mudou na trama conduzida com precisão cirúrgica por Bryan Singer (responsável hoje por outro super-herói, que em breve voará novamente nas telas do mundo inteiro), o novo X-Men tem mais ação, muito mais mutantes (tirando as promessas do segundo, Jubileu e Noturno, que não repetem seus papéis aqui) e um pouco mais de ritmo que os anteriores, arriscando-se em cobrir ainda mais períodos dos quadrinhos: depois de dada como falecida no último filme, Jean Grey ressurge como a Fênix, com poderes incalculáveis e segredos só agora revelados (no que difere um pouco da origem da personagem nos quadrinhos) e se alia a Magneto na guerra contra a cura, alardeada por uma empresa de bioquímica como uma possibilidade de transformar mutantes em pessoas comuns. Assim, mutantes morrem, outros perdem poderes e uma intensa reformulação é feita, para a surpresa dos não iniciados no universo dos 'action comics', onde personagens morrem e renascem constantemente - falando nisso, atenção ao fim dos créditos, onde uma grande revelação sugere uma ponte para uma nova leva de filmes...

Quase que sem querer, aproveitando a oportunidade e o horário da sessão, o último filme do dia (já à noite): Missão Impossível 3, terceiro filme de uma franquia já cansada e sem identidade (cada filme foi dirigido por um diretor diferente, devendo ser considerado como de crédito unicamente o primeiro, do mestre Brian dePalma), cujo personagem "de ligação" ainda é vivido pelo produtor Tom Cruise, o Ethan Hunt da série original (sem esquecer do personagem vivido pelo sempre bom Ving Rhames, presente em todas as produções). Com muita correria e muitas seqüências de ação, a "trama" quase não dá espaço para o tão alardeado vilão vivido pelo excelente Philip Seymour Hoffmann (oscarizado neste ano por Capote) e termina por enterrar a série como apenas um filme ligeiro de ação. Nada de mais! Somente filmes demais para um dia só...

sábado, 24 de junho de 2006

Chico 5 em 1

SEMANA ESPECIAL CHICO BUARQUE
Ao longo de 40 anos de carreira, Chico Buarque gravou aproximadamente 35 discos, fora álbuns especiais em outras línguas (como o Italiano, nos dias difíceis na Roma do autoexílio), songbooks e outros trabalhos com suas canções (trilhas de suas peças gravados por outros artistas), quase 10 DVDs e inúmeras coletâneas. Difícil dizer qual teria sido o seu melhor disco, tamanha a constância na qualidade de todos os seus trabalhos – por isso, além da dificuldade de definir uma "melhor canção", seria quase impossível dizer qual dos discos de Chico teria trazido mais obras-primas: teria sido Francisco (1987), com pérolas como Velho Chico e Todo Sentimento? Talvez Chico Buarque (78), com hinos contra a Ditadura Militar como Cálice e Apesar de você? Ou ainda o seu débutChico Buarque de Hollanda (66), com a fineza de sambas antológicos da esplêndida estreia, como A Rita e Olê, Olá

Realmente, não é tarefa fácil para ninguém, que dirá para um fã ardoroso de sua obra completa como este pobre escritor que vos fala... Por isso, tentando reduzir o "multiverso" deste tão fantástico compositor, minimizemos o dilema com a reunião de muitos destes clássicos na também já clássica compilação Chico Buarque, 50 Anos  em que, se não foi possível juntar todos os maiores e mais populares títulos de sua extensa produção, pelo menos o hercúleo trabalho do crítico Tárik de Sousa na escolha do repertório foi, dentre todas as coletâneas, a que mais se aproximou da perfeição!

Infelizmente, tal perfeição não acompanhou o box: a coleção de 5 CDs não traz qualquer material extra, como encartes com fotos ou letras das músicas. No entanto, Chico Buarque, 50 Anos, além de genialidades como Samba e Amor, Construção, Cotidiano, Você vai me seguir, Bye, Bye, Brasil, Geni e o Zepelim e Até o fim, traz suas gravações originais (14 por CD, desde 1966 até 1994, ano de lançamento da compilação, com inúmeros relançamentos) de acordo com as várias facetas do eclético compositor: assim, temos o disco O Amante, área em que foi inconteste; O Trovador, tal como nos tempos áureos do Pré-Romantismo; O Cronista, marca maior de sua obra, cheia de atos e personagens; O Malandro, estilo que carreia do Velho Samba carioca e coroado com a trilha de Vai Trabalhar, Vagabundo, filme de Hugo Carvana; e O Político, veia onipresente, especialmente ao longo dos negros anos da Ditadura...

Apesar de então já conhecer alguns clássicos como A Banda, Meu Caro AmigoO Meu Guri, "descobri" Chico Buarque por volta dos 14 para 15 anos, conhecendo mais a fundo o Mestre maior da nossa MPB ao garimpar LPs cheios de encartes com informações sobre sua vida e obra (viu como tais extras fazem falta, gravadoras?), pelas casas de amigos e parentes. Nem preciso dizer o quanto ouvir esta coletânea, recebida de aniversário, mês passado, de minha querida Jandira, é uma grata e rica viagem... Porém, deixo aqui uma ressalva: para quem começou ouvindo Chico em LP, é curioso como o universo orquestralmente grandioso das suas gravações (especialmente as dos anos 70, de discos fantásticos como o famoso "disco da samambaia", com Feijoada Completa) parece tão reduzido e esterilizado na tão alardeadamente superior qualidade de um compact disc... Não concordam?

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Chico Vital

Tijolo por tijolo num desenho mágico, Chico começou como compositor e cantor (e um ótimo intérprete, diga-se de passagem, ainda que pesem as más línguas: voz precisa e melodiosa, acompanha com afinação as suas notas mais difíceis), lançando o excelente disco Chico Buarque de Hollanda (66), indo na contramão da Bossa Nova e voltando às raízes do samba de Noel e outros bambas. Depois veio o "Chico da Mídia" dos festivais e da TV, o Dramaturgo (com pérolas como A Ópera do Malandro), o Chico Ator (como no bom e excêntrico filme de Cacá Diegues, Quando o carnaval chegar, de 72), o Chico Escritor (com uma esplêndida Literatura, a evoluir da sua Música, como no labiríntico Estorvo) e, na casa dos 60, o Chico Documental, com uma série de DVDs a reunir sua obra de acordo com cada faceta (Cinema, Teatro, Futebol...)... Por todo o talento destes 40 anos de carreira: Chico, Deus lhe pague! Por isso, em continuidade à SEMANA ESPECIAL CHICO BUARQUE, a homenagem vem na forma de versos, que rabisquei em homenagem a uma de suas canções mais perfeitas, Samba e Amor...
Samba e Amor, TV, Poesia e Vazio

Vejo televisão, falo ao telefone
Como pão e faço versos
Até mais tarde
E tenho muito sono o dia todo, o tempo todo
Sem o colo da companheira ou o corpo do violão
Me ressinto no ardor da correria do dia
E da profissão,
E tenho um monte de gente
Para quem prestar satisfação
(Especialmente para mim),
Gente que contorna a minha cama
E que reclama de meu quarto fechado,
Abafado
– Por que é tão difícil adormecer
E acordar e renascer...
E em meio ao certo e ao direito
E à minha preguiça tão covarde
Eu tenho é mais poesia que fazer...

(Dilberto Lima Rosa, 2004 Poemas, 2004)

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Craque Chico 62

Ô, Bussunda: não teve a menor graça... Menos engraçado ainda foi aquele jogo de ontem: Ronaldo e Roberto Carlos escorregando e tropeçando nas próprias pernas; Dida saindo nas horas mais erradas; Ronaldinho Gaúcho na defesa... Algo tem que ser feito urgentemente! Haja coração... Vai passar?

Mas hoje é aniversário de um dos maiores craques da Música: 62 anos de Francisco Buarque de Hollanda. Tombemos esse dia como feriado nacional, em louvação ao mestre maior da MPB (num tempo que esta sigla já teve mais valor), de onde já emanaram tantos gols de placa em canções perfeitas, com letra e música num casamento perfeito de um ataque dos sonhos! 

Ao mestre, com carinho, por Construção, Cotidiano, Pedro Pedreiro, Januária, A Rita, Cara a Cara, Samba e Amor, As Vitrines... E pelo seu futebol, em letra, música e chuteiras canhoteiras, o obrigado de uma nação que inspira Futebol e expira Chico, professor e técnico maior!

Iniciando a SEMANA ESPECIAL CHICO BUARQUE, e aproveitando a série ROTATÓRIA ESPECIAL FUTEBOL deste mês de junho, publico hoje, de autoria de Chico, O Futebol, tal como nas próprias palavras do mestre: "há certos momentos de genialidade no futebol, daquela capacidade de improviso, alguns relances que acontecem no futebol, que artista nenhum consegue produzir"... Que a Seleção te ouça, meu caro amigo!

O futebol
Chico Buarque/1989
Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)

1989 © - Marola Edições Musicais Ltda.

domingo, 18 de junho de 2006

Pra Frente, Morcegos!

E hoje é o grande dia: finalmente a Seleção vai demonstrar se mereceu mesmo todo aquele entusiasmo mundial (esmaecido depois da fraca partida de abertura) ou se vai entregar a Copa para aqueles jogadores de rúgbi disfarçado de futebol... E no Cine Morcegos de hoje, nada melhor que lembrar um grande filme sobre o polêmico entusiasmo com o tri de 70 sob o punho pesado da Ditadura (cuja canção-tema é tocada aqui, mais pela beleza de hino em que se tornou que pelo simbolismo macabro e cego daquela época...).

Cine Morcegos

"90 milhões em ação, pra frente, Brasil, do meu coração"! Assim conclamava a clássica e polêmica marcha de 1970 de Miguel Gustavo, em pleno período áureo da Ditadura Militar... Assim, enquanto centenas de pessoas "desapareciam" nos porões dos DOI-CODIs, uma nação inebriada pelo brilhantismo de Pelé, Tostão e Rivelino vibrava o simples fato de ser brasileiro, em meio ao então iniciado "milagre econômico". Este é o cenário real onde se desenrola a trama de Pra frente, Brasil, um dos maiores clássicos do Cinema Nacional, dirigido pelo sempre competente Roberto Farias (do excelente Assalto ao Trem Pagador, também com o irmão famoso, Reginaldo): produzido em 1983, quando da abertura política brasileira, o filme narra as desventuras de um pacato cidadão de classe média que, confundido com um ativista político, é preso e torturado por agentes federais em plena Copa de 70.

Vencedor do prêmio C.I.C.A.E., no Festival de Berlim, e dos prêmios de Melhor Filme e Melhor Edição no Festival de Gramado, Pra Frente, Brasil é um dos poucos filmes que retratam as atrocidades cometidas durante esta negra página de nossa História... E, a despeito de algumas limitações técnicas da época, o filme tem direção impecável, aula de roteiro e atuações memoráveis (Fagundes, Farias e um inesquecível Zara, apesar de uma Natália do Vale deslocada, em início de carreira), sendo Cinema-Denúncia de qualidade num período em que os brasileiros começavam a acordar da letargia dos tempos de chumbo... E é com um trecho deste memorável roteiro que eu termino o Cine Morcegos de hoje, com um libelo contra qualquer tipo de dominação ou manipulação – até mesmo através do Futebol!
INT Avião
Sarmento - Tenho a impressão que desta vez o Brasil ganha o tricampeonato.
Jofre – É? Toda vez que a Seleção sai daqui vaiada ela acaba ganhando lá fora.

O avião chega ao Rio. Desce no Aeroporto Santos Dumont. Na fila do táxi, Sarmento é o primeiro. Jofre está logo atrás. Para um táxi. Sarmento vai entrar. Volta-se.

Sarmento – Você vai para onde?
Jofre – Vou para o Centro.
Sarmento – Quer aproveitar o táxi?
Jofre hesita, sorri e entra. O táxi parte.

O rádio do carro transmite um noticioso: "O Governo do General Onganía decretou, ontem, a pena de morte na Argentina. Carlos Lamarca é condenado a 24 anos de prisão em São Paulo, por furto de armas. O Presidente Médici afirmou ontem que é preciso que se tenha bem presente que o desenvolvimento de países em processo de explosão demográfica não prescinde de atrair créditos internacionais de ajuda a investimentos ou de exportar riquezas naturais, visando ao aumento da renda nacional. União Soviética lança em órbita terrestre nave Soyuz..."

Uma Veraneio azul com cinco homens começa a seguir o táxi. Jofre e Sarmento conversam animadamente. Não estão prestando atenção ao noticioso. Jofre sorri.

Jofre – Engraçado, a gente conversou esse tempo todo e ainda não se apresentou... (Tira um cartão). Meu nome é Jofre.
Sarmento, recolhendo o cartão – O meu é Sarmento. Só que eu não tenho cartão. Eu te procuro.

A Veraneio emparelha com o táxi. Um homem armado grita:
Dr. Barreto – Para esse carro!

Sarmento reage imediatamente. O homem simpático de momentos atrás torna-se violento. Saca de uma arma e ordena:

Sarmento – Toca esse negócio. Mete o pé!
Jofre – Que é isso, rapaz? Pára com isso?
Sarmento – Não enche o saco, porra! Fica quieto.
Dr. Barreto – Encosta!
Jofre – Você está louco, cara? Está louco?

Sarmento atira na direção do Dr. Barreto. Um dos homens do Dr. Barreto aponta uma metralhadora e dispara na direção de Sarmento. Sob a estupefação de Jofre, Sarmento é atingido várias vezes. Jofre se encolhe atrás do banco. Sarmento cai por cima de Jofre, mortalmente ferido.

EXT Táxi
O táxi roda, desliza e sobe a ilha que separa as duas pistas. Os homens saem de dentro do outro carro. Comem para o táxi.

Mike – Puta que pariu! Matei o cara.

Jofre é puxado de dentro do táxi com violência. Cobrem-lhe a cabeça com um capuz, metem-no dentro do carro e partem. Por sobre o corpo de Sarmento começa-se a ouvir o entusiasmado locutor anunciando para dentro de alguns instantes o início do primeiro jogo do Brasil na Copa.

Locutor – "... E vem aí mais um campeão de audiência do escrete do rádio, Jorge Cúri: Alô, alô, amigos brasileiros! A seleção brasileira inicia hoje, 03 de junho de 1970, no Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara, a disputa da Copa do Mundo, visando à conquista do tricampeonato, já que o Brasil foi o vencedor em 1958 e 1962... O Brasil joga pelo Grupo..."

(Roberto Farias, trecho do roteiro original de Pra Frente, Brasil, páginas 2 a 4)

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Uma vela para a Poesia

"Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiar"... "Só não se sabe fé em quê"! Mais um feriadão para uma fé cada vez mais esvaziada e mais um dia para não se fazer nada: feriado para a Igreja continuar fechada, o Brasil seguir parado, Ronaldo continuar irado ("O que terá Ronaldo?!")... Acendamos uma vela diante da imagem fria e aqueçamos a fé no mês de todos os santos...
Uma Vela no Altar

Poesia
Na chama da vela, a tremular,
Tardia,
Ao aguardar a dura e triste sorte
Sombria
De guardar em si mesma a própria morte...
Esguia,
Frágil e humana vela no altar
Da guia:
Luz que queima só na sacristia
Vazia,
Prostrada acesa ao pé de uma imagem
Tão fria,
Queimando a vida e a fé de passagem
- Magia
Que acaba, sem força, em pleno dia...

(Dilberto Lima Rosa, 2004 Poemas)

sábado, 10 de junho de 2006

Romancing...


O Cine Morcegos de hoje relembra alguns filmes que marcaram as retinas apaixonadas de namorados de todas as épocas. Minha mãe, por exemplo, sempre falava de Doutor Jivago (1965), porém mais pelo "Tema de Lara", da bela trilha sonora de Maurice Jarre e eternizado nos anos 60 com a banda brasileira The Jordans, do que pelo frio clássico do Mestre David Lean. Já uma senhora, um pouco mais velha que mamãe e dona de uma locadora, acabou por me convencer um tempo atrás a alugar Candelabro Italiano, por ter sido o "filme mais romântico" que ela já havia visto... Resultado: quase duas horas de uma xaroposa e vazia excursão à Itália, sem conteúdo nenhum, mas que, de alguma forma, marcara muitas moçoilas daquela época – inclusive minha mãe.

Difícil estabelecer uma "lista padrão" de filmes de Romance, subgênero do Drama geralmente mais lembrado pelas mulheres, com estilos dos mais diversos, que vão desde comédias românticas – como os inteligentes Harry e Sally: feitos um para o outro (1989), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) e A história de nós dois (1999), de Rob Reiner, ou a simpática Sintonia de Amor (1993), com a dupla Tom Hanks e Meg Ryan – até dramalhões lacrimosos – como o clássico setentista do tema mais tocado das caixinhas de música, Love Story (1970), o mais recente Amor além da vida (1998) e sua inesquecível direção de arte digital e, como não poderia deixar de ser, Titanic (1997), fenômeno de bilheteria repleto de clichês no famoso navio naufragado... Como se pode ver, a coisa toda já variou bastante de tom ao longo dos tempos.

Jandira também tem seus favoritos e, depois de ao longo dos anos ter acompanhado comigo todos esses que citei, no ano passado me convenceu a assistir com ela a Diários de uma paixão (2004), filme interessante mais pelo paralelo drama do elenco idoso que pela história de amor adolescente que alinhava o filme em flashback. Já eu, apesar de não tão apetecido pelo estilo, posso dizer que também tenho os meus favoritos – de épocas distintas e com abordagens bem diferentes, ambos são belos e intensos filmes inesquecíveis e atemporais: o primeiro, um clássico absoluto, vencedor de três Oscars e um dos mais completos filmes de todos os tempos, Casablanca (1941), e o versátil, moderno, inteligente e sensível Antes do amanhecer (1995), merecedor de uma igualmente ótima continuação, em 2004, Antes do pôr-do-sol.

O romance, sem dúvida, sempre terá espaço no Cinema, em qualquer época – na profundidade de uma grande história de amor ou na superficialidade de um divertido romance de verão, como subgênero dramático principal ou simplesmente como adorno secundário e paralelo de uma história. E, na dificuldade de abarcar este complexo universo em apenas um post, elenco a seguir alguns outros belos exemplares de minhas memórias, como grandes filmes que são, que não poderiam ficar de fora. Engraçado, uma curiosidade que acabei de me dar conta: a maioria das histórias cinematográficas de amor aqui lembradas não têm final feliz... 
 
                             
Comédias românticas (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1977), "dramédias" existencialistas (Eu sei que vou te amar, 1986), dramas e musicais trágicos (Último Tango em Paris, 1972; O marido da cabeleireira, 1990; Moulin Rouge - Amor em Vermelho, 2001) e romances trocados (Closer - Perto Demais, 2004): tem estilo de filme de Romance para todos os gostos!

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Para Adriana,
Obrigado por tudo!
Dilberto

Ronaldinho amarelando novamente, Brasília arroxeando-se nos hematomas da Câmara e o meu bolso sem uma verdinha... Com a Copa finalmente começando, acabo por preferir mesmo outras cores, algo como o preto e o vermelho. Não, não me rendi ao excomungado rubro-negro: meu coração futebolístico continua alvinegro e cruz-maltino altaneiro! Na verdade, hoje, dando uma pausa no Futebol, é tempo de celebrar a vida e volto às minhas memórias e raízes musicais com dois discos de minha coleção de que gosto muito...
Há cerca de uns 8 anos, por volta da época do Clube dos Amantes do Cinema, ganhava então o meu primeiro CD da famosa banda de Liverpool (até então eu só tinha fitas k-7): no meio da correria de mais uma exibição de uma de nossas mostras de filmes no SESC-Deodoro, eis que chegava a eternamente festejada e adorada blogmaster Adriana (6 anos depois, ela seria a responsável pela minha inserção neste louco mundo virtual) com o meu então presente de aniversário atrasado – tratava-se do já clássico disco Beatles - Past Masters Vol. 1, o famoso "disco preto" do seu grande revival dos anos 90, predominantemente com alguns dos primeiros sucessos da fase iê-iê-iê, sendo alguns cantados também em alemão, relembrando o sucesso inicial no atual país da Copa (como mostrado no filme Backbeat). 

Nem preciso dizer o quanto adorei, especialmente vindo de uma das maiores "beatlemaníacas" que conheço! E o que dizer quando, uns 4 anos depois, quando da compra de um segundo exemplar para ela mesma, eis que sou ofertado com outra ótima coletânea dos "besouros": Beatles - 1 conseguia a quase impossível tarefa de reunir o melhor da banda, como os adorados sucessos Help, A ticket to ride, We can work it out, Eleanor Rigby, Can't buy me love, All you need is love (que toca ao fundo, já antecipando o romantismo do dia dos namorados) e Something, de \geroge Harrison (que Sinatra considerava a mais bonita canção romântica já feita)!

O engraçado é que nunca mais comprei disco algum dos Beatles, tamanho o preenchimento que estes me causaram! Nada daquelas mais que clássicas e maravilhosas capas... Até porque, no mundo do som digital, satisfaço-me mesmo com as coletâneas de músicas que eu só tinha em LP ou K7. E é só! Não me deterei a falar do óbvio, de como esses caras criaram uma das maiores bandas de todos os tempos e de como ela influenciaria os costumes e fundamentaria o rock como o conhecemos: afinal, "tudo de que precisamos é amor" e "vamos juntos, agora mesmo" – "segure minha mão", "olá e adeus"!

domingo, 4 de junho de 2006

Cine Morcegos

Mês de junho no ar e, depois da Retrospectiva 2 Anos, a cada semana teremos um novo tema cinematográfico em evidência. Nesta "primeira sessão", um olhar sobre o universo da atual animação, mais especificamente uma novidade dos estúdios Disney em sua primeira empreitada em 3D sem a parceira Pixar.
Apesar de um relativo relacionamento platônico com Abby, a Pata Feia,
Runt "Raspa de Tacho" parece abrir caminho para
personagens gays em animações.
Um Marco na Disney!

A novidade do estúdio do camundongo não reside no lançamento do seu primeiro longa em 3D (o último a usar a animação tradicional foi o simpático Irmão Urso) nem por se tratar de um novo clássico instantâneo (com obras-primas como Fantasia ou O Rei Leão, há muito deixa a desejar). Não, meus queridos blogueiros de plantão, Chicken Little, lançado em DVD já há alguns meses, tem seus méritos, mas sua inovação consiste mesmo em apresentar um aspecto pouco debatido na Disney: o primeiro personagem gay da animação norte-americana. Apesar de outros personagens terem antes ventilado a temática (como no clássico Bamby ou no fraco O Cão e A Raposa, com alguns bichinhos, digamos, efeminados), normalmente a coisa toda se restringe a uma infantilidade "mais exacerbada" no trato com algum bichinho falante!

Refilmagem de um curta homônimo da própria Disney, de 1943 (melhor e mais sombrio, metáfora sobre os riscos da propaganda de guerra), neste Chicken Little temos uma divertida estorinha com cara de episódio de série animada sobre um galinho adolescente, menor que a maioria de sua idade, que acredita que o céu esteja caindo e, por isso, acaba aprontando inúmeras confusões numa pacata cidadezinha. E, entre os bichinhos impopulares amigos do Galinho, está um porco covarde, gordo, infantilizado e perseguido por seus colegas de escola – até aí, nada além da velha fórmula dos "perdedores do colégio", tão comum no Cinema infantojuvenil ianque. No entanto, Raspa do Tacho (adaptação em Português do nome do porquinho, Runt) coleciona escondido de seus amiguinhos os discos da Barbara Streissand, adora as Spice Girls, canta como uma garotinha quando tocam Lollipop e, na sequência mais importante do filme, toma coragem ao ouvir o grito de guerra de sua música favorita, I Will Survive, espécie de hino consagrado das drag queens.

É, o mundo está realmente mudando – e até o mais conservador estúdio do mundo começa a se abrir para as diversidades do mundo atual e apresenta às crianças um personagem infantil diferenciado, comumente marcado por preconceitos. E, mesmo que na maioria das vezes somente os pais entenderão as referências, Chicken Little inova para além das belas novas técnicas digitais: afora a temática homossexual, explora outros motes bastante atuais, como a necessidade do diálogo entre pais e filhos e a diversidade racial: na cidadezinha cosmopolita com cara de cartoon, vemos todos os tipos de animais: de mamíferos como bois e ovelhas, até um peixe, que anda em receptáculos cheios de água (o personagem mais engraçado do filme). Algo com que talvez o velho e reaça Walt nunca tivesse sonhado, em 1937, quando do lançamento de Branca de Neve e Os Sete Anões... Será que não, mesmo?!

sexta-feira, 2 de junho de 2006

"NO PAU!"

Salve, queridos blogueiros e torcedores de plantão: eis-me aqui encerrando a SEMANA ESPECIAL "RUMO AO HEXA". Depois de mencioná-la, no último post, como a "Copa da minha vida", publico hoje uma crônica inédita que sintetiza um pouco da magia daquela Copa de 1994 que, longe de ter apresentado o mais genial futebol, foi a primeira em que pude acompanhar, em sua plenitude e com mais maturidade, um título mundial...
A Magia de 94

O ano era 1994 e a magia estava no ar... Na verdade, não havia magia alguma em volta: quase não nos tínhamos classificado para a Copa do Mundo pela primeira vez na história dos mundiais e nunca uma Seleção deixava o País rumo a um mundial tão desacreditada (nem mesmo a de 1970); na escola, vivia eu então o nervosismo do terceiro ano do ensino médio, às vésperas do tão ansiado vestibular. Mas assim, no finalzinho das provas bimestrais de junho perto das merecidas férias, quando o Brasil se preparava para parar diante de cada televisor tão logo soassem as preciosas horas de cada jogo da Seleção, eu me lembro de uma sensação diferente no ar, fundindo aquele meu "último ano da inocência" do microcosmo de meu colégio com a maior paixão nacional...

Ainda me lembro do jogo das oitavas de final: depois dos satisfatórios resultados contra a Rússia, Camarões e Suécia (todos com gols de um baixinho em estado de graça), o povo se empolgou e parece ter passado a acreditar – e, no caminho que levava a minha casa na volta da última prova, era como se participasse do cenário de uma cidade fantasma digna dos antigos faroestes norte-americanos: era contra eles, os EUA donos da casa, que tínhamos que desafiar o traumático fantasma da "água argentina" na mesma fase em que tínhamos sido eliminados da Copa de 90! Mas, com mais uma vitória graças à mágica química entre Bebeto e Romário, a confiança naquela seleção que começara tão mal enfim se consolidou! Da minha parte, seria a última vez que os livros e fardas monocromáticas voariam para o longe depois das exaustivas provas, substituídas quase que magicamente pelo verde e amarelo das superstições de praxe!

Nas férias, a nova e melhor ocupação de todas: prostrar-se diante do televisor em clima de festa para esperar o Brasil de Romário, Bebeto, Dunga (até Dunga jogando bem? Mágica...) com chances reais de conseguir o caneco – especialmente depois daquele mágico chute encurvado de Branco no jogo contra a Holanda! Faltava pouco para que a magia desfrutada somente por nossos pais e amigos mais velhos, com o mágico time de 1970, pudesse ser novamente vivenciada... Passada a Suécia, com um mirrado gol de cabeça do Baixinho (de novo!), nada se compararia à final daquela Copa Mágica: a primeira final sem gols de um mundial, com tudo a ser decidido, pela primeira vez, nos pênaltis, o que corroborava o nivelamento mediano de todos os times envolvidos, especialmente dos melhores daquele ano, Brasil e Itália.

E chega o dia da grande Final! Logo no comecinho, o amigo Ricardo apareceu lá em casa, para assistir ao jogo, de surpresa. E tome xingamentos para cada gol perdido e para cada sufoco passado, que não foram poucos... Até que o absurdo acontece: empate em 0 x 0 mesmo depois de uma sofrida prorrogação e tudo já estava pronto para os pênaltis! Mamãe então ficou naquela de "não quero nem ver", afastando-se rumo ao corredor e voltando para observar o que saía; papai, meio na dele, porém de pé; Ricardo, também de pé, restando eu sentado, com um cabo de vassoura na mão, depois de ter derrubado sem querer aquele instrumento usado como bastão de ginástica por minha mãe... Respiração presa em suspense, o tempo parou de repente: o capitão Baresi, da Itália, primeiro a bater; acabava de passar o bastão para Ricardo para que fosse encostado adiante; Baresi desperdiçou chutando para fora! Vivas, urras e xingamentos de extrema alegria em comemoração: "Ricardo, vais ter que segurar esse pau junto comigo até o final dos pênaltis, para dar sorte!", no que caímos na gargalhada com o duplo sentido cretino digno da quinta série! 

Mas Ricardo, obviamente, não concordou... Como Futebol é magia, não deu outra: o zagueiro Márcio Santos chutou forte, mas em cima do goleiro Pagliuca, que não teve dificuldade em espalmar! Dali para a frente, Albertini e Evani converteram para a Itália. Com o azar escancarado pela "falta de fé" do meu amigo, ele voltou atrás e reconsiderou: Romário se preparando para bater, Ricardo aderiu à "corrente do pau" e tanto o Baixinho quanto Branco, na sequência, converteram seus pênaltis para o Brasil. Virou farra: "Segura no pau, Ricardo, que a gente vai ser campeão!"... 

E assim o goleiro Tafarel defendeu o seguinte, cobrado por Massaro, e o capitão Dunga colocou o Brasil em vantagem, com o placar marcando Brasil 3 a 2, faltando uma cobrança para cada lado: primeiro, o ídolo da Itália, Roberto Baggio, depois seria Bebeto o encarregado da cobrança... Mas não foi preciso: mamãe escondida; papai quase flutuando; Ricardo e eu segurando firmes o pau; e o budista italiano chutou por cima e para longe do travessão! Pela primeira vez, nossa geração podia comemorar a conquista de um título mundial no Futebol, assistindo tudo pela TV, só mesmo com muita magia e muita, mas muita mandinga... Tanto nos EUA como na minha própria casa!
"Olho no lance"... "NO PAU!!!"
 

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