quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

O ano de 2004 foi decisivo para mim em inúmeros aspectos. E, em um dos principais, o alimento da minha escrita, que andava um tanto quanto acomodada até então, foi ressuscitada graças a este dileto 'blog'! E, mesmo que 2005 tenha passado meio em branco na minha ainda breve história de vida, continuei com os Morcegos, ganhei novos e importantes amigos virtuais (abraço especial ao Júnio, que colaborou bastante para um Natal especial) e continuei com a maior tradição deste espaço virtual do ano anterior: a Vertebral! Nada melhor que reunir as 24 crônicas produzidas diretamente para este 'blog', ao longo dos seus dois endereços, somadas a uma especialmente escrita para a ocasião, editar como livro, e ofertar à mulher amada, o que fiz no último dia 23: Jandira recebeu, além de outros mimos, uma "edição especial" de como seria um livro com todas estas colunas que adorei escrever - mas que agora, delas "aposentado" desde agosto, só me resta publicar a Última Vertebral, inédita, especialmente escrita para fechar o ciclo de uma fase da minha existência, bem como para fechar o livro... Por isso, às vésperas de um novo ano, nada melhor que usar o próprio "tempo" como tema...


ÚLTIMA VERTEBRAL


Deparo-me com a página virtual em branco a acenar com uma despedida especial demais para mim: dou por fim a Vertebral e ainda tento celebrar a vida...

Sob meus auspícios poéticos de rimas deslocadas e sob a influência da reflexibilidade absoluta que envolve todo final de ano, penso sobre esta coluna que tanto me acompanhou e que me trouxe novo fôlego de vida: não, não falo notocordariamente, da coluna de vértebras que me sustenta, mas sim de outro suporte, o da minha alma, diante destas palavras postas em tabuleiros ideais da nossa tão quente língua, que freme até minhas mãos (que no computador se escreve com as duas), diante da tinta invisível da minha tela clara, que não me deixa calos por tantas penas descritas nestes vinte e cinco textos tão amados e que, graças ao frio mundo da quente rede global que me cerca há pouco mais de um ano, também angariaram amor além de mim, mesmo nunca tendo eu publicado nenhum livro em papel vivo...

Mas como diria o meu Trovador Soberano, então "me diz, me diz, me responde, por favor, pra onde vai o meu amor, quando o amor acaba?" - pra que me despedir desta crônica tão amada? Coisas do tempo, minha preta, minha branca, meus peões e meus reis de tempos que já se findaram: cada semana um jogo diferente, entre meus afazeres, entre meus tempos mortos sobre os livros, a imaginar cada estratégia única para melhor abordar aquele assunto que pululava por entre os jornais, as televisões e as bocas... O tempo cansa, assim como textos longos na internet, já diria quem já foi, e a idéia de um livro encerra qualquer jogo, a não ser que peçam revanche, como o fez o Gasparov diante do computador - sendo que, no meu caso, talvez o pessoal do computador é que me peça pra voltar...

E o tempo nada perdoa: são 28 anos divididos entre glórias e derrotas em formas desiguais, que muitos dos meus cabelos decidiram nem ficar para contar a história, tantos mundos e tantas vidas, que minha Vertebral se mostra hoje mais minha: se a cada semana ela contava as estórias dos outros pelos meus olhos, meu sangue também se perfez história! Como olvidar de sua criação o criador, quando o tempo que o gera é o mesmo que ele recria?

Meu tempo, hoje, talvez seja todo o tempo - e já se cansa a poesia! Pois toda semana se repete alguma coisa, e, no fim, a prosa da retrospectiva não deixa margem para mais nenhuma reflexão, "'tá tudo aí, para quem quiser ver"... E eu vejo de novo novela na Globo, e sinto o quanto o tempo é irônico, quando acompanho, majestosos, grandes vultos na telinha interpretando, diretamente do passado, personagens que eles mesmos já não são! Mário Lago, que se foi há uns três anos, está lá, ao lado do meu vilão favorito das chanchadas, o Lewgoy, e tantos outros desencarnados que sempre fizeram valer a pena ver pelo menos alguns capítulos de um folhetim televisivo... Mas não pára por aí, já que o autógrafo que jaz em uma velha agenda de 98 ainda revive a emoção de ter conversado com alguém tão talentoso como o Lago, que se apresentou àquela época em São Luís com seus sambas inesquecíveis a mim, a Jandira e a toda uma platéia embevecida no teatro Arthur Azevedo...

Mas não é outro o tempo que se fala por aí senão o nascer, o renascer e o morrer do mês de dezembro, onde inventaram o Natal por entre os sóis de um sol mais que real: cristão que sou, rio-me da fanfarra embrulhada em papel de presente de reflexão de botequim... Presenteemos quem amamos, e glória aos céus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! E viva os vazios "feliz Natal" por entre os amigos tão invisíveis quanto aqueles em que participamos, porque temos que nos confraternizar, tal como disse a mim Jandira - que todos em suas histórias objetivas já sabem ser minha noiva (tal como a Margarida com o Donald, que talvez ainda não se tenham casado por causa do pequeno salário que o pobre pato ganha na Patada...) - "Dil, vai para essa confraternização, mesmo sem mim"...

E lá estou eu, a conjecturar sobre o que dizer na minha última coluna Vertebral, em meio a uma garfada e outra de salpicão, quando tiros irrompem a rua em frente ao salão em que estávamos os amigos da academia. Corre-se, alarde e dois corpos semi-mortos no chão. Uma frustrada tentativa de assalto, a três casas ao lado daquela em que estávamos, acabara de resultar em três baleados: os dois assaltantes, que os policiais então torciam para que morressem antes de a ambulância chegar, e um delegado, que reagira com precisão não suficiente de lhe impedir dois alvejamentos, mas que já se encontrava no hospital para uma delicada cirurgia para a retirada dos projetis... Então eu vi que o tempo é e sempre será o maior tema de qualquer coluna que se queira manter de pé por tantos anos, mesmo depois de qualquer criador desencantado decidir dá-la por encerrada: amanhã sairão nos jornais locais este desenlace como mais um retrato da violência espalhada por este grande País desamparado e eu e o tempo continuaremos com muitas histórias para contar...

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