terça-feira, 13 de dezembro de 2005



Mas que coisa mais irônica: no dia do aniversário de um ilustre mestre, Luiz Gonzaga, o primeiro músico a assumir a nordestinidade representada pela sanfona e pelo chapéu de couro, cantando as dores e os amores de um povo que ainda não tinha voz (se vivo, completaria 93 anos), algum dono de gravadora inescrupuloso (ou algum presidente bêbado) resolveu decretar como sendo o Dia do Forró! "Nada mais justo", você pensaria de cara, uma vez que o Velho Lua imortalizou algumas obras-primas de nossa Música Popular Brasileira através de xotes, forrós, chamegos e baiões, tendo sido a designação genérica "forró", por muito tempo, utilizada como símbolo da música de raiz nordestina... O que é desalentador é ver o que se fez do forró nos dias de hoje, onde qualquer porcaria brega e vulgar de banda cearense ou pernambucana (e até paraense!) é chamada de forró, mesmo que sem uma zabumba, uma sanfona ou um triângulo! É, queridos blogueiros de plantão: se vivo, acho que o Rei do Baião (e do Forró também) não gostaria nada, nada desta tal "homenagem", a não ser que ressuscitassem o bom e velho ritmo e abrissem espaço para mestres do seu calibre...

Hoje, na ROATÓRIA, repito um texto da Coluna Vertebral de junho deste ano do extinto Weblogger onde criticava um Festival de "Forró" que então se realizava em minha cidade! Boa diversão e vale a pena ler de novo, pela ocasião!


VERTEBRAL
EDIÇÂO ESPECIAL


Aproximando-se o II Maranhão Forró Fest (o absurdo já chega a mais de uma edição...), aproveito o ensejo para "homenagear" este "ritmo" que vem demolindo os tímpanos de qualquer um com mais de dois neurônios na cabeça: a onda do New Forró - "new" porque, atualmente, outras modalidades aí se incluíram (como o tal do "calipso" paraense), restando todos reunidos num "estilo" único (não há mesmo como haver muitas diferenças naqueles "pi-pi-pi", "pi", "pi-pi-pi", "pi", "pi-pi-pi-pi-pi", emanados freneticamente por qualquer teclado de fundo de quintal). E tome bandas e mais bandas, no mais alto grau de breguice, a entoar "canções" sem um pingo de harmonia musical, "cantadas" pelos mais desafinados vocalistas (ou gritadas, melhor dizendo), com as letras e situações mais chulas, toscas, vagabundas, grosseiras e sem noção ("amor de rapariga", "você só quer me pegar e crau", "sou do signo de libra, escorpião, chega pra lá", "diz que me ama, me leva pra cama, acende essa chama", "acabou com a minha vida... você se foi ...acabou com a minha vida... você se foi..."!?!) já imaginadas por um ser humano em seu juízo perfeito, a cuspir na boa e esquecida tradição do forró pé-de-serra! E sem noção parece ser mesmo o comportamento dos seus "seguidores" (eles não escutam outra coisa, está para virar uma Religião!): além de conseguirem agüentar repetidas e repetidas vezes as mesmas "músicas", os loucos ainda obrigam todo o resto a ouvir a mesma coisa, já que só ouvem no último volume de seus carros incrementados (cujos porta-malas eles abrem com prazer a cada parada) ou nos potentes sons de seus lares.

A intenção era mesmo desentalar essa estupidez da garganta há um bom tempo... Mas não estou discutindo gosto - afinal, gosto é que nem você sabe o quê, cada um tem o seu, e não se discute, apenas lamenta-se: o que faço é discutir a imbecilidade da massificação a que estão sujeitas as pessoas hoje em dia. Sem as referências culturais de outras épocas, como Tom, Vinícius, Chico, Caetano, Gil, João Bosco, Paulinho da Viola, Noel, Luiz Gonzaga (esse bem sabia o que era - e o que ainda é - o legítimo forró!), Lupicínio, Cartola, Pixinguinha, Ary (e mesmo gente dos escalões "mais baixos", porém com certa qualidade, como Peninha, Fagner, Arlindo Cruz, dentre outros), que, se não estão mortos, só trabalham esporadicamente e sem a poderosa retaguarda da mídia (à exceção de Caetano, a quem só falta gravar os grandes sucessos do É o Tchan!), o grande público em geral vem sendo manipulado pela mídia há um bom tempo, que lhe vem enfiando goela abaixo as "lambadas", os "pagodes" mauricinhos, os "breganejos", os "axés" e, agora, chegando à coroação do ultraje absoluto, empurrando em todas as rádios (da região Norte-Nordeste, mais especificamente), grupos de uma música que, antes relegada apenas aos guetos dos cabarés dos mangues, aos bêbados sem porvir e às prostitutas de top e de short de lycra, é hoje tocada à exaustão por várias classes sociais, tudo como numa grande lavagem cerebral!

Gostem, ouçam (baixo, por favor) e desfrutem os vazios culturais de suas vidas com satisfação ("a vida é sua; estrague-a como bem entender", como bem diz o velho Abujanra), mas, acima de tudo, reflitam um pouco sobre o que os acompanha e abram suas mentes para outras influências além dos modismos sem qualidade alguma. Antes de expelir frases feitas, pensem sobre qual poderia realmente ser o seu "gosto" (musical, cinematográfico, televisivo, enfim, sobre qualquer manifestação cultural) se vocês se dessem ao trabalho de procurar conhecer outras realidades, antes de entregar-se ao nada... Lembrem-se ainda que, por comodismos, nosso País já passou por duas ditaduras, afora todas as políticas de exploração que se seguem até hoje... Não permitam, portanto, uma terceira ditadura: a do "eu vou aonde todo mundo for", capaz de gerar, além de problemas sociais mais sérios ainda, alguma futura ameaça musical pior que o atual "New Forró"!
 

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