domingo, 29 de janeiro de 2012

Resposta ao Tempo


Tenho uma teoria quanto a certas cantoras possuírem vozes que se confundem mesmo com os instrumentos que as acompanham: assim seriam Billie Holliday (podendo dividir-se em mais de um, como o piano e os metais de "If you were mine"), Maria Bethânia (violoncelo de "Fera Ferida"), Gal (guitarras em "Meu nome é Gal"), Marisa Monte... Já outras, num "segundo patamar", se suas vozes não se tornaram os instrumentos de seus arranjos, com estes elas têm o poder de se unir como uma luva: assim são Ella Fitzgerald, Amy Winehouse, Nana Caymmi... Ah, Nana: tenho-a redescoberto desde que "desenterrei" um dos melhores discos que já ouvi, Resposta ao Tempo, de 1998, seu primeiro disco de ouro (não só pela sua qualidade musical, como, particularmente, por ter sua canção homônima sido um estrondoso sucesso como tema de abertura da série-novela Hilda Furacão) e, se no ano passado eu fui às lágrimas com sua interpretação, neste mesmo disco, de "Não se esqueça de mim" (ao lado do "Tremendão" e co-compositor, Erasmo Carlos), agora foi a vez de me emocionar profundamente ao ouvir, em sua belíssima voz, os versos "E o tempo se vai com inveja de mim/ Me vigia querendo aprender/ Como eu morro de amor/ pra tentar reviver" do genial letrista Aldir Blanc...

Tudo bem que os arranjos do próprio Cristóvão Bastos, co-compositor da música, tornaram-se inesquecíveis (aquela introdução...), mas a Poesia de "crônica metafísica" do eterno mestre Aldir, quando a redescobri nesses versos, na voz casada aos arranjos de Nana, na semana passada, sozinho, no carro... Como levei tanto tempo para essa "redescoberta"? Talvez pelo hipnotismo que o arranjo da linda melodia, casado com a magnânima voz de Nana provocam... Por isso é que hoje faço questão de relembrar este lindo poema, começando a trilha de Play it again, Sam (coluna ao lado) não com a já clássica interpretação da filha mais velha do eterno Dorival Caymmi (essa eu deixei para tocar em seguida, com o igualmente lindo "Não se esqueça de mim"), mas com uma não muito famosa interpretação intimista do próprio Aldir Blanc... Letra e música com vocês, meus queridos blogueiros de plantão, pelo tempo que precisar...


Resposta Ao Tempo
(Cristóvão Bastos/Aldir Blanc)

Batidas na porta da frente
é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
argumento
Mas fico sem jeito, calado
ele ri
Ele zomba de quanto eu chorei
porque sabe passar
e eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
há folhas no meu coração
é o tempo
recordo um amor que eu perdi
ele ri
Diz que somos iguais
se eu notei
pois não sabe ficar
e eu também não sei

E gira em volta de mim
sussurra que apaga os caminhos
que amores terminam no escuro
sozinhos

Respondo que ele aprisiona,
eu liberto
Que ele adormece as paixões
e eu desperto
E o tempo se vai com inveja
de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
me esquecer
|

11 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR on 30 de janeiro de 2012 12:00 disse...

Comovente canção,Dilberto. A Nana é uma das nossas grandes intérpretes. Eu sempre me emociono ao ouvir NÃO SE ESQUEÇA DE MIM.


O Falcão Maltês

Janaina Cruz on 30 de janeiro de 2012 19:53 disse...

Essa canção é perfeita!

Já chorei e sorri criando poemas com ela tocando ao fundo...

Adorei esse blog!

Tentei segui lo, mas deu erro...

Jota Effe Esse on 31 de janeiro de 2012 08:25 disse...

Nostálgicas saudades tamanho família, Dilberto. Quem não se emociona? Meu abraço.

Camille on 31 de janeiro de 2012 12:06 disse...

Ola amigo,
Ontem entrei aqui, li sobre a Nana Caymi, ouvi a musica cantada pelo( Aldir Blanc?) e nao consegui abrir a caixinha de comentarios.
Vou confessar uma coisa: acho linda a voz da Nana, mas nao sei por que , a pessoa dela me passa uma antipatia enorrrme. Nao sei por que mesmo. O Dorival pai era uma figura com aquele jeitao de boa gente, os irmãos parecem meio paradinhos, mas muito talentosos. Agora a Nana, nao sei. Será que é impressao minha ou ela é mesmo meio cara fechada? Quanto as series do colegio, sua filha ainda é pequena e voce nao pegou a reforma que aconteceu, sei la ha uns 4 anos. O que era quinta serie virou sexto ano, ou vice-versa. Tiraram a palavra alfabetização do lance e ficaram so anos e series. ja me explicaram varias vezes mas eu nao entendi a logica ate hoje.
Boa semana!

Duarte on 31 de janeiro de 2012 14:19 disse...

Sem ler pareceu-me Lucília do Carmo, e até a grande Conchita Piquer, quando jovens! Talvez por isso, por não conhecer até hoje a esta Senhora.
Sim senhor, boa música, boa voz, uma letra excelente, um dossier completo, que mais pedir... aprendi, emocionei-me, e isso é o que realmente importa. Parabéns, por um bom trabalho!
Um grande abraço

Luci on 1 de fevereiro de 2012 17:41 disse...

perfeito. Aldir fala tudo que a gente sente e não sabe dizer...
Mushu tá lá te esperando...rs!!!
bj

cineboy on 1 de fevereiro de 2012 23:57 disse...

Nota dez!Essa música me lembra coisas de outrora,reminiscências de infância,saudade de algo que já passou. Admiro Nana Caymmi,mais ainda por ser filha do gênio Dorival Caymmi.Quanta coisa boa genuinamente brasileira.Parabéns por postar e falar sobre isso Dilberto!

Canto da Boca on 2 de fevereiro de 2012 10:22 disse...

Eu tive o privilégio de assistir a um show da Nana, em 2010, desnecessário dizer que foi uma retrospectiva emocional da minha vida, ali estavam eu e minhas memórias afetivas, embaladas pela voz dela. Que ainda por cima é uma pessoa simpaticíssima, agradável, e teve a delicadeza de cantar seu repertório mais conhecido, em um teatro Guararapes abarrotado de pessoas. Ela também foi às lágrimas algumas vezes, dado o tom do espetáculo.
Para mim é uma das grandes cantoras do país (e do mundo), e disseste bem, Dil, a voz dela é também um instrumento, nesse aspecto te trago outra espetacular intérprete, pouco conhecida, mas depois da Bethania, para mim é a voz: Ná Ozzetti, que não faz esforço nenhum para cantar, e comparando a maciez e a suavidade da voz dela, eu diria que é um veludo, e em Because - sucesso dos Beatles, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=aBr6pb4vAtA - com o André Mehmari - um fantástico pianista brasileiro - , os dois arrasam.
Tens aí aquele cd duplo, da Nana, daquela coleção, Bis? Odisco inteiro é fabuloso, e a Nana, dá uma nova roupagem às canções mais conhecidas de todos nós, também, em espanhol, emocionando em cada faixa. Adoro-a, obrigada pelo poste, suscitou ótimas lembranças, e já comecei o dia bem, lendo-te e escutando a Nana.
E eu também sou fã das composições do Aldir Blanc, prefiro-o em letras do que em voz, questão de gosto mesmo.

Abração!

;)

Por que você faz poema? on 2 de fevereiro de 2012 17:35 disse...

O tempo sempre
bate na porta da frente,
mesmo que seja apenas para cobrar.

Batom e poesias on 2 de fevereiro de 2012 18:02 disse...

Oi Dilberto.
Você tem me feito rir com seus comentários bem humorados nas minhas casinhas.
Pois é, veja você, meu amigo: Eu ando meio sem palavras.
Há de ser uma fase, pois tudo é nessa vida.

Bom, quanto à sua postagem, tenho a dizer que tenho essa música como uma das mais bonitas da MPB e gosto muito da voz da Nana, um dos timbres mais bonitos que já ouvi.
Entretanto (rss...), apesar do timbre maravilhoso, e do repertório incrível, tenho sempre a sensação de que ela nunca vai alcançar as notas agudas e me dá aflição.

Acho que sou meio doida.

Ah! Aldir Blanc é tudo de bom!

Bjs
Rossana

Souza disse...

Meu pai não gosta dela e costuma dizer que ela tem a voz muito grossa. Incutiu essa ideia na família toda! O legal foi quando um dia botei esse disco no carro e ele teve que dar o braço a torcer! Grande disco, grande post!

 

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