domingo, 30 de abril de 2006

MORCEGOS EM FESTA: ANIVERSÁRIO DE DOIS ANOS!



RETROSPECTIVA ESPECIAL
Minha Primeira Vez...


Como vocês poderão ver, a coisa toda não mudou muito de lá para cá, a não ser o fato de que o blog ficou muito mais visual com o passar dos anos (nesta minha primeira postagem, por exemplo, não havia uma só imagem, a não ser aquela que se tornou o símbolo deste blog, com o sinal do morcego numa lua um tanto quanto 'fake', que até hoje não sei onde minha amiga Adriana achou...) ou ainda a razão da 'ojeriza' inicial a respeito dos "diários virtuais", situação que, aos poucos, foi sendo atenuada com o conhecimento de ótimos diários de hoje parentes minhas - sem esquecer que eu mesmo, ainda que de forma tênue e discretamente imiscuída em textos literários, hoje também fale de meus arredores... Curiosamente, depois deste post, fiquei sem publicar por algum tempo, e o mês de maio permaneceu bastante irregular, até que o blog, no início do mês de junho, parou depois de "muita coisa ter perdido a graça...", até o final de julho, quando os Morcegos voltaram a voar e nunca mais, desde então, deixariam o espaço virtual (primeiramente no Weblogger, depois no Blogspot)... Com vocês, minha primeira publicação, na íntegra...


MORCEGOS
CINEMA, LITERATURA E ARTES EM GERAL


Eis que surjo no Espaço Virtual (ou Cyberspace, como querem os internautas profissionais), mais precisamente na página de um 'blog' (com aspas simples, por tratar-se um nome oriundo do Inglês; detesto estrangeirismos). E devo isto à minha diletíssima amiga, Blogmaster e amante dos Beatles, Adriana, ou "Drika4ever", para os "blogueiros" de plantão - foi ela quem me "convenceu" a entrar neste novo mundo, sem chance de retorno, e que me ajudará na dura tarefa de atualização deste espaço, uma vez que domina o universo de enxergar através da 'Matrix'...

Confesso que sempre tive preconceito com 'blogs', uma vez que, pelo próprio título em Inglês, "diários virtuais", nunca me sorriu a idéia de ter minha vida decupada em pequenos excertos do tipo "hoje comi uma lasanha maravilhosa na Casa Itália" ou "assisti a um ótimo filme na HBO"! Assim, se esperas isso deste espaço virtual, pode dar meia volta - quis um espaço para exposição de algumas idéias, juntamente com uma pequena mostra do que penso, do que gosto e do que já fiz na arte, incluindo também a interação com novas amizades, característica nº 1 de algo como um 'blog'!

Sem mais delongas, e sem entrar no vício maldito dos "diários", gostaria de fazer uma pequena apresentação de mim mesmo: meu nome é Dilberto, tenho 26 anos - próximo dos 27, aos 13 dias do mês de maio -, sou ludovicense, advogado, cinéfilo, escritor cronista, poeta e roteirista, apaixonado por minha eterna namorada e musa de plantão Jandira, e, nas horas vagas, coleciono livros, vídeos, discos em CD e em vinil, miniaturas de carros e de motos e pôsteres de Cinema - Cinema com letra maiúscula, como arte, o que mais encontrarás aqui...

Enfim, um novato na internet e um Amante do Cinema (já fui Presidente de um Clube de mesmo nome, um sonho megalomaníaco e formidável que anda em estado de dormência...), amante das mulheres (poeticamente falando, viu, Jandira?) e da boa música, da boa comida italiana, da japonesa e da brasileira, dos bons textos, de Drummond, de Chico e de Neruda, de Pixinguinha e de Cecília...

E sou fascinado por morcegos, por causa de meu personagem favorito dos quadrinhos e em função de meu primeiro poema, "Morcegos", de 1991, que publico pela primeira vez, ainda que virtualmente...

Morcegos

Sozinho
Esvaindo nas sombras
Surgindo do escuro
Sem ninguém por perto
Com medo de ouvir a própria voz...

...E a Lua era cheia, estava linda...

Ter que olhar para a Lua
Sem nada encontrar
Nada a declarar
Sem ninguém para quem confessar
A dor
De estar às margens da loucura
Cego de horror
Como morcegos a voar sobre minha cabeça
A grunhir em baixo tom
Querendo mostrar meu tormento
Ou imitar minha voz sofrida
Esquecida

...Como é fundo, é profundo...

O mundo da agonia...
A dor que me feria
Voltou.
Solidão
Apenas começou...

(Dilberto L. Rosa, 1991)

(Dilberto Lima Rosa, Apresentação: post do dia 27/04/04)

quinta-feira, 27 de abril de 2006

RAIOS...
RAIOS TRIPLOS!


Goleiro não pode falhar...

Como sofreu o grande Barbosa...


Hoje é dia do goleiro! Parabéns a este membro sempre tão subestimado numa partida de Futebol, desde as peladas do colégio - quando eu costumava jogar no gol... Parabéns a grandes mestres da área, como Yashkin, Barbosa (infelizmente lembrado mais pela "tragédia de 50" no Maracanã) e o atual craque Rogério Ceni, que anda mais que merecendo uma convocação na turrenta mente de Parreira... E, falando em Futebol, o Blog da Magui já começou a campanha rumo ao hexa e vem batendo um bolão em seus ótimos posts sobre o esporte bretão, a resgatar histórias maravilhosas e a narrar outros tantos fatos pitorescos!

Mais Uma Reunião da Família...

Participe da Comunidade dos Morcegos no Orkut, clicando no link acima!


Final de abril se aproximando e mais uma Reunião da Família à vista: como o mês é de aniversário para este dileto espaço virtual (e para mais alguns parentes queridos também), o tema será "Meu primeiro post": quando foi o seu primeiro post e como foi ele; há quanto tempo você transita por este vasto universo virtual - de forma contínua ou com interrupções sazonais; e qual foi o seu primeiro post (publicar, se possível, junto com a estorinha de cada um)! Não deixe de comparecer e de colocar a conversa com a família em dia, no próximo domingo, dia 30!

Mas só chove, chove...


E por aqui, na Ilha do Amor, chove muito, há dias, e tardes, e noites e madrugadas também... Oscilação de energia elétrica com tanta água e pouca NET em casa... Isso me lembra um poema...


Quadras no Espelho d'Água

Faz-se maduro
O verso fraco,
Ou se fez fraco
O céu escuro?

Pelo meu choro
Sangrou-se a chuva,
Ou de uma chuva
Se fez meu choro?

(Dilberto Lima Rosa - Pentalogia da chuva - Poema Quarto)

domingo, 23 de abril de 2006

Um Gênio de Sonho

Adeus, Mestre Telê, tu que já deixavas saudades há mais de 10 anos, desde teu afastamento do futebol por causa do AVC... E parabéns, Mestre Nélson, pela entrada pioneira e especial de um cineasta na ABL - aguardem 'posts' de homenagens aqui neste espaço... Mas hoje, encerrando a SEMANA ESPECIAL GÊNIOS NACIONAIS, volto a outro gênio que há muito já deixou esta 'terra brasilis' mais empobrecida: hoje é aniversário do gênio maior Alfredo da Rocha Vianna, o Pixinguinha  e, não por acaso, é também celebrado o Dia do Choro (por isso, este mês de abril veio permeado pela flauta de Altamiro Carrilho ao fundo, com o clássico "Odeon", de Ernesto de Nazareth), gênero inicial de nossa Música! E, aproveitando mais um domingo de Restrospectivas, republico hoje esta crônica poética feita no ano passado, com um passeio onírico pela vida deste gênio simples... Saravá, Pixinga!



RETROSPECTIVA
Crônicas Poéticas

Semana Especial Gênios Nacionais


Às vezes me pego numa velha cadeira de balanço a divagar sobre, nessa vida, onde é mesmo que termina o sonho e começa a realidade... Divagar é modo de dizer: mais penso no que os grandes poetas já disseram do que realmente crio coisas novas (como quando penso nos sonhos de Fellini, poeta da imagem, em seus oito e meio...). Ainda assim, teço minhas teias antes que o sono me pegue...

Em meu saudosismo quase patológico, envolvo-me na pureza (ou na idéia de que ela exista) da melodia mais perfeita e me sinto tragado pelas pastorais de Beethoven ou pelas estações de Vivaldi (aí é que a divagação fica completa!) e logo penso que antes do branco era o preto e que antes da melodia havia o batuque: passo a imaginar um preto alto, magro, desajeitado, com a cara marcada e a boca de aparência desdentada, e dela sai o mais belo som de flauta, tão bonito quanto uma pastoral ou uma estação (ou ainda uma variação bachiana), porém mais pungente  tem malícia, tem ginga, um tempero todo diferente...

E que venha o piano, o saxofone e o instrumento que for, que o preto toca! E arranja (coisa nova até então) e compõe e orquestra para quem não sabe ler partitura e reinventa a música que antes só se via branco tocar... E segue o sonho, com o preto sendo aplaudido pela brancarada de todo lugar, de Paris a Buenos Aires, com Vila Lobos, Stokowski e Gnatalli a se babar - até o rei belga vinha se encantar! E tal como um Mozart, com um Sallieri em seu encalço, o preto, por vezes esquecido, ou ainda perseguido pela bebida, foi tantas vezes invejado e injustiçado pelos Lacerdas da vida... Mas o preto, danado que só ele, acabou passando por cima de tudo, macumbou em Macunaíma, ensinou contraponto por tabela a muita gente, abrasileirou os clássicos europeus juntamente aos sambas africanos (criando um lamento novo, como num choro de criança que nasce) e ainda morreu como santo na igreja, em pleno carnaval...

Às vezes penso (ou sonho, ou divago...) se Pixinguinha mesmo existiu... Afinal, todos tantas vezes o viram de pijamas que chego a pensar se ele, ingênuo com toda aquela sua pureza, não estaria dormindo e sonhando sua música perfeita dentro de meu próprio sonho... Teria ele mesmo nascido (em 1887, em 1888, em 1933...), no Catumbi ou na Piedade? E o apelido: viria do Bexiguinha da varíola ou do Pizindim do menino bom (e teria mesmo tido ele uma avó africana?)? Eu me pergunto se esse preto batuta e genial realmente existiu ou se tudo não passou de um devaneio da Música Brasileira, que quis um dia nascer autêntica e acabou tomando carona no sonho dos acordes desse mestre...

Acho que sofro porque quero e vivo perdendo a noção da realidade de propósito... Acordo, de repente, com o tocar do telefone e me pego com uma rosa no colo, ouvindo Carinhoso no rádio antigo, divagando tristemente naquele tempo maravilhoso que não vivi, a me embalar tetricamente na grande cadeira de balanço da casa do meu tio-avô, que adorava Pixinguinha e que hoje já não existe mais em lugar algum além de nas minhas melodiosas recordações...


quinta-feira, 20 de abril de 2006

Ontem, dia 19, parabéns ao Roberto Carlos (65 anos) e à índia Maria das Dores de Oliveira Pankararu (42), a primeira índia doutora no país, no dia mais que esvaziado dos índios... Mais hoje, no segundo 'post' da SEMANA ESPECIAL GÊNIOS NACIONAIS, o destaque vai para o "belo" e imortal Manuel Bandeira, 120 anos depois do seu nascimento... Há muito o poeta já recebeu a visita da "mais indesejada das gentes" e se foi para "Pasárgada", juntamente com uma infindável e perfeita obra poética... Ainda que "vivendo sempre como que provisoriamente", uma vez que a tuberculose o perseguisse desde muito cedo (quando tinha apenas 18 anos), Bandeira poetizou até os 82 anos, quando se foi, vítima de hemorragia gástrica, em 1968.

Apesar de não ter tido ainda o prazer de conhecer-lhe a obra completa, dentre seus livros e poemas maravilhosos destaco como minha obra favorita Libertinagem (1930, considerado, por muitos, o livro de maior amadurecimento do poeta recifense em termos de liberdade estética), onde constam alguns de meus melhores textos, como Não sei dançar, Mulheres, Pneumotórax, Na Boca, Teresa, Evocação do Recife e aquele que se tornaria o seu poema mais conhecido (e que parece ter sido o que mais demorou para ser feito, sendo a palavra Pasárgada oriunda de um autor grego lido pelo poeta aos 16 anos) - Vou-me Embora pra Pasárgada, "a vida inteira que podia ter sido e não foi", no dizer do próprio Bandeira, no seu eterno sonho do "vou-me-emborismo", cultivado desde a adolescência, espécie de pequena síntese de seu viver poético...

Como fica impossível sintetizar a obra deste mestre em tão poucos poemas, uma vez que eu mesmo gosto de tantos outros, de livros diversos (como Boi Morto, Consoada, Lua Nova, Variações Sérias em Forma de Soneto, Neologismo...), dou por encerrada esta breve homenagem, não sem antes viajar por dois poemas: o primeiro, o seu famoso e magistral (e meu favorito) Vou-me Embora pra Pasárgada; o segundo se perfaz em derradeira vassalagem, num poema de minha autoria, Feio... Ao Mestre da derradeira Estrela da Vida Inteira, com carinho...


SEMANA ESPECIAL
GÊNIOS NACIONAIS
Manuel Bandeira



VOU ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro bravo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito a beira do rio
Mando chamar a mãe-díágua.
Pra me contar histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóides à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

FEIO

Feio feio minha feia
Tenho só o que odeio
E nada por que anseio
Odeio-me a calva e o esteio
E a falta de dinheiro
Anseio anseio
Pelo aberto do dia
Pela rica poesia
Por viver de minha pena
Pelo filho que ainda não veio
Anseio por um novo neologismo
E pela velha Pasárgada
Em Teodora (ou em Teresa)
Busco o antigo seio
No poema que medeio
Entre Bandeira e eu...

(Dilberto Lima Rosa)

terça-feira, 18 de abril de 2006

Hoje, iniciando a SEMANA ESPECIAL GÊNIOS NACIONAIS deste mês de abril, trago o aniversário de um grande nome de nossas letras, sempre lembrado pela rica obra infantil num tempo muito anterior às tolas colchas de retalho dos Harry Potters de hoje em dia, especialmente graças às primeiras versões televisivas do Sítio do Picapau Amarelo (1978 a 1984) - já que a atualmente exibida pela Globo é melhor ser esquecida... Falo de Monteiro Lobato, um polivalente artista cujo maior pecado foi ter-se insurgido tão ferozmente contra a Semana de Arte Moderna, justo ele, um antropófago cultural no melhor sentido da palavra!

Há 124 anos nascia este pintor, tradutor, promotor público, fazendeiro filho de Taubaté, jornalista, editor e escritor lutador incansável por um Brasil para os brasileiros, vítima da ditadura de Vargas ("Só serei 'imortal' se puserem esse grande gênio fora de lá a pontapés", diria, referindo-se a Getúlio Vargas) e árduo combatente pela Democracia, o pai de Urupês, do Jeca Tatu, de Narizinho, de Emília e de tantos sincretismos culturais que tão brilhantemente criou, Lobato foi um injustiçado não só ao longo de sua vida, como ao longo também da minha: li apenas Emília no País da Gramática, uma de suas obras-primas e o mais original de quantos livros se escreveram até hoje, graças às inventivas metalinguagens, onde a língua é representada como uma cidade, a cidade da Gramática, para onde segue o pessoal do sítio, montado no rinoceronte! Ainda volverei à sua obra e voltarei a ser criança, com certeza, como o menino maravilhado com as estórias de D. Benta e de todo o sítio na Grécia, diante da televisão, nos longínquos anos 70...

Hoje, na ROTATÓRIA ESPECIAL, transcrevo alguns trechos de uma página maravilhosa a este mestre dedicada, a www.lobato.globo.com, onde, dentre outras coisas, você poderá saber mais sobre seus múltiplos talentos, bem como conhecer a refinado humor contido em muitas de suas célebres frases, algumas aqui também apostas...

ROTATÓRIA ESPECIAL


Na sua maior parte, a obra de Monteiro Lobato é o resultado da reunião de textos escritos para jornais ou revistas. Comprometido com as grandes causas de seu tempo, o criador do Jeca Tatu engajou-se em campanhas por saúde, defesa do meio-ambiente, reforma agrária e petróleo, entre outros temas que continuam atuais. Ele arrebatava o público com artigos instigantes, que hoje, vistos de longe, constituem um precioso retrato de época, um painel socioeconômico, político e cultural do período. Dono de estilo conciso e vigoroso, com forte dose de ironia, utilizava uma linguagem clara e objetiva, compreensível ao grande público. Lobato revelou o mundo rural, então ignorado pelos escritores de gabinete que ele tanto criticava. "A nossa literatura é fabricada nas cidades", dizia, "por sujeitos que não penetram nos campos de medo dos carrapatos".

Monteiro Lobato jamais escondeu sua paixão pela pintura e gostaria de ter cursado uma escola de Belas Artes. Por imposição do avô, seu tutor após a morte dos pais, acabou entrando para a Faculdade de Direito. Desistiu das artes plásticas e se fez escritor, numa transposição vocacional com reflexos em toda sua obra. Mas nunca se conformou com isso: "No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério (...) arranjei este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras". Em 1909 chegou a participar de um concurso de cartazes no Rio de Janeiro, colaborando com desenhos para revistas como Fon-Fon e Vida Moderna, além de ilustrar a primeira edição do livro Urupês. Na década de 1910 tornou-se um dos mais importantes críticos de arte na cidade de São Paulo. Pintou até os últimos dias de vida, e nos legou histórias cheias de cores e de formas como se fossem quadros.



"Tentei arrancar de mim o carnegão da literatura. Impossível. Só consegui uma coisa: adiar para depois dos 30 o meu aparecimento. Literatura é cachaça. Vicia. A gente começa com um cálice e acaba pau d'água na cadeia". São Paulo, 16/6/1904.

"Ando com idéias dumas coisas a Wells, em que entrem imaginação, a fantasia possível e vislumbres do futuro - não o futuro próximo de Júlio Verne, futurinho de 50 anos, mas um futuro de mil anos. (...) Se a terra dos meus canteiros mentais não for propícia a essas sementinhas, então é que não estou destinado a ser o H. G. Wells de Taubaté, e paciência". Taubaté, 17/12/1905.

"A maior delícia da minha vida de roça é justamente lidar com pintos, com perus, com bois e cavalos, e do bípede humano só me meter com esta insuficiência mitral que é o caboclo da roça. Mesmo assim, só lido com eles através do "administrador", a ponte de ligação. E o caboclo ainda é a melhor coisa da nossa terra, porque analfabeto, simples, muito mais próximo do avô Pitecantropo do que os que usam dragonas ou cartola, e se dão ao luxo de ter idéias na cabeça, em vez de honestíssimos piolhos". Fazenda, 19/9/1912.

domingo, 16 de abril de 2006

Páscoas antigas...

Hoje se celebra a Páscoa (e não na sexta-feira, dia da expiação da Paixão...), comemorando-se, na Igreja Católica, a ressurreição de Jesus, o Cristo, depois de todo o sofrimento, vencendo a morte... Independentemente de religiões, e mesmo para os não cristãos, esta é, com certeza, uma época de reflexão: sempre é tempo de se enxergar algo mais que nossa frágil e insignificante existência, e sempre é tempo de sentir a vida como algo mais que o simples "aproveitar" os prazeres que ela nos possa proporcionar... Feliz Páscoa, com muita paz e renovação de fé a todos que querem crer! E hoje aproveito a oportunidade para, na RETROSPECTIVA deste mês de aniversário dos Morcegos, republicar a crônica "Gosto da Páscoa", do ano passado (quando ainda no Weblogger), sob o tema das "datas especiais", sempre marcadas com os devidos textos neste humilde espaço virtual...

RETROSPECTIVA
DATAS ESPECIAIS



Gosto da Páscoa, sempre gostei. Acho linda toda a história que me foi passada com maestria por minha mãe desde a minha tenra infância, quando ainda voltava para casa com a cara pintada de coelho...

Como minha história sempre foi pontuada pelo Cinema, não poderia esquecer-me das "Sessões da Tarde" daqueles doces tempos: toda Sexta-feira Santa, a Globo exibia O Rei dos Reis, com aquele hollywoodiano Jesus loiro e de olhos azuis do Nicholas Ray, naquela maravilha de Technicolor e de Cinemascope que até hoje impressionam... Hoje passa qualquer coisa (até Loucademia de Polícia IV eu já vi!) e, ultrapassada que está a época das "programações temáticas" (acredito que hoje em dia só a Record ainda mantenha a tradição, por causa dos "profetas do Apocalipse" da louca Universal, ainda exibam algo para lembrar a data, cinematograficamente falando, com o longo e frio Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli), tem havido meio que um esvaziamento dos reais sentidos da Páscoa: sem a ajuda da televisão, as pessoas parecem que acabam esquecendo...

Minhas reminiscências de infância ainda me fazem estranhar o fato de ver hoje pessoas a farrear com bebedeiras e muita música alta (sem falar no ato de comer carne, "mortal" para os mais fervorosos), ainda que não tenha vivido - e seja contra - os tempos duros da infância de meus pais, onde tudo era pecado nesta data, verdadeiro luto exagerado até para quem não comungasse da religiosidade da mesma (meu pai, por exemplo, eterno agnóstico não assumido, sente o "peso" do período pascal até hoje)... Justamente por isso, aos poucos, nem mais consigo desejar "Feliz Páscoa", mas só e tão somente "bom feriado", mais mundano assim mesmo, porque parece que reflexão ficou coisa para a gente fazer depois de morrer - e não digo isso por conservadorismo, não, cada um com seu cada qual: só não vejo como os feriados possam ser apenas "feriados", há sempre algo a mais por trás, especialmente para tempos tão anticristãos...

E falo tudo isso para cristãos ou não (a Páscoa dos judeus, por exemplo, é cheia de reflexões muito ricas e pungentes sobre o êxodo do povo hebreu do Egito, liderado por Moisés), para todos de uma forma geral: gosto da Páscoa como um renascer (ainda que não o faça com a intensidade com que talvez deveria), independentemente de religião. Gosto dos ensinamentos sábios de Jesus e da sua ressurreição (a fé eterniza)... Amo lembrar o momento solene das três horas da sexta, quando mamãe lembrava a morte do Filho de Deus (às vezes até o tempo colaborava, com raios e trovões justamente nessa hora, dando mais impacto para a minha cabecinha de criança), e de lembrar das disputas pelos chocolates com o meu irmão Dilemberto (que hoje é ateu!)... Gosto de assistir a todas as produções que retratem a Paixão do Cristo (apesar de não ter apreciado muito o filme homônimo de Mel Gibson, aqui vai publicada uma foto extraída do mesmo, com um Jesus mais perto da realidade)... Gosto de me lembrar das Páscoas de outrora, com o meu saudosismo invadindo até mesmo a minha fé...

(Dilberto Lima Rosa, Morcegos - Weblogger - abril de 2005)

sexta-feira, 14 de abril de 2006



Florbela

A flor, à beira do precipício,
À mercê da tempestade
A flor é fina, a flor tem bossa,
A flor tem charme

Simplicidade à beça
Em volta, a flor é calma
Em sua lucidez há revolta
Na inteligência de sua pétalas

Ri alto, que a flor é alegre
Quem vem depressa quase nem vê
No salto para o infinito
Que a flor permanece ali

À tarde, a chuva murmura
À noite, o demônio espreita
À flor nada é preciso
Do alto de sua melancolia

A flor é frágil
Na redoma que nem percebo
A flor vive uma doce infância
Perdida na terra presa

A flor agride que nem percebe
Espinho agudo, duro chão, veio aberto no céu
A flor é bela, a flor é incauta,
Minha doce Adriana, és verdadeira prosopopéia

(Ainda que não saiba ela
Da flor de meu poema
Que cresce ao léu
Em meu pobre solilóquio)

O sol e a lua no alto
A natureza bela do vale em volta da morte
A flor, entregue, absorve o veneno da vida
E fotosintetiza a dor da eternidade

A flor, à beira do precipício
A flor, à beira da tempestade
A flor tem vida eterna
No fundo da retina de quem a viu só de passagem...

(Dilberto L. Rosa, À beira do derradeiro solstício)

terça-feira, 11 de abril de 2006



Aproveitando o quase feriadão, finalmente assisti a dois filmes que há tempos tentava: no cinema, já nas suas últimas exibições, de Woody Allen, Match Point - Ponto Final (mais um título esdrúxulo da série "título seguido da sua tradução", como Sin City - A Cidade do Pecado, que, desta vez, parece ter-se dado em função de outra produção já registrada com o mesmo nome), e, em vídeo, Old Boy, o interessante filme coreano do renomado diretor Chan-wook Park.

Ponto Final (2005) é Crime e Castigo, de Dostoyévski (citado, inclusive, no filme, através de livros de sua obra, lidos pelo protagonista), com algumas modificações. Melhor dizendo: é Crimes e Pecados (outro filme de Allen, por sua vez, adaptação livre do romance do mestre russo), só que mais seco e estilizado! Desta vez, Nova Iorque é substituída por uma Londres cinzenta e melancólica, porém linda, iluminada apenas pela norte-americana dourada e cheia de vida (Scarlett Johansson, muito bem e sensual) ? é ela que faz com que o outrora pacato e sem maiores ambições professor de tênis (vivido por um oscilante Jonathan Rhys-Meyers, atual tipo de apostas arriscadas do diretor em cima de novos talentos) saia dos eixos e passe a questionar seu frio casamento com uma rica herdeira inglesa. O filme é um Allen mais sério e duro, com forte crítica social; com edição, fotografia e roteiro (do próprio diretor) esmeradíssimos e injustamente ignorados pela Academia; e com uma interessante troca do costumeiro 'jazz' por árias de ópera, o que ajuda a construir a densidade da trama... Entretanto, não consegue sair ileso: há uma relativa demora para que a trama saia do drama para o suspense, e a grande mudança da personagem de Scarlett enfraquece o meio final. Mas nada que comprometa este belo trabalho maduro de um diretor que vem conseguindo, finalmente, um grande e merecido sucesso mundial de bilheteria!

Old Boy (2003) é trabalho que segue uma linha mais extravagante... É comercial (nada hollywoodiano), violento (nada explícito, porém), mas inteligente! Trata-se de mais um filme acima da média (baseado num mangá de sucesso)do diretor Chan-wook Park, com um cinema mais ou menos popularizado por Tarantino nos últimos anos (não por acaso, ardoroso fã do diretor coreano e que teria chorado em sua exibição em Cannes, de onde o filme saiu com o Grande Prêmio do Júri), graças a trabalhos ecléticos como Pulp Fiction: Oh Dae-su (vivido pelo ótimo Min-Sik Choi) é um encrenqueiro que vive se metendo em confusões, até ser misteriosamente preso num quarto de hotel, com banheiro e televisão, por quinze anos... Quem o prendeu lá? O que há de verdade na sua vida? Quem poderá ajudá-lo a descobrir a verdade? Serão essas e outras perguntas que acompanharemos juntamente com este estranho personagem desde a sua estranha saída do cativeiro até o final levemente "redentor"... Segundo filme de uma "trilogia da vingança" (cuja primeira parte se deu em Sympathy For Mr. Vengeance, e que, de acordo com boatos recentes, já teria um 'remake' confirmado em Hollywood, com Russel Crowe no papel principal), o filme passa longe dos atuais balés estilizados e modorrentos do cinema oriental: é mais cru, cinema de rua, com soluções mirabolantes e um tanto quanto bizarras e/ou forçadas (como a rápida adaptação do personagem à vida real), que, apesar das inclinações para o incesto e para o 'gore' (como corte de língua e polvo vivos sendo ingeridos...), vale a pena conferir, mesmo para aqueles não iniciados no "gênero" - que, por neste caso, é extremamente difícil de definir...



A Bela e a Fera...

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Salve, queridos blogueiros de plantão: nesta sexta a Micha bolou mais um tema para sua comunidade dar a opinião: o de hoje é "Amor X Dinheiro", sobre os probleminahs financeiros do nosso relacionamento de cada dia...




POST COMUNITÁRIO

Quando se é adolescente e a mesada contada nunca dá para muita coisa, geralmente os jovens da classe masculina recorrem a certos ardis na hora do namoro. Coisas como dividir a água de coco com a desculpa de ser "mais romântico" tomar com dois canudinhos no mesmo coco ou ainda convidar a garota para o cinema, chegar mais cedo e esperar por ela lá dentro para não ter de pagar a dela também são recursos básicos que muitos já usaram - e atire a primeira pedra o rapazola que não o fez!

Com o tempo, pós-universidade, na barra do descobrir que estágio não era emprego e que você terá muito mais dificuldade em garantir o seu polpudo salário de "formado" ao final do mês do que imaginava, fica mais difícil (e bem mais feio) aplicar os velhos golpes adolescentes com a nova namorada, especialmente os rapazes que, querendo impressionar, não admitem deixar de pagar a conta - e, por isso, nunca mais levaram a moça para além da lanchonete da esquina!

E é aí que entra a maturidade de um bom casal: afinal, numa relação séria, nada melhor que autenticidade, com tudo dividido, inclusive os problemas financeiros! Sem crise e sem o velho machismo de não admitir que a mulher ganhe mais ou que, num determinado período, ela arque com as despesas! Afinal, estamos nos tão sonhados anos 2000, e, se não se puder abrir este divã com a mulher amada, para que serviu então a tal "liberação feminina"?

Falando um pouquinho da vida pessoal, por muito tempo Jandira, empregada numa grande firma de processamento de dados, arcou com as despesas das saídas, dos jantares e das necessidades básicas de um então casal de namorados, enquanto eu terminava os estudos atrasados na faculdade... Algum tempo depois e a situação era mais ou menos essa, até que, recentemente, ventos mais auspiciosos já me garantiram alargar um pouquinho o enxoval para o casório - e tudo numa boa, já que, quando sobrava algum, sempre usei e abusei de mimos para compensar minha tão dadivosa companheira!

E é assim que a estória tem que ser: por mais que doa na mente masculina ter de passar por um aperto duradouro e não poder participar com a caça, tal qual o seu ancestral do tempo das cavernas, resta o imaginário coletivo, mais recente, do "felizes para sempre, na riqueza e na pobreza" dos contos de fada dos tempos amargos atuais...

quarta-feira, 5 de abril de 2006

"O bom menino não faz pipi na cama/o bom menino não faz malcriação"... Foi-se o último palhaço televisivo, do tempo em que loiras platinadas, imbecis e vulgarmente enfeitadas nem sonhavam em entupir seus "baixinhos" com subprodutos infantis horrorosos! Carequinha (George Savalla Gomes, 90 anos), morreu nesta madrugada, no Rio, e junto com ele uma tradição antiga e esquecida de artistas circenses que se preocupavam com seu público infantil...




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E o Millôr retorna à ROTATÓRIA deste humilde espaço virtual, sem aquela "palavra com f", mas com um 'hai kai' inteligente e preciso, como tudo que este genial polivalente sempre faz!




Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.


Millôr Fernandes

domingo, 2 de abril de 2006



Abril: mês de aniversário nos Morcegos! Isso mesmo, meus queridos blogueiros de plantão, parece que foi ontem, mas já há quase dois anos completos (26/04/04) invado esta terra de ninguém e nela conheci pessoas encantadoras, inteligentes, amigas e as chamei de parentes; recebi visitas de outras tantas que, hora ou outra, dão as caras e trocam ótimas experiências em comentários sempre bem-vindos; graças a este dileto espaço, ganhei e perdi, escrevi muito, inspirei-me a reorganizar minha obra e a voltar aos projetos dos meus livros... Tantas as emoções, que as dividirei com todos vocês ao longo deste mês, repleto de novidades que, aos poucos, serão reveladas! Até lá, não deixem de conferir o novo Comentário do Mês (não teve jeito: deu Sérgio Ronnie na cabeça de novo, com sua acidez política! Continuem criativos!), desfrutem da nova música (a obra-prima de Ernesto Nazareth, Odeon, arranjado e executado pelo mestre Altamiro Carrilho, na flauta) e a seção Retrospectiva, que, todo domingo, recordará um 'post' que, por uma razão ou outra, marcou a história dos Morcegos - hoje lembro a morte do Papa João Paulo II, que se foi há exato um ano...

RETROSPECTIVA
ATUALIDADES



Apesar de nunca ter gostado do grupo Engenheiros do Havaí, na canção O Papa é Pop, Humberto Gessinger, inteligentemente, definiu um conceito de antropofagia no mundo pop ao lembrar a figura de Vossa Santidade ("O Papa é pop/ O Papa é pop /O pop não poupa ninguém/ O papa levou um tiro a queima roupa/ O pop não poupa ninguém..."). Porém, mais do que um ícone popular através de sua simplicidade (foi ele o primeiro Papa estrangeiro e de origem humilde) e de sua mentalidade conciliadora (capaz de visitar quase o mundo inteiro, em peregrinações nunca antes realizadas por um líder religioso), Karol Josef Wojtyla, ou João Paulo II, foi, sem dúvida, um dos homens mais importantes do século XX - sem contar os anos vividos no século XXI... Incansável nas lutas contra as desigualdades e as intolerâncias, não só sociais como também as políticas e religiosas, o Papa, falecido no último sábado, dia 2, conseguiu ser um homem maior que a própria Igreja que representava, tamanha a dimensão e o respeito de sua figura, mesmo diante de muitos não católicos.

Confesso que, mesmo não sendo católico (meu 'religare' é cristão, ainda que sem nenhuma "filiação religioso-partidária"), emocionei-me quando, ao chegar à casa de minha noiva, esta me anunciou que "o Papinha morreu" - acho que assim todos o sentiam, carinhosamente, diante de sua saúde frágil e de seu corpo idoso e debilitado, porém incansável... E a minha emoção ocorrera em duas vertentes: a primeira e óbvia, concernente ao reconhecimento do notório homem que foi João Paulo II; a segunda, mais pessoal, remontava ao meu avô, morto no ano passado com quase a mesma idade que o Papa, e depois de muito sofrer em longas, penosas e seguidas internações em hospitais, semelhantemente ao pontífice - os dois, fisicamente, até guardavam traços físicos bem parecidos...

Infelizmente, meu avô não pôde despedir-se de mim; o Papa, pelo menos, pôde comunicar-se, ainda que em silêncio de agonia, por uma última vez com seu amado povo de irmãos, católicos ou não, tal como se deu no último dia 27 de março, na Praça São Pedro: sem poder articular uma palavra sequer, João Paulo, depois de completar sua missão até o fim de seus dias, despediu-se com um aceno, em meio às fortes dores, seguido do lento fechar das cortinas do terraço da Basílica de São Pedro... A bênção, João de Deus!

(Dilberto Lima Rosa, www.dilbertolrosa.weblogger.weblogger.com.br - 'post' do dia 02/04/2005)
 

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