sábado, 28 de fevereiro de 2015

A Inesperada Virtude da Surpresa...


Qualquer semelhança com a realidade... É mero deleite de loucura e criatividade!


E, num estalar de dedos, eu me vi imerso naquele universo rapidamente proposto nos primeiros instantes de exibição, onde minhas memórias de um ator agora velho na telinha (baixei o filme da internet e o vi no TV de casa), vivendo um ator, em sua estreia no Teatro, atormentado com o seu passado no Cinema onde seu maior feito fora protagonizar um antigo super-herói, remetiam diretamente a um ator jovem, recém-saído de comédias tresloucadas dos anos 80 e cujo maior feito até então fora um fantasma maluco numa Comédia de Fantasia - e que em nada o gabaritava a viver um super-herói nas telas pouco tempo depois, no meu saudoso ano de 1989... O mais curioso é que esse remetimento era proposital e fazia parte do jogo intrincado de Birdman OU A Inesperada Virtude da Ignorância : brincar, até o limite, com o fôlego e com a inteligência do espectador desde o seu mais tenro início, não parando por aí com seus divertidos jogos metalinguísticos, onde o proposto labirinto continua por entre deliciosamente longos planos-sequência, que aprofundam, por sua vez, a peça e o filme dentro do filme, igualmente cheios de referências ao mundo real do entretenimento atual!

E deu muito certo: se, de cara, fica fácil perceber muito de trabalhos anteriores, como o já clássico Cisne Negro, a originalidade da firme direção e do divertido roteiro do premiado Iñárritu (21 Gramas, Babel e Biutiful) e seus compadres chicanos, por incrível que pareça, acrescenta uma leveza cômica ao consagrado tema do afundamento de um artista em si mesmo e em suas fracassadas tentativas de doação extrema por um ideal. Sim, o filme é uma Comédia, onde se consegue rir não só de um inspiradíssimo Edward Norton como o insano astro hollywoodiano que inferniza tudo em volta, como também do desespero patético do personagem de Michael Keaton, que tanto quer ser reconhecido como um ator sério ao produzir, escrever e dirigir um peça na Broadway, que tem que, em dado momento, atravessar, somente de cuecas, todo o quarteirão que separa a porta dos fundos do teatro até a sua entrada principal, durante o espetáculo, por causa de um vacilo de extremo nervosismo - o que acaba virando sucesso viral instantâneo nas mãos dos seus saudosistas admiradores e demais passantes, todos de celulares nas mãos: muitas camadas de reflexão por sobre adoráveis metáforas modernas em apenas poucos minutos!

Outra metalinguagem divertidíssima: aquele velho ator, que marcou uma geração ao dar ao mundo o primeiro grande Batman do Cinema - e, com ele, abrir as portas da frente de Hollywood para as grandes e intermináveis superproduções atuais de super-heróis - e que, com o passar dos anos, foi gradativamente esquecido em papéis menores em pequenas comédias ou filmes de ação, é o mesmo que agora, velho, deixa as caretas e os maniqueísmos de lado (que interpretação enxuta e sincera a de Keaton: bravo!) para interpretar um maravilhoso lunático dominado pelo id do super-herói fictício Birdman (não, não é quele da Hanna-Barbera...), seu maior sucesso de muitos anos. Sem esquecer que quase todos os atores do elenco principal já haviam vivido experiências com heróis dos Quadrinhos - Norton foi o Hulk, Emma viveu a famosa Gwen Stacy do Homem-Aranha... Um deboche para com os próprios atores envolvidos (num ataque visceral à atual indústria descartável do Entretenimento e sua produção em série de adaptações de celebridades como heróis de HQs), ou uma contundente homenagem àqueles que não se rendem à loucura que é viver da arte num universo tão facilmente destrutível - tal como se dá com uma simples e ácida crítica jornalística, capaz de derrubar todo um coletivo envolvido até o pescoço com um projeto autoral? Acho que o final redentor de Birdman facilmente responde a estes questionamentos...

"Autoral" seria mesmo o termo mais adequado para definir Birdman... Surge um novo estilo, a "Comédia Iñárritu" (densa e com cara de tragédia)?! Só o tempo - e os próximos projetos - deste criativo mexicano, da mesma excelente "safra latina" de Cuarón e DelToro, para dizer! O certo é que a inventividade autoral também marcou outro dos famosos "concorrentes" ao Oscar deste ano, como o interessantíssimo Grande Hotel Budapeste, maravilhosa "Comédia Wes Anderson" (este, sim, já um estilo consagrado, tanto como um "Filme de Almodóvar", por exemplo): muito além de sua excelência técnica de "filme de visual", trata-se de uma inteligente viagem farsesca em homenagem a antigas Comédias do Cinema, com um genial Ralph Fiennes em sua liderança, laureado apenas com estatuetas "técnicas"... Ainda bem que nem tudo estava perdido: a malfadada premiação da tal da "Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood", costumeiramente ávida somente pelos ricos 'lobbys' de produções milionárias e campeãs de bilheteria em suas premiações, resolveu, de vez, enxergar os "artistas de fora" e suas "produções menores" ou mais "independentes" e autorais.

Afinal, goste ou não, o Oscar é uma instituição consagrada e, ainda que eternamente se torça o nariz para os "jornalistas" que insistem em tachá-la de "a maior premiação do Cinema mundial" (e Cinema, ou qualquer outra arte, precisa mesmo de "premiação"?!), agora parece tentar reverter seus maiores pecados (Titanic?!) ao dar mais espaço aos independentes e mais liberdade aos discursos de recebimento em sua cafona cerimônia - onde tivemos belas defesas de igualdade entre os sexos nos salários cinematográficos, protesto por mais igualdade racial e libelo em prol do direito de ser diferente... Não venceu "o melhor" na sua opinião? Boyhood, o desafio cinematográfico de Linklatter de 12 anos de filmagem em torno do crescimento de um menino em meio a seus problemas familiares merecia mais que um simples prêmio (o de atriz, para Patricia Arquette)? Não saberia dizer... Dos 8 concorrentes principais, só vi mesmo os dois filmes em destaque neste humilde texto - sendo que assisti a Birdman minutos antes da premiação, já sabendo que ele seria o grande "ganhador", dada a temática tão cara aos "acadêmicos" de premiar quem fala de sua indústria (ainda que de forma tão irônica e mordaz). 

Uma pena que eu não aposte mais, como o fazia com antigos amigos: este ano seria barbada, mesmo com o tal Whiplash, a grande zebra da noite, correndo por fora... Porque não se precisa ver cada um dos filmes feitos para saber que rumo tomam: O Jogo da Imitação parece mesmo uma colcha de retalhos clichês com uma pequena discussão de perseguição homofóbica de fundo e uma bela interpretação de Cumberbatch; A Teoria de Tudo deve ser bonito somente pela interpretação física da degeneração do corpo do adorado físico Hawking; Selma aparenta seguir as fórmulas já batidas da emoção fácil ao se falar do racismo estadunidense; e Sniper Americano mantém a eterna cara de mais um comovente libelo aparentemente reaça e republicano de Eastwood até emocionantes instantes finais, onde o veterano cineasta venha a nos provar o contrário (vide o interessante Grand Torino)... Cinema norte-americano tem mesmo uma cara, assim como o Oscar, mas nada impede que deles se extraiam camadas interessantes - Birdman e Grande Hotel Budapeste fizeram isso com maestria e ao grande público só resta bater palmas pelas gratas surpresas e deliciosas agulhas descobertas no palheiro... Ou estalar os dedos para uma nova realidade!


O Grande Hotel Buspeste
Sejam todos bem-vindos...!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Baticumbum!

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Se alguém me perguntasse o que seria mais pungente no carnaval, eu poderia dizer, sem nenhuma dúvida pessoal de estar sendo injusto com o infinito mosaico de pessoas e cores que compõem a festa maior, que, por trás das cada vez mais decupadas e chatas coberturas televisivas dos desfiles e demais apresentações das escolas de samba e dos blocos das mais variadas culturas deste imenso reino carnavalesco chamado Brasil, é mesmo o som da percussão que me arrepia e me levanta o adormecido folião que jaz latente em qualquer brasileiro – assim, para além da beleza inconteste das nossas negras e morenas miscigenadas e seus figurinos do lado de baixo do Equador (onde não existe pecado, como diria a velha canção), das plumas e paetês das fantasias mais luxuosas e da criatividade alegórica de tantos ilustres anônimos, eis que, quando as câmeras mais penetrantes conseguem passar por todas essas camadas superiores e flagram os suados homens (e algumas poucas guerreiras femininas), junto aos seus agogôs, atabaques, reco-recos, repiques, surdos e tamborins, a fazerem aquele som coletivamente magnífico, eu me emociono de verdade e sinto a força de uma identidade nacional!

Sim, pois, quando o assunto é carnaval, eu sou conservador! Mas é óbvio que não me refiro à sagrada putaria contida no imaginário popular ligada à festa momesca, mas, sim, à sua essência, que deveria sempre ser respeitada, porque, ainda que não haja samba, ritmo maior oriundo da Mãe África, essa espécie de grande provedora do negro e miscigenado carnaval brasileiro, que haja ritmos calcados na batucada! Então, perfeitamente aceitos e bem-vindos como baluartes consagrados as bandas de frevo e maracatu, os blocos de percussão (do Akomabu ao Olodum), as marchinhas – tanto as velhas e mais lentas, como a rancho, quanto as mais novas e aceleradas – e, até mesmo, como no caso do meu lindo Maranhão rico em negritude de ritmos percussionistas de toda época, o Tambor de Crioula, que também circula facilmente nas épocas juninas, ao lado do Bumba-meu-boi! Jogar Funk, Reggae, Sertanejo e os atuais carros-chefes do estilo brega, o “Arrocha” e a imundície-de-corno da tal “Sofrência” numa festa carnavalesca, acho uma tremenda duma insolência!

E já que os tambores é que realmente marcam a alma de uma avenida, seja ela a principal via de um bairro ou a Marquês de Sapucaí, nesta terça gorda de carnaval eu invoco as mais pungentes baterias para criar mais uma lista especial, com os (pouco mais de) cinco clássicos do melhor do samba rasgado sobre o tema, daqueles que fizeram História a louvar este sentimento mágico que une foliões de norte a sul do País em torno da magia que pede passagem para desfilar... Lembrando que ficaram de fora verdadeiros hinos carnavalescos, como Quando o carnaval chegar, Noite dos Mascarados e Quem te viu, quem te vê, todos do Mestre Chico Buarque, o empolgante Frevo nº 1 do Recife, de Capiba, a síntese foliã É Hoje, de Didi, porque samba-enredo (1982) não podia entrar nesta lista ou a tocante Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinícius e Toquinho, uma vez que o critério não pairava em torno da Poesia por baixo dos três dias de torpor, mas era a empolgação sobre a avenida por cima de uma vibrante bateria. Agora, todos para a avenida – e feliz carnaval a todos!

  1. Foi um rio que passou em minha vida – Paulinho da Viola: obra-prima absoluta, síntese maior da emoção de se acompanhar um desfile de escola de samba;
  2. Vai Passar – Chico Buarque: genial letra do nosso compositor maior (sobre música de Francis Hime), capaz de unir carnaval e protesto político num brilhante desfile do próprio País numa avenida;
  3. Samba, Suor e Cerveja – Caetano Veloso: o genial compositor baiano brinca com símbolos da grande festa desvairada;
  4. A Felicidade – Vinícius de Moraes e Tom Jobim/ A Voz do Morro – Zé Keti: dois clássicos imortalizados no Cinema (Orfeu Negro e Rio 40º, respectivamente), que, apesar das mais variadas versões posteriores, imortalizaram-se como sambões de primeira sobre o carnaval e o samba, gênero maior da festa-maior;
  5. Favo de Mel (versão nacional de Real in Rio­, canção-tema indicada ao Oscar em 2011 pelo filme Rio) – Carlinhos Brown e Sergio Mendes: não fala diretamente sobre a avenida, mas a deliciosamente pesada bateria de Brown e a linda melodia cantada em coro são animadíssimas loas ao carnaval e à natureza brasileiros.
http://alemdooscar.pop.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Ccriticariotexto3.jpg

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Como uma deusa...

Mas o que aquela miragem feminina fazia ali, a brotar na linha do horizonte daquela praia quase deserta, como nem fosse uma Janaína recém-saída das águas para abençoar algum pescador amedrontado com as ondas vindouras, se já se passavam dois dias do sagrado 2 de fevereiro de Iemanjá e não havia, até então, ninguém além de mim naquele local ermo? Mesmo sem ter a humana certeza, eis que, ao se aproximar com seu semblante vestal em pele marrom tão doce, sequer por um instante titubeei em dela aceitar o sublime colo para minha cabeça cansada de sol e de dúvidas!

De ver uma bela forma feminina, assim, numa praia deserta, acredito que homem nenhum em sã consciência consiga reclamar... O pior foi ver uma harpia desgrenhada procurando conversa por tenebrosos corredores da faculdade: a idade avançava, mas minha mente parecia presa a ideias mitológicas femininas das mais assustadoras e não crescia, não enxergava que, por trás de alguns sustos escabrosos, podia haver parnasos límpidos e cheios de vida em continuidade...

Daí para criar-se Acaso em minhas fatigadas retinas, que ainda viram tamanha reviravolta ao presenciar as tantas belezas das tantas Santas-Marias-Nossas-Senhoras sob as luzes coloridas de um céu de vitrais, foi uma grata surpresa! Ainda assim, confuso e tonto, dei de querer descer o Estinge rumo a Hades e por lá entrei numas de caos atormentado por outros afazeres falidos... Mas como um Caronte mulher, a conduzir o barco de volta ao cais da sagração e suportar o mundo nas costas com muito mais veemência que um Atlas mal acostumado com sua força de homem bruto, passei a ver, diante de mim, uma mãe Gaia, a parir uma pequena terra de onde brotavam leite, mel e meninos fartos de alegria - e, então, senti a paz...

Por fim, de volta à realidade depois de um efusivo dia estafante de trabalhos felizes a mais que os de Hércules, só vejo o chão de calçadas quebradas, que se alterna com um belo céu estrelado, de tempos em tempos... A caminho de um shopping na necessidade de comprar uma lembrancinha para a esposa guerreira de vários braços como a melhor deusa indiana, percebo uma cena ricamente bela e curiosa: uma mãe gata negra, saindo de um bueiro boca-de-lobo, sendo seguida por três lindos filhotinhos, brancos e negros, que se assustam com a minha aproximação e tentam correr de volta para o bueiro de esconderijo... A gata, quase uma loba na porta de Roma e dedicada a suas crias, só me observava com atenção, imóvel, porém preparada para avançar num só golpe acaso eu me engraçasse com sua bela familinha - no que me perguntei se não eram os egípcios que adoravam gatos como formas divinas...

E me descobri um adorador do universo forte feminino, num eterno estado de endeusamento pela fêmea mais simples e despida de vaidades, mas cheia de virtudes como a melhor mãe e companheira das melhores lutas: em relação a ela, o resto é inércia e adoração...
 

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