quinta-feira, 24 de abril de 2014

Palavras Desditas

Acredito que à exceção de Morcegos e de Um breve desabafo em antítese, nunca decorei um poema sequer de minha autoria. Na verdade, da autoria de ninguém. A despeito de minha boa memória, jamais recitei de cor qualquer verso, qualquer estrofe, como há tantos por aí que o fazem... Não os invejo, tampouco os critico, mas não sei: creio ser para que o poema seja relido e revivido sempre. Assim, jamais preso à exaustão do lugar fácil, sempre à mão, será sempre preciso tateá-lo novamente para uma redescoberta... Mas, como diria o Samurai Malandro, em mensagem aos velhos arautos da Eterna Poesia, Dia vai vir que os saiba/ tão bem que vos cite/ como quem tê-los/ um tanto feito também – desta forma, o poetizar há de se repetir como quem acredita reunir um manual da pessoa amada e acaba no ocaso de saber-se um fingidor... 

Nestes 10 anos dos Morcegos, a Poesia sempre se fez presente e a minha, embora um tanto afastada ultimamente, recria-se perene em meu humilde poetizar... Hoje, um poema que me é caro, como sempre me foram caras todas as palavras (em verso ou em prosa) em que eu me inventei...

Palavras Desditas

Cada palavra dita me é cara
Como me são caros os amores que inventei
Cada palavra ainda me cabe
Como em mim cabem ainda as mulheres que abandonei

Cada boca, cada gesto,
Cada medo, cada olho carente de amor que eu ainda lembro
Tal como a palavra que meu amor reinventou
É, mesmo assim,
Ela, a palavra que ainda amo,
Ainda rebola por entre os mais diversos timbres e sabores...

Verdade seja dita,
Desdita,
Escrita ou falada:
Cada palavra velada
Resta em meu peito maldita
Como cada cópia dissonante e repetida de meus amores...

Amo-as todas
Umas mais
Palavras a mais ou a menos
Cada uma que sei
Digo e repito:
Ainda me soa como grito
Cada palavra que dela escutei...

(Dilberto L. Rosa, 2004)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Bons Tempos,
Velhos Tempos,
Novos Tempos...




Ao longo desses 10 anos de Morcegos no ar, temos (os morcegos e eu) muita história pra contar: já escrevemos sobre inúmeros assuntos (até Política fez parte, por um período, das "Artes em Geral" do título, mas hoje é matéria afastada deste humilde espaço virtual); tivemos comemorações especiais por cada ano de existência (com direito a números marcantes do universo pop nerd ou, ao menos, imagens descoladas, como visto na exposição acima); vimos amigos virtuais e blogues campeões de comentários sumirem do mapa; já tivemos até 5 posts numa mesma semana (hoje limitados a um por semana... ou quinzena); e até mudamos de "casa" (do extinto Weblogger para o até hoje atual Blogspot). Mas duas coisas jamais mudaram: a vontade de escrever com gosto e lançar tais letras, com acuidade, para quem quiser ler.

O curioso é quando tais letras vinham "cifradas" ou enigmáticas: com recados implícitos para todos os gostos, desde notas reconhecíveis somente àqueles de fino trato ou com muita afeição a determinado assunto até aviso a afetos/desafetos nas temporadas mais sensíveis e pessoais... E, tal como naquela postagem distante, em que um batmóvel especial cruzava as estreitas e esquecidas ruas da Ilha Encantada ao som de Teen Spirit, eis que ora brota, mais alto e robusto (porém um pouco mais leve), uma bala de prata a cruzar novos dias cheios de vidas a depender de novos sonhos tanto quanto de novas conquistas bem reais...

Então, para o alto e avante, com tempero indiano: um tanto esdrúxulo em dancinhas antiquadas, porém com a classe gastronômica de um estilo mundial – globalização é isso aí! Feliz feriado, com Páscoas cinematográficas ou não, mas sempre e sempre com no mínimo um momento de reflexão... Que o tempo não para... E passa mais rápido do que uma bala (prateada)!

Porsche 356 Silver Bullet

domingo, 6 de abril de 2014

Aniversariantes muito queridos...

Neste mês de abril os Morcegos completam 10 anos de existência! E, curiosamente, só nesta última semana, já ocorreram dois aniversários bastante especiais para este humilde espaço virtual: por razões óbvias, em primeiro lugar, no dia 30 de março (data do registro do personagem e do lançamento da histórica DC # 27 em pré-venda), Batman completou 75 anos de complexa personalidade, perfeição humana no combate ao crime e quase completa onipresença em todo o universo pop mundial (com destaque recente no mundo cinematográfico com a ótima trilogia "realista" de Nolan/Bale, encerrada no ano passado com o bom O Cavaleiro das Trevas Ressurge); logo depois, no enganador 1.º de abril, se nada havia a comemorar nos 50 anos do Golpe Militar, havia uma legendária figura do Samba, com sua maestria irreverente e genialidade simples de malandragem, que era muito digna de celebração: 114 anos de Moreira da Silva, o grande criador do breque! Sem dúvida alguma, dois seres muito caros aos Morcegos, em momentos marcantes de suas trajetórias, num mês bastante especial...


Galeria das clássicas capas originais da primeira minissérie do título Lendas do Cavaleiro das Trevas, a muito boa Xamã, de onde saíram muitos dos conceitos utilizados no filme Batman Begins: vida e morte na preparação de um herói; simbolismo do morcego; um Bruce Wayne inexperiente e vacilante (e que aparece mais que o próprio Batman); e máscaras dentro de máscaras (com o Homem-Morcego por dentro de toda a essência).

Se existe um personagem complexo no mundo dos Quadrinhos, pode-se dizer que este é Batman: presente em tantas mídias e por tantas vezes reformulado ao longo de mais de sete décadas de vida, o Cruzado de Capa recebe neste ano, por conta de seu 75.º aniversário, inúmeras homenagens e reedições. Assim, a Televisão aguarda ansiosamente pela nova série com um jovem Gordon começando na Polícia (enquanto cresce um certo menino Bruce) em Gotham; o famoso Asilo Arkham das HQs é novamente o palco do mais recente videogame de sucesso do herói para os novos consoles; e enquanto não se decidem com Ben Affleck para o novo filme do Homem-Morcego (ao lado do Super-Homem), a ser lançado em 2015/2016, eis que um interessante trabalho da trinca Dennis O'Neill, Ed Hannigan e John Beatty, de 1989/90 (pós-Batman Ano Um, nas HQs, e Batman, o filme de Tim Burton, de 89), foi relançado há pouco tempo pela Pannini em edição encadernada em brochura (ainda encontrável em algumas bancas) – se Batman Xamã não é artisticamente marcante como foi a predecessora obra-prima Ano Um, de um Frank Miller no seu auge, ao menos dá uma interessante noção de continuidade (inclusive com citações diretas a sequências daquele clássico) à reformulação do personagem após Crise nas Infinitas Terras no Universo DC.

Na história (no original, dividida em 5 partes), o jovem Bruce Wayne, no início de sua carreira no combate ao crime, viaja para o Alasca em busca de um assassino, cuja trajetória o levará a aprofundar-se e se estruturar ainda mais em sua nova persona justiceira em meio a sacrifícios humanos envolvendo rituais religiosos e tráficos de drogas. Na volta para Gotham, depois de anos no frio, descobre o poder do ocultismo da máscara de Morcego e de antigos curandeiros, enquanto se vale de seu imenso poder dedutivo e dos famosos disfarces que pavimentarão o caminho do maior detetive do mundo para desvendar o misterioso assassino por trás dos crimes ritualísticos. Com um bom equilíbrio entre erros (arte só competente de Hannigan; falhas na estruturação das histórias paralelas do enredo) e acertos (clima cinematográfico; personagens bastante humanizados, como Bruce e Alfred), Xamã é um daqueles exemplares que devem compor uma boa biblioteca quadrinhística – especialmente se se tratar de títulos do maior Morcego de todos os tempos!


Na primeira imagem, o compacto clássico que lançou duas das suas mais divertidas obras-primas: os "cinematográficos" O Rei do Gatilho e O Último dos Moicanos. Do lado esquerdo, uma das melhores coletâneas lançadas com os principais clássicos do Saudoso Morengueira, que possuo em minha humilde discoteca e que, no melhor vernáculo morengueirense, não empresto pra Seu Ninga...

Ele nasceu no Dia da Mentira e quase chegou aos 100 anos de existência... Mas quiseram os malandros celestiais que um dos seus mais ilustres companheiros subisse para o "andar de cima da bilharina" um pouquinho antes, aos 98 anos, no simbólico ano de 2000, quase virada do milênio, época de "modernidade" para aquele ser atemporal, porém atuante até o seu último instante... E como sou fã desse cara! Moreira da Silva, o genial criador do "Samba-de-Breque", aquele em que a música "breca" para que o sambista recite suas colocações mais malandras, como uma "meditação narrativa" sobre algum verso importante que parou – ou mesmo por puro deboche , nasceu no dia 1º de abril de 1900 e marcou, para sempre, uma face divertida do Samba que há muito se perdeu...

Para muito além do artista sensacional que foi, um dos legítimos símbolos culturais da identidade brasileira, com seu retrato do "bom malandro" (apenas um personagem: apesar do convívio com a boemia na juventude, sempre trabalhou duro e jamais foi de beber ou fumar!), cheio das manhas e "filosofias" típicas e com seus inconfundíveis terno de linho branco, chapéu Panamá e óculos escuros, Moreira sempre me será caro por algo muito maior e mais pessoal do que seu talento impagável: ele me lembra a voz e o humor inconfundíveis do meu finado avô Sebastião Rosa, amigo saudoso para quem tantas vezes já dediquei postagens por aqui... E, como considero vovô como o meu "introdutor" no mágico e representativo universo do Samba, nada mais conciliatório do que ver/ouvir qualquer gravação do mestre carioca para lembrar-me do homem simples, porém inesquecível e rico de histórias maranhense!

Fiel às suas origens de admiração ao universo de Noel Rosa como sempre foi, após um início mais ou menos tradicional, Moreira da Silva logo apresentou sua irônica personalidade em interpretações malandramente autênticas em meio às veias saltadas e tão levadas a sério das grandes e refinadas vozes então dominantes no cenário radiofônico nacional. E quem foi que proibiu o bom humor na Música brasileira? Assim, em meio à rígida seriedade dos medalhões da Rádio, despontava aquele personagem pronto e debochado, com a cara, a ginga e a malemolência do esperto e alinhado sambista que sabe viver... E, se era ali que "estava o petróleo", o Malandro Moreira soube como ninguém "meter a sonda", como gostava de dizer em meio a tantas outras espirituosas tiradas: assim aconteceram clássicos inesquecíveis como Amigo Urso (Amigo urso, saudação polar/Ao leres esta hás de te lembrar/Daquela grana que eu te emprestei/Quando estavas mal de vida e nunca te cobrei"), Pistom de Gafieira ("O moço era faixa preta simplesmente/E fez o Doca rebolar sem bambolê/A porta fecha enquanto dura o vai não vai/Quem está fora não entra,/Quem está dentro não sai") e a obra-prima dos bambas Geraldo Pereira e Wilson Batista, Acertei no Milhar ("– Etelvina!/– O que foi, Morengueira?/– Acertei no milhar/Ganhei 500 milhas/Não vou mais trabalhar/Você dê toda a roupa velha aos pobres/E a mobília podemos quebrar/Isto é pra já/Vamos quebrar", seguido do hilário breque: "Pegou um móvel bacana à beça, jogou na parede, plam, catapum – Pode quebrar minha filha, o papai tá com tudo: nota de mil que é bom 'tá morando aqui no buraco do pano... Quer ver? Não tiro porque não fica bem!").

Reinando absoluto até o final da década de 60, época dos seus geniais "sambas cinematográficos" como Kid Morengueira Rei do Gatilho ("Cuidado, Moreira...!") e sua "sequência", O Último dos Mohicanos; Filmando na América Morengueira contra 007, todos de autoria do grande Miguel Gustavo, do clássico ufanístico-futebolista de Pra Frente, Brasil –, o grande sambista experimentou um amargo ostracismo de escassez de sucessos, depois caindo no repeteco dos relançamentos em coletâneas... Até se reinventar, ao lado de dois outros ícones da malandragem, Bezerra da Silva e Dicró, lançando o álbum Os Três Malandros In Concert, naturalmente parodiando o sucesso dos três tenores, Pavarotti, Carreras e Domingo, em meados dos anos 90, seguindo, sem parar jamais, a fazer shows até o final da vida bem vivida...

Difícil, especialmente para um fã de marca maior como eu, escolher uma canção apenas do Mestre Moreira... Mas acho que posso dizer que esta, que deixo ao final desta postagem mais do que especial, é meio que emblemática o suficiente para reunir o melhor das características do samba deste malandro imortal, precisamente no genial humor das tiradas hilárias contidas no breque e na galhardia que transcende o tempo e me leva de volta a rir junto ao meu avô, batucando nos braços da sua poltrona igualmente perdida no tempo: Na Subida do Morro.


 

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