terça-feira, 18 de outubro de 2016

Lembranças de Crianças

Costumo dizer que me mantenho jovem por meio das minhas lembranças - e algumas pessoas, dentro dessas memórias, carregam mais lembranças minhas que outras... Acho que por isso eu escrevo, para fixá-las nalgum lugar, antes que eu as perca - ou melhor, que eu me perca... Por isso é tão bom revê-las a qualquer hora, em qualquer lugar - assim eu não envelheço nunca...

Uma dessas queridas é Mariana, adoro cruzar com Mariana - porque não há santa vez que eu não a veja que eu não me lembre de duas coisas fortemente ligadas à infância... Primeiramente, impossível não cantar Mariana conta uuum, Mariana conta um - é um, é um: Ana, viva Mariana, viva Mariaaana! O que indissociavelmente me traz a infância de minha Rainha Isabela, primogênita do meu coração, que aprendeu a contar com essa canção nos vídeos da Galinha Pintadinha.

A outra razão é uma crônica pronta - na verdade, semipronta, porque ficou sem final até bem pouco tempo... História de infância, que vivemos juntos no Dom Bosco do Centro, pelos idos da 6.ª série, ela da 61 e eu, 63, na "sala do alto" e ao lado da biblioteca "fantasmagórica", todos na famosa região do "Barracão", da imensa caramboleira e do universo paralelo que nos protegia dos mais velhos - éramos os mais jovens do turno vespertino e havia mesmo um portão gradeado branco, como que nos separando do resto da escola (ou do mundo infantil...), até com uma saída própria, só que nunca utilizada.

Estabelecido o idílico cenário, eis o introito da trama: começávamos aquele delicioso 1989 de minhas melhores reminiscências, o último ano de nossa infância, e estava no auge um álbum de figurinhas de um filme maravilhoso, Uma Cilada para Roger Rabbit, meio infantil, meio comédia policial, porque misto de homenagem aos filmes noir e às antigas animações à lá Looney Tunes, sucesso absoluto com a meninada da época. Álbum avançado em páginas completas de figurinhas, o difícil era conseguir as especiais, menores e fofinhas, geralmente com um personagem em destaque - e que, além de preencher o álbum, ainda ficavam lindas na capa de um caderno ou agenda!

E eis que, nem tenho tempo para comemorar o primeiro adesivo fofinho que encontrei com o famoso coelho do Cinema, tendo rasgado o último dos vários pacotinhos de repetidas que acabara de abrir num cantinho da sala e dou de cara com Mariana - deveria ter ido visitar uma das meninas... Entrosada essa Mariana: nem pediu licença e foi logo pegando da minha mão aquele macio trofeuzinho - Dilberto, que legal... Nunca tinha visto um desses... Me dá?! - Claro que não, Mariana: é a primeira vez que encontro um também!... Adiantou alguma coisa? Acreditem ou não, ela simplesmente pegou da minha mão e saiu correndo!

Ainda corri atrás, mas Mariana havia sumido e, logo em seguida, o barulhão da sirene anunciava que já era 1:20 h e começaria o primeiro horário... No recreio ela continuou foragida, só me restando recorrer à temível Tia Silvia, nossa coordenadora pedagógica e disciplinar da cara mais fechada, sempre surgindo de sua soturna salinha do Barracão para aplicar os devidos corretivos nos alunos incautos - Agora Mariana ia ver uma coisa...

No dia seguinte, ainda vi a pequena meliante ao longe - e, no que ela me viu, entrou correndo na 61! No que vou avançando em sua direção, sou interrompido por Tia Silvia, que, quase em tom sepulcral, tratou de me atualizar das suas diligências em perseguição à pequena ladra de raros adesivos alheios - Falei com Mariana: ela pediu desculpas, mas disse que não podia mais devolver o adesivo porque já havia colado no caderno e rasgaria se ela arrancasse...

Genial: que argumentação! Deveria ser advogada essa menina... E era só isso?! Aquela criminosa ficaria impune? Nem a poderosa e cruel coordenadora faria Justiça e me vingaria? Aquele era um duro marco, o fim da época da inocência e o triunfo da desfaçatez! Só me restava buscar, noutro pacote repleto de figurinhas já repetidas, um novo adesivo fofinho... Mas não me lembro mais de nada desse episódio - nem se achei outra figurinha fofinha igual ou comparável, nem se vi ou falei com Mariana naquele ano, tamanha a minha raiva que a sensação restante foi de bloqueio... Porém, depois de anos, vendo Mariana em qualquer lugar, a lembrança que instantaneamente surgia era esse caso - Mariana conta um... Sim, conta um adesivo FURTADO!

E a primeira vez que a vi novamente, depois de tantos anos - teria visto antes? Não sei dizer por causa do bloqueio traumático da impotência diante daquela injustiça... -, foi no meu universo jurídico: casada com um servidor de uma Vara em que possuía algumas ações no Fórum, por lá nos encontramos e conversamos um pouco, soube que era odontóloga, mas tanto nessa quanto em qualquer outra vez que a reveria, jamais a lembrei da lembrança que ela me trazia... Da infância guardada e liberada toda santa vez que a via...

Sim, porque aquilo foi coisa de criança... Criança má, levada e com tendências criminosas, sem um pingo de consideração com coleguinhas que lutam para completar um álbum de figurinhas, mas era coisa de criança... O mais engraçado disso tudo, porém, nem foi toda essa curiosa lembrança - ou a lembrança infantil que Mariana sempre me traz quando a vejo -, mas, sim, a surpresa em torno de um de nossos últimos encontros...

Estava eu dando uma aula sexta à noite, alunos entediados pelo dia e pela hora (jamais pela minha aula!), no que vejo Mariana pela janelinha de vidro da porta, passando pelo corredor - no que ela me vê e me pede com os olhos alegres para dar um "oi" lá fora! Atendo-a prontamente, pedindo breve licença à turma - abraço-a, sorrisos, quiproquós ligeiros e, fico descobrindo que ela também tem gêmeos... Mais sorrisos rápidos, já sabia que ela era odontóloga e professora da Instituição, no que ela me surpreende dizendo que vai seguir para a sua aula - De quê?, eu pergunto - De Direito!...

Nada mais me surpreende! E rio internamente, segundos depois da despedida, voltando para a aula - Que loucura: depois de Odontologia, ela agora faz Direito... Nem o melhor cronista preveria esse irônico final para aquela crônica pronta: começou a menina mais doce, flertou com o mundo do crime e, após tantos anos e realização profissional em área completamente diferente, será... advogada!... Sim, agora ela estava no caminho profissional correto! Não havia como não pensar num sem número de clássicas piadas folclóricas com advogados, minha própria classe - assim como não há como não lembrar a infância revendo uma amiga de tão simpáticas e surpreendentes reviravoltas!
 

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