domingo, 28 de dezembro de 2014

Uma postagem praticamente perfeita em todos os sentidos...
Os Morcegos desejam a todos os blogueiros de plantão:
Feliz arte nova!

Do primeiro Natal desde que “me entendo por gente”, eu me lembro passando a noite da véspera na casa de tios e de ficar vendo por lá, sozinho e num quarto distante do resto da turba familiar, Um Milagre de Natal (de 1978), belo curta Disney sobre a amizade vivida por um menino e seu burrinho predestinado a fazer parte de um emocionante grande evento... Logo em seguida, a Globo exibiria a tradicional Missa do Galo, com um Papa João Paulo II então gozando de muito boa saúde, mas, como aquilo não possuía o menor atrativo para qualquer criança televisiva que se prezasse, pouco antes da meia-noite desliguei tudo e fui me juntar aos demais parentes – que não perderam a oportunidade de me chamar de “viciado” em TV, dada a ocasião especial de reunião familiar e eu, ali, “isolado”, assistindo a um filme...

O que eles talvez não soubessem é que aquela era, sim, uma forma pessoal minha de celebrar o Natal: vendo os especiais de fim de ano! Nada das baboseiras com os “artistas” famosos da minha infância, como a nada natalina Xuxa, mas, sim, das exibições temáticas que as grandes emissoras costumavam exibir no período das boas festas – e tome belos títulos antenados com a data, como Rei dos Reis (que também era passado durante a Páscoa), assim como, é claro, de inúmeros e fraquíssimos filmes irritantemente cheios de neve e com finais “edificantes” ou simplesmente “cheios de magia”, só porque tratavam de alguém ranzinza que precisava aprender uma lição sobre o Natal, no melhor estilo do eterno Scrooge, ou devido à sempre ilustre presença do Papai Noel no enredo (como o fraquinho, porém muito querido em minhas reminiscências, Papai Noel Existe)! De qualquer forma, o certo era que, naqueles tempos, todas as programações procuravam se ajustar da melhor forma aos cheirinhos de casa limpa, dos papéis de presente a descansar por sob os pinheirinhos de plástico e de muita comida gostosa no ar de cada lar...

Logicamente que nem todos acreditam ou celebram o Natal, seja por causa de uma crença não-cristã, seja por algum motivo pessoal, mas não há como negar que os simbolismos de um Cristianismo passado de geração a geração antes de nós acabaram por nos impingir uma necessidade sentimentalista de fraternidade e amor familiar intensificados a cada final de ano – e, com isso, terminamos por nos tornar mais sensíveis nesta temporada, apesar de todo o insuportável comercialismo que hoje predomina... O curioso é que esses mesmos elementos cristãos da festa, aos poucos suprimidos pelas grandes redes de comunicação, seja no banimento dos filmes temáticos de suas sessões especiais, seja na excessiva exposição a símbolos comerciais, como o Papai Noel da Coca-Cola (aquele de roupa vermelha e ar bonachão, baseado numa imagem do final do século XIX, mas usado pela empresa até hoje, por causa da coincidência das cores, e bem distante do São Nicolau legendário), seja inclusive por meio da imposição do fascínio por outros forçados simbolismos importados, como a famigerada neve (que, mesmo nos EUA, não cai em todo o território!), parece fazerem hoje, ainda que de uma forma inconsciente, uma falta danada...

Não digo que se devam exigir representações de Jesus e seu nascimento a torto e a direito, até porque acredito que o Natal, embora criação católica em homenagem à vinda de um messias, já tão presente no inconsciente coletivo, seja, em sua essência, uma festa com espectro maior até do que o próprio representado e alimente sentimentos humanistas inclusive em pessoas não-religiosas – sem olvidar que ainda resta a incômoda sensação de que “os direitos” deste belo e independente personagem pertençam hoje aos insanos representantes das cada vez mais poderosas igrejas pentecostais (e, vindo delas, é sempre temerosa qualquer versão cinematográfica em tempos tão reacionários)... Mas é inegável o quanto a falta do tom de “época especial” não só deixa cada vez mais desencapado o desespero do lucro certo com as vendas de presentes, comidas e bebidas – e como isso incomoda... –, como também eliminou das exibições televisivas, tanto das agressivas redes abertas e suas vazias representações novelescas como as TVs por assinatura e suas cansativas maratonas de seriados repetitivos, a possibilidade de qualquer exibição especial, mesmo que fora da temática natalina.

Assim, grandes títulos como Ben-Hur, O Milagre da Rua 42, O Manto Sagrado e A felicidade não se compra – que, direta ou indiretamente, tinham elementos cristãos ou natalinos em seus enredos – foram, aos poucos, facilmente esquecidos pelas programações, com o passar do tempo, até sua quase total eliminação... Tal como os sempre antes reprisados nesse período, Cantando na Chuva e Mary Poppins, que, embora nada tivessem com as boas festas, eram filmes pra lá de especiais e, dignamente reprisados nesta solene fase do ano, sempre preenchendo bem e de forma elegante o espaço entre a festança coletiva da meia-noite e a solitária hora de dormir, quando os festejos aconteciam em casa, com todos já tendo se despedido e eu lá, com as presenças mágicas daqueles dois musicais fantásticos, repletos de canções e números inesquecíveis... Ah, que maravilhosas lembranças eu possuo daquelas sessões madrigais: foi desse jeito que vi, pela primeira vez, cada um desses dois clássicos! Tanto que já lhes dediquei um apaixonado 'post' aqui, quando da época em que os mostrei à minha amada filha Isabela! A propósito, a incrível versão Disney da babá praticamente perfeita em todos os aspectos chega, neste 2014 que se finda, ao seu quinquagésimo aniversário!

Como o tempo voa... E, no caso dela, literalmente: 50 anos de Mary Poppins... Do filme, porque, da personagem dos livros, já se vão 80 anos desde a publicação inicial do primeiro de uma série de oito livros – todos bastante modificados em sua essência para "se ajustarem" aos padrões Disney de entretenimento, incluindo aí, dentre outras coisas, sintetizar ao máximo várias passagens da história, reduzir a frieza da aventureira babá mágica e convertê-la na beleza doce e encantadora de uma então estreante no Cinema (Julie Andrews), ampliar a participação do personagem Bert (vivido por Dick Van Dike, com quem se insinua um romance para Mary), cortar os personagens dos bebês gêmeos dos Banks – que, por sua vez, ao contrário do livro, viraram burgueses... Engraçado é que, mesmo com tantas alterações, o musical infantil ficou delicioso, figurando certamente como o melhor dos trabalhos com atores reais daqueles estúdios! Muito gentil a senhorita P. L. Travers (Pamela, ou, de fato, Helen Lyndon Goff), autora dos livros, que permitiu que o Sr. Disney fizesse tantas alterações em sua obra, não? 

Muito pelo contrário: ciente das famosas "alegorias" infantilizadas do famoso cineasta/produtor do Mickey Mouse, a perfeccionista australiana radicalizada inglesa negou, por mais de duas décadas, a venda dos direitos para o opressivo estúdio norte-americano, que só conseguiu seu intento depois de uma generosa oferta diante da quase bancarrota da escritora, quando da baixa venda de seus livros ao longo da década de 50... Apesar disso, ela conseguiu ser firme e bancou a durona em várias cláusulas contratuais rigorosas, na tentativa de controle na adaptação de seus personagens tão caros: ficaram memoráveis as suas brigas com o departamento de criação (os geniais irmãos Richard e Robert Shermann, e o corroteirista Don DaGradi), que com ela eram obrigados a tratar, linha por linha, de mínimos aspectos, das canções ao roteiro – era expressamente proibido, por exemplo, que houvesse qualquer animação, uma das principais razões do seu longevo veto a Disney... Nem é necessário dizer que o bandidão reaça do Walt venceu a queda de braços e à Pamela só restou ter de engolir um sem-número de concessões e chorar de raiva ao ver, na noite da estreia (para a qual sequer foi convidada, depois de tantos desentendimentos, pelo deselegante Walt Disney), a bem longa sequência animada de inúmeros bichinhos saltitando com Mary, Bert e as crianças nas pinturas do parque!

Engraçado... Essa história parece até enredo daqueles "filmes edificantes" de final de ano! E não deu outra (apesar de ter demorado um bocado para ter sido feito): logicamente que o império do entretenimento do faz-de-conta aproveitaria todos estes ricos ingredientes de bastidores em torno de um dos seus filmes mais queridos e lucrativos (Mary Poppins foi, disparadamente, o campeão de bilheteria de 64 e gerador de muitas outras adaptações com suas adoráveis canções, como dois musicais teatrais recentes) e assim foi lançado, em 2013, o interessante Walt nos Bastidores de Mary Poppins – o título original, Saving Mr. Banks, algo como "Salvando o Sr. Banks", além de inviável comercialmente por aqui, sequer lembraria o grande público brasileiro de que se tratava de algo relacionado ao popular musical dos anos 60 (mas, ok, tirassem o "Walt", que ficaria bem melhor...).

Sim, interessante: ao contrário do que bombardearam os críticos, trata-se de um bom filme, capaz de contar fielmente os fatos ocorridos e, ao mesmo tempo, florear bastante do que realmente aconteceu e, de quebra, homenagear tanto o finado e eterno patrão como também a irritantemente "notável capacidade Disney de dobrar as pessoas mais empedernidas com a magia dos seus estúdios, parques e personagens" –  ou só e tão somente "como o dinheiro pode mesmo comprar tudo no 'showbiz'...

Sem dúvida, a gloriosa Sétima Arte ajuda a tornar uma época especial, a eternizar um momento e a fotografar sequências de nossas vidas e as elevarem à parte de algum filme mágico visto nalgum ponto inesquecível – ainda mais quando se trata de uma obra com um pano de fundo tão adequado ao período. Mas como nem só de pão e Cinema vive o homem, não há igualmente como não se emocionar com certos cantores e compositores que tornaram tantos Natais e viradas de ano mais relevantes em nossas fatigadas recordações. E nem falo do tradicional "Rei"... Afinal, seus especiais globais foram incontestavelmente marcantes em priscas eras de quando a maior parte de seu repertório era boa, mas, dados os últimos pífios e burocráticos "cumprimentos de contrato", com discos anualmente ruins e programas piores ainda, eu não "reprisaria" Roberto Carlos atualmente de jeito nenhum! Prefiro nomes maiores e mais consistentes e coerentes com suas obras, como os que, coincidentemente (nada é por acaso...) descobri em Natais passados: João Gilberto, Frank Sinatra Dorival Caymmi – sendo este último digno de todas as homenagens neste 2014 de seu centenário! Tudo bem que ele jamais tenha sido esquecido, mesmo após anos de sua morte, graças, em boa parte, aos seus talentosíssimos filhos que mantêm a obra do imortal pai eternamente acesa em interpretações magnânimas (especialmente as da diva Nana), mas é preciso que o Brasil e o mundo saibam mais da dimensão que foi Caymmi, cuja obra aparentemente simples, sobre gente simples e coisas de sua terra, é recheada de um perene lirismo ímpar jamais alcançado por Ary Barroso algum sobre nossos pescadores e nossas "brasilidades" e "baianidades" mais legítimas! Viva Caymmi, de quem costumava chorar, em minhas costumeiras audições musicais natalinas, Suíte do PescadorTemporalSaudade da BahiaO Mar...

Mas não há nada mais musicalmente natalino pra mim do que a deusa Marisa Monte: primeiramente, um dos meus natais passados ficou marcado pelo disco Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão, quando descobri, ainda na adolescência, essa mulher que parece dublar uma voz vinda de outra dimensão, naqueles arranjos mágicos (sua própria voz como um dos muitos instrumentos musicais) por sobre Música contemporânea cheia de um antigo e já quase perdido lirismo brasileiro antigo de samba e choro... E, recentemente, uns dois anos atrás, com o então lançamento do disco Verdade, Uma Ilusão, meu 'reveillón' foi marcado pelo branco alvo daquelas interpretações multicoloridas, presente que ganhara da companheira Jandira... E, hoje, com o DVD do 'show' homônimo, que tantos prazeres me proporcionara quando da sua vinda a São Luís, no ano passado, com aquele deslumbre de cores e músicas da melhor qualidade (ela dança, ela embriaga com aquelas mãos e braços finos, ela compõe, ela toca, concebeu o espetáculo inteiro e ainda conversou bastante com a plateia!), eu presenteei tanto minha amada esposa quanto minha querida mãe Dilena numa só cajadada: a emoção eu deixei pra elas, para marcá-las! Pena que o DVD fique anos-luz aquém da força de beleza que foi esta turnê incrível – pobreza no detalhamento dos belíssimos efeitos de projeção no 'show' e total eliminação da interação da cantora com seu público conseguiram transformar algo fascinante em parcamente bonito na tela pequena, em casa...

Mas há quanto não paro pra ouvir boa Música ou ver um grande filme... É só correria para botar o mínimo de trabalho e organização em dia juntamente aos meus dois maiores presentes gêmeos de 2014, Isadora e Dilberto Filho, e à minha Princesa Isabela – com quem tenho acompanhado, quando dá, alguma coisa dos últimos lançamentos tidos como "infantis", obviamente, das princesas Disney, como os bonzinhos Enrolados e Frozen: esses acabaram sendo os meus "filmes especiais" deste fim de ano (poxa, eu bem que merceia mais que isso...)! Mas, falando em Arte, acho que até em bons Quadrinhos se pode encontrar a "salvação": eu bem me lembro da inesquecível emoção ao ler uma das melhores graphic novels com meu herói favorito, Batman, num Natal de muitas eras atrás (evento sobre o qual também já narrei aqui) e inúmeras outras revistinhas adquiridas em perdidos dezembros deram a tônica de ótimas lembranças... Infelizmente, até nisso o tempo agora me foi carrasco, e, nesta última semana de 2014, onde lamento o não ter tido minha quota de arte revigorante para o novo calendário que se inicia logo, logo, tal como costumava fazer no passado, igualmente me queixo das HQs que terminaram por cair em minhas mãos e que deixarão um amargo gosto de fim de festa, culpa da Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel, que, por lançar não os melhores arcos daquela editora (salvo boas exceções), mas as mais vendidas ou badaladas histórias, acabou por me obrigar a comprar (e ler!) bobagens como Planeta Hulk e Zumbis Marvel, que li neste derradeiro mês, entre um mingau e um cochilo, unicamente para completar a coleção e manter intacto o mosaico a ser formado pelos dorsos de todas as edições...

De Literatura me espera toda a série histórica de Laurentino Gomes, 1808, 1822 e 1889, que comprei recentemente e não pude, sequer, folhear... De colecionáveis, nada há para marcar, uma vez que as editoras enlouqueceram e, a cada semana, despejam dezenas de lançamentos e relançamentos – e eu, a contar os pobres caraminguás da carteira furada, sacrifico os últimos vinténs com pelo menos umas 8 miniaturas a cada mês... De Fotografia, falta imprimir os "trabalhos artísticos" que venho realizando ao clicar meus adoráveis 3 filhos no dia-a-dia... Tudo isso me lembra o subtítulo deste dileto espaço virtual, "Artes em Geral": há mais de 10 anos me encontro neste sagrado ofício de falar delas em meio ao turbilhão da vida, que segue como se quisesse nos tragar a todos, já quase desalmados, para uma espiral desgovernada, independente da época ou da geração em que estejamos! Mas uma coisa é certa: cada um que encontre logo seu caderninho de recordações e converse com seu fantasma dos Natais passados para descobrir alentos perdidos enquanto é tempo... Pois cada um traz consigo a dor e a delícia de uma passagem secreta para a salvação durante aquela ceia mais burocrática entre parentes coxinhas, afáveis somente naquele momento entre o peru, as cervejas, o vinho e as castanhas, todos cheios das inócuas "resoluções de ano novo"! Acho que por isso eu encho as minhas boas festas de um pouco de contato comigo mesmo e com as coisas que amo: ver um bom filme, ouvir uma boa Música e, agora, estar embolado junto à arte das minhas crias criam, de per se, enredo dos melhores para recarregar qualquer bateria às vésperas da tão festejada mudança de calendário! Que venha 2015, que nós mostraremos a eles – vocês, que tão bem pintam o sete – com quantas artes se faz um ano, não é mesmo crianças?!

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