quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Baixinha, Invocada e Adoravelmente Chata...
Reminiscências sobre Adriane Coelho

Minhas primeiras reminiscências a respeito de Adriane remontam ao período entre a sexta e a sétima séries, tempo em que me lançava ao “mundo político” sendo “presidente” da minha turma, e ela, representante da sua 62: havia, de tempos em tempos, reuniões dos líderes com a Coordenação e acabei sabendo de sua fama... Sim, porque enquanto eu estava ali por uma curiosidade, com o respaldo dos meus eleitores na ausência de candidatos pra minha turma, Adriane parecia rugir, com sua voz baixinha e muito aguda, por sobre cada ponto das pautas que levara para discutir: professoral, eu diria – já estava no sangue, né, colega? – e aborrecidamente séria e compenetrada como nenhum outro representante ali presente...

Chata? Ah, sim: essa pecha a perseguia, na verdade, antecedendo-a! Ela era a “baixinha invocada”, quase uma Mônica dos Quadrinhos, só que em carne e osso: baixinha, gordinha e dentuça, aquela menina peitava qualquer garoto que se metesse a besta ou insinuasse querer ser algo mais que ela... Ah, e ela namorava um amigo nosso, o Brandão, e, por isso mesmo, sempre lamentávamos por ele, coitado, pelas palmadas firmes no braço e por sempre ter de comer um dobrado, não importando se ele estivesse entre “os seus”, pobre confraria de homens: como eu já disse, aquela menina era das raras do sexo feminino que conseguia transitar em qualquer meio. E, sim, arrancar o seu precioso Brandão de dentro de qualquer ciclo, se isso já houvesse tirado a forçuda do sério... Afinal, agarrar era com ela mesma, eterna guerreira goleira de handebol!

Histórias são o que mais tenho: gosto de dizer que sou um colecionador nato e, de todas as coleções que acumulo, os causos que todo mundo já tratou de esquecer são a minha matéria-prima favorita! E, com Adriane, elas são as mais hilárias... Por exemplo, não dava para não provocá-la: vulcãozinho eternamente aceso, parecia uma tentação perturbar-lhe a paciência! E como a “pobre garotinha” tinha aversão a escatologias, adorávamos fingir o som de alguém engulhando, prestes a vomitar (ou mesmo já “chamando o Hugo”), para que a durona descesse de sua fortaleza, ficasse pálida como a parede mais velha do colégio Dom Bosco, e corresse para o banheiro já quase vomitando também – ah, que tempos deliciosos...

Mas nenhuma história reflete melhor quem é este mito chamado Adriane Coelho que um ocorrido no nosso último período no colégio, meados finais do terceiro ano, época em que, para minha alegria, já estudávamos na mesma turma. Praticamente o ano inteiro eu me sentava no canto da extrema esquerda, e, como a sala era panoramicamente larga e havia uma série de três basculantes verticais pintados, por sobre a minha cabeça e indo até o quadro-negro, muita gente se desesperava quando o professor da vez inventava de anotar qualquer coisa no cantinho próximo a mim, por causa do intenso reflexo que cegava qualquer um ao longe. Então era muito comum um “fecha aí pra mim, por favor!”, e lá ia o “guardião do canto”, solicitamente, fechar o que estivesse ao meu alcance, a fim de minimizar a claridade que vinha de fora...

Só que há vários jeitos de se pedir um favor... Além do mais, eu era extremamente calorento na época (andava até com um lencinho, pra enxugar o suor!), e, mesmo diante de alguns pedidos tão sinceros e tão sentidos, eu acabava por não atender, agoniado que ficava com mais calor com aqueles vidros todos fechados! Assim, era comum termos alguns mais “da ignorância” (como o querido Andrei adorava tachar) que se levantavam e, com extrema grosseria, tratavam de fechar tudo mesmo, sem nem pedir licença – e, ainda por cima, fazendo barulho, arrancando, com isso, uivos da torcida do mal do fundo da classe... Eu, quase um cavaleiro Jedi nessa época, nem esquentava com isso: sem responder a qualquer provocação, abria tudo novamente tão logo aquilo me incomodasse de calor e costumava dar de ombros para os mais aguerridos!

Mas Adriane, não: ela sempre foi uma lady, de verdade! Mas uma lady marrenta, vamos considerar assim... Então, a depender do seu clima no momento, suas formas de pedir às vezes eram frias e distantes, porém sempre muito polidas. E, naquele dia em particular, ela pediu desse mesmo jeitinho, como se nem me conhecesse de tão longa data – só que o fez depois de outros pedidos bem menos educados, o que já me havia mexido com os brios e cansado a paciência quase budista que costumeiramente me permeava: – Agora eu não vou fechar nada, porque o calor ‘tá muito forte e o que está no quadro não está tão no cantinho assim; dá pra mudar de lugar e ver o que tem aqui... Nem preciso dizer que a firmeza das palavras ditas atiçaram a turma do caos do fundo da classe e os “Égua...”, “O menino é brabo...” e “Calou geral...” eram manifestados à profusão, em provocação à pobre Adriane, que ficou visivelmente constrangida com aquele espetáculo dantesco – o que, reitero, não era minha intenção, uma vez que me dirigi à coletividade reclamona!

Mas de nada adiantaria eu me explicar pra ela àquela altura do campeonato: a discórdia já havia sido plantada, com sucesso, pelos disseminadores do fundão... Acabei me divertindo e sorrindo com aquela baderna – onde estava o professor para controlar aquela palhaçada? Ah, era Alfredo, de História do Brasil, que não se importava muito com nada além de copiar 1 km de resumo da aula no quadro e deixar a camisa aberta pra mostrar os velhacos pelos do peito às mais safadinhas... Logicamente que eu não escaparia ileso de Adriane (ninguém escapava!): logo em seguida à purgação da turba ensandecida, notei que ela escrevia, com sofreguidão, algo fora do seu caderno de História para, depois, entregar a alguém para que, passando de mão em mão, chegasse até a mim um bilhetinho com o seguinte conteúdo “Se tiveres alguma vergonha nessa tua cara, nunca mais fala comigo!”... Ri comigo mesmo, desconcertado, e a procurei com a vista, ao longe, enquanto ela fazia questão de fechar a cara para evidenciar o ódio: bobagem completamente contornada no recreio, quando a procurei para dar-lhe um abração (meio à força, diga-se...), explicar-lhe melhor o ocorrido e dizer que a amava – e a “durona”, como sempre, cedeu!

A última vez que vi esta menina (sim, Adriane não envelhece, incrivelmente!) foi quando da saída de um supermercado, ao lado de Jandira ainda grávida (faz tempo...), que lhe dizia os nomes escolhidos para os nossos então futuros filhos: Isadora e Dilberto Filho – Dilberto Filho?! Eta, concordo contigo, Jandira: criança tem que ter personalidade própria em vez de herdar nome de pai! E pra que isso: quem és tu, quais os teus feitos, rapaz, para te perpetuares e te auto-homenageares desse jeito?! Chata... Decididamente! Bom, mas quem não é? É só cada um de nós olhar bem no espelho que nossas máscaras diárias caem em fileira, evidenciando os nossos podres, manias e azedumes mais severos (eu mesmo me pergunto, diariamente, como é que uma pessoa tão maravilhosa como Jandira me aguenta há tantos anos...)! Mas, posso dizer, com convicção, poucas pessoas têm essa tal “chatice acentuada” tão bem dosada por um lado amigo igualmente forte, doce e sincero como o que aquela baixinha sempre carregou consigo... Digo isso porque poucas vezes na vida levei tanta cadeirada e, ao mesmo tempo, fui tão querido e pajeado por alguém como no caso dessa Tetê Espíndola de jardim!

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