quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Lado Negro da Força Politicamente Correta...


Antes e depois da mania de perfeição...

Neste final de semana, por acaso, em meu costumeiro zapping no controle remoto pela televisão, acabei apreciando, no Disney Channel, a animação Star Wars – Rebels, piloto de uma nova série televisiva, situada entre o Episódio III e o IV dos cinemas, que, apesar do já consagrado estilo ruim de animação e de desenho similares a populares séries anteriores, como Guerras dos Clones, acerta bastante no ritmo de diversão e honra personagens clássicos da trilogia original, expandindo bem, e ainda mais, o já gigantesco universo de Guerra nas Estrelas... Enquanto isso, eu pensava com meus botões: Puxa como deve ser bom ser George Lucas: mesmo “aposentado”, um universo de novos personagens, tramas e galáxias muito distantes continua sendo desenvolvido em torno de sua antiga criação, rendendo-lhe rios de dinheiro e sob o seu criterioso aval artístico...!

Bom, na verdade, nem tão criterioso assim, convenhamos: cada coisa que já lançaram com a marca SW... Ainda me lembro, por exemplo, da enorme euforia sentida nos anos 90 por toda aquela geração de nerds oitentistas, da qual, honrosamente, faço parte, ao ouvir o anúncio de que haveria uma nova trilogia como sequência dos clássicos Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca e O Retorno do Jedi – assim que eram chamados aqueles filmes antes de toda essa patacoada burocrática e quilométrica atual de ter que falar Guerra nas Estrelas (ou Star Wars, como exige a atual geração bilíngue) - Episódio Tal - mais o título do filme propriamente dito... Mas qual não foi a nossa amarga surpresa quando, antes mesmo de serem produzidos os novos (e ruins) “primeiros capítulos” (afinal, pra que fazer prequels, contando histórias de antes daquelas que já tínhamos visto, se já era bom demais ter ficado só na imaginação sobre como Anakin Skywalker se tornara Darth Vader?), Lucas aparecia com o estranho mau gosto de reeditar, com inúmeros novos efeitos digitais, a trilogia original para relançá-la nos cinemas quando do seu vigésimo aniversário, em 1997?!

Não restam dúvidas de que foi mesmo maravilhosa a oportunidade de ver todos aqueles espetáculos da mais famosa saga espacial das nossas infâncias na tela grande (até existia uma criativa campanha promocional de trailers nos cinemas, a demonstrar a enorme diferença de tamanho na forma como sempre havíamos visto tudo, na TV), porém restava a dúvida em relação às novas cenas: por que mexer em algo irretocável?! Necessidade de aceitação pelas novas gerações, que exigem uma enorme profusão de CGI em cada centímetro quadrado de tela? Tinha que haver uma espécie de “preparação” para a hecatombe de cansativos cenários de efeitos digitais intermináveis que viria, em seguida, com os três novos filmes insossos e sem graça? Ou seria mero capricho de um autor eternamente insatisfeito com seu original resultado final, numa época em que não existia tecnologia para tanto (e que acabou sendo criada por ele mesmo, a partir de 1977, em poderosos computadores com avançados programas, que gerariam, posteriormente, a ILM e a Pixar)? Acabou sendo esta terceira alternativa a desculpa que o cineasta apresentou para o irritante acréscimo de naves, criaturas e demais trucagens às antigas películas... 

Tudo bem – nós nos contentávamos –, é só comprar depois os DVDs com as cópias sem essa edição chata... Mas chato mesmo era o próprio George Lucas, que além de lançar sua horrorosa nova trilogia dos Episódios I, II e III (‘tá, vá lá: o III até que é razoável...) logo em seguida àquele vilipêndio dos seus clássicos, ainda anunciava, para a completa desolação de seus fãs, que, a partir de então, ninguém mais encontraria as cópias originais de 77, 81 e 83 sem os efeitos digitais... Os três primeiros filmes de Star Wars? Só as novíssimas “Edições Especiais”! E tudo isso vindo do criador de uma verdadeira Religião pop, a “Força”... Definitivamente, George mostrava que se rendera ao Lado Negro... Ou seria Lado Sombrio?!

“Lado Sombrio”... Difícil acreditar, mas sabe aquele discurso bem fundamentalista do seu antigo professor de História, que, por acaso, também fazia parte do mais radical movimento negro da sua comunidade, de que expressões como “a coisa ‘tá preta” tinham que ser urgentemente mudadas por causa do tom pejorativo à “raça”?! Pois é: parece que alguém deu ouvidos a este politicamente correto extremista e resolveu modificar um dos cânones da cultura pop dos anos 70/80 e alterou, nas novas dublagens e legendagens em Português, tanto da trilogia original como da mais recente, o famoso Dark Side, que no Brasil imortalizou-se comoLado Negro”, para... “Lado Sombrio”! Ah, ‘pera lá: sombrio pode ser até um lugar coberto por árvores! Sim, eu sou totalmente a favor de que se dê um basta no racismo com políticas sérias e leis mais severas, bem como se passe a maneirar bem mais no nível preconceituoso de muitas piadas grosseiras e absolutamente sem graça com a etnia negra, mas, daí a mexer com a arte de Lord Darth Vader somente para não soar racista? Qual seria o próximo passo, então? Colorizar de branco a famosa indumentária negra do maior vilão do Cinema? Acho que isso, por mais politicamente correto que George Lucas tenha ficado com o passar dos anos (ou alguém aí já se esqueceu da “Questão Greedo” e de quem teria sacado primeiro?), não teria a menor chance de ser aprovado...

Coisa de brasileiro, que adora gritar em plenos pulmões de que, neste País, "não há racismo"? Talvez... Nos EUA, como a guerra é declarada de há muito, os lados acabaram ficando muito claros (sem trocadilhos) com o tempo. E, para confirmar que tal tese é legitimamente tupiniquim, eis que outro Mestre de uma geração, Mauricio de Souza, resolveu percorrer caminho similar com alguns dos seus famosos personagens... E não é que o Pelezinho, famosa homenagem ao Rei do Futebol, com personagens coadjuvantes geniais (sendo, a maioria, negra ou mulata: Bonga, Cana Brava, Jão Balão, Teófilo etc.) e historinhas igualmente fantásticas, foi a última “vítima” do “politicamente correto racial”?! Pois é, sabe aquele círculo rosado que circundava as bocas dos personagens negros desde priscas eras e que compunham os desenhos de muitos artistas nas décadas de 70 e 80, incluindo o pequeno craque e sua turma? E não é que o empresário-desenhista Mauricio resolveu, literalmente, depois de tanto tempo, apagar isso nas reedições de antigas historinhas na série “As Melhores Histórias do Pelezinho”!
 
É inegável que antigas caracterizações pejorativas de artistas brancos maquiados como negros, entre os séculos XIX e XX (a conhecida blackface, grosseria preconceituosa e sem graça comum até em filmes famosos como Nascimento de Uma Nação, de 1914, e O Cantor de Jazz, de 28), eram pródigas neste tipo de racismo, ao exagerar na anatomia mais grossa dos lábios, pintando grandes círculos brancos ou vermelhos em volta das bocas dos atores “cômicos” daquela época... E é certo também que muito deste traço do Mauricio, bem como de outros artistas já no final do século XX, bebeu diretamente nesta fonte, ainda que de forma inconsciente. Mas daí a mexer em historinhas antigas, sem necessariamente tratar de apresentar um “novo Pelezinho” para as jovens gerações, é tão tolo e artisticamente empobrecedor como a reedição de efeitos especiais de George Lucas! 

Tal busca pelo politicamente correto, de não ofender, com qualquer aspecto negativo no desenho, todo um grupo étnico (especialmente se considerarmos a sua prevalência num País negro-miscigenado como o nosso), a mim soa mais agressivo do que se deixassem as grandes bocas onde estavam – atraindo os holofotes para uma mudança tão gritante ao “ajeitar”, pelo computador, inúmeras estorinhas relançadas hoje em dia, parece mais um desengonçado “pedido de desculpas” ianque do que, realmente, uma preocupação com o devido respeito aos negros e sua representação exagerada!

Isso sem falar da anulação quase total da rica expressividade dos desenhos originais de Pelezinho: além do acréscimo de um nariz ao protagonista e ao Cana, no lugar de todas aquelas ricas “boconas” restaram apenas traços retos ou mesmo tortos e malfeitos como bocas! Como “esclarecimento oficial”, o estúdio anunciou que “o traço foi reestudado para se tornar mais moderno, atualizado e universal” – hã? Como assim?! Se era pra caprichar tanto na descaracterização de personagens tão legais em nome de conceitos duvidosos, talvez fosse bem melhor deixar sem “explicar” nada... Tudo bem, já haviam feito coisa parecida com o único personagem negro da Turma da Mônica, o Jeremias, que de “preto-carvão” e com círculo-rosa como boca nos anos 70, foi, aos poucos, alterado até chegar à forma atual, marrom-claro e sem lábios (!), mas só com as novas historinhas deste novo século ortodoxo: mexer com o que está feito e consagrado há tanto tempo é alto tão patético quanto desrespeitoso, não só com os inúmeros fãs das antigas como também com todos os profissionais envolvidos com aquele trabalho retocado – afinal, tanto o Cinema quanto os Quadrinhos são artes coletivas!

Ah, sem esquecer, também, que outro personagem do Mauricio sofreu horrores, literalmente, com seu traço “atualizado” e “mais apropriado” aos novos tempos, em que tudo pode “assustar” as pobres criancinhas: a Dona Morte, sempre caracterizada como uma caveira andrógina (às vezes eram até usadas linguagens no feminino, por causa do nome da personagem, mas jamais foi vista exatamente como uma “mulher”), atualmente vem sendo desenhada com lábios, seios e formato dos olhos feminino nas novas revistinhas do Penadinho! Meu Deus... Ainda bem que na coleção “Pelezinho Coleção Histórica” (reedição das revistinhas originais do personagem, seguindo a ordem de numeração como foram lançadas, que venho colecionando) mantém os traços “racistas”, diferentemente da série “As Melhores Histórias do Pelezinho” – que, por essas e outras razões, acabei deixando de comprar...

Graças a Deus que o mundo gira e, com o tempo e a consequente evolução inevitável, inúmeras coisas grosseiramente ultrapassadas não se repetem para as novas gerações – e, assim, “divertidos” personagens caricatos e ofensivos, como a empregada negra que fala errado, e cujo rosto nunca aparecia, Mammy Two Shoes dos filmes de Tom e Jerry, os ratinhos mexicanos lerdos e preguiçosos amigos do Ligeirinho e inúmeras outras ofensivas blackfaces que pululavam nas telas de animados desenhos como Looney Toones e Mickey Mouse como uma gag recorrente são coisas do passado... Mas nada de alterar eletronicamente tais desenhos ou simplesmente retirá-los de circulação para parecer correto ou lançar um mea culpa às novas gerações: é dever de todo pai e mãe conscientes orientar seus filhos ao ver qualquer forma agressiva e desrespeitosa em relação a gênero, etnia ou origem sócio-regional, seja atual, seja nas fotos, nos vídeos ou mesmo nos livros empoeirados do baú da vovó – ou alguém aí já se esqueceu das formas agressivamente racistas com que Monteiro Lobato tratava a Tia Anastácia e outros personagens negros nos seus livros do Sítio do Pica-Pau Amarelo?

Qualquer forma de arte evidencia o tempo em que foi criada, não há como fugir disso e é desta forma que devem ser vistas e encaradas! Assim, qualquer período injusto e equivocado de nossa História só será devidamente “corrigido” quando confrontado – apagar digitalmente trechos de uma obra ou mesmo retirá-la de circulação não só é ridículo e contraproducente como também se torna empurrar pra baixo do tapete da humanidade realidades sérias e largamente atuais! Pior ainda é quando tais “mexidinhas” se dão por mero capricho de um autor para ver como seria sua obra antiga com novas imagens ou efeitos especiais atuais... Como diria Dadinho, em Cidade de Deus, "politicamente correto é o caralho"! Afinal, já pensou se o George Lucas decidisse inserir um negro gerado por computador em seus filmes antigos meramente para aplacar a ira dos ativistas, que sempre consideraram preconceituosa a saga Guerra nas Estrelas por mostrar somente um personagem negro em sua trama (Lando Calrissian, vivido por Billy Dee Williams)? Ei, será que foi por isso, então, que ele fez toda a nova trilogia: para mostrar um jedi negro (Mace Windu, personificado por Samuel L. Jackson)? Mistério... Pensando bem, eu que não quero mais ser esse chato do Lucas, ou qualquer outro artista indeciso e insatisfeito: isso seria pior do que uma cirurgia plástica na papada, um implante de cabelo ou ajustar qualquer verso de meus poemas! E viva o lado negro, de qualquer lado!

 
Antes e depois da mania de perseguição...


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2 comentários:

Anônimo disse...

É realmente um desperdício de tempo e dinheiro toda essa pataquada de politicamente correto. Uma conversa fiada que não muda em nada o sentimento do racismo, de como ele se manifesta nessa sociedade mal educada. Me poupe que tirar as características negras de uma personagem de animação melhora a visão do preconceito racial (ou modificar o adjetivo de negro pra sombrio). Nem tudo tem a ver com a raça. Acho absurdo inclusive que forcem a barra nesse nível e triste também, porque quem disse que boca grossa, nariz chato e cabelo pinchaim é ruim? É feio?!Enfim, amo as diferenças, sou apaixonado pela miscigenação, pelos negros, índios, pardos, pra mim inclusive estão no topo da beleza. Lamento muito pelo politicamente corrento e seus excessos e, pra variar, adorei o texto. Bem escrito, bem editado, fluído, instigante, e mostra mais um pouco de uma mente saudável, uma cabeça boa de um cidadão de bem em todos os aspectos. Parabéns meu amigo!

Abs
Cristiano.

Unknown on 30 de novembro de 2014 08:23 disse...

Dil
Qto ao Lucas creio estar ele naquela fase (não necessariamente) de declínio q TODOS ser humano enfrenta um dia: envelheci e agora o q faço pra voltar a ser 'jovem' - entenda jovem como (cri) ativo.
Não consegui assistir aos 'novos episódios' sem um muxoxo!
Enfim, bom lhe ler e saber q não estás só!
Bjs

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