quarta-feira, 22 de outubro de 2014

OITO!
Reminiscências sobre Clayrton

http://3.bp.blogspot.com/-drSC-7UVDyM/T2tYx4ZoxqI/AAAAAAAAAtk/rUKk5orxyVo/s1600/1195997167_f.jpg 
Imagem de Clayrton na quinta série... Bom, na verdade, ele não era tão grande! Mas na visão de um magrelo como eu era naquela época, aquele ladrão de questões de provas alheias era mesmo gigante...

Confesso que não me lembro dele antes daquele "fatídico" momento na quinta série, com a professora Cláudia, de História ("Essa prova não 'tá fácil: 'tá mamão com açúcar..."). Tampouco poderia dizer, ao certo, quando ele teria entrado na minha turma do Colégio Dom Bosco (pelo que me lembro, ele teria vindo para a minha 53, bem como outros colegas, de um desmanche da turma 44), aquele "preto gigante" - como era repetente e atleta o negro e "novo" colega de turma, sua aparência maior e musculosa em relação àquele eu magricela aos 11 anos de idade facilmente impressionava como um Joe Coffe cinematográfico de À espera de um milagre (coisa que depois facilmente se desfez, eu mais alto que ele)! Então, foi mais ou menos assim que ele acabou por me ser "apresentado", na hora da entrega das provas, com direito a destaque como as últimas notas entregues antes do sermão:

- Sinto muito por ter prejudicado você, Dilberto, pois conheço seu desempenho e sei que você jamais colou! Mas pelo fato de duas questões da minha última prova estarem exatamente iguais entre vocês dois, eu me vi obrigada a descontar dois pontos da sua nota pela possibilidade de você ter dado a cola para Clayrton... Por isso, você perdeu o dez e ficou com oito!

Clayrton... Eu jamais esqueceria aquele nome! O primeiro oito de minha "carreira" de então 8 anos de árduos estudos por uma coisa que eu não havia feito! Jurei de pés juntos que sequer o conhecia, e, se eu não o conhecia, não poderia ter noção de que estaria sentado atrás de mim com segundas intenções na hora da prova, aquele maldito! Eu não estava revoltado porque "tinham tirado o meu dez", como algumas línguas ferinas preferiam espalhar à boca miúda, mas, sim, por causa da injustiça: se eu era visivelmente inocente no incidente, não fazia sentido ser punido com a mesma pena do meu algoz, perdendo os dois pontos referentes às duas questões que ele me surrupiara! Mais estranho, porém, que tamanha injustiça - vivenciada por aquele meninão com uma incômoda atuação de vítima, aquele danado escolado nesta arte farsesca, ali, de cabeça baixa, fingindo um arrependimento de que, tempos depois, ele se riria comigo por nunca ter acontecido - era o fato de eu ouvir, repetidamente, por aquela professora paraibana, a palavra "cola": por aqui em São Luís, até então, só se falava em "pesca"!

Logicamente que eu, um pacifista democrata nato e amigo de todo mundo, não me ressentiria de tal fato por muito tempo. E aquele pilantra inicial e péssimo ladrão de respostas alheias - custava mudar as palavras e não dizer exatamente o que eu disse, negão? -, acabaria por se tornar senão um amigo íntimo, mas um divertido colega próximo, sempre compartilhando bom humor e galhardia. Moleque e debochado, Clayrton era mesmo aquele cara que adorava deixar claro que não queria nada com o pesado dos estudos: seu negócio era bola e picardia, porém extremamente calado na turma, normalmente não se manifestando nem para corrigir o seu nome na hora da chamada, quando a maioria dos professores errava na pronúncia - Não é 'Clei-ton', não, professor: tem um 'r', é 'Cla-ir-ton', gritavam em bom Português os seus defensores, dando uma força sobre o americanizado nome do amigo extremamente tímido. 

Fanfarrão companheiro dos amigos das farras regadas a muito álcool e saudável patifaria desde muito cedo, se aquele grandalhão demolidor artilheiro de futsal era um tanto quanto distante da minha realidade CDF dos livros e caseiras sessões de vídeos, era ele quem normalmente primeiro me fazia rir bastante com sua imensa criatividade para piadas sujas, duras aplicações de apelidos nos mais incautos e implacáveis tirações de sarro com mães alheias - até eu, que nunca suportei gracinhas com minha honorável Dona Dilena (- Dilena, minha gata, desce daí de cima..., costumava gritar, com sua voz rouca e abafada, na saída da escola), acabava rindo e entrando na molecagem ao provocar de volta, colocando sua estimada Dona Rosinete em minhas paródias - Todo mundo se levanta pra Rosinete, Rosinete: é boa, é boa, é boa... era a minha resposta, com base num conhecido comercial do iogurte Danette na época...

Outra coisa que sempre achava interessante era a sua capacidade para tirar de letra qualquer piada racista e preconceituosa. Saía-se muito bem, numa época nada politicamente correta como são os dias de hoje, quando lhe vinham com um inoportuno "tição" ou "macaco": bastava um em alto e bom som - Nesseeee... ou um providencial puxão de calças até o chão do bestializado preconceituoso que a idiota gracinha não se repetia! Bem, na verdade, esse lance de arriar as calças dos desavisados não era necessariamente uma "resposta ao preconceito", estou firulando demais sobre qualquer "consciência negra" que ele pudesse ter: tanto Clayrton quanto vários outros adoráveis desocupados tinham mesmo era verdadeira obsessão por essa atividade desde que nossas calças de brim foram substituídas, no segundo grau, pelos famigerados moletons afofados! Nem eu escapei da pachorra!

Minhas últimas lembranças daquele maluco são de quando, logo depois do nosso primeiro vestibular, ele terminava de virar lenda com seus históricos pileques nas bocas-livres de colegas aprovados na UFMA ou na UEMA: eu mesmo presenciei um legendário, onde, depois de ele beber demais e de dar em cima de umas primas de uma amiga contemporânea nossa, vomitou, ao lado de outro tresloucado, Denilson, no meio do terraço onde o churrasco acontecia, quase na entrada da pobre anfitriã! Mas ninguém se chateava com isso, não: afinal, era ele uma lenda viva da esbórnia e do escracho daqueles nossos inocentes tempos de colégio... Faz muitos anos que não o vejo, mas tenho certeza de que, mesmo passado tanto tempo, ele seria capaz de, ao me ver ao longe, já vir fingindo um dos seus famosos mancados e tratando de soltar um dos seus jargões prediletos e inexplicáveis: - Cumpádi, ô, cumpádi... Oitooooooooo! "Oito"?! O que queria dizer isso, que ele repetia à exaustão e aos berros pelo colégio inteiro?! Seria uma alusão à ocasião em que nos conhecemos, debochando indiretamente de sua proeza e da minha nota por causa dele? Não creio... Bom, com um adorável sem-noção como aquele sujeito cem por cento, acho que, com ele, nada mesmo jamais podia fazer qualquer sentido!
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2 comentários:

Anônimo disse...

A minha memória anda fraca, ainda que eu lembre de momentos marcantes e de pessoas idem, nunca é tão rica de detalhes como essa que tu descreveu aqui. Agora eu entendi porque "Oito" rsrsrs... Cada parágrafo que lia esperava alguma ligação (não sei porque encasquetei com esse título).

Espero que tu e Cleyrton se encontrem algum dia e se reconheçam, parem em algum bar e tomem uma cerveja pra brindar o reencontro. Boa sorte amigo!

Abraços
Cristiano

Marcia Rocha disse...

Poxa Dilberto que boa recordação. Não pelo 8 claro... mas pelo colega Clairton de quem lembro muito bem.
Era tudo isso mesmo e como é bom relembrar.

 

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