quinta-feira, 31 de julho de 2014

Pardners...

Musum fazia rir com seu jeito autêntico e porque integrava um quarteto onde os três restantes eram muito talentosos, mas jamais foi um comediante...

Li hoje a notícia de que já faz 20 anos que faleceu Mussum, cuja morte influenciou diretamente no desfazimento do bem sucedido quarteto humorístico Os Trapalhões (que então já consistia num trio, depois da morte de Zacarias, em 1990). O engraçado era que o próprio Antonio Carlos Bernardo Gomes, nome real do personagem famoso pela malandragem, pelo jeito "erradis" de falar e pelas piadas racistas (das quais era tanto vítima quanto algoz), jamais se considerou um comediante, mas só e tão somente alguém caricato  músico que era, mas com bastante humor em meio a danças e improvisos no grupo Os Originais do Samba, na década de 70, engraçado, sem dúvida, o artista negro autêntico que ria de si mesmo era bastante, mas jamais fora um comediante...

Estranho humor esse dos Trapalhões, fiquei eu a divagar por um bom tempo após a leitura, a lembrar, de forma saudosista, que o grosseiro e o politicamente incorreto do quarteto global funcionava muito bem e era engraçado até o final dos anos 80  nos anos 90, o grupo remanescente (Didi, Dedé e atores convidados) passou a se valer de fórmulas sem graça para manter o programa dominical e tudo acabou desgastado. Na verdade, muito do escracho do grupo funciona até hoje, especialmente se considerado o bom início, com cara de "anarquista", dos anos 70! Mas como explicar tamanho sucesso? Simples: o grupo unido era excelente no que sabia fazer, até quando deslizava para o pastelão, sabendo acentuar as diferenças entre os seus personagens (o nordestino oprimido que se dá bem pela esperteza; o galã de periferia que funciona como "escada" para os colegas em cena; o malandro negro e sambista do morro carioca; e o homem tolinho e caracterizado em forma de menino afeminado), sendo todos engraçados. Cada um deles realmente sabia fazer rir, incluindo Mussum! Daí a dúvida: para fazer rir, precisa ser comediante?

Passei, então, a revisitar na memória os grandes grupos cômicos do século XX: Oscarito e Grande Othelo, os maiores astros do Cinema nacional nos anos 50, eram artistas oriundos do circo e do teatro mambembe; os completos Irmãos Marx (Groucho, Harpo e Chico, atores comediantes e também músicos), bem como os Três Patetas e a dupla Abbott e Costello originaram-se do vaudeville, antigo teatro de variedades, nos EUA; Laurel e Hardy, ou o Gordo e o Magro, como ficaram conhecidos no Brasil, começaram e aprenderam tudo o que sabiam no Cinema, nos primórdios da comédia muda... Até o extenso e genial grupo do anarquicamente perfeito e recentemente auto-homenageado Monty Python era formado. em sua ampla maioria, de jovens atores que trouxeram o surrealismo para o humor  mesmo Terry Gilliam, que não era originariamente ator, tinha formação na Comédia, pois era cartunista da precursora revista do non-sense, a MAD. Logo, fica bem claro que, para o sucesso no difícil ofício de fazer rir, parece ser primordial que os integrantes de uma trupe cômica tenham origens... cômicas! Mas e o que dizer de uma das mais consagradas e famosas duplas humorísticas de todos os tempos, Dean Martin e Jerry Lewis (ou, como prefeririam depois, Martin e Lewis)? Ora, Dean Martin jamais foi comediante...

Interrompendo este texto em momento oportuno, um minutinho antes de os ardorosos fãs do renomado ator e cantor ítalo-americano começarem a amolar suas facas para a extração do meu precioso escalpo, gostaria de umas últimas palavras explicativas: sempre fui seu fã, tenho discos de coletâneas de seus inúmeros sucessos e sei cantarolar, de cor e inclusive imitando sua voz, That's Amore bem direitinho... Sem esquecer que cresci conhecendo Comédia com inesquecíveis filmes como A Farra dos Malandros, Ou Vai ou Racha e Artistas e Modelos (meus favoritos da maravilhosa dupla)! Dito isso em minha defesa, creio estar legitimado a falar de Dino Paul Crocetti, o famoso Dean Martin  então, vamos lá... Tal como milhares de outros jovens filhos de imigrantes pobres nos Estados Unidos da Grande Depressão (Sinatra, Bennett etc.), Dean Martin sequer começou como artista, mas, sim, como um sobrevivente das ruas, realizando contravenções e mesmo pequenos crimes para mafiosos locais  os mesmos que, rezam algumas biografias, teriam-no iniciado em sua carreira... Até boxer o garboso rapaz foi! Mas seu talento inegável para cantar acabou levando-o às primeiras apresentações em clubes noturnos e o resto é História...

Ou melhor seria dizer "Histórias"? Afinal, sua carreira já iniciada como cantor estourou mesmo depois que o seu caminho cruzou com o de um jovem e promissor comediante, com quem dividiria os palcos e as telas de todo tamanho em 10 anos de uma dupla inovadora: formavam uma curiosa dupla cômica onde, apesar de ambos cantarem (Jerry sempre cantou muito bem, mas desafinava ou usava voz estridente de propósito), dançarem e atuarem, quem fazia rir era somente Jerry Lewis! Sem dúvida alguma, o velho Martin possuía imenso magnetismo com sua melodiosa voz perfeita, seu charme sedutor de amante italiano e seu carisma incontestável em canções que imortalizou, sendo, mesmo, muito divertido no palco  coisa facilmente perceptível, anos depois, quando Dean integraria as apresentações do famoso Rat Pack, onde igualmente brilhavam com bastante humor outros "cafajestes de carteirinha", como Frank Sinatra e Sammy Davies Jr. Mas, tal como o humor do velho "Olhos Azuis" jamais seria capaz de classificá-lo como um comediante, da mesma forma eu nunca consegui ver Dean como alguém dessa área, a não ser um grande cantor e um ator "escada de luxo" para Jerry. "De luxo", eu frisei (sei que haverá fãs do cara a me esperar na saída...), uma vez que os seus outros talentos marcavam sempre sua ótima presença em qualquer ribalta!

É só prestar atenção para os milhares de quadros apresentados no programa Colgate Hour ou em qualquer um de seus filmes ao lado do genial Lewis: ainda que lhe coubessem muitas falas divertidíssimas (algumas, rezam outras biografias, de sua própria autoria no improviso, o que muitas vezes era "chupado" por Jerry em seu rápido histrionismo), ele normalmente era o parceiro bonitão e certinho do rapaz careteiro e amalucado; o cuidador do menino bobalhão; o que ganhava a garota enquanto o outro derrubava as coisas... Tantos papéis pré-moldados que, segundo outras tantas fontes, teriam esgotado a paciência do belo cantor, sempre ofuscado pelo "cara engraçado que roubava a cena", Jerry: este, sempre ambicioso e elétrico (muitas vezes era visível que o quadro encenado iria para um lado e Jerry Lewis acabava bagunçando tudo e o levando para outro, ora para aparecer mais, ora simplesmente por ter um humor mais ligeiro), com o tempo foi minando o prazer de Dean em atuar ao seu lado, em muitos momentos preferindo epopeicas bebedeiras ou um mero jogo de golfe... Não tinha como dar certo uma dupla tão improvável: um cantor/dublê de ator e um humorista completo (ator, diretor, roteirista, cantor, sapateador etc.)! Tanto é assim que, após a dura ruptura da dupla em 1956, foi Jerry quem decolou com produções próprias geniais (Mensageiro trapalhão, Professor Aloprado, Família Fuleira etc.), enquanto Dean pautou seu sucesso muito mais nas belas canções românticas do que nalgumas tentativas de ser levado a sério como ator  e sempre em papéis sérios...

Porém, assim como em muitos casamentos depois de um amargo divórcio, no caso de Martin e Lewis ficou a estranha sensação de que, apesar do triste rompimento (os dois não se falariam por anos a fio e jamais reatariam a amizade novamente...), a união de gênios, egos e talentos tão diferentes deu certo, sim: por 10 anos! E foram essas próprias diferenças que ajudaram Dean e Jerry a comporem uma das mais bem sucedidas duplas do showbiz norte-americano de todos os tempos: nenhum dos dois conseguia emplacar na carreira antes de o outro ter chegado... A Comédia de um alavancou a Música do outro e vice-versa! Assim, mais ou menos como o título do seu penúltimo filme (no Brasil, conhecido como O Rei do Laço  aquele que termina com a dupla jurando que não haveria "o fim"), bem como da sua canção homônima e uma das mais famosas da dupla, Pardners, corruptela da palavra partners, que quer dizer "parceiros" em Português, os dois foram esses maravilhosos artistas numa parceira meio torta, meio errada desde o início, mas que deu tão certo que dá saudade até hoje, especialmente neste finalzinho de julho, mês em que os dois começaram e também extinguiram a prodigiosa parceria...

E enquanto alguns dos fãs ensandecidos do velho Dino já recobram o fôlego e fazem alguns visíveis sinais de reconciliação ao longe, eu volto a elucubrar sobre os intrínsecos segredos do humor: é preciso ser comediante para fazer rir? Acho que não: basta ter carisma, talento autêntico e a sorte de ter ao lado parceiros que sejam do ramo, que a dança flui que é uma beleza... Simples assim! Mussum e Dean, guardadas as devidas proporções e distâncias entre os trabalhos de cada um, foram maravilhosos coadjuvantes num universo inesquecível de brigas de egos (Os Trapalhões sempre brigavam e se separavam por causa do egocentrismo e do salário maior de Renato Aragão; Dean e Jerry não mais se toleravam no auge da carreira cinematográfica, apesar da amizade de tantos anos), onde ao público, inocente, só restava gargalhar...
Uma relação de amor e ódio... Os "pariceiros" que juravam companheirismo eterno na deliciosa canção homônima em O Rei do Laço (Pardners) eram os mesmos que já não se falavam entre um show e outro, mas que, por profissionalismo contratual, entregaram mais um filme (o excelente Ou Vai Ou Racha) e algumas memoráveis apresentações naquele triste ano para a Comédia de 1956...

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3 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Dilberto. Dando uma passada por aqui. Claro que não é preciso ser um comediante para fazer rir. Veja o caso de Cary Grant. NOS fez rir em tantas comédias românticas e sofisticadas, em que era inigualável, e até mesmo em Intriga Internacional, de Hitchcock. Aquela sequência no leilão é impagável. Sobre os Trapalhões: nunca gostei deles. O Zacarias era o único que me agradava um pouco.
Mas o que quero lhe dizer mesmo é que fico satisfeito em ver que você continua na blogosfera e mantendo a boa qualidade do seu blogue. Um abraço do Sobreira.

Suzane Weck on 7 de agosto de 2014 15:35 disse...

Ola ,depois de ler teu excelente texto è que fiquei sabendo que depois de 10 anos de convivência artística ,os dois astros não mais se tolerariam.Gostava deles no genero que faziam e sempre fui fã da voz de Dean e da maneira que interpretava suas musicas.Lewis era um verdadeiro palhaço,mas de certa forma,algo meio irritante,pelo menos para mim.Mas vi muito de seus filmes e sempre me divertia bastante.Este que hoje comentas em teu blog ,não havia conhecido ,nem a musica.Quanto aos "Trapalhões"nem posso comentar,pois nunca os sequer suportei,principalmente a DIDI.Parabéns por nos trazer esta bela postagem tão bem escrita e detalhada.Grande abraço SU

Maria José on 8 de agosto de 2014 19:41 disse...

Eis um texto que já li várias vezes, desde a postagem e que me instigou. Eu amo "Os Trapalhões" e gostava, ainda, mais, quando eram da extinta Tv Tupi. Eles perderam muito quando foram para a Globo, que tem por regra, pasteurizar tudo e mandar goela abaixo... Vi quase todos os filmes e assisti com tristeza, ao fim. Quanto a Martin & Lewis, a diferença de estilos, que poderia ser a cola para uma duradoura carreira, acabou sendo o estopim de uma guerra, onde todos foram vencidos (fãs incluidos). E sobre a comédia... Este tão nobre gênero, tão desconsiderado. Parece que como os musicais e os faroestes, está fadada a se tornar saudade. Não temos mais grandes nomes, tampouco, grandes filmes. Surge uma esperança, ora, aqui, ora, ali e jaz... É Sr. Dilberto, mexeste num vespeiro (ou em vários). Parabéns pelo blog e pela página.

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