sábado, 29 de outubro de 2011

Sloper da Alma Brasileira


É público e notório o quão desinteressado pela TV aberta de um modo geral eu sou (ainda vejo aqui e acolá, quando posso, De Frente com Gabi, CQC, Agora é Tarde, Comédia MTV e Arte com Sérgio Brito), com destacado desdém pela "teledramaturgia" nacional (leia-se "novela"): desta forma, eu não saberia falar patavinas sobre o último capítulo da novela O Astro, exibido pela fascista Globo nesta última sexta-feira, a não ser que se trata de um 'remake' de um produto da casa - e que dei algumas risadas nas raríssimas vezes em que, trocando de canal no horário, dei de cara com algumas "interpretações" exageradas (como as caretas amalucadas de Regina Duarte, por exemplo) e umas edições aceleradas e freneticamente ruins (talvez num louco afã de "modernizar" o folhetim eletrônico original).

Decerto que o sucesso da primeira versão moveu o País no final dos plúmbeos anos 70 (nada mais moralista e reacionário no Brasil ditatorial do que a família reunida para ver JN e, logo em seguida, a novela), especialmente em torno do apelo da trama policialesca "quem matou Salomão Hayalla" - tanto que o poeta-maior Drummond chegou a declarar, ao final da famosa trama de Janete Clair: "Agora que O Astro terminou, vamos cuidar da vida, que o Brasil está lá fora esperando". Mas o motivo que me traz a, pela primeira vez nos Morcegos, falar de uma novela não é nenhum "marco televisivo histórico" (uma vez que, ainda que eu quisesse, mal era nascido quando da primeira exibição!), mas, sim, a música que fez parte da sua abertura em ambas as versões: Bijuterias, dos geniais João Bosco e Aldir Blanc, parecia cair como uma luva na abertura televisiva, tanto na de 78, com suas interessantes, porém limitadas projeções sobre rostos, quanto na de 2011, com seus efeitos hansdonerianos.

Mas engana-se quem pensa que a canção fora composta diretamente para a novela global: ela é originária do quarto disco do cantor e compositor, Tiro de Misericórdia, que estava sendo gravado em 1977 quando a Globo então procurava uma música para aquela já famosa abertura. Coincidência mística pura, não? Na verdade, apesar de seu lado esotérico e da obsessão por meteoros, creio que João Bosco e este pequeno clássico mal-compreendido da nossa MPB (termo surgido na década de 60 pós-Bossa Nova e pré-engajamentos políticos) sempre estiveram mais para o humor de antigas letras do nosso cancionário, na esteira de bambas como Noel Rosa, Luiz Gonzaga e Chico Buarque. Estão aí até hoje De frente pro crime e Incompatibilidade de gênios que não me deixam mentir (duas outras pérolas bem humoradas da dupla Aldir Blanc e João Bosco ainda na década de 70)!

"Em setembro, se Vênus me ajudar, virá alguém... Eu sou de virgem e só de imaginar me dá vertigem... Minha pedra é a ametista, minha cor, o amarelo... Mas sou sincero: necessito ir urgente ao dentista - Tenho alma de artista e tremores nas mãos. Ao meu bem mostrarei no coração um sopro e uma ilusão, eu sei... Na idade em que estou aparecem tiques, as manias - transparentes, transparentes, feito bijuterias pelas vitrines da Sloper da alma". Simplesmente genial: humor sofisticado, harmonia perfeita num bolero inteligente por sobre elementos indispensáveis à cultura daqueles doidos anos 70... A propósito, a Casa Sloper era uma fina loja de departamentos em estilo europeu famosa na época por suas bijuterias e com um imenso lustre de cristal que pendia brilhante do teto de um bem alto pé direito. "Sloper da alma"... Coisa de gênio! Uma pena que a nossa Música atual não tenha mais nada daquele frescor inteligente de boas fusões de boa música com bom humor...

Falo tudo isso em novos-velhos tempos de apocalípticas previsões de fim de mundo e porque li nalgum lugar desta louca 'internet' de meu Deus alguma garota da "nova era" perguntando, em seu 'blog', se alguém sabia a origem daquela "música tosca" que tocava na novela das 11... "Música tosca"... É por isso que, além da TV, eu simplesmente odeio 'blogs', especialmente "na idade em que estou", quando "aparecem os tique, as manias"...! E viva o bom-humor astral da nossa tropical cultura brasileira, imenso caleidoscópio de brilhos mil!

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15 comentários:

Demócrito disse...

Caríssimo Dilberto,

No meio de tanta informação desnecessária neste mundo virtualístico, como diz o título do livro de J. M. Simmel: Ainda Resta Uma Esperança.

Bela análise e contextualização de uma música.

Também não acompanhei a dita novela, mas assisti o último capítulo, e posso lhe garantir: as caretas da Regina Duarte estavam impagáveis. Eu gosto das caras e bocas dela, acho teatralismo surreal, kkkkk...

Só não compreendi a contradição de você dizer que odeia blogs, enquanto vc tem um?! Concordo, são raros os que impulsivamente nos chama à leitura e acompanhamento, mas existem, como o seu, por exemplo.

Ademais, fico por aqui no afã pensativo sobre nossa negociação emotivo-capitalista...

Abração, e não demore muito a escrever.

Demócrito.

Dilberto L. Rosa on 29 de outubro de 2011 10:46 disse...

Odiar 'blogs'? Foi um chiste de auto-sátira, meu caro: todos são bem-vindos, afinal, em nossa sempre antropofágica cultura nacional! Você não pegou o espírito da coisa... Assim como também ainda não efetivou o depósito dos dois mil cobrados pela BolaMania dos Trapalhões que tanto almejas... Abração!

Ruby on 29 de outubro de 2011 11:43 disse...

Entendi seu desabafo. Essa atual geração só conhece o desnecessário, daí tanta ignorância. A falta de conhecimento dela me choca, digo isso, porque diariamente convivo com muitos adolescentes e constantemente os indago sobre alguém, algo, até recente, eles não sabem quem é ou que é. Depois julgam a educação desse país sem levar em conta essa parte, que é o recusar saber por puro ócio, desinteresse ou por falta de cultura de um país que não presa em mantê-la. Fazer o quê, além de se indignar?

Camille on 29 de outubro de 2011 16:58 disse...

Nao assisti nenhum capitulo, nao sei se é boa. Mas a antiga foi muito famosa. E a musica do Joao Bosco é boa. So levei um susto por que o volume do meu computador estava altissmo!
Bjos,
Cam

Ilaine on 30 de outubro de 2011 13:42 disse...

Oi, Dilberto!

Eu gosto demais dessa música. Lembro da novela "O Astro", mas não sabia que estava passando novamente em nova versão. Ah, imagina só o que estou perdendo!?! Obrigada pelas informações! Abraço forte!

Rossana Masiero on 31 de outubro de 2011 08:54 disse...

E eu que achava que era letra do Aldir Blanc, que também acho genial.
Amo João Bosco!

Eu não assisti a primeira versão de "O Astro" porque sempre achei o Cuoco um canastrão, mas assisti o último capítulo dessa última versão. Lamentável e risível.

Bjcas
Rossana

Dilberto L. Rosa on 31 de outubro de 2011 11:54 disse...

Mas a letra é mesmo do Aldir Blanc, minha cara Rossana: eu que, no correr do texto, só dei créditos ao João Bosco - devidos créditos já acrescentados ao texto, obrigado por não me deixar cometer uma injustiça! Mas isso veio bem a calhar: acabaste de me dar uma ótima idéia para uma postagem sobre o casamento (e o conturbado divórcio) destes dois grandes nomes da nossa extinta MPB! Abração!

Jandira disse...

Apesar de saber quase nada de música, adorei a letra e o ritmo dançante dessa Bijuterias! Um frescor realmente inteligente e também, na minha modesta opinião, um poucos de 'drogas' (rsrs) de fato com muita inspriação pra fazer essa mistura toda.hehe

Érica on 31 de outubro de 2011 16:22 disse...

Fantástica essa passagem tão bem sintetizada de um momento marcante na música, na televisão e nos anos 70 de modo geral. Foi um prazer acompanhar o texto até o final. Com relação à música, desde o primeiro momento que a ouvi achei super interessante. Tudo. A letra, a música, o ritmo que ela é levada, de um jeito meio narrado, meio cantado. Também detesto televisão aberta, com raras exceções, concordando com todas as opções que você fez referência aqui. Todavia, prefiro evitá-la. Tenho assistido a muitos filmes, esse final de semana mesmo fui agraciada com três ótimas companhias: Laranja Mecânica, Quanto mais quente melhor e Crepúsculo dos Deuses. Fui muito feliz ao me deparar com tais títulos. Muito mesmo. Quanto a odiares blogs: obviamente, uma piada. Realmente não são todos os espaços dessa blogosfera que valem à pena, alguns inclusive dão até raiva quando perdemos tempo neles, mas claro que outros tantos, seguem o caminho “do bem”. O Morcegos, sem dúvida, se enquadra perfeitamente nessa linha. “Ah se todos fossem no mundo iguais a você, la rá, la rá lá...”

Beijos e parabéns pela sensibilidade.

cineboy on 31 de outubro de 2011 17:02 disse...

Muito bom.Gosto de João Bosco mas não conheço tanto de sua obra.Valeu Dilberto!

Batom e poesias on 2 de novembro de 2011 19:36 disse...

Nos "site" de letras, também só aparece 'João Bosc'o como autor, Dilberto, e até achei que tinha mesmo me enganado.
Entretanto, essa letra é a "cara" do Aldir, um dos melhores cronistas da MPB.

Beijos, querido.
Rossana

Claudinha ੴ on 3 de novembro de 2011 09:51 disse...

Olá Dil, custei para me livrar de Beetlejuice,mas pude voltar.

Olhe, eu concordo com você. Não assito mais novelas (há anos),mas gosto do João Bosco. Ele estudou Engenharia em OP e fez parte do começo de sua carreira lá entre repúblicas, barzinhos e portas de casas. Não me lembro dele nesta época, eu era muito criança, mas conheci bem (...) os primeiros showzinhos e sorrisos artísticos do seu irmão Tunai, que teve o mesmo caminho. Formados em engenharia e músicos. Um beijo!

Canto da Boca on 6 de novembro de 2011 11:14 disse...

Mas o que esperar de uma geração "lacraia", "é o tchan", "axé" e outras aberrações, hein Dilberto?

É preciso um mínimo de conteúdo para entender a letra, até porque Aldir e Bosco não são tão óbvios assim. Misturar o cotidiano, cultura, misticismo, idiossincrasias, tudo isso numa canção que não dura nem dois minutos, e contar o que passa pela alma de alguém? É preciso mesmo talento e conhecimento, que ambos têm de sobra!

Minha sogra adorava comprar na Sloper, e eu me divertia como ela pronunciava o nome da loja, que ficava ali no centro do Recife, num prédio do século XIX, e claro, cheia de imponência.

E quanto a mim, minha pedra é ônix, minha cor é o vermelho, e estou indo ao dentista, e no coração, ah, no coração, sempre transbordante de ilusões, risos.

Abração!

Anônimo disse...

Eu gostava de saber se o instrumental no final da música é citação da trilha sonora de algum filme.

Anônimo disse...

O fim da música é citação do tema Spellbound de Miklos Rozsa para o filme de Alfred Hitchcock.

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