quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Tempo que não volta...


Hoje estava na casa de minha avó paterna, D. Marieta Guilhon Rosa, no Planalto-Anil, próximo ao Posto Pingão, célebre casa de minha infância, tantas as vezes que lá dormi... Conversava com vovó na cozinha quando saímos por instantes para colocar o lixo na área ao lado, que dava para um longo corredor até o fundo da casa, ao que ela me confidenciou, baixinho: "teu avô está te esperando lá no quartinho do fundo, ele quer conversar contigo, vai lá...". Eu, sem questionar, segui a passos lentos aquele corredor estreito, de paredes cobertas pelo tempo e pelo limo, quando me lembrei de algo que irrompeu ao coração: "ei, mas vovô já morreu!", no que acordo e percebo que estou no meu quarto e que tudo não passara de um sonho, que, assim como a maioria dos sonhos, não sabia porque o havia tido...

Na hora do almoço, em casa, com a televisão a dar as notícias, distraído acompanhava as matérias até que enfim prestei atenção numa em especial, sobre o feriado de hoje no Rio de Janeiro, por ser dia de São Sebastião, padroeiro da cidade maravilhosa - meu avô, Sebastião Ribeiro Rosa: ele faria aniversário hoje!

Apesar de nunca ter sido dado a misticismos, não deixei de me surpreender com aquela estranha ligação: sonhar com vovô, justo hoje; e ele, por uma época, ouviu seus inesquecíveis LPs no quartinho do fundo de sua casa, para onde levou o velho aparelho de som depois que meu tio de lá se mudou, e, sempre que o visitava, para lá me dirigia a fim de acompanhar aqueles mestres da voz, como Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Jamelão, Ataulfo Alves, Cauby Peixoto... Em que pese o fato de, antes de morrer, ele passasse longe do quartinho do fundo, uma vez que sofreu delicada cirurgia em que teve de amputar a perna direita devido a um aneurisma, restando tristemente deitado no seu quarto nos últimos meses de vida, marcara-me o quartinho do fundo, o "quarto da bagunça", no fundo de minha memória perdida...

Especialmente neste dileto espaço virtual, muitas foram as homenagens que já fiz ao meu estimado avô, que morreu sofregamente no hospital, depois de várias internações, no dia 13 de junho de 2004 (dia de outro santo, Santo Antônio), entretanto nada mencionara sobre ele já há um bom tempo, nem nas conversas informais na família, por isso a surpresa a respeito do sonho...

Logo após o seu falecimento, minha avó vendeu a grande casa do Planalto e se mudou para a casa da minha tia. Nunca mais soube daquela casa, nem dos seus novos moradores, e fico me perguntando das sensações daquele sonho: meu avô continuaria por lá, no quartinho dos fundos, repousando enquanto toca na vitrola antiga Lábios que beijei, Aos Pés da Santa Cruz ou Juramento Falso, silente e discreto como sempre viveu, sem chamar a atenção dos novos moradores, nem de forma espectral, nem de forma alguma? Não creio... Ou foi sua essência viva no recôndito de minha memória sentimental que me chamou no subconsciente da data de hoje? Acho que nunca descobrirei... Mas me pergunto mesmo sobre o que vovô Sebastião queria conversar comigo hoje...
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25 comentários:

Du on 20 de janeiro de 2011 22:29 disse...

Só pra tu parar de me xingar, qualquer hora vou postar um texto teu no meu blog! Adoro as tuas poesias, meu amigo-relicário-reclamão! ;-)

Preciso dizer que teus comentários são a alegria dos meus dias. Muito obrigada por não me esquecer, mesmo que eu mereça ser esquecida por negligenciar uma alma tão gentil quanto a tua...

Beijos mil!!!!

Miguel S. G. Chammas on 20 de janeiro de 2011 22:31 disse...

Amigo Dilberto, na vida há nrazões que a propria razão desconhece, já dizia o poeta naquele samba cantado por Nelson Gonçalves.
Espiritualista como sou, mante da musica btasileira como poucos, eu não poderia ter lido o texto hoje postado sem me emocionar e quase chegar às lágrimas ao ouvir a linda valsa Lábios que Beijei na voz do saudoso Orlando Silva "cantor das multidões".
Obrigado amigo por esta fração de felicidade.
Ah! Não tente descobrir as causas do teu sonho, acredite que esta reverência foi bastante significativa para o sr. Sebastião.

LuCordeiro: on 20 de janeiro de 2011 23:00 disse...

Dil,querido amigo,nossos sonhos são frutos de nossos desejos e tb das coisas que povoam nosso inconsciente.Vc sabia que hj era dia do aniversário dele.Podia não estar consciente disso,mas estava lá,no fundo da sua alma.E vc criou o diálogo com sua avó:"Seu avô quer falar com vc".São as boas lembraças,as saudades,que nos fazem criar esse tipo de enredo em nossos sonhos.Acho que vc gostaria mto de poder conversar novamente com ele,ouvir as músicas que ele amava,visitar o velho quartinho tão importante na sua infância.O que seria de nós sem nossas doces lembranças? O passado não deve ser motivo de profundas saudades para não ficarmos presos a ele,mas,com certeza,deve permanecer como lembrança de felicidade que o tempo não consegue roubar de nós.
Lindo sonho,Dil.E lindo coração o seu,que o criou.Mostra sentimento e afeto.
bjs muito grandes.Bjocas na Morceguinha,papai!

Í.ta** on 21 de janeiro de 2011 00:04 disse...

já cantava o cazuza
que o tempo não para,
não é mesmo?

ficou muito bonito este teu escrito.

abraços.

Soninha on 21 de janeiro de 2011 00:05 disse...

Olá, Dilberto!
Saudade!
Primeiramente,quero lhe agradecer pela visita lá no Memórias de Sampa. Foi uma honra para nós.
Se você tiver alguma história sobre a cidade de São Paulo que qeuira nos contar, terei prazer em postar lá no blog,ok?!
Bem...acredito a sobrevivência do espírito, após a morte do corpo físico...a vida continua, além da morte. São dimensões diferentes que nossos parcos sentidos humanos ainda não conseguem emxergar.
O avô querido está bem aí, no seu coração e também lá, no outro lado da vida, sentindo a mesma saudade dos seus entes queridos...
A data especial fez vc se lembrar de suas coisas queridas, seu avô, seu espaço preferio...enfim...houve aquela ligação.
Vale dedicar alguns minutos para fazer uma prece a ele....Ele ficará contente,com certeza....será o melhor presente.
Valeu,Dilberto.
Fique bem.
Muita paz! Beijossssss

Miguel S. G. Chammas on 21 de janeiro de 2011 08:05 disse...

Oi reclamão (como disse a Du lem cima) tem texto novo lá no meu cantinho de rabiscos, aparece por lá.

Jens on 21 de janeiro de 2011 13:32 disse...

"A casa do meu avô...".
Belíssimo e sensível texto memorialístico, Dilberto. Me fizestes recordar do meu avô Daniel contando histórias de assombração ao pé do braseiro do quarto que ocupava nos fundos da casa deIpanema da minha infância - "o quartinho".
Lembranças assim fazem, também, a beleza da vida.
Um grande abraço. Thanks por me proporcionar este fugaz retorno ao passado.

aracagi@uol.com.br on 21 de janeiro de 2011 13:36 disse...

Dilberto, essas coisas lá de cima só vamos conhecer quando for a nossa vez de subir. De qualquer forma foi bom o sonho que trouxe essas lembranças. Meu abraço.

Lara Amaral on 21 de janeiro de 2011 14:39 disse...

Que texto bonito, Dilberto, sensível a forma como conta um pouco sobre seu avô.
Ontem passei aqui e li um poema que vc fez para ele, também muito bonito, por sinal.

Eu perdi uma tia a qual eu era muito ligada, fazíamos aniversário no mesmo dia. No meu primeiro aniversário sem ela, sonhei a noite toda com ela e acordei com aquela sensação forte de ter a pessoa perto, e também fiz um poema para ela. Os entes queridos que perdemos serão para sempre lembrados mais fortemente em alguma data, e a gente fica com essas lembranças, com esses sonhos que nunca nos deixam perdê-los.

Abraço!

Canto da Boca on 21 de janeiro de 2011 16:18 disse...

Bela rendição de homenagem.
Acho que o fato de sermos seres compostos e sobrepostos de memórias é o que sobremaneira nos humaniza.
Estarmos atentos ao tempo e percebermos, enquanto ainda é tempo, que ele nem pára e nem volta, deve ser uma boa forma de conviver com o futuro que nos cobrará um presente desatento.

Abraço, Dilberto!

Zélia Guardiano on 21 de janeiro de 2011 17:27 disse...

Olá, Dilberto!
Adorei sua visita e seu comentário.
Vim agradecer e encantei-me com o espaço.
Seus escritos são formidáveis!
Tanto que me inscrevi como seguidora.
Voltarei sempre.
Grande abraço

Gil on 22 de janeiro de 2011 01:22 disse...

Tentou perguntar ao seu avô sobre o assunto a ser tratado? É um bom exercício mental e alivia as saudades. A música é ótima, estou ouvindo-a pela terceira vez!

Não falarei nos textos sobre a enochatice. Esclarecerei a degustação exatamente para não ter que falar sobre a enochatice...

Ruby on 22 de janeiro de 2011 23:47 disse...

Memórias. Tempos que marcaram e não voltam mais. Ausência. Ouvir LPs que coisa gostosa em meio a Ipods e MP algum número, queremos sempre a tecnologia, mas não esquecemos o passado. visitar a casa dos avós deve ser muito bom, coisa que só fiz na infância, ambos partiram há muito. Beijos e obriagada pelos comentários maravilhosos lá.

Adriana Alencar on 23 de janeiro de 2011 09:38 disse...

Acredito que um pouco das duas coisas, Dilberto. A lembrança que você tem dele lá no seu subconsciente fez essa associação e a energia que foi uma dia o seu avô respondeu e veio no seu sonho. Eu entendo as almas e o pós-morte assim, como energia, negativa ou positiva, Deus e o Inferno seriam o pólo positivo e o negativo, respectivamente e, após morrermos, vamos ao encontro daquela que predominou na nossa existência. Acredito também que, como energia, nunca deixamos totalmente de existir e um pouquinho de nós fica impregnado nos locais que vivemos e amamos. Parece que você sintetizou tudo isso nesse sonho maravilhoso. Desejo que seu avô, de onde esteja, olhe sempre por você e por sua família.
Obrigada pela contribuição lá no blog,irei retificar o engano.
Volte sempre, seus comentários alegram-me, é muito bem-vindo!
Um abraço,
Adri

Srtª Vihh on 23 de janeiro de 2011 12:09 disse...

Senti-me ao abrir um livro desejado, por mim o mais ansiado, peguei-me boquiaberta ao ler sobre seu sonho que, eu juarava ser verdade, como ousa mexer com os sentimentos assim? Tuas palavras são canções ministradas com a maior maestria, donimadas com a força da sua sensibilidade.
tornaste para mim uma inspiração.
muitas felicidades a vc e sua esposa pela luz que agora iluminará suas vidas.

Marina Queiroz on 23 de janeiro de 2011 14:27 disse...

olá Dilberto
Não pude deixar de ler e me emocionar com o seu lindo post.
Mesmo não crendo nestas coisas, como parece afirmar, tenha certeza de que neste dia teu querido avô estava em sintonia cósmica com os entes mais que queridos.
Tua sensiblidade para aescrita é comovente. Um baraço e obrigada por me deixar conhecer este canto também.
Marina

layla lauar on 23 de janeiro de 2011 19:52 disse...

que texto lindo Dilberto... tem um poema que é atribuído, por uns, a Santo Agostinho, e por outros, a Henry Scott Holland, que diz...

"A morte nada é.
Eu apenas estou do outro lado
Eu sou eu, tu és tu.
Aquilo que éramos um para o outro
Continuamos a ser.
Chama-me como sempre me chamaste.
Fala-me como sempre me falaste.
(...)
A vida significa o que sempre significou.
Ela é aquilo que sempre foi.
O ‘fio’ não foi cortado.
Porque é que eu,
estando longe do teu olhar,
Estaria longe do teu pensamento?
Espero-te, não estou muito longe,
Somente do outro lado do caminho.
Como vês, tudo está bem."

então...abra os ouvidos do coração, que saberá o que seu avô quer lhe dizer e creia, ele, apenas, despiu-se do corpo que o limitava e atravessou para o “outro lado do caminho”, não necessariamente morto, mas irremediavelmente livre...

beijos

um beijo

Paula Barros on 24 de janeiro de 2011 00:45 disse...

Dilberto, a música me transportou, juntamente com a sua história bem escrita, com as lembranças. Me emocionei.
Além do caminho que você fazia em sonhos rumo ao quartinho, eu fiz rumo a uma garagem que meu avô tinha, me lembrei dele, embora tenha poucas lembranças dele.

Esta semana fui num blog e falava do dia deste santo, 20 de janeiro, e não dizia o nome do santo. Achei uma coincidência interessante.

Obrigada pela visita, e pela oportunidade de estar aqui. Ler blog é sempre muito mais do que ler blog, ou uma boa história, é se permitir sentir a própria emoção, relembrar momentos de vida, e viajar junto com o escritor. E por aqui pretendo fazer boas viagens.

abraço.

Jandira Helena disse...

Tempo bom que não volta mais... Ainda bem que tens essa memória formidável que faz tudo parecer que foi ontem e tudo na maior vivacidade. É a vida,né? Pobres de nós se não tivéssemos algo para recordar... A tua alma de poeta traz muita beleza e melancolia nas palavras aqui empregadas. Grande beijo,meu Amor!

Scorpys on 24 de janeiro de 2011 15:43 disse...

Olá moço,a quanto tempo heim,desde do ano passado..rsrs.Espero que este ano seja maravilhoso pra todos nós.Que lindo sonho com seu avo,não sonho muito com meus avós ,mas lembro de momentos que passamos juntos e bate aquela saudade,mas faz parte ne amigo.Espero que tenha uma semana pra la de deliciosa,
beijusssssss

Srtª Vihh on 24 de janeiro de 2011 21:33 disse...

Caro amigo.
Pois bem, certos textos inspiram-me de certa forma, e cada palavra fica gravado como tatto em mim... Isso acontece porque amo ler, e me identifico demais quando encontro sentimentos tão livres e leves em textos como o seu, não há medo de expor-se sutilmente, agradeço as gentis comparações, mas ainda falta muito para que eu alcançe tal patamar de linguagem.
cuide-se

Tangerina on 24 de janeiro de 2011 22:35 disse...

Estou encantanda.
E são tantas coisas.

Ainda estou te lendo. Ainda estou te percebendo aqui.

Abreijos (carinhosos).

Adriana B. disse...

este post me emocionou muito, amigo. Vc descreveu tudo de uma forma que senti como se teu sonho tivesse sido real! Vc conseguiu passar essa emoção para o leitor.

Eu também tinha uma ligação muito forte com meu avô e, não raramente, sonho com ele e acordo com a sensação de tê-lo encontrado de verdade. No sonho ele sempre me abraça e diz que estava com saudades e o mais curioso é que mesmo no sonho, eu sei que ele já morreu.

Claudinha ੴ on 25 de janeiro de 2011 21:09 disse...

Olá Dilberto! Eu tenho certeza de que vocês tiveram uma conversa, lá no plano astral. Já tive um destes momentos (já descrevi no blog). Ele veio, sentou-se ao meu lado da cama e falamos por vezes. Quando dei por mim, descobri que era data de seu aniversário de morte, eu nem me lembrava disso, ele se foi em 73, eu tinha apenas 9 anos. Tenho certeza de que a essência de seu avô permaneceu, principalmente em seu coração. Já conferiu datas e coisas importantes da vida deles? Pode haver alguma!
Beijos e lindo e emocionante post!

Игорь on 29 de janeiro de 2011 11:06 disse...

Uma sincronia junguiana ,Dilberto .

grande abraço

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