terça-feira, 21 de dezembro de 2010

"Se eu perder esse trem..."


Vejo a passagem do tempo como algo tão fascinante quanto assustador: tanto me enternece ver as mudanças que se processam (taí minha linda filha que não me deixa mentir, com uma grata novidade a cada dia...), como me amedronta perceber tantas coisas boas se perdendo ao longo da trajetória... Talvez por isso seja um saudosista de carteirinha: sinto falta até do que não vivi, só por causa daquele cheiro de passado, quiçá, da amarelidão em preto e branco de fotos ricas de cores que não parecem mais hoje existir ou de sons e imagens que hoje, no máximo, apenas se copiam ou se repetem sem o mesmo brilho e fulgor! A Música e a Televisão, por exemplo, eram bem melhores, não me restam dúvidas...

Pois, sim, hoje, o que nós temos? No máximo de qualidade que se possa supor, passando-se por sobre as insuportáveis indústrias dos modismos em massa de emos crepusculares, de novas Madonnas gagás ou de 'happy rocks' coloridinhos sem rock nem dicção, virão exemplos de Skanks, Nandos, Lenines ou Camelos a bem reciclar o que já existiu, Caetanos e Djavans buscando reinvenções de si mesmos e Marias e Marisas a reinterpretar tudo isso que já não há... Nada mais da inventividade criativa adolescente de um bom pop-rock anos 80 (Paralamas, Legião, Léo Jaime, Cazuza), a Poesia de um Chico, as notas perfeitas de um Tom, um acorde preciso no violão de um João ou ainda a precisão de um choro virtuoso de Pixinguinha, tampouco a eterna tropicália de um Gil e o saudosismo eterno de um Samba de Cartola ou de Paulinho: MPB virou sigla de museu, todos compõem e todos jogam coisas musicais ao vento, sem novidade nem raiz...

E por falar em raiz, hoje me pergunto mesmo com que roupa eu vou p'ro samba na casa do Arnesto, por exemplo! Pois, como diria o Poeta baiano, "tempo, tempo, tempo..." E já se vão 100 anos que vieram ao mundo dois imortais brasileiros que nos trouxeram uma identidade musical e que souberam dizer que nossa Música é o Samba, forma maior de comunicação cem por cento nacional! Tanto que Adoniran Barbosa, o mestre paulista dos seus bem-humorados personagens suburbanos e de Português erroneamente macarrônico, definiu a cara deste gênero numa cidade normalmente considerada ruim da cabeça e doente do pé: Saudosa Maloca, Abrigo de Vagabundos, Bom Dia Tristeza, Tiro ao Álvaro, Iracema, Samba do Arnesto e Torresmo à Milanesa são clássicos absolutos e atemporais crônicas sociais que jamais perderam o trem das onze horas da história musical brasileira! E o que dizer do Mestre-de-Todos-Nós, Noel Rosa, meu parente distante e verdadeiro pai de inúmeros sambas e sambistas (como Chico Buarque, que tão bem compôs com a ironia noelística em Vai trabalhar vagabundo, Doze Anos, A Rita, Feijoada Completa, dentre tantos outros): nem problemas pulmonares crônicos, nem queixo deformado a fórceps, nem uma forçada Medicina tiraram o malandro genial de dentro deste que se foi tão cedo, mas que deixou um legado de verdadeira universidade para qualquer compositor que viesse em seguida - fosse nas provocações (e aulas) em forma de samba dos recados para Wilson Batista (Lenço no Pescoço, Feitiço da Vila, Palpite Infeliz), fosse nos sambas-canção/marchas geniais (Último Desejo, As Pastorinhas, Pierrô Apaixonado), fosse na criatividade inovadora ou no humor rasgadamente brasileiro de outras tantas canções (Pra que mentir, Não tem tradução, Fita Amarela, Conversa de Botequim, Gago Apaixonado), Noel dividiu águas em nosso jeito de compor e de criar música brasileira!

E por falar em saudade, onde anda um Noel ou um Adoniran hoje em dia, nessa dita "modernidade" em que não se acha ninguém mais moderno que eles? E se, na linguagem-mor do Samba, até meu vascaíno amigo Paulinho da Viola anda parado há mais de dez anos, o que esperar?... Tomemos reinterpretações...

Tal como a Televisão faz de si mesmo: eterna reciclagem! Tirante alguma criatividade (como os recentes Afinal, o que querem as mulheres, da dupla Melamed/Fernando de Carvalho, e Comédia MTV, do genial Adnet), o que se tem na televisão dita "aberta"? Quase ninguém mais suporta novelas (até funcioram com certa invencionice lá atrás, em clássicos como Beto Rockfeller, Saramandaia, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Roque Santeiro, Vale Tudo até Renascer, mas hoje em dia...)! E o que dizer dos programas de auditório? É o mesmo que repousar acefalicamente diante daquela maquininha de fazer doido, como diria Stanislaw! Pior ainda é ver reciclados clássicos oitentistas como Roletrando e Tudo por Dinheiro pelo próprio "Patrão": tudo bem que eu seja saudosista e goste de ver na ativa o Silvio Santos (que merecia uma melhor aposentadoria em seus belos 80 anos de trajetória), ainda o maior comunicador da televisão (que também completou neste ano outra idade redonda: 60 anos), mas daí a trazer tudo isso para a atualidade, em 'remakes' agonizantes de uma TV quase falida, ressuscitando chatices homéricas como Raul Gil e sucateando todo o resto da grade de programação (com direito a mais repetecos histriônicos, como Pantanal e Ana Raio e Zé Trovão, "clássicos" da extinta Manchete), faz levar ao ar um cheiro fúnebre ou, no mínimo, de televisor queimado! Preferível ver tudo isso em honrosas reprises (e em doses homeopáticas) em canais a cabo, como o Boomerang! Falando em TV a cabo, parece que o destino de nossos aparelhos seja mesmo o dos enlatados norte-americanos (só curto as séries cômicas e alguns documentários!) e dos programas "melhorezinhos" das companhias brasileiras, renegando a TV pública e suas seis décadas de História a uma espécie de "Bolsa-Entretenimento" apenas para os desvalidos...

Minha mulher diz que tenho andado ácido; minha filha, ao me ver, tenta repetir com os dedinhos indicador e polegar os estalos que eu costumava fazer para entretê-la (e que ela adora!); e eu quase não as tenho visto, num tempo louco e numa correria desorganizada ao longo de todo o semestre corrido e cheio de novos afazeres... Tempo, tempo, tempo... Só posso dizer que venho tentando desacelerar nos últimos dias, aproveitando os minutos de acréscimo do segundo tempo do ano de 2010: acho que tudo que, no fundo, eu realmente queria era parar para ouvir boa Música ou ver um bom programa na TV ao lado da família (ou, ao menos, escrever sobre isso)... Ou simplesmente parar para conjecturar sobre o tempo implacável, que, como diria o Poetinha, "é curto e não pára de passar", por sobre qualquer arte, por sobre qualquer artista... Ou ainda, pelo menos e finalmente, para não ficar para trás no atropelante trem da tecnologia, desbaratar meu novo aparelho leitor de 'blue-ray', entregue há mais de uma semana e só agora desencaixado, e entender como ele toca meus CDs de Música, os DVDs de minhas séries favoritas, conecta-se com a 'internet', fala e entretém minha família em minha ausência...
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9 comentários:

Í.ta** on 23 de dezembro de 2010 10:53 disse...

faz-nos bem essas retomadas, esses pensares, não é?

adorei a postagem, cheia de referências com as quais muito compartilho.

bom final de ano,
bom começo de novo ano.

abraços.

Игорь on 23 de dezembro de 2010 12:53 disse...

Olá Dilberto !

O passado muitas vezes nos é mais simpático que o momento presente .

O passado pode ser e é reconstruído pela memória . O presente se vive e esvai ...

Feliz natal para ti e tua família .

Até breve .

Boas nostalgias .

Claudinha ੴ on 23 de dezembro de 2010 22:09 disse...

Querido amigo, o tempo nos escraviza! Desacelere, aproveite ao máximo esta joia rara que Deus lhe deu. Agora, ela mudará muito rapidamente e você deve perceber cada fase, porque depois , quando se der conta, ela já será uma mocinha (ai... nem posso pensar, aqui já tem alguns lobos salivando em volta da casa e ela só tem 13!)... Você nos transportou para um passado delicioso, daquelas tardes de domingo, um Adoniram que todos batucavam, uma tv mais inocente que não existe mais. O mundo era mais doce, não?
Eu lhe desejo um santo Natal, ótimas festas, junto de suas meninas queridas.
* Desacelere, veja o que aconteceu comigo, eu quase perdi tudo isso. Se não viu, clique no Fractais e verá.
Beijos!

LEO on 23 de dezembro de 2010 23:13 disse...

ANTROPOLES SOVIET CHRISTMAS
cielo strelato, Il Santo padre stará inforcato. Bandiera rossa trionferà.
www.antropoles.blogspot.com
LEO

Marco on 24 de dezembro de 2010 11:32 disse...

Ah... Falar de Adoniram e Noel...
Pois é. Lembrei de uma música do Ronaldo Bastos, que dizia: "o tempo não para no ponto, não apita na curva, não espera ninguém..."
Essa modernidade não me inspira, nem me comove.
Primo, quero te desejar e à sua família, um Feliz natal e um Ano Novo maravilhoso. Que a sua Isabela viva para muitos Natais e reveillons... E você esteja com ela.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Jens on 25 de dezembro de 2010 13:03 disse...

Oi Dilberto.
O passado, visto pelas lentes edulcoradas do presente, sempre parece melhor do que realmente foi. Faz parte da dinâmica da vida acrditar que o tempo bom de ontem poderá se repetir no amanhã. Acho que o nome disto é esperança. Assim, suportamos melhor o presente.
Um abraço e um Feliz Natal e um bom Ano Novo para você e os seus.

Du on 25 de dezembro de 2010 14:24 disse...

Adoro Adoniran, essa música é linda, assim como tudo o que escreves!!

Seja no Natal ou em qualquer outra data, devemos sempre sentir a presença de Deus em nossos corações. Neste ano que passou, apesar de tudo que sofri, sempre senti que Ele me carregava no colo quando eu achava que não podia mais seguir meu caminho. 2010 foi o ano mais difícil de toda minha vida, mas ao mesmo tempo, foi o ano em que tive provas de que verdadeiras amizades ainda existem e que Deus nunca nos desampara. Talvez por isto eu tenha conseguido meu emprego tão sonhado, depois de tantas batalhas, internas e externas...

"Girando o mundo nos guia à poesia dos dias, seja com o sol, seja com a lua, ela é tua... a felicidade está em ti."

(postei esta frase no twitter quando senti que o sorriso é como uma cura... e foi. mudei minha atitude diante dos fatos e meu pensamento atraiu energias positivas)

Sou agnóstica, só pra constar, acredito em energias positivas que posso chamar do que eu quiser, inclusive de Deus, até para uma maior compreensão dos que lêem e tem outras crenças... ou até pra quem não tem nenhuma!

Beijos n'alma e que sejam felizes todos os teus dias, inclusive o de hoje!

Thiago Leite on 26 de dezembro de 2010 09:48 disse...

Muito interessante. O passar implacável do tempo é o que nos permite perceber as mudanças, os fenômenos naturais (ou não) que têm a capacidade de nos fascinar tanto.

Mas é ao mesmo tempo o responsável pelas perdas e mortes das coisas com que nos acostumamos e a que nos afeiçoamos. A lição do Budismo é que, para não sofrer e para ser feliz, a pessoa deve aprender a se desapegar de qualquer coisa, entendendo que tudo é impermanente (sem deixar de aproveitar as coisas enquanto elas estão por aí).

Suas observações sobre as fotos e a memória me remeteram a 1984, de George Orwell, que estou terminando de ler agora. A memória guarda com mais força o passado do que qualquer documento escrito ou impresso.

Sobre a decadência da qualidade da arte, pensei numa coisa: hoje temos à disposição uma tecnologia que nos permite preservar quase tudo o que foi produzido em termos musicais desde a invenção do gramofone. Ou seja, sempre que quisermos algo de qualidade, podemos buscar um disco de vinil, um CD ou um arquivo MP3 (no caso dos filmes, o DVD e também o blu-ray...).

A música produzida industrialmente hoje em dia não é para ser apreciada, é apenas para animar festas ou servir de fundo sonoro para eventos sociais. Talvez isso nem seja feito conscientemente, mas a indústria se "aprimora" de acordo com a resposta do público, que hoje em dia tem pouco tempo para sentar durante uma hora e escutar uma bela ópera de Bizet ou imergir no virtuosismo furioso de um Led Zeppelin.

Ou será que não?...

Layce Aguiar disse...

Se Eu Perder Esse Trem” nos leva a refletir sobre o tempo passado, presente, futuro e tudo o mais que o fascínio das boas lembranças é capaz de revelar a quem, sabiamente, afere a longevidade não apenas pelos dias vividos, mas, sobretudo, pelas emoções sentidas e partilhadas. Afinal, não basta estar vivo, mas sentir-se vivo e impressionado com a vida ao seu redor.

Por outro lado, “Se Eu Perder Esse Trem” nos conduz a pensar, circunstancialmente, que as mesmas lembranças, ora vistas de outro ângulo, são também assustadoras, na medida em que se perdem além da própria vida, em sucessivas e inimagináveis cenas tão tristes como preocupantes.

Fascinar e assustar, palavras e idéias opostas, constituem ações muito bem ilustradas pelo autor. É inegável que tal antítese, por conta de seu rico desenvolvimento de memória viva, tenha apregoado a percepção e o sentimento do leitor, por mais adormecido e silenciado que possa estar. Valeu a sacudida!

Sinto falta até do que não vivi, só por causa daquele cheiro de passado...” Que lindo sentimento humanístico! Significa recordar e sentir o passado na sua essência. É perceber, de modo muito peculiar, toda imagem que o pensamento pode fantasiar do tempo decorrido e ainda, tão fortemente, aromatizado.

Ao retratar o tempo presente, o poeta-autor se mostra melancólico, taciturno, desencantado com as atuais criações de quem (inegáveis trovadores e cancioneiros), por inúmeras vezes, provou talento e atiçou fortes e benéficas emoções. Quem não se preocuparia com tamanho desperdício de talentos?
Aquela criatura amada e companheira, que muito conhece do poeta-autor, acabou por descobrir acidez em suas palavras, descortinando instantes de contrariedade, descrença e temeridade.

Isabela, com habilidosa inocência angelical, orquestrou seu aprendizado e, ao tentar repetir os gestos costumeiros do pai, mostrou-se poderosa e determinada em ver o seu poeta sorrir. Quem seria capaz de resistir àquele deslumbrante olhar, emoldurado de ternura e certeza de inesgotável amor velado?

Enfim, a acidez do poeta se rendeu à doçura de sua criação maior, ao sabor inigualável de sua pequena-notável musa inspiradora. Como é extraordinária a sua responsabilidade, Isabela!
E se eu tivesse perdido o trem, certamente, desperdiçaria a oportunidade de aprender e memorizar o belo dessa paisagem única e emocionante.

Lembrar-se do passado, preocupar-se com o tempo presente e despertar para o futuro requer direcionar um olhar otimista para um mundo melhor, como forma de presentear os merecedores pequeninos de hoje. O mundo a eles pertence e Deus saberá iluminá-los, para serem pessoas melhores que nós, egoístas do presente.

Por fim, a missão dos poetas é manterem-se guardiões dos sonhos, das infinitas emoções, enfim, da continuidade das paisagens diversas contidas na trajetória da vida. Poeta é poeta e, por si, basta. Não vale ficar triste mesmo que a melancolia, contraditoriamente, seja entusiástica.

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