quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Eu me recordo...



Eu me lembro ainda de uma antiga noitinha de dia 24 de dezembro, já meio perdida entre tantas de minha memória cansada, quando, banhado pelo perfume quase inebriante da casa recém-limpa, na tradicional superfaxina da semana de Natal na casa de minha mãe, onde esta já terminava a farta e deliciosa ceia que eu já salivava, e revendo o fraquinho (porém saudoso) filme Papai Noel existe na TV, papai adentrava a sala com as últimas sacolas de compras da véspera da Grande Festa, no que lhe pergunto "O senhor trouxe?", ao que ele responde, com a praticidade que lhe é peculiar até hoje, "É essa?", jogando-me aquela maravilhosa revistinha no sofá, bem ao lado do lugar onde estava sentado.

Era 1990 e aquele era o primeiro relançamento de A Piada Mortal, clássica ‘graphic novel’ da genial dupla Allan Morre/Brian Bolland, sobre o maior encontro entre Batman e Coringa até então narrado. E eu, já encantado com aquelas figuras cheias de cores e embates sobre a loucura do maior vilão dos Quadrinhos naquele breve folhear, levantei a vista e agradeci "É essa mesma, pai, ’brigado!". Aquele foi um bom Natal para mim... Já para Batman, no meu viver daquelas páginas cheias de arte cinematográfica, aquele era um "Natal difícil" – embora a estória daquela HQ não se passasse nessa época do ano...

Nos Quadrinhos, poucas boas estórias narraram o Natal de grandes personagens – o que é um contra-senso, uma vez que comemoramos, ainda que ao menos num simbolismo genérico de paz e esperança quando a fé não permite, o nascimento de um superser... Fico a imaginar a dificuldade de um super-herói numa noite real de dia 24 de dezembro, a esperar pela chance de paz e realizações da meia-noite do dia 25... É verdade: Natal de um herói (ou uma heroína) não deve ser nada fácil...

Super-Homem sentiria falta dos pais que nunca abraçou, num planeta que nunca conheceu e que sequer celebrava esta data especial... Ou sentiria falta de sua Lois Lane por perto, como sua legítima companheira... Ou poderia estar numa missão, incansável, na Terra ou mesmo no Espaço Sideral... Já Batman não teria mesmo o que comemorar: traumatizado por ter assistido ao assassinato de seus pais aos 10 anos de idade, normalmente tem trabalho dobrado nesta época do ano com os malucos suicidas de Gotham... E assim também o Lanterna Verde, o Homem-Aranha e tantos outros que lutam incessantemente o ano inteiro por algo maior em que acreditam, e, muitas vezes, têm de passar por cima de problemas pessoais e das tristezas para salvar o dia, sem esquecer os infindáveis afazeres da identidade secreta – ter de "correr atrás" para pagar as contas, por exemplo!

Mas mesmo o mais infalível dos heróis também pode falhar: enquanto salva milhões de um míssil nuclear desgovernado numa ponta do País, pode estar perdendo, ao mesmo tempo, sua amada na outra ponta... E assim, mesmo ao longo de um ano em que se cantou na chuva em meio a mofo e infiltrações, e se comemorou a vitória política de um quase "super-herói negro" como uma espécie de "salvador mundial" a caminho (será?!), lamentou-se a ausência de um herói quando enchentes arrasaram nosso povo, riu-se e chorou-se na igreja, viveram-se sonhos, conquistas e descobertas inacreditáveis e se viajou pelo espaço-tempo de fantasias por carros, ônibus e embarcações em dias maravilhosos, muitas falhas foram cometidas e muitas lágrimas, derramadas...

Nem sempre o mundo é como desejamos... Mas saibamos agradecer a Deus pelos poderes inefáveis do dia-a-dia e pelas dádivas maravilhosas dignas de uma perfeita história de ficção: ainda que haja tanta kryptonita ao redor, nunca percamos nosso poder de voar, sonhar e de dizer para todos, mesmo para aqueles que não acreditam em milagres: feliz Natal – celebremos a vinda de um real salvador a este mundo já tão triste e cheio de ausências, ansioso por um milagre natalino ao longo do novo ano que se aproxima...

Eu me recordo, como em Amarcord, e as lembranças são sempre de dias felizes e, por isso, saudosos sempre... Agora, neste Natal, de fundo com a belíssima e saudosa trilha de Nino Rota, acompanho tudo de olho no mais novo embate entre Batman e Coringa em O Cavaleiro das Trevas: presentes de um herói com o peito cansado, mas com os olhos esperançosos olhando para o longe, em viagens distantes...



Até logo, 2008...
 

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