segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Parece que nem dá mais tempo de sentir saudade...

Ah, finalmente uma pequena folga com este feriadão diante do atribulado dia-a-dia dos Morcegos (e bota "pequena" nisso, uma vez que os trabalhos atrasados e os serviços em casa e com os gêmeos jamais acabam)... E a capa de uma revista em Quadrinhos me chama especial atenção para que eu a escolha numa preguiçosa leitura-deslumbramento em meio a tantas coleções compradas, mas tão pouco usufruídas, dentre inúmeras outras que seguem à minha espera há meses: A Tumba do Drácula Vol. 2, coletânea de histórias em série da Marvel com o primeiro e mais famoso vampiro da Literatura. Já havia gostado imensamente do Vol. 1, com todas aquelas deliciosas historinhas clássicas de Terror da década de 70, ricamente trabalhadas pelos talentos de Marv Wolfman e Gene Colan, mas não foram estas as causas da minha escolha, e, sim, uma inusitada primeira aparição de um hoje relativamente famoso super-herói conhecido no Cinema: Blade, o Caçador de Vampiros estreava nestas antigas páginas de 1973 (este encadernado emula uma capa envelhecida pelo tempo), porém bem longe do charme de metaleiro cool dos dias atuais, realizando seu debut com cabelo blackpower e cafonas roupas coloridas de cafetão setentista (com direito, inclusive, a camisa aberta, mostrando o peito)!

Não, não estou aqui hoje para fazer um ensaio contra a imagem pejorativa a que sempre relegaram os negros nas artes em geral, tampouco para enaltecer um obscuro herói de Quadrinhos da hoje toda-poderosa Casa das Ideias. O que ora me move é saber que, não importa quanto tempo leve, a indústria do entretenimento dará um jeito de levar de volta até você a primeira aparição disso, a primeira história daquilo, o primeiro programa naquele formato ou a primeira canção gravada naquele estilo! Sim, descobriram a pólvora e impera a "ordem da nostalgia" adaptada aos tempos modernos, onde parece ser proibido sentir saudade - Pra quê, se nós podemos remasterizar, imprimir ou encadernar e vendê-lo pra você do jeitinho que você sonhava? E assim, em falando de Quadrinhos, ficou fácil ser um acumulador de historinhas do passado, eu mesmo tendo apinhadas em minhas estantes centenas de títulos nos últimos anos, dentre clássicos e outros nem tanto, dos mais variados heróis e personagens cartunescos das mais diferentes épocas, em belíssimos livros de capa dura (alguns poucos em brochura) e papel brilhoso, muitos deles repletos de extras com curiosidades acerca de cada obra no contexto de seu lançamento. Pagar milhares de dólares por um deteriorado número 1 daquela revistinha pra quê, se, a qualquer momento, ela será relançada numa linda edição de luxo?! Só se a pessoa preferir a antiguidade em si, cheia de seus inconvenientes nada nostálgicos (atrativo para traças e outros insetos, umidade, papel velho e manuseado por várias outras pessoas etc.)!


- Que época boa para ser 'nerd'!, bradam os hoje ricos rapazes do site Omelete, que faturam horrores sobre o atual momento de coroação da cultura pop - o que inclui, é claro, o comercialismo com o saudosismo pelos idos anos 70/80, especialmente em relação às fantasias de nossas infâncias entre aquelas duas décadas... E se ícones como Transformers, G-I Joes, He-Man, Moranguinho e My Little Poney foram todos devidamente atualizados com novas animações e brinquedos incrementados, no Brasil toda uma fábrica, a Estrela, ressurgiu das cinzas dos negros anos 90 revitalizada por meio de dezenas de relançamentos de seus maiores clássicos, como Cara a Cara, Pula-Pirata Morcegos Equilibristas, imortalizado na publicidade de 1989 com o Bento Carneiro, de Chico Anysio, e agora atrelada a um hi-tech Batman de O Cavaleiro das Trevas - que, por sua vez, também estampa outro grande relançamento: o Tapa Certo, antes atrelado aos Trapalhões. O que revela cada vez mais a força nostálgica dos brinquedos e evidencia o quão crianças permanecemos todos, nerds ou não, uma vez que nunca antes toda uma geração de pais brincou tanto com os seus filhos como agora - especialmente se os joguinhos e bonecos são "do nosso tempo"... - Agora, graças a Deus, podemos comprar!, pensamos com nossos botões, ao lado de antigos bonecos e jogos que insistimos em guardar por causa das recordações afetivas, mesmo sabendo que podemos encontrá-los, novinhos em folha, na loja da esquina!

E o que falar da Televisão, outro objeto bastante cultuado pelos nerds mais melancólicos: saudade daquele seriado cômico ou daqueles desenhos animados bacanas que passavam na sua infância ou adolescência? - Não, não: tenho-os todos gravados em VHS! Mas o que é isso... Basta assinar pacotes de TV paga com canais como Boomerang e Tooncast (inúmeras animações dos anos 60 e 70, como os clássicos da Hanna-Barbera), Viva (produções brasileiras que marcaram época, como as atualmente exibidas Cambalacho Os Normais) ou a pobrezinha Rede Brasil (Batman e Robin, Perdidos no Espaço etc.) e voilá: toda a saudade some ao cabo de alguns minutos! Nem mais é necessário torrar os parcos caraminguás em caras caixas com dezenas de temporadas em vários DVDs ou BDs - na verdade, pra que entulhar os gabinetes de nossas casas com tais tralhas (especialmente se já entupidas com as revistas já mencionadas)?! Confesso que, por conta disso, ainda reflito por sobre o que um conhecido me disse há certo tempo: - Com a microtecnologia de 'pen-drives' e HDs cada vez menores, pra que acumular CDs e DVDs? - Realmente... Neste último final de semana mesmo, questionado por meu pai se eu não possuía, em minha razoável coleção de cerca de mais de 500 discos (entre LPs e CDs), os primeiros trabalhos dos Beatles, nem me dei ao trabalho de limpar a poeira da minha discoteca para encontrar o pedido: baixei um magnet link via torrent de TODA a discografia da genial banda inglesa (incluindo revivals, shows e coletâneas de top hits) e, após algumas poucas horas - e isso porque a minha internet estava lenta... - eu entregava ao meu velho o divertido mimo para que ele ouvisse em seu estéreo!

Ah, a internet, esta "terra de ninguém" onde o Torrent virou o maior "arrombador de cofres" autorais, a compartilhar em instantes, entre milhares de pessoas no mundo todo, de fotos raras ou canções perdidas a filmes e álbuns musicais inteiros de altíssima qualidade, e o YouTube, para além de seus toscos filmes caseiros ou de suas famosas séries, tornou-se esta espécie de "Canal Nostalgia", nele podendo-se rever on-line quase qualquer coisa que se relembre... Com qualidade HD (geralmente quando anuído pelos donos dos direitos autorais) ou em sofríveis imagens extraídas de um VHS gravado da TV, há um imenso deleite em pensar nalguma abertura antiga e, pronto, lá a encontrar! Pirataria?! Que nada: é tecnologia, a permitir uma maior democratização cultural pelo mundo inteiro! Do contrário, seria como considerar que sítios como o famoso Wikipedia fossem um atentado aos direitos de antigas enciclopédias, como a famosa Barsa! Acho que até o maior dos saudosistas prefere uma rápida clicada no Google para consultar sobre a pesquisa do filho no colégio do que abrir (ou simplesmente manter em casa) aquelas dezenas de livros gigantes cheios de poeira - e, muitas vezes, com apenas citações superficiais sobre o tema desejado... Epa, nada contra os livros, eu mesmo tendo imensa preguiça de ler "virtualmente" pelos chamados e-books ou em qualquer outro arquivo em PDF e preferindo, mil vezes, ler "virando a página" e sentindo o "cheirinho de livro" (velho ou novo, sempre uma delícia!) nas mãos! Refiro-me, na verdade, à praticidade democrática advinda com a rede mundial de computadores e suas atualizações tão imprescindíveis a todos nós, nestes loucos anos corridos da "Década de 10" dos novíssimos anos 2000 (sem olvidar que, no caso dos livros, estes jamais saíram de moda, desde sempre se reinventando e se atualizando muitas vezes por meio de relançamentos dos grandes clássicos literários)!
E falando em universos virtuais expandidos, nada melhor do que se lembrar deste humilde espaço virtual que, já contando com longos 11 anos de produção (poucos blogues amadores alcançam esta marca), está no ar há tempo suficiente para denotar saudades... Entretanto, tirando o antigo site de hospedagem que não existe mais -  o Weblogger, primeira "casa" dos Morcegos, cuja extinção em 2005 levou junto todo um "estilo" de postagens impossível de se recuperar (a não ser a imagem do cabeçalho ao lado) - e os templates mais simples já utilizados (geralmente modelos fornecidos pelos hospedeiros, como os primeiros aqui no Blogspot), TUDO pode ser revisitado a qualquer hora! Até neste ano lotado, com posts cada vez mais espaçados e "férias forçadas", com mais de um mês entre o último post e este, nada parece realmente preocupar em tais períodos de estiagem, uma vez que, em batendo a saudade, bastaria acessar os links disponibilizados nesta mesma página e todas as publicações dos últimos 10 anos ressurgiam, como num passe de mágica! E pensar que, muito antes destas elucubrações, eu chegava a republicar as postagens mais "marcantes", somente enchendo o espaço cibernético de "entulho virtual", a ignorar a magia da viagem no tempo virtual... Decididamente, não há mais espaço para a saudade: basta apertar um botão (do computador, da TV, do BD-player...)! E assim a vida segue, a se redescobrir em coisas antigas na velocidade de um pensamento...

Bem, nem tudo está ao alcance das frias tecnologias de recordação (e, consequentemente, massificação): graças a Deus, algumas coisas ainda se limitam somente às recordações de cada um... Felizmente, porque podemos guardar coisas de nosso jeito único sem nenhuma "modernização" ou "uniformização", onde qualquer um que possa pagar reviva coisas que pertenceram somente a uma época vivenciada por cada indivíduo em sua singularidade. Ou infelizmente, se considerarmos que o egoísmo de nossos centrismos acaba por expulsar milhares de pessoas que jamais puderam saber de sensações iguais às que tivemos um dia... Acho que é mais ou menos assim que guardo a minha poeticamente sofrida São Luís, aniversariante deste 8 de setembro: no alto de seus 403 anos, ela já me viu inúmeras vezes a perambular por ela, embevecidamente apaixonado por seus belos casarões e ruas estreitas (conservados somente por um curto período de tempo entre os anos 80 e 90, o que valeu à Cidade o título de "Patrimônio Histórico da Humanidade", pela UNESCO), desde os namoricos da juventude até os "passeios educacionais" da semana passada, com a mais velha, pelo Centro Histórico - mas nenhum desses nossos "encontros" poderá jamais ser revitalizado, uma vez que a Ilha apodrece um pouco mais a cada ano de abandono político-social, sem chance de uma "clicada mágica" para uma revitalização instantânea... Só me resta senti-la como uma velha prostituta classuda de algum dos outrora famosos e bem frequentados prostíbulos da Rua 28 de Julho, numa outonal aposentadoria depois de "usada" até as últimas consequências: toda fodida, porém ainda uma puta de respeito e cheia de ricas histórias de vida, com alguma Poesia entre os sulcos de pele gasta e as curvas desfeitas pela cobiça mais grosseira...

Tudo bem, pode-se revê-la magistral em vídeos passados - particularmente quando feitos em homenagem aos seus aniversários, com cenas bem fotografadas dos seus pontos turísticos mais belos e editadas ao som das belíssimas Ilha Magnética ou Louvação a São Luís ao fundo... Da mesma forma que se pode rever hoje em dia, a qualquer hora e diretamente na tela de um celular, o nascimento ou o primeiro passinho da sua filha de 5 anos de idade... Mas nada neste mundo se compara ao que se sente na hora daquela gravação - com você participando ou não dela! Pois, no fim, o que resta mesmo são as emoções, nunca reprisadas nem mesmo no melhor programa de recordações da História! Acho que por isso nada se compara ao cheiro das páginas daquela primeira revistinha que li aos 5 anos (até porque, junto ao singular antigo papel utilizado pela Editora Abril naquela longínqua Zé Carioca 1625, de se acrescentar que a lia no banheiro...) ou ao cuidado meticuloso no abrir daquelas embalagens dos primeiros bonecos que ganhei de minha mãe nalgum perdido Dia das Crianças ou à alegria de ver um gênio como Chico Anysio em programas novinhos em folha já "tarde da noite" (coisa de... 21:30 hs?!) bem antes de os primeiros aparelhos de videocassete se tornarem populares no Brasil ou à excitação com os primeiros e modestos looks dos sites naqueles idos da "virada do milênio"... E sim, sei que o post acabou grande e talvez com elucubrações demais sobre diferentes assuntos, mas uma coisa o blogueiro de plantão tem que admitir: este longo texto tem o estilo necessário para uma "postagem de retorno" ao alinhavar vários temas numa única e central linha de desenvolvimento textual... E, de qualquer forma, amando ou não, rogo para estes parágrafos o mesmo que desejo para minha Ilha do Amor: que marque você de uma forma única, ao ponto de, em qualquer futura releitura sua, o que importe mesmo sejam as futuras recordações do que se sentiu na primeira vez... Porque o amor guardado não se encaderna e se revende na esquina e é sadio sentir saudade sem cliques automáticos, vendo (e revendo) o mundo com as nossas próprias retinas cheias de histórias para contar...
 

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