domingo, 23 de fevereiro de 2014

De volta para o futuro...
No passado...

Não tema: com Capitão Nascimento como Robocop, mesmo com alguns defeitos, não há problema!

Noutro dia me peguei fazendo uma reflexiva mea-culpa ao ler um texto na internet: em meio a uma matéria tendenciosa contra as refilmagens, analisando-as de forma genérica como algo sempre ruim, no que eu já concordava com os argumentos utilizados, alguns comentários de leitores (ah, a democracia virtual: sempre a um passinho entre o céu e o inferno...) me devolveram à lucidez. Afinal de contas, tínhamos marcos memoráveis da era de ouro dos épicos hollywoodianos na década de 50, como o grande Rei dos Reis, ícone maior da Sessão da Tarde dos tempos de Páscoa, e o completo Ben-Hur, belíssima aventura dramática campeã de Oscars (algo que se tornou igualmente sinônimo de coisa ruim depois das odes da "Academia" ao sofrível Titanic), ambos refilmagens de outros clássicos do tempo do Cinema mudo e em preto e branco Ben-Hur já tinha duas versões anteriores, em 1925 e em 1907! Na hora recordei ainda o injustiçado Superman - O Retorno, que, mesmo com todos os seus defeitos, resultara numa espécie de um honroso remake mal compreendido e cheio de homenagens aos dois primeiros (e melhores até hoje) filmes com o eterno homem de aço Christopher Reeve. Bem, talvez refilmagens não quisessem, necessariamente, significar uma coisa ruim...

E o que seria, de fato, uma refilmagem? Tem-se que filmar um idêntico à versão primordial, como o foi o equivocado Psicose de Gus Van Sant, em 98, que refazia quase cena a cena da genialidade do velho Hitchcock? Ou bastaria uma "releitura atualizada", com elementos do original inseridos numa nova trama mais adequada aos novos tempos, para assim ser considerado (o chamado reboot)? E, se uma obra cinematográfica conquistou a tantos afetivamente, muitas vezes marcando uma geração inteira: para que "refazê-lo"? Por essas e por outras é que muitos produtores costumam fugir do termo "refilmagem" como o Diabo, da cruz: nem bem os fãs do original começam a reunir-se com suas tochas a execrar a nova "blasfêmia" e os responsáveis pela "novidade" cinematográfica apressam-se logo em defender que se trata, na verdade, de algo novo, não sendo uma mera "releitura" deste ou daquele filme, mas, sim, "muito mais baseado no livro" ou "na peça que apenas inspirou a primeira versão", e por aí vai... Isso deu certo, por exemplo, com o próprio Ben-Hur, cujas três versões expandiram, em progressão, o romance homônimo escrito pelo general Lew Wallace (o primeiro, de 1907, não passava de uns 20 minutos, e com ênfase na corrida de bigas), porém foi desastroso com a obra Carrie, de Stephen King, muito melhor honrada com a versão do mestre Brian de Palma de 1976 do que a recente produção mais-do-mesmo baseada na clássica história de horror, bem como se deu com O Planeta dos Macacos, com Tim Burton jurando de pés juntos ser mais fiel ao sucesso literário de 1963, de Pierre Boulle, porém entregando um produto bem inferior ao clássico de 68, com Charlton Heston.

O fato é que, para o bem e para o mal, a era das refilmagens, que nunca foi mesmo novidade, chegou mesmo para ficar! Seja pela atual moda do saudosismo, seja pela absoluta crise de ideias que assola a capenga indústria do entretenimento norte-americano, inúmeros filmes muitas vezes nem esperam um grande decurso de tempo para ter novas versões exemplos disso são que recentes sucessos de outros países, como o coreano Old Boy, o argentino Nove Rainhas, o japonês Dark Water - Água Negra (pífia estreia do grande Walter Salles nos EUA) e a série sueca Millenium, em menos de 10 anos, já tiveram suas inferiores refilmagens norte-americanas... Mas, quando o assunto é "inventividade refilmável", ninguém ganha dos divertidos anos 80! Tanto é assim que, vira e mexe, têm sido trazidos à tona clássicos como A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, Karatê Kid, A Hora do Espanto, O Vingador do Futuro (sim, ele é de 1990: último ano da década de 80, portanto) em novas produções! Sem esquecer horríveis adaptações de seriados bacanas como os recentes As Panteras ou Anjos da Lei, e fracos crossovers entre personagens-chave daqueles bons tempos, como em Alien X Predador ou mesmo em Fred X Jason. E até mesmo símbolos oitentistas, que até então jamais haviam visto as luzes dos projetores, foram erguidos recentemente às telonas: casos do acertado Transformers (só o primeiro, claro, e com ressalvas) e do horroroso G.I.Joe - A Origem de Cobra!

Posso dizer, com convicção, que sou um "oitentista" de mão cheia, daqueles com imenso fascínio pelo universo de coisas produzidas naquela década maravilhosa! E não por acaso ou mero saudosismo de cronista-poeta por conta da bela infância vivida naqueles tempos multicoloridos (desde que "me entendo por gente", com as primeiras lembranças aos 3 em 81, até os 13, em 1990, iniciando a adolescência): eu realmente considero aquela época como a última década de criatividade que o mundo conheceu. O resto, de lá pra cá, é pura reciclagem! E falo, com a boca cheia (de deliciosos mini-chicletes Addams, claro) porque vivi cada segundo daqueles: desde as modas multicoloridas, passando pela contagiante Música pop de Michael Jackson, The Cure, Pet Shop Boys e do rock brazuca, descobrindo a paixão pela Sétima Arte com os seus bastidores mostrados pelo grande Celso Sabadin em seu Claquete, até os brinquedos cheios de personalidade (cubo mágico, banco imobiliário, Comandos em Ação e demais action figures de grandes personagens, como He-Man, Comandos em Ação e outros tantos relançados recentemente para a atual geração X-Box), tudo era deliciosamente divertido!

Mas uma diversão de qualidade, diga-se, nada similar aos sem graça tempos de hoje, sem maiores criatividades e sempre excessivamente limitados às tecnologias de ponta atualizadas minuto a minuto... Naquele tempo, as coisas eram mais "na raça" e, acima de tudo, feitas com a alma! Vide o cabedal de pequenas obras-primas do entretenimento que pululavam no Cinema de então: De volta para o futuro, Os Caça-Fantasmas, Caçadores da Arca Perdida, Gremlins, Os Goonies... Até quando um filme era ruim, como Rambo II - A Missão, Loucademia de Polícia e A Casa do Espanto, ou mais fraquinho, como Splash - Uma sereia em minha vida, Um Tira da Pesada e Um Hóspede do Barulho, acabava sendo bom e se convertia quase instantaneamente num pequeno clássico, passando a integrar uma espécie de panteão de adoração por infinitas sequências... Com certeza, pérolas que fazem inveja aos recalcados produtores imediatistas dos blockbusters de hoje, que devem viver salivando em suas reuniões por novos remakes dos grandes títulos dessa época – isto, sim, seria uma blasfêmia!


Apesar de eu ser da filosofia de jamais mexer no que é bom, algumas dessas "releituras", eu confesso, até me aguçaram a curiosidade para, logo em seguida, eu cair na real... Foi o caso de A Morte do Demônio, clássico absoluto do Cinema independente, competente e criativo da época, que mostrou ao mundo o prodígio artesanal de Sam Raimi (sim, o mesmo que "cometeu" Homem-Aranha 3...) e cuja refilmagem feita no ano passado eu pude ver na última segunda-feira. E, tal como o querido personagem Ash descobre ao final daquela pérola do horror, não havia mesmo como escapar: apesar do tom recheado de homenagens ao filme de Raimi – com muitas honrosas citações, desde o famoso Delta 88 amarelo de Bruce Campbell (também coprodutor), passando pela famosa serra elétrica da parte II, até uma "estranha" aparição, ao final dos créditos, de... Bruce Campbell – , infelizmente é novamente mais um que não foge à regra do "original era bem melhor" e peca em se levar a sério demais com seu "realismo" e um sem número de explicações para cada momento, o que não existia (nem prejudicava) no genial trabalho de 81, debochadamente mais assustador e infinitamente mais criativo em seus ângulos inusitados e nos sustos imprevisíveis que jamais poderão ser reprisados!

E chegamos, finalmente, a esta sexta, 21 de fevereiro, dia de uma ansiosa e duplamente aguardada estreia nos cinemas brasileiros: afinal, qualquer cinéfilo oitentista que se preze no mínimo ficou curioso em saber como se sairia um grande cineasta brasileiro em seu début nas telas ianques, justamente com um clássico da ficção-científica e referência dos anos 80, Robocop. Até eu, que não pousava na poltrona de uma sala escura desde meados do ano passado com o sensível Amor, abandonei a família em casa e paguei a baba exigida pelos tecnológicos multiplexes do shopping center mais próximo para rever um personagem marcante da minha infância nas mãos de um diretor que aprecio bastante. E o resultado, asseguro, valeu o esforço! Não que a refilmagem seja superior ou mesmo se iguale à pequena obra-prima de Paul Verhoeven, justificando uma nova produção: muito longe disso! Mas o novo trabalho de José Padilha (dos ótimos Ônibus 174, Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro) é bastante digno, bem superior às patacoadas cometidas nas sequências da década de 90 e também passa longe das amargas teorias de que remakes são sempre um erro abominável ou uma heresia em relação ao original! E tal feito se deve, principalmente, a três fatores: a qualidade indiscutível da sua direção, a experiência com os Tropas (com temas em comum, como um homem contra todos, fascismo combatendo fascismo e corrupção descontrolada em altos níveis de poder) e o carinho profundamente respeitoso com que Robocop - O Policial do Futuro, de 87, foi tratado.

E como o nosso Padilha foi inteligente... De cara, logo depois de debochar do icônico Leão da Metro (!), um divertidíssimo reacionário de extrema-direita Samuel L. Jackson (Pat Novak) aparece substituindo as tendenciosas matérias apresentadas no jornal televisivo do primeiro filme com isso, o espectador é logo levado a compreender toda a nova premissa (em 2028, os EUA ainda dominam o mundo e se valem de drones e robôs como o famoso ED-209 para "manter a paz" em países ocupados, o que é proibido no próprio País), mostrando no radical programa de TV, em tempo real, a "perfeição" do projeto robótico num ocupado Irã e de como é necessário revogar-se a lei que não permite o uso de robôs em solo estadunidense. Em seguida a um ataque suicida de locais iranianos ("Os cidadãos honestos com certeza estão felizes com a ocupação dos robôs!", vocifera Novak), o que demonstra os sérios problemas dos autômatos, surge na tela o nome do herói cibernético no mesmo estilo do título original, acompanhado da música-tema levemente repaginada, com a famosa entrada do policial Murphy na chefatura de polícia. Cativada a nova audiência dos mais jovens e emocionada a nerd plateia dos mais velhos fãs, Padilha começa a mostrar o seu Robocop, com as devidas mudanças...


Murphy (o excelente Joel Kinnaman) já é um veterano policial que busca, ao lado do parceiro Lewis (agora, um homem negro), desbaratar focos de corrupção dentro da Polícia, enraizados com o crime organizado – o que leva à sua quase-morte num atentado a bomba e à maior experiência do conglomerado de tecnologia OCP: criar uma máquina com feições humanas a fim de cativar o grande público dos EUA e, com isso, faturar no até então proibido mercado interno. Nasce o Robocop, agora com consciência desde o início (uma vez que não morreu), treinamento militar que lembra os modernos videogames de tiro em primeira pessoa e com armadura preta no fino da moda (e no embalo do sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan). Mas até onde tal consciência fará com que o ciborgue consiga realmente manter-se no controle da situação, diante da onipresença dos seus criadores (os bons Michael Keaton e Gary Oldman), nem sempre com as melhores intenções, e dos novos tempos de câmeras de vigilância por todos os lados? 


Em meio a uma história um tanto quanto corrida, especialmente em sua metade final (a exemplo do visto nos Tropas, não há tempo morto e a trama vai se desenrolando rapidamente), com cenas de ação um pouco decepcionantes (nenhuma grande perseguição como no filme de 87, sendo que a famosa e boa câmera na mão de Padilha chega a prejudicar algumas sequências, como o esperado duelo com vários ED-209, que acabou reduzidos a efeitos ligeiros à Michael Bay), personagens femininas muito dependentes dos masculinos (a linda Abbie Cornish, a chorosa esposa de Murphy agora mais presente na trama, e as outras, que basicamente só recebem ordens dos homens: o Cinema de Padilha, continua misógino) e. mesmo com a falta de um vilão marcante (além do chefão da OCP, os demais são facilmente combatidos), o novo Robocop funciona bem. E muito graças à humanidade do herói empregada pelo diretor brasileiro. Assim, mesmo com tantos defeitos em subtramas mal exploradas, tem ritmo tão cativante quanto um Tropa de Elite feito fora do Brasil (seria isso o que o diretor, cheio de moral por ter escolhido o filme e a equipe com quem desejava trabalhar, queria dizer com "um filme brasileiro feito no exterior"?)... 


No fim, mesmo com a politicamente correta estrutura a fim de evitar restrições às plateias mais jovens, o que faz o espectador sentir saudades do sangue aos borbotões, da erotizada ironia e da boa e velha ultra-violência do mestre holandês Verhoeven, saí reconfortado: José Padilha havia conseguido o impossível, como que a criar uma máquina do tempo cinematográfica e nos transpor de volta ao passado daquela última época boa em que o Cinemão tinha ainda algum conteúdo! Assim, com um pequeno sorriso na boca, desci as escadas rolantes a fim de voltar para casa lembrando-me dos tempos em que eu e alguns amigos imitávamos o pesado andar cibernético do policial-robô e a recordação da boa infância dos anos 80 só aumentou quando, ao passar pela vitrina de uma loja de brinquedos a caminho do estacionamento, vi algumas raridades do meu tempo de moleque sendo relançados, como Pula-Pirata, Xereta, Ferrorama, Genius...O novo Robocop realmente agrada, espeta a sociedade norte-americana através da sua imprensa podre e parece fincar os dois pés metálicos no pequeno rol de refilmagens que merecem respeito e atenção, daqueles que podem facilmente ser vistos como um bom filme independentemente do original, mas sempre a honrar o belo legado deste – em que se incluiriam ainda outros títulos dignos como os novos A Fantástica Fábrica de Chocolate, Onze Homens e Um Segredo, Bravura Indômita, Madrugada dos Mortos... E, é claro, sem esquecer de Ben-Hur e Rei dos Reis... Sem olvidar, tampouco, outro herói, Superman - O Retorno e seu reboot, que poderia render bem mais... Mas isso é outra história antiga para se discutir depois...


Robocop (2014) ***½
José Padilha revive RoboCop em superprodução que estreia nesta sexta Sony/MGM/Divulgação
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2 comentários:

Ricardo Campos disse...

Olá Dil,

Não vi ainda o Robocop de José Padilha (hoje meu diretor brasileiro favorito pelo Tropa de Elite, pra mim, melhor que o Tropa de Elite 2). Só o fato dele ter enfrentado a máquina de fazer cinema hollywoodiano (ótima reportagem da Veja sobre o seu esforço de impor sua ideia ao estúdio Sony/MGM) para impor seu estilo, sua equipe criativa de roteirista, montador e fotógrafo (algo inédito para um diretor estreante no mainstream americano), eu fiquei empolgado. Li tudo sobre o filme, críticas, reportagens especiais, e tenho uma apreensão sobre o filme, pois Robocop é um ícone do cinema de um dos meus diretores favoritos, Paul Verhoenven (adoro esse diretor holandês), um filme icônico dos anos 80, sui generis da ficção científica, cheio de sátira política, humor negro, violência gráfica, mas que consegue ser blockbuster e divertir ao mesmo tempo. Espero que José Padilha surpreenda. Vou assistir ainda e logo tecerei minha crítica. Sua crítica aguçou meu interesse maior ainda. Valeu!!!

cineboy on 25 de fevereiro de 2014 10:27 disse...

bom filme. padilha manda muita informação e trabalha com vigor e rapidez. misoginia dele é referência, mas a humanidade do novo robocop também está la. no final dei nota 7, 75 hehe. valeu dilberto ótima crítica e texto sobre os anos 80 gloriosos!

 

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