segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ele é Carioca

Meu Zé Carioca favorito ainda é aquele com chapéu panamá e paletó marrom, da versão original do Cinema. Mas não posso negar que sempre gostei também do visual mais "pobretão", criação de Renato Canini: aquele da camiseta branca e sem chapéu, que, entre idas e vindas, dividiu espaço com o traje clássico nas historinhas ao longo dos anos 80, a melhor época do bom malandro - a minha infância...


Eu havia completado 5 anos de idade e me encontrava bastante distraído com minha revistinha no banheiro de casa – costume esse antigo, de ganhar livrinhos e revistinhas desde tenra idade e de levá-los para folhear na hora do "nº 2" – quando, momentos antes de soltar o “Terminei” para ser devidamente limpo pela minha mãe, esta irrompe no toalete, pega de minhas mãos os quadrinhos, dá nele uma rápida lida para, em seguida, erguer-me num efusivo abraço. Só depois de algum tempo é que fui entender tudo: a alegria radiante advinha da surpresa da minha mãe em constatar que eu já sabia ler (“Pensava que estavas criando a historinha e lendo em voz alta”, diria ela depois). E qual era aquela minha "primeira revistinha"? Zé Carioca nº 1.601, de 1982, que guardo, com carinho, até hoje.

Sim, meus caros blogueiros de plantão: se HQs de super-heróis como Batman, Super-Homem e X-Men se apresentariam a mim somente na adolescência, e a minha vasta coleção da Turma da Mônica só começaria no final da década de 80 (passando por Abril, Globo e Panini até os dias atuais), no comecinho da infância as minhas revistinhas prediletas, aquelas sempre pedidas quando das idas aos supermercados ao avistar as tradicionais bancas de jornais logo em frente, eram as da Disney – mais especificamente Zé Carioca, Pato Donald e Peninha. E foi mesmo com o adorável malandro que eu aprendi a ler bem cedinho: criado pelo Pai do Mickey em 1942 para a animação Alô, Amigos, fruto direto da tal “Política da Boa-Vizinhança” com a América Latina durante a Segunda Guerra (época em que surgiram também o mexicano Panchito e o chileno aviãozinho Pedro), o personagem já me emocionava àquela época ao surgir entre clássicos como Aquarela do Brasil e Tico-Tico no Fubá na tela da TV com aquele pequeno clássico da animação...

E, em 2012, Zé Carioca fez 70 anos. É, hoje ele já está com seus 71, mas, como vivo numa provinciana São Luís quase esquecida pela distribuição setorizada das grandes editoras, só em junho deste ano fiquei sabendo desse grande e histórico aniversário quando da aquisição de Zé Carioca 70 Anos Vol. 2, muitos meses depois do lançamento da mesma edição no Sudeste... Tudo bem que a ocasião merecia mais capricho  ambos os volumes saíram no famigerado "formatinho" antigo da Abril e com encadernação e papel que deixam a desejar , mas, ainda assim, fiquei triste em ter perdido o Volume 1... Mesmo sendo, até hoje, um ávido "rato de banca", o primeiro me escapou e só encontrei e comprei o segundo exemplar, bem fraco, com muito do Zé dos anos 90 pra cá (aquele da camiseta 'Z', do horroroso boné virado pra trás e das historinhas em cansativos tons de paródia)! 

Desta forma, apesar de atrasado, facilmente se perdoa uma tardia homenagem a este dileto personagem Disney, um dos meus favoritos, ao lado de Peninha e Biquinho... E agora, depois de tanto ter postergado o presente 'post', somente na última semana fiquei sabendo, infeliz e (também) tardiamente, que o grande Canini, maior responsável pelo abrasileiramento do caráter e dos traços do papagaio (a própria matriz estadunidense por várias vezes questionou o tanto que o “padrão-Disney era desrespeitado”), havia falecido no último mês de outubro...
O quadrinhista Renato Canini era gaúcho, mas soube, como ninguém, captar a alma bairrista do “carioca da gema”, que adora defender sua gente e as coisas da sua terra (especialmente as praias e as mulheres – ou, no caso, papagaias, periquitas e afins) e que, mesmo duro e sem futuro, estampa sempre uma alegria cativante. Imprimindo ao personagem não só as suas principais características desde então (a malandragem para fugir dos cobradores, por exemplo) como também o seu habitat natural numa favela do morro carioca (mais precisamente a famosa Vila Xurupita), o desenhista de traço marcante ainda criaria um sem número de adoráveis e inesquecíveis coadjuvantes: Pedrão, Afonsinho, os parentes do Zé (Zé Paulista, Zé Mineiro...), a ANACOZECA (Associação Nacional de Cobradores do Zé Carioca) o herói Morcego-Verde (o próprio Zé, empolgado com o Morcego Vermelho do Peninha) etc.

De uma vez por todas, tomava-se de assalto o que já era "nosso" desde o início, personagem "brasileiro" que sempre foi, de origem e de formação (Walt teria criado Joe Carioca no Rio, no Copacabana Palace e se teria inspirado no músico José de Oliveira, que acabou dublando o Zé no Cinema) – assim, Canini e uma leva de outros grandes artistas (como o precursor Jorge Kato) criaram um universo de histórias genuinamente brasileiras... Nada mais justo: com tão poucas histórias produzidas nos EUA, até então o “jeitinho brasileiro” era modificar historinhas norte-americanas do Mickey e do Donald para, por cima destes, adaptá-las com a presença do papagaio entre figuras “estranhas” como o Pateta ou o Gastão (daí surgindo os sobrinhos Zico e Zeca, ora desenhados por cima dos Chiquinho e Francisquinho do Mickey, ora coberturas sobre Huguinho, Zezinho e Luizinho do Donald, apagando-se um destes)!

Por isso, engana-se quem pensa que o setentão mais carioca do mundo seja uma ofensa gringa aos brasileiros: quem viu as animações onde ele aparece na década de 40, facilmente perceberá que o original do velho Disney era meramente um elegante bonachão que ensinava um pouco da “arte” de ser brasileiro e de gostar das coisas boas da vida  e se havia alguns golpes para "se dar bem" nas originais tirinhas dos EUA, não era nada que ultrapassasse o "estilo" dos personagens engraçadinhos da época, como o próprio Gastão, de Disney, e o Pica-Pau, de Lantz! E isso tudo bastante diferente do estilo “caloteiro” e do “preguiçoso” e com “alergia ao trabalho”, perfis estes dados por artistas brasileiros ao longo das décadas de 70 a 90 (Put the blame on Canini... Ou, em bom Português: "Culpem o Canini"!), que por aqui sedimentaram um personagem inicialmente com curto “prazo de validade”, sem maiores pretensões, e o converteram numa brasileira e longeva carreira em Quadrinhos...

Embora eu tenha crescido nos anos 80, época dos belos traços mais tradicionais de artistas como Roberto Fukue e  Euclides Miyaura, não há como negar a influência do estilo debochado e alegre de Canini para a fundamentação nacional do personagem – uma vez que até hoje, nos EUA, Zé Carioca não passa de um ilustre quase desconhecido, que raramente dá as caras nalgum desenho dos medalhões (série House of Mouse) ou aqui e acolá nalguma atração dos parques, onde não deve ser muito disputado para tirar fotos... 

E eu, como ardoroso e precoce fã, além de não dar a mínima para as críticas ao personagem, aprecio todas as suas fases: desde suas primeiras aparições em tiras de jornais norte-americanos ainda em 1942 (antes mesmo da estreia do filme por lá – logo, Zé Carioca é um legítimo personagem dos Quadrinhos!), passando pelos filmes (com o sucesso na tela grande, ele apareceria novamente, e com mais destaque, em Você já foi à Bahia/Los Tres Caballeros, inovador em técnicas de animação com atuações reais) até o seu estilo "moderninho" dos dias atuais (fase mais fraca, mas ainda bacana em alguns aspectos, da qual tenho pouquíssimos exemplares)! E, se bobear, em meio à minha atemporal pilha de revistinhas antigas, a minha doce e pequena Isabela ainda acabará por aprender a ler com alguma coisa desse adorável vagabundo legitimamente brasileiro...

Uma bela história nacional... Da esquerda para a direita: 
1. Primeira aparição de Zé Carioca em quadrinhos brasileiros (capa de O Pato Donald, estreia da Editora Abril, em 1950, mas sem nenhuma estorinha do papagaio); capa do primeiro número da revista Zé Carioca (que nasceu atrelada à revista Pato Donald, com quem dividia a numeração: por isso já surgiu como o número 479 de Pato Donald Apresenta:, em 1961); capa do Manual do Zé Carioca, onde o personagem apresentava uma espécie de enciclopédia infantil com temas como futebol - e cujas matérias, pouco mais de uma década depois, foram republicadas junto a outras na Biblioteca do Escoteiro-Mirim, que guardo até hoje) - infelizmente, não possuo nenhuma destas!

2. Capas de revistinhas dos anos 80, onde alternavam o visual do Zé: minha infância colecionou todas estas (que guardo até hoje, com exceção do excelente Almanaque do Zé Carioca nº 1, que sumiu, inexplicavelmente, da minha coleção)!

3. Reedições e releituras: desde o começo dos anos 2000, a revistinha Zé Carioca passou a reeditar várias historinhas antigas e chegou até mesmo a sofrer alguns hiatos nas bancas (coisa que parece estar voltando ao normal, com o recente lançamento de revisas com novas historinhas) - algumas piadas de capas, pelo visto, são as mesmas há bastante tempo (e iguaizinhas àquela minha primeira revistinha, não?!)...

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3 comentários:

Claudinha ੴ on 20 de dezembro de 2013 21:02 disse...

Meu DILeto amigo!
Eu sempre tive uma paixão especial pelo Zé Carioca, embora ele não seja o meu preferido Disney. Parece que ainda estou vendo aquele sambinha batidinho e ele entrando sambando no desenho animado... Tinha minhas revistinhas dele também. Gostei de suas referências... E o "mãe vem limpar" foi impagável, hahahahahaha!
Eu preferia ler à sombra das árvores, nº 2 é muito desagradável e o quanto mais rápido me livrasse da situação, melhor me era! Rsrsrsrs
Adorei relembrar meu passado da década de 70, você na sua de 80...
Um beijo , caro amigo. Para você, Jandira, Isabela e os dois fofinhos (as) que vem aí!

Ruby on 25 de dezembro de 2013 12:36 disse...

Olá, Dilberto
Lembrei da minha infância, eu li muitos gibis e na minha casa era pela vez, quem lia primeiro, depois o segundo e assim seguiam as leituras, Crianças diferentes das de hoje, infelizmente, claro. A diversidades de gibis eram bem ampla, hoje é bem restrita, mas amava as trapaças e trapalhadas do Zé carioca na vila Xurupita. Beijos e Feliz Natal!

Dilena Rosa disse...

Filho essas revistinhas iniciaram em casa com a chegada do seu irmão. Li muito essa historinhas para ele.Quando você chegou e ainda pequeno,reiniciei as mesmas coisas.Você mostrava muito gosto pela leitura.Tanto que aos 5 anos lia o Zé Carioca para os seus coleguinhas de classe.Lembro que a sua professora veio me falar admirada! Já sabia há um bom tempo: depois daquela ocasião do banheiro.Assim você se tornou um grande leitor.Beijos

 

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