terça-feira, 30 de abril de 2013

Os Rubens e Os Morcegos


Escrevo desde os 14 anos. Claro que escrevo desde mais tenra idade, da época da alfabetização, mas foi meu 1991 mesmo o ano de iniciação literária, a época das primeiras redações mais caprichadas e do meu primeiro poema, marco zero da minha vocação literária, Morcegos - não por acaso, o nome deste humilde espaço virtual. E foi realmente na escola que tudo começou, onde me foram apresentados os maiores nomes da Letra brasileira e de cujo convívio nunca mais me separei...

Ainda me lembro das primeiras impressões diante dos contos do escritor-mor, Machado de Assis - Quer dizer que além de o maior romancista, ele ainda escreve Poesia e contos como 'A Cartomante'?! E o que dizer dos romances de seu maior "seguidor naturalista", Aluísio Azevedo? - E o cabra era ludovicense, com orgulho! Dali para a Poesia com 'P' maiúsculo, legítimas aulas do que é poetizar, dos atemporais Drummond e Bandeira, foi um pulo. Sem esquecer, é claro, os grandes "contemporâneos" (alguns não mais entre nós) dentre cronistas, contistas, romancistas e poetas cuja Literatura terminou de moldar meu amor incondicional à Língua Pátria e minha formatação literária, como Ferreira Gullar, Jorge Amado, Mário Quintana, Lygia Fagundes Telles... Assim, devidamente apresentados, todos com o tempo acabaram se tornando bem próximos das minhas letras - sendo que dois, em particular, viriam mesmo a tornar-se "amigos pessoais", dada a tamanha empatia a me converter em escritor: os Rubens!

Primeiramente, o "Rubem que segue de pé" - em todos os sentidos, dado o seu costumeiro sarcasmo literário em torno do escárnio humano e do sexo: Rubem Fonseca. Afinal, foi aquela apavorante história, publicada num antigo livro de Redação, sobre um taciturno pai de família que, para curar sua "doença da rotina" dos fatigantes dias de trabalho burocrático, atropelava inocentes na calada da noite sem que ninguém sequer desconfiasse, tudo em tom de suspense policial e com belíssima acuidade na narrativa, que me conduziu à minha primeira prosa: Passeio Noturno tanto me fascinou pela frieza da violência perpetrada como "normal" diante da impunidade do "protagonista" e seu desfecho irônico que me inspirou a escrever Amanhã seria outro dia..., meu primeiro conto, que narrava o tédio quase inumano vivido por um metropolitano abastado, que, depois de narrar sopesadamente cada ponto vazio das conquistas do seu lar, nada sentia ao presenciar o suicídio de uma bela jovem num andar vizinho...

Bons tempos de descobertas que não voltam mais... E foi mesmo aquela genial história que me levou a conhecer todas as outras geniais facetas "definidoras" do Mestre Fonseca: a História por trás da Ficção (ou seria o contrário?) de Agosto e O Selvagem da Ópera; os diversos pontos de vista de diferentes narradores, como nos contos 74 Graus Feliz Ano Novo; a narrativa visceral de Bufo e Spallanzani... Ainda assim, foi mesmo aquela primeira parte do famoso conto do escritor mineiro com alma de carioca que me marcaria eternamente o tom maliciosamente enganador de uma boa narrativa graças à decisiva inspiração para aquela minha "primeira prosa oficial com certa qualidade"...

Mas, apesar de o Fonseca ter-se tornado o mais famoso, o outro Rubem foi quem acabou virando o meu mais dileto "chegado"... E, como sempre achei que cronistas geram cronistas por osmose literária, não foi por acaso que, de tanto beber na fonte de suas crônicas deliciosamente humanas, acabei fazendo deste gênero literário o meu passeio mais comum pelas Letras. Mas afinal: seria ele, Rubem Braga, o maior cronista brasileiro? Não sei, ainda tem Machado, o "pai-de-todos"... Mas, sem dúvida, no altar dos maiores, aquele  mineiro-carioca (outro!) foi mesmo um libertário-mor e um doce escritor em primeira pessoa, adorável divisor de águas do duro labor artístico e diário da crônica, homem das mulheres e da diplomacia - tal como outro "gênio do simples" (e, não por acaso, também seu amigo pessoal: Vinícius de Moraes). 

Por acaso, neste 2013 que avança a devorar meu tempo e alguns sonhos ainda adiados, comemora-se o centenário de nascimento do genial e mais humano dos cronistas, "O Velho Braga", como era carinhosamente conhecido: se ainda estivesse por aqui, talvez eu até me encorajasse a procurá-lo pelas infinitas redes sociais e e-mails desta internet de meu Deus a fim de convidá-lo a dar uma passadinha em meu humilde espaço virtual, onde sempre brota uma croniqueta bastante humana em comum com os seus inesquecíveis e lúdicos textos diários... Parabéns pelos 100 anos, amigo Rubem!

Sim, porque todos estes seres iluminados pelas Letras são meus amigos nesta jornada pelo escrever - tanto faz se desde o tempo da escola ou de quando me iniciei nestes verdes campos virtuais... Pois que, em 2004, há exatos 9 anos, nasciam os Morcegos, blogue onde minha pena e minhas tintas converteram-se em instrumentos virtuais para que eu escrevesse (ou publicasse já existentes) crônicas, poemas, ensaios políticos, críticas cinematográficas, literárias, musicais e homenagens a grandes nomes das Artes em geral... Se nenhum livro meu ainda foi publicado no papel (jamais apreciei os modelos atuais do "publique-você-mesmo" das editoras menores), centenas de meus escritos já passaram por este humilde espaço virtual, desde os já perdidos tempos do extinto Weblogger até o atual Blogspot. E, se este anda abandonado nos últimos meses, com minguadas postagens cada vez mais espaçadas e esporádicas, a vontade de driblar o tempo conturbado e publicar ao ponto de viver unicamente da minha lavra persiste a incomodar, tal como uma provocativa história policial de Rubem Fonseca... Então sigo a laborar, ainda que como um "ama-dor", para juntar as palavras e frases da melhor forma possível - ou mais ou menos como Rubem Braga já falou sobre "as boas coisas da vida": maravilhoso mesmo é "Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler"!

Pois o ideal de um escritor será sempre escrever aquela história tão maravilhosa que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta, quando lesse, risse e voltasse a acreditar... Meus sinceros agradecimentos a todos aqueles fiéis blogueiros de plantão, que, mesmo nem sempre comentando, mas sempre a voar junto, estiveram presentes nesta jornada - vida longa e próspera ao lirismo 'pop' dos estimados Morcegos (e eu vou junto)!
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11 comentários:

Nilson Barcelli on 1 de maio de 2013 15:50 disse...

Com tantos anos de blogue, tu 9 e eu 10, não percebo por que nunca tropeçámos antes um no outro...
Li esta saborosíssima prosa e o magnífico poema publicado imediatamente antes. Bastou isso para perceber o teu talento literário.
Parabéns pela excelência das tuas palavras e obrigado pela tua visita.
Um abraço, caro Dilberto.

Jota Effe Esse on 1 de maio de 2013 17:43 disse...

É. amigo Dilberto, eu também peço desculpas pela prolongada ausência de teu espaço tão rico e variado. Se o tempo me permitir não demorarei tanto a voltar. Meu abraço.

Lilá(s) on 1 de maio de 2013 19:18 disse...

Vim conhecer este "morcegos", com o qual já simpatizei!
Agradeço a visita ao meu blog e o simpático comentário.
Bjs

Fazendo um novo fim on 1 de maio de 2013 23:14 disse...

Olá!

Sentir-se em casa é a sensação de visitá-lo meu caro Dilberto...
Um blog que me fez ter vontade de ficar horas a fio a ler seu conteúdo - o de 9 anos...
Acredite, facil é transformar a emoção em lágrimas que secam, difícil é ter coragem de transformar emoções em palavras que permanecem pela eternidade e frutificam críticas e elogios...É preciso ter a Alma evoluída e um coração bom.
Parabéns é muito obrigada pela visita e pelas palavras gentis,ok?

Wania

“Ser escritor é ser alguém privilegiado, detentor de um presente divino doado a muitos, mas não a todos, e, para alguns, de forma muito especial, mais abrangente, mais criativa, mais útil, mais sensível, seja para a cultura, seja para a educação, seja para a alma.”
(Ivone Carvalho)
*

Claudinha ੴ on 2 de maio de 2013 17:57 disse...

Meu DILeto amigo... Parabéns...
Que bom poder fazer parte desta lira, dessas crônicas e de sua vida e conquistas... Olha, nem existia Isabela ainda, quando nos 'conhecemos' e Jandira me surgiu num comentário com o login errado e a descobri como sua amada... Partilhamos sentimentos, novidades, gostos em comum e muita honra de minha parte. Um moço novo como você e que é meu amigo, digo isso de boca cheia, escrevo isso em CAIXA ALTA...
Espero que o Morcegos, continue sempre assim, como por exemplo hoje, me levando a tantos Rubens... Acabo de ver aqui na minha cabeceira, Bufo e Spallanzani, que ganhei do meu amor, mais um que gostaria de reler...
Parabéns e estamos aí, para celebrar esta blogosfera!
Beijos procê e pra Jandira e pra Isabela!

Lulu on 2 de maio de 2013 18:39 disse...

Parabéns pelo blog Dilberto. Muito sucesso.
O meu esse ano vai completar 10 anos, desde que criei no blogger brasil.
Big Beijos

São on 3 de maio de 2013 11:46 disse...

Nove anos é muito tempo, eu sou mais novinha, rrss

Mas fiquei encantada por encontrar aqui pessoa minhas conhecidas há muiros anos: Quintana, Amado,...além de amizades
blogueiras como Claudinha, Lilá, Nilson

Um abraço de parabéns, esperando sempre o prazer da sua presença nos meus espaços

O Árabe on 6 de maio de 2013 14:54 disse...

Morcegos que esvoaçam... em meio à mais pura literatura! Muito bom gosto, meu amigo... e privilegiado espaço! Meu abraço, boa semana.

Elizabeth F. de Oliveira on 6 de maio de 2013 17:50 disse...

Meu dileto Dilberto, um prazer ler tua prosa, tão saborosamente poética.
Meus parabéns pelos 9 anos do blog, sobretudo pela qualidade do que escreves. Eu, na qualidade de poetA e também cronista, reitero que és tão bom na prosa quanto na poesia, permitindo-nos sempre um passeio lúdico por tão bem escritas palavras.
Fico feliz em ver aqui também amigos em comum, como Nilson e o Árabe, sempre presentes em meu espaço.
Agora desejo-te sucesso, pois tão belas letras precisam ser apreciadas sem qualquer fronteira.
Parabéns, meu caro!!!
E conto com sua presença em meu blog, ainda que sacrificada, muitas vezes, pelo ingrato tempo.

Suzane Weck on 6 de maio de 2013 20:20 disse...

Ola caro amigo,pensei que ainda estavas ausente da 'blogsfera',fiquei surpresa e muito satisfeita ao encontrar novamente teu excelente espaço.O texto "Os Rubens e Os Morcegos"esta genial.Meus cumprimentos e meu grande abraço.SU

Anônimo disse...

Assim como tu mesmo disseste no meio dessas palavras tão bem escritas e tão cuidadosamente escolhidas, você carrega o tom maliciosamente enganador de uma boa narrativa. Parabéns a os morcegos. Esse espaço é uma obra prima da boa leitura.

Obrigada!!

Sabrina

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