segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"A eterna desventura de viver
à espera de viver ao lado teu..."

Sempre admirei canções que marcaram por um verso ou uma estrofe, ao ponto de serem sempre lembradas, marcadas inclusive por releituras, como a que Caetano fez em Eu sei que vou te amar (maior canção de amor já feita!), onde recita cantando, bem no comecinho dos primeiros acordes, “Céu, tão grande é o céu/ E bandos de nuvens que passam ligeiras...”, relembrando Dindi, outro clássico de Tom. O que dizer da genialidade de Chico Buarque com "Não se afobe, não/ Que nada é pra já/ Amores serão sempre amáveis"? De cantarolar-se mesmo por muito tempo, em citação eterna... Longe de qualquer dessas eternidades, gostei muito de ter escrito "Na inconseqüência de nos dizermos objetivos e racionais, sigamos atônitos e perdidos na eterna crônica do amor bandido entregues às sensações mais banais...", que acabou sendo o próprio poema Eterna crônica do amor bandido, da mesma forma que gostei da essência de "Da boca pequena/ Que mal abres/ Justamente saíram/ As palavras/ Que me guardaram de ti" (de Partindo de volta para a nuvem mais alta distante de ti) ou ainda de "É para você que escrevo/ Estes diálogos de uma boca só,", que acabou batizando esta "decalogia", cujos cinco poemas "finais" apresento agora aos incautos e sempre apaixonados blogueiros de plantão...

Eu mesmo comecei, no poema Até, parafraseando o ótimo samba do mestre Buarque de Holanda, Até segunda-feira, ainda ironizando as juras e promessas feitas sem chão diante de um amor... Mas, antes mesmo de brincar com os amores "cafajestes" e de sacramentar de forma dura e até amarga sobre o "fim" do amor, em meio a medos e ameaças de casais perdidos, covardes ou assustados, deleitei-me, como num antigo sarau mágico, em descobrir-me vivo apaixonando-me numa "Balada da noite única"... Porque, nem que tenha durado apenas uma noite inquebrantável e cheia de ritmos e rimas, já terá valido por toda uma vida...


Diálogos de uma boca só
Parte II

Até

Até segunda-feira
Até mês que vem
Até segunda ordem
Gosto muito de ti...

Até em tua dura lógica
Por sobre o teu sorriso calculado
Gosto de te admirar
Através de tua lente objetiva...

Gosto até de teu jeito manso,
Meio desligado até,
De esfinge sem propósito
Como que a me devorar
A cada enigma frio
De teus olhares em silêncio...
– E até...


Balada da Noite Única

Nem que fosse só por esta noite
Tudo seria inesquecível
Eu seria notável.
Os assuntos teimariam em ser interessantes
E a química entre nós dois,
Interminável.
Tinha que ser assim
Nem que fosse só por esta noite
Teus olhos nos meus diriam mais do que o normal,
Nossa união, nosso contato
Seria algo inquebrantável
As analogias, todas completamente exageradas,
A paixão latente por sobre
A nossa cegueira inexorável...
Tinha que ser assim
Nem que fosse só por esta noite
Nada mais de direito interessava
Tudo sem ética e sem religião,
Nada mais louvável!
Trocaríamos, enfim, juras silentes de eterna paixão
Com todos como cúmplices de nosso pouco discreto
Enlace admirável...
Tinha que ser assim
Nem que fosse só por esta noite
Por que amanhã, sabe lá Deus como seria
Nós nos fechando e calando toda a magia
– Nada mais lastimável,
A nos defendermos seguindo em frente pelo trivial
Rito das amizades que, começando mal,
Restam apenas no amigável...
Então tinha mesmo que ser assim
Que fosse só por esta noite
Para que pudéssemos viver um do outro
A doação fugidia e eterna de apenas um dia
De uma relação insuperável...


Dedicatória (Legado)

Como verdadeiro cafajeste,
Um perfeito desclassificado,
Sigo a te desejar apenas em poesia:
A ti, enfim, dedico meu único,
Fiel e autêntico legado!


Última Palavra

Como a última palavra
Tinha mesmo de ser dela
(E, a partir de então,
Nada mais ouvirás),
Ela assim encerrou,
Austera:
"Se passares deste ponto,
Morrerás!"


Partindo de volta para a nuvem mais alta distante de ti

Da boca pequena
Que mal abres
Justamente saíram
As palavras
Quer me guardaram de ti.

Chega a ser curioso
Que falaste mesmo
Sobre o teu cenho fechado
E sobre o tanto mais
Que te escancarou para mim,
Ainda que tanto te quisesses resguardar...

E assim,
Antes que percebesses
E que te fizesses medrosa,
Já me havia posicionado
Por sobre a fria nuvem mais alta
Distante de ti...

(Dilberto L. Rosa, 2005)
|

22 comentários:

Érica on 8 de fevereiro de 2010 18:50 disse...

As músicas citadas são muito significativas na minha vida, e Chico Buarque me traz a lembrança de uma doce voz, e de uma saudade insistente...
Teus poemas são elegantes, em tudo que trata, como uma mão contornando um corpo, ou uma luva fina, abraçando a mão. É lindo!

Adoro sempre o que eu vejo aqui!

Beijos

Lara Amaral on 8 de fevereiro de 2010 19:16 disse...

Adorando passar por aqui.

Uma delícia seus escritos.

Boa semana!
Beijos.

José Viana Filho on 9 de fevereiro de 2010 09:37 disse...

Mestre,

vc caprichou no texto de apresentação, nas escolhas das musicas e na imagem.

Sei que vc não colocou seus poemas aqui para uma eleição, mais o que mais gostei foi Dedicatória, uma mistura de malandragem e inocência!!

Abs e boa semana!!!

Batom e poesias on 9 de fevereiro de 2010 09:42 disse...

Dilberto
É muita coisa para uma postagem só.

O texto é delicioso, e cada poema é para ser lido, relido, compreendido e "curtido" lentamente.

Adorei.
bjs
Rossana

Francisco Sobreira on 9 de fevereiro de 2010 12:34 disse...

Dilberto,
A MPB produziu belas canções de amor. Além das que você cita, me lembro, de repente, de Apelo, de Vinicius e Baden Powell, e Minha Namorada, de Vinicius e Carlos Lira. Aliás, por falar do poetinha,o seu poema Balada da Noite Única me lembrou o poema dele que se encerra com o verso "que seja eterno[o amor] enquanto dure". Um abraço.

Soninha on 9 de fevereiro de 2010 12:45 disse...

Olá, Dilberto!
Saudade!
É bom estar apaixonado, não é?!
Sempre apaixonado. Pelos seus poemas, percebemos.
São lindos.
As citações das canções, nossa, amei! Bateu uma enorme saudade. Saudade de grandes amores, de grandes venturas, de grandes e inesquecíveis momentos vividos.
Sou-lhe grata por lembrar de tudo isso e dividir conosco.
Amei seus poemas.
Parabéns!
Vou ouvir as canções, logo mais.
Ótimo caranaval pra você!
Muita paz! Beijosssssssss

LuCordeiro on 9 de fevereiro de 2010 17:33 disse...

Oi,Dil,
De todos,o que mais me impressionou foi "A eterna crônica de um amor bandido".Diz tanto,ali! É real,como é. E vc conseguiu,em poucas palavras,contar uma história inteira.
Gostei,adorei. Os poetas e apaixonados fazem um mundo melhor.
bjs,amigo.

Valquíria Falcão on 9 de fevereiro de 2010 19:45 disse...

Primeiro preciso pedir perdão pelo sumiço....perdão????
sempre trab e as vezes nem no meu para postar estou tendo tempo...mas agora mudei de horario de trab acredito q ficara melhor....nossa mas mudou um bocado hem....de critico cinematografico para romantico poeta?
Gostei...é bom diversificar...
Beijos...

Helô Müller on 10 de fevereiro de 2010 06:07 disse...

Dil querido!!
Em função do "adiantado" da hora, serei obrigada a voltar! ( são 06:15 da matina! )

" vou voltar, sei que um dia vou voltar "...Lembra-se? Acho que é o "Sabiá"... rs

Só pelo intróito já se percebe o que me espera... rs
Me aguarde, tá?! rs
Beijos sonolentos!
Helô

quezia disse...

Dil, gostei muito das músicas selecionadas e poemas postados, dos quais o que mais me encantou foi balada da noite única. Lembrei muito de uma amiga que sempre me dizia que era melhor se arrepender por ter tentado, do que se arrepender por não ter vivido e o texto me lembrou muito sobre as escolhas que temos que fazer, sobre os amores que sempre nos perseguem e mesmo que só dure por um tempo limitado, estes momentos jamais serão esquecidos.

Márcia(clarinha) on 10 de fevereiro de 2010 19:39 disse...

Só pra dizer que você, filhote querido, jamais foi esquecido, pelo contrario, sempre muito lembrado.
Estou emocionada com tanta poesia, com tanta ternura, com tanto amor.
Balada da noite única, é para sempre perfeita.
lindos dias querido filhote
beijos carinhosos dessa mainha meio sumidinha

Poeta Mauro Rocha on 10 de fevereiro de 2010 19:57 disse...

Ola!! Nossa!! Você érealmente um poeta e consegue descrever com fineza os sentimentos, parabéns!!

Moacy Cirne on 10 de fevereiro de 2010 21:19 disse...

Pô, cara,
alguns de seus versos são ótimos
(há que vê-los/ouvi-los com maior atenção) e as meta-referências funcionam muito bem.
Voltarei, com mais,
para apreciá-los devidamente.

Um abraço.

Miguel on 10 de fevereiro de 2010 23:10 disse...

Dilberto amigo, lindos todos os versos e prosas com que construistes o texto de hoje.
Maravilhosamente bem escolhidos e marcantes.
Eu, porém, me permita a ressalva, poderia juntar a esses versos, duas frases musicais de antanho, deliciosamente cantadas, uma pelo "caboclinho", Silvio Caldas. e a outra pelo rei da voz, o velho Chico Alves. Ei-las:
"...e toda vez que subia/ o elevador não trazia/ essa mulher, maldição/ e, quando lento gemia/ o elevador que descia, subia meu coração...", e "...quanto mais ponho bebida/ mais a sombra colorida/ aparece ao meu olhar/ aumentando o sofrimento/ no cristal em que sedento/ vou a paixão sufocar/ e no anseio da desgraça/ encho mais a minha taça/a afogar a visão/quanto mais bebida eu ponho/ mais cresce a mulher no sonho/ na alma e no coração...
E tenho benedito!

Jens on 11 de fevereiro de 2010 11:35 disse...

O poeta no seu melhor. Belos e inspirados versos, Dilberto.

Um abraço.

Игорь on 11 de fevereiro de 2010 13:15 disse...

Desde o intróito passando por cada cada poema , pequenas preciosidades :)

abração

Ilaine on 11 de fevereiro de 2010 16:49 disse...

Sim, a nossa música é linda demais. Tu precisavas ver aqui em Copenhague, Dilberto! O pessoal adora MPB. Seguido, muito seguido a ouço - aqui e ali. Sem falar dos programas especias no verão. E nas lojas há fundo musical de alguma voz brasileira, tantas vezes. Então eu comento com as pessoas.

Os poemas são muito especias, Dilberto. Gosto de todos - todos diálogos de uma boca só e únicos.

Vou ter que ficar um pouco mais aqui... a ouvir as canções. Beijo

Lulu on 11 de fevereiro de 2010 20:40 disse...

Sempre me emociono ao ouvir essa música Eu sei que vou te amar.
Big Beijos

Reflexo d Alma on 11 de fevereiro de 2010 23:55 disse...

Encantadissima
com seu espaço.
Vou passear um pouco
depois comento como
quem sonha e delira.
Que bom que passou la
no meu blog.
Bjins entre sonhos e delírios

Helô Müller on 12 de fevereiro de 2010 01:52 disse...

Eu não disse que iria voltar?!
Pois então... cá estou eu!
Li tudo com avidez e ouso dizer que é muita coisa bonita saída de "uma boca só"!! Como pode isso? rs
O intróito do texto já é uma poesia por si só... As tuas são divinas, e mesmo com dificuldade em eleger a melhor das melhores, fiquei com a "Balada de uma noite única"... Sensacional e real!!
Vc, Dilberto, é danado de bom com as palavras!!rs
Bj
Helô

Ruby on 13 de fevereiro de 2010 13:16 disse...

Sempre as canções que marcam, sejam elas por um refrão ou verso e seus
textos, não tem como não se encantar. É um dom e nos enriquece e eu gosto muito de te ler. Então, 'até'...

mulherpolvo on 15 de fevereiro de 2010 09:43 disse...

Ai, que lindo!!
"até", muito bacana, o poema 9desta leva) que mais adorei!! Bom carnaval!!!

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