domingo, 28 de outubro de 2007

Manja, que te fa bene...


Parece que desde o advento da Internet passamos a saber mais de "novas datas especiais": e tome dia disto e daquilo a pulular sempre com uma entidade prontinha a promover-se por trás... Noutro dia, fiquei sabendo que no último dia 20 se comemorou o dia do poeta – coincidentemente, no último 'post', mesmo sem querer, homenageei esta data com a publicação de quatro poemas meus! Falta só o "dia da macaxeira": ainda lançarei a campanha neste 'blog' nordestino cheio de orgulho por este alimento completo!

Desde 1995, por exemplo, comemora-se mundialmente o Dia do Macarrão no dia 25 de outubro! Estados Unidos, Itália e Venezuela, para citar alguns exemplos, organizam eventos especiais, mostrando que o macarrão é um alimento universal e adaptável a qualquer região do planeta... No Brasil, a data passou a ser comemorada mesmo a partir de 1998, com a organização do evento Macarrão Gourmet Fashion, organizada pela ABIMA, onde são convidados renomados 'chefs' para preparar criativos pratos.

Ainda me lembro do Ziraldo, em várias de suas prolixas entrevistas, defendendo um "projeto nacional do macarrão", a fim de promover o aumento do consumo da massa na alimentação do brasileiro: conscientizando-se as pessoas sobre a versatilidade do produto e reforçando-se o caráter empregatício/beneficente do alimento, muitos problemas brasileiros teriam solução, de acordo com o artista multimídia! Onde está o Lula, bom de garfo e incapaz de perder uma boquinha, que não vê este novo "milagre nacional", ainda maior que o etanol (pois não seria monocultura)?!

Combinando com todos os cardápios, em qualquer época e com uma praticidade ideal para quem não tem tempo a perder na cozinha, o macarrão é mesmo uma salvação, tanto para os adoradores dos instantâneos Nissin Miojo, quanto para os aprendizes de culinária e 'chefs' de final de semana, como eu venho sendo nos últimos tempos, ao lado de Jandira, quase que numa preparação para o casório que se aproxima... Por isso, aproveito a ocasião para um feito inédito – digno de um antigo amigo meu que, esquecendo-se de ter feito a Redação do finado professor Sidney, entregou ao velho mestre uma receita (uma vez que nosso professor só dava o visto!): publico, pela primeira vez nos Morcegos... Uma receita de espaguete com molho de tomate! Eu fiz e ficou muito bom! Seguem os ingredientes...

4 dentes de alho picados; 6 colheres de sopa de azeite extra-virgem; 10 folhas de manjericão fresco picadas com as mãos; 750 g de tomates sem as peles e picados; sal e pimenta do reino moída a gosto; 500 g de espaguete.

Dica: refogue 1 cebola pequena, 1 cenoura e 1 colher de sopa de salsa, todos bem picados, junto com o alho.

Modo de Fazer: numa frigideira, refogue o alho no azeite em fogo médio até dourar ligeiramente. Junte o manjericão e os tomates. Tempere com sal e pimenta e deixe cozinhar lentamente por 15 a 20 minutos ou até o azeite começar a separar-se dos tomates. Cozinhe o macarrão à parte até ficar 'al dente'. Escorra-o bem e o transfira para uma travessa, onde deverá ser misturado com o molho. Sirva imediatamente. E coma com moderação...

P. S.: A receita de bolo de meu amigo no longínquo segundo ano científico (ensino médio) não passou impune – as lentes geralmente embaçadas do velho Sidney estavam em alerta naquele dia e, ao cabo de todos os "vistos" (e da antecipadamente comemorada vitória entre a galera da "Geral" por meu colega), eis que nosso professor de Literatura levantou-se de trás de sua mesa e vociferou "Ô, Alexandre: leia para todos nós o que você escreveu: aquela receita de bolo..."!

Mas nem só de macarrão vive o homem...


Recentemente fui elencado no excelente 'blog' Receptacullum, da prima Glória, para uma interessante espécie de "corrente virtual" com o seguinte tema: "Transcreva a quinta frase da página 161 de um livro lido recentemente" – como o último livro que (re) li foi o adorável Estorvo, de Chico Buarque, que não tem a referida página (e como a quinta frase do penúltimo lido, O Iluminado, não era digna de nota), aqui vai uma ótima referência do livro que leio atualmente: Glauber Rocha, esse Vulcão!, de João Carlos Teixeira Gomes, da Editora Nova Fronteira. Além de gênio, aquele cineasta era um profeta:

"Durante uma entrevista, admitiu que o uso dos recursos computadorizados faria da sala de cinema, no futuro, um 'circo tecnológico', com raio laser, holografia, teatro de imagens".

E, como toda corrente que se preze, devo indicar 5 amigos para continuar a interessante brincadeira, a fim de descobrirem-se pérolas no meio de uma narrativa, ficcional ou não: Moacy Cirne, DO, Luma Rosa, Adriana, Júnio, Frodo

domingo, 21 de outubro de 2007


Manacá - Tarsila do Amaral (1927)


Sartre celebrizou: "O inferno são os outros"... E me chateio em pensar que o Miscelânea, 'blog' coletivo de reunião de vários estilos e talentos do qual fazia parte com prazer, publicando todo domingo um poema de meu livro ainda inédito "À beira do derradeiro solstício", tenha acabado sem aviso prévio e sem anúncio público... Justamente esse livro que, dentre outras características, mais reunia "poemas-homenagens" na minha obra, um tema recorrente na Poesia, especialmente em gênios que admiro tanto, como Drummond, Bandeira e Vinícius... Mas Sartre se enganou quanto a um sem número de pessoas que, por inúmeras razões, fazem nossas vidas melhores: e neste outubro, em que o Miscelânea foi apagado e, coincidentemente, 4 pessoas especiais fazem aniversário, dedico este 'post' a uma rapaziada que segue em frente e segura o rojão com maestria e garbo! Em ordem de homenagem por "ordem de nascimento", os meus parabéns em forma de Poesia, especialmente ao meu pai, S. Carlito, e a minha mãe, D. Dilena, aniversariantes de hoje e do próximo 23, respectivamente! E vamos à luta!

Mais leve que o ar

Lígia Calina França Brito
Mulher de nome bonito
Que não gosta de samba, não gosta de sol
Nem tem um poema pra cantar...

Abre teus braços
Pra ver o filme começar
Abre-te ao resto do mundo
Pra ver se o mundo
Passa a melhorar...

Eu que nunca quis saber de cinema
E tenho medo de amar
Abro o programa e te anuncio
Te mato e te ressuscito
Mulher do coração bonito
De alma mais leve que o ar...


Canção do Velho
Para Carlos Humberto G. Rosa

O velho
Segue nas pontas dos pés
Com os braços abertos
Querendo voar...

O velho
Na ponta do ar
Com a mente a descoberto
Segue a sumir...

O velho
Como nem fosse cair
Cresce ao léu
Na contramão da via...

Ao velho,
Hoje, nem dei bom dia...
Não perguntei como ia
Nem pra onde vai...

No incerto dos dias
Segue calado
Ao largo da poesia
– Segue, meu pai...


Em Homenagem a D. Dilena (trecho)

(...)
Eu, que de ti herdei
Os olhos, a boca e o cabelo
Sigo como um espelho
A te imitar a arte passional
Da perfeição
De teus valores corretos
Diante do incerto
De minha vida.

A bênção, senhora,
Tu que acompanhas ao longe
Os meus versos infantis,
Releva a tosca lembrancinha
Que fiz e que a ti oferto,
Eterna fonte em meio ao deserto
De meus pensamentos juvenis...
(...)

(Dilberto L. Rosa, À beira do derradeiro solstício, 2005/2006)


Vestibular
Para Lelinha Pimentel

Sim, minha menininha,
Existe a metástase
A metáfase,
A perífrase
E a paráfrase:
O irascível
Do amor
A certas células de nossa língua
Soçobram
Recalcitrantes
No ocaso
Renitente
De meu poema remoçado

(Dilberto L. Rosa, Por trás de minha face lilás, 2007)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Para As Crianças...

E para Os Professores Também!


Azar


A gota caía. Sem cessar. Pingo por pingo, lentamente, como um conta-gotas, a água descia do teto umedecido diretamente na cabeça daquele menino. Coitado! Não conseguia fazer a prova. Ora o pingo caía em sua fronte, ora em sua sobrancelha direita, ora na própria prova, borrando suas poucas respostas já preparadas a caneta. Era inútil tentar continuar ali. Precisava mudar de lugar.

– Com licença, professora. Aqui tem uma goteira.
– Tudo bem. Mude-se, mas em silêncio – rigorosamente enfática –, e sente-se na frente de Eduardo.

Levantou-se, levando consigo sua tralha: o teste já borrado, seus lápis e suas canetas – duas que já nem escreviam direito – e todos os livros que mantinha debaixo da carteira. Supersticioso como só ele, Alfredo não podia deixar suas coisas no antigo lugar e buscar depois. Não, ele tinha que levar tudo consigo, para dar sorte na hora de fazer a prova. Afinal, ele começara aquela semana de testes com o mesmo arsenal em sua volta!

Uma última gota ainda caiu no lugar agora vazio. Só essa, tão logo o garoto acomodara-se em sua nova morada de tranqüilidade para o sossego daquela prova: a pequena poça que se houvera formado no teto começava a desaparecer lentamente e, com ela, a goteira que ali estava...

"Aquela quinta questão..." – pensava Alfredo sobre a questão mais difícil da prova. Levantou a vista para a porta entreaberta, donde se podia ver a chuva que caía lá fora. Aquela chuva... Aquele vento, aquele frio... Assim ele seguia, com seus pensamentos indo, caminhando longe como quando se faz uma prova difícil num dia chuvoso, até que, repentinamente, o menino foi despertado por uma gota fria em sua testa! Num rápido reflexo, levantou-se e ficou parado, fora de alcance, olhando para cima, como que renitente em acreditar em tamanha perseguição: agora uma pequena goteira havia-se formado por sobre o seu novo lugar! Não havia jeito! Não havia como fugir!

– Que raio de escola! – retrucou em tom baixo.
– Como disse? – a professora, em tom áspero.
– A chuva cai lá fora e aqui dentro! Não dá pra fazer prova desse jeito!

Alfredo ainda olhou para a sua prova em cima da carteira, num breve momento de escapismo naqueles segundos sem comunicação com a mestra, a esperar que ela autorizasse novamente a sua mudança de lugar. As gotas, mais rápidas que da primeira vez, já encharcavam o assento vazio.

– Ninguém até agora reclamou de goteira, só você!
– Não 'tou criando caso! Só queria que dessem um jeito nessa sala!
Realmente. Ninguém costumava reclamar de mazelas daquela turma, só Alfredo. Ainda mais em dia de chuva.
– Está bem, está bem... Mude-se pela segunda e última vez! Venha até aqui!

Alfredo seguiu em sua direção, agora deixando de vez seu material esquecido, a molhar nas gotas. Já nem se importava mais com aquelas crenças infantis do alto de seus 11 anos... Passava enfim por sua prova de fogo! Ou de água!

– Sente-se aqui e termine a sua prova! – sentenciou, impaciente, D. Ramy, levantando-se de seu humilde trono, a respeitada cadeira da professora.

Por um instante, Alfredo a fitou. Fitou a turma. Alguns o observavam, dada toda aquela chateação de tantas trocas de lugares. Outros continuavam na prova, sem nem se dar conta daquela enorme comédia de erros que se passava na turma. Eles é que estavam certos. Seguiam preocupados demais com a quinta questão...

Mas Alfredo não tinha culpa. E timidamente ainda olhou por uma última vez para a mestra, como que a dizer um envergonhado "obrigado" com o olhar. Depois observou o último lugar abandonado: o material molhado, o charco da cadeira e o teto... Engraçado, parecia que o teto havia secado...

D. Ramy, dando as costas para o azarado menino, virou-se para a turma. Alfredo, enfim, instalava-se, sozinho e de frente para os seus colegas. Sentiu-se estranho por um momento, um paria. Depois, abaixando a vista, conseguiu concentrar-se outra vez na prova e até pensar na quinta questão.

Parece piada, mas neste preciso momento uma gota caiu exatamente no número "cinco"! O pobre soltou um leve, porém contínuo "ai"! A professora, como que tendo uma premonição, virou-se instintiva. Ao que Alfredo, ao levantar o rosto para sondar a nova inimiga, recebeu do alto um pedaço do forro em sua cabeça. Coitado!

Os meninos, quase que em sincronia, deixaram a quinta questão e se desancaram a rir do pobre diabo, que agora chorava com as mãos na testa, deixando à mostra dos escárnios o cabelo todo salpicado de cal. A professora observava tudo com uma cara em que se misturavam pena e surpresa. Que azar!

As gotas seguiam continuamente, sem cessar, agora com muito mais pressa e força, diretamente na cabeça daquele menino vencido. Chovia dentro e lá fora...


(Dilberto Lima Rosa, A Prosa de Meu Agora Outrora, 2005)

domingo, 7 de outubro de 2007

Santo Feriado Nacional

Em caminhada hoje pelo meu bairro – ah, a obrigatória caminhada pelo bairro, três vezes por semana... O tempo e o colesterol alto são mesmo implacáveis... –, presenciei a despretensiosa conversa de dois transeuntes que passeavam perto de mim: "É feriado na sexta por causa mesmo de quê, hein?", ao que o outro prontamente responde: "É que é Dia das Crianças"...

Como é engraçado o mundo desligado em que vivemos, ainda que tudo pareça tão ligado... "Dia das Crianças"!... As crianças adquiriram 'status' de tamanha importância e, além de terem um dia a elas consagrado, tanto em termos comerciais como nas vazias discussões sociais, teriam elas, a partir de então, um feriado inteiro que alcançaria também a todos os adultos, pais ou não, a permitir um grande deleite infantil, estimulando cada indivíduo a relembrar a criança que existe em si!

Não que a solene – e real – razão do feriado nacional de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, seja motivo suficiente para mais um dia de preguiça geral: considerada a Padroeira do Brasil, com sua imagem de madeira enegrecida (uma santa negra: nada mais brasileiro!) tendo "aparecido" para alguns pescadores da então Vila de Guaratinguetá há quase três séculos, já surgindo com o "milagre da multiplicação dos peixes", um feriado de pernas p'ro ar baseado nesta enésima variação da figura de Maria, mãe do menino Jesus, só teria mesmo razão de ser para os católicos "não praticantes" (se é que isso existe...) e agnósticos de carteirinha – todos passam longe da igreja nos "dias santos"...

O fato é que, apesar de assim não reconhecido, o Brasil é o maior país católico do mundo, tanto na formação luso-católica e apostólico-romana como no desenvolver de suas tradições, a manter uma posição geral de "país religioso não-praticante" – só assim para justificar as nossas "idolatrias símbolos-nacionais", como futebol, cachaça, mulher e carnaval: afinal, se fôssemos puritanos calvinistas como a maioria na Inglaterra, nada disso seria possível "oficialmente"...

E a tradição dos padroeiros santos "desce" também a cada estado, a cada município, a cada vilarejo deste Brasilzão de meu Deus, especialmente em nosso sofrido Nordeste... Vide a nossa N. Sra. da Vitória, que teria transformado areia em pólvora na batalha de expulsão dos franceses desta região pelos portugueses. Ou ainda nosso famoso São José de Ribamar, cuja imagem (São José de Botas) foi trazida para o povoado de Arriba-Mar por um capitão português depois de salvar-se "milagrosamente" de um naufrágio, séculos atrás – tradição que, além de ter gerado um dos mais visitados festejos religiosos do País, fez proliferar por todo o Maranhão uma infindável série de "Josés de Ribamar" (incluindo um famoso e nada santo coronel bigodudo!)...

E assim, nessa pureza cultural quase infantil, vivemos todos num caldeirão lúdico de velas acesas, fitinhas abençoadas, filhos com nomes de santos, imagens no andor, joelhos no chão e corações aos céus... Sigamos todos como crianças a brincar de pedra na cabeça com nossos bonecos de cera num infinito feriado de delícias tropicais o ano inteiro, a sonhar com a prosperidade do Paraíso na terra – e sigamos com fé, que a fé não costuma falhar...

Falando Nisso...


Uma Vela no Altar

Poesia
Na chama da vela, a tremular,
Tardia,
Ao aguardar a dura e triste sorte
Sombria
De guardar mesma em si a própria morte...
Esguia,
Frágil e humana vela no altar
Da guia:
Luz que queima só na sacristia
Vazia,
Prostrada acesa ao pé de uma imagem
Tão fria,
Queimando a vida e a fé de passagem
– Magia
Que acaba, sem força, em pleno dia...

(Dilberto L. Rosa, 2004 Poemas, 2004)
 

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