sábado, 18 de agosto de 2007

Que Rei Sou Eu?




Elvis Presley morreu no ano em que nasci, 3 meses depois de minha chegada. Obviamente que, àquela época, eu não tinha muita noção de quem era Elvis, mas Raul Seixas me contou muita coisa até sua morte anunciada, em 1989, em meus áureos 12 anos... Assim, neste mês de agosto, em que se lembram as mortes destes dois genuínos ídolos do Rock, nada mais justo que falar sobre "majestades"...

Elvis não inventou o rock'n' roll: a maioria das grandes canções que lhe deram projeção eram versões de artistas negros, com a velocidade alterada sobre a música 'gospel' misturada com 'rithm e blues' (Little Richard, genial pianista negro e homossexual que, por várias vezes, largaria tudo em nome da igreja evangélica, por exemplo, é hoje reconhecido como um dos pais do rock)... Mas foi Elvis que o tornou acessível a todos os brancos, que se assombravam com seus requebrados censurados na TV norte-americana, sinônimo de promiscuidade pela forma como o cantou, com luxúria, sensualidade e o próprio rock na alma!

Por isso, não é de se estranhar que o rock sempre tenha sido tomado como a música do Diabo – como o inesquecível "Rock do Diabo", de Raulzito, este mesmo um fã ardoroso de Elvis (de carteirinha, do Elvis Rock Clube)... Mas, enquanto este era amado por tantos, verdadeiro fenômeno de massa, incapaz de abandonar um estilo que ficou um tanto quanto "antiquado" num determinado período de sua carreira (especialmente os anos 60, onde o rock evoluía para os Beatles e Elvis insistia no visual de topete e costeletas em filmes pífios, com canções mais esquecíveis ainda), aquele rapidamente abandonava o estilo "Jovem Guarda" do início da carreira (Raulzito e Os Panteras, um ótimo disco por sinal) para revolucionar o rock nacional em Música e em Poesia, que envolvia desde as influências da Rádio dos anos 50 (Emilinha Borba e Música Cubana) até o Tropicalismo de Mosca na Sopa!

Longe de mim, comparar dois revolucionários, duas pérolas da Música mundial... Mas não há como evitar acreditar que, se Raul fosse norte-americano, teria ele levado o rock a patamares não alcançados por Elvis em sua carreira de altos e baixos (especialmente com seu final, que a maioria de seus 'covers' insiste em relembrar) e acabaria com uma bela "coroa" de "rei de alguma coisa"... Longe também de achar que Raul não teve seus baixos, especialmente por causa de seu vício da bebida, que o levou a um "final sem fígado e sem pâncreas, mas ainda cantando com alma", como relembra Marcelo Nova (que alavancou Raulzito num momento difícil, com o outonal LP "A Panela do Diabo", disco de ouro póstumo)!

Mas é inegável que Elvis, depois da sua volta do "alistamento de propaganda" (1958/60), nunca mais foi o mesmo: piegas e romântico, tinha perdido a rebeldia e o inconformismo, nunca mais sabendo escolher o melhor caminho para um "retorno" (a não ser por It's now or never e pelo especial "Elvis Comeback Special", de 68)... Daí para as crepusculares apresentações com seus ternos de Capitão Marvel de lantejoulas em Las Vegas, gordo e entupido de anfetaminas e barbitúricos para viúvas e donas de casa complexadas (a partir de 74), Elvis, mesmo ainda com sua voz poderosa, nunca mais se entenderia com sua "cria"... Enquanto isso, Raul vociferava verdades que incomodavam a Ditadura com sua genialidade e se aproximava mais do espírito contestador do ritmo que nunca abandonaria...

Raul é rei para seus fãs, e Elvis, um fenômeno mundial... O que vale mesmo é dizer que o Rock não pode ter "reis", mas, sim, contestadores – arte em que os dois tiraram de letra... Afinal, não é à toa que Lennon certa vez disse que, "antes de Elvis, nada existia", tendo se encantado tanto com o 'swing' de 'The King' (na sua visita a Gracieland, como um Beatle), como com as idéias da Sociedade Alternativa de Raulzito, quando do exílio deste em NY – pelo menos, assim Lennon me contou...

O Poeta Que Sabia Rir...


E um dos maiores Poetas de todos os tempos também nos deixou em agosto: há 20 anos morria no Rio de Janeiro, onde eternizou-se como estátua popular, Carlos Drummond de Andrade, um gênio que, apesar da imagem sisuda, sabia da ironia da vida e sabia rir-se dela como poucos, ainda que isso não aparentasse do alto do porte melancólico e de seus oprimidos óculos... Prova disso inúmeras obras-primas, como Cota Zero e Quadrilha e outros tantos momentos "pornográficos" (como no antigo "poema-piada" Era manhã de setembro/e ela me beijava o membro). E hoje, aproveitando o "espírito rock", relembro o devaneio do Mestre quanto à... Bunda!

A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

(Carlos Drummond de Andrade)

E a morte ainda abunda como guitarras de rock na Miscelânea S/A
 

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