domingo, 30 de abril de 2017

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Avolumava-se um vulto na penumbra à porta do escritório, tal como nos jogos de espelhos, luzes e sombras típicos de Cidadão Kane ou A Dama de Xangai – embora o Orson Welles daquela silhueta mais lembrasse o de outro filme, A Marca da Maldade. De qualquer forma, Ele se via mesmo como nalguma história em quadrinhos, quase um Rei do Crime gigantesco e opulento: um vilão, a esperar pelo embate com seu respectivo nêmesis heroico, fosse ele um Homem-Aranha ou um Demolidor que jamais chegaria. Pouco depois, o telefone toca um breve sinal – era Ela, somente mais uma mensagem: Eu te amo tanto...

Na verdade, Ele queria que Ela lhe dissesse outras coisas: que o entendia, que sentia suas angústias, seus medos e anseios; a que horas havia chegado e que, no fundo, nem queria ter saído... Enfim, que soubesse acalmar seu coração, sem convidados indesejados, sem fechamentos em conchas, sem data de validade, custasse o que custasse... Talvez fosse demais querer tudo aquilo, uma vez que, como diria o Poeta-Mor, Amar se aprende amando, e saber a hora certa de se ensimesmar ou celebrar a vida com quem quer que fosse poderiam ser construções ainda não alcançáveis – paciência! Antes querer lembrar A Maçã libertária de Raul – Se eu te amo e tu me amas,/ o amor a dois profana,/ sofro, mas eu vou te libertar – a aceitar o possessivo Como vai você de Antônio Marcos – Preciso tanto me fazer feliz...

De repente, um morcego irrompe pela janela aberta e, antes que Ele se valesse da arma encontrada na gaveta e com ela se lançasse nalguma trama amargamente policialesca de Rubem Fonseca, eis que a negra criatura noturna, dependurada num balaústre, exclama em alto e bom som: Nunca mais!... E, então, dezenas, centenas, talvez milhares de morcegos adentram o ambiente e, com seus desesperados chilreios e muito farfalhar de asas, fazem surgir, diante dos olhos estupefatos de nosso anti-herói, um computador, talvez carreado pelos quirópteros, daqueles mais antigos, com monitor branco-amarelado com tubo de imagem como os antigos televisores, uma grande CPU, e fios e mais fios a eles interligados. Na tela, uma mensagem é digitada: Decifra-me... Ou te devoro!

No instante seguinte, todo o peso daquela nuvem de asas negras dá origem, na tela, a letras, números e memórias das artes em geral. E, como num delicioso filme de Terror, Ele some à medida que os assustadores animais alados debandam pela janela por onde entraram: mais kafkiano impossível! Na tela, um poema intitulado "Morcegos" – teria ele se fundido eternamente ao virtual, carregando-se, automaticamente, nas dezenas, centenas, milhares de crônicas, contos, poemas e críticas de Cinema, Música, Literatura e tantas outras metalinguagens artísticas que passaram a surgir naquela tela bestial? Ninguém sabe ao certo... Só se tem certeza de que Ela jamais perdeu qualquer coisa dita naquele blogue desde então, a vagar pelo espaço-tempo em cada letra que ali surgia. Há exatos 13 anos – e para todo o sempre!
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2 comentários:

Unknown on 29 de junho de 2017 às 18:36 disse...

Maravilhoso. Já virei fã!

Unknown on 29 de junho de 2017 às 18:36 disse...

Maravilhoso...

 

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