quinta-feira, 17 de março de 2016

Cambalacho junino dombosquino


Terminando uns afazeres agora nesse comecinho de madrugada diante da TV ligada, percebo, pouco antes de desligar para buscar a cama, que o canal Viva exibe a reprise da novela "Cambalacho" e me vem uma verdadeira enxurrada de lembranças ao ouvir a canção homônima que abria a atração global de 1986... Naquele ano, o meu segundo nos templos dombosquinos, lembro-me particularmente de uma delas, que dizia respeito justamente àquela abertura: após lutar com todas as forças de meus briosos 9 anos de idade para conseguir que Lícia, a garota mais linda da minha turma (e, talvez, do colégio inteiro: paixão avassaladora e maior que o mundo) aceitasse ser o meu par na tradicional quadrilha de São João, consegui a sua palavra de compromisso até o primeiro ensaio, ocasião em que aquela sereia infantil me atraiçoaria e revelaria o seu canto falso - e assim, antes mesmo de as primeiras coreografias da tradicional dança junina serem feitas, Lícia me revelaria que, na verdade, ela dançaria com Fabiano, um baixinho irritante de olhinhos fechados como um japonês de araque, mas que, naquele instante, tinha os olhos bem abertos num sorrisinho de vitória ao dar-lhe o braço para a primeira formação e me encarar malicioso como um daqueles vilões das comédias-de-colégio norte-americanas...

Arrasado como um Charlie Brown nauseabundo da realidade, suspirei o meu derrotado "Que puxa" e, de cabeça baixa, ia dando as costas para uma surpresa plateia de colegas da terceira série (que continuaria, em instantes, as primeiras coreografias), quando Tia Simone, professora de outra turma que também acompanhava a quadrilha, apiedada com aquela pueril dor de uma apunhalada pelas costas, ofereceu-me uma participação na "nova dança" que estavam realizando, o "Cambalacho", que seria baseada na canção de abertura da novela - os ensaios até já haviam começado, mas, dada a inusitada e patética situação minha, eu poderia integrar-me ao "elenco" por "motivo de força maior"... E mais: eu teria como par nada mais, nada menos (juro que o anúncio da minha futura 'partner' foi feito com similar retumbância) que Mirella​, da turma 31! "Mirella?!", "Mirella!!", "Mirella??"... - questionavam espantados muitos dos babões meninos presentes, incluindo o famigerado Fabiano! "Grandes coisas... E quem era essa Mirella?! Se quiser trocar, Fabiano, me devolve a Lícia que eu troco com essa tal de Mirella!", pensava eu com meus botões da calça de brim, ainda ferido, depois daquela sexta-feira negra...

Mas eis que, na segunda-feira seguinte, todas as previsões se confirmariam: sim, a "tal" Mirella era mesmo lindinha, com seu queixinho proeminente de um lindo sorriso aceso o tempo inteiro e um longo e belo rabo de cavalo de madeixas loirinhas, e, nem bem entrei no galpão dos últimos andares da escola para acompanhá-la (nem sequer fomos devidamente apresentados!), começou o ensaio da "nova dança" e aquela garota, como que provida de molas instantaneamente acionadas com música, rebolou e gingou lindamente diante do meu queixo caído e do resto do meu corpo duro sem ginga alguma para segui-la naqueles passos meio salsa, meio merengue, e ainda deslocado do resto do já ensaiado elenco de colegas de outras turmas - tudo ao som de "Se você me der, eu quero/ Se você pedir, eu deixo/ E a gente vai levando/ Pirulito e quebra-queixo"... No fim do dia, só pensava em Mirella, de costas pra mim - sim, aquilo mexera comigo em meus primeiros despertares de "menino-homem": a dança tinha algo de "politicamente incorreto" e dificilmente passaria nos dias atuais, com tanto rebolado e mãozinhas na cintura (as minhas e as dela na dela) para aqueles garotinhos e garotinhas de 9 anos - e assim, a partir de então, aquela novela ganharia novos contornos para mim - e me surgia a primeira "paixão à primeira vista de costas" de que se teve registro...

Confesso, porém, que, no fundo, ainda pensava em Lícia e não me sentia muito à vontade com o novo e rebolento ritmo, apesar daquela bela loirinha que eu mal encarava e seguia acompanhando por trás! Poucos dias depois, uma circular mimeografada cheirando a álcool nos seria entregue para levarmos aos nossos pais o modelito que os garotos deveriam mandar fazer para as festas juninas - e, no meu caso, o estilizado desenho de moda para a "Dança do Cambalacho" acabaria por me ajudar a desistir de todo aquele equívoco: no croqui ficava claro o visual "latino-lover efeminado", numa afetada e exagerada imitação do figurino de dançarinos do Caribe, com tudo cheio de fitas multicoloridas e blusinha meio 'top', aparecendo a barriga - era a desculpa que faltava para o projeto de machista que eu era dar uma de Bolsonaro-mirim e dizer que eu jamais vestiria uma roupa "de qualhira" como aquela!

Resultado: Mirella seguiria na dança como se eu não tivesse existido ("Quem é Dilberto?! Ah, esse era o nome daquele menino que ensaiou comigo umas três vezes?!"); Lícia ficou com o seu Fabiano na quadrilha e eu, amargurado, sequer visitei a quadra do Dom Bosco no dia das apresentações - e somente no ano seguinte a minha Musa deixaria de bancar a "cambalacheira" comigo e, finalmente, cumpriria com a palavra e seria o meu "par dos sonhos" na quadrilha da quarta série, apresentada com a pompa que o maior evento romântico da minha vida de então exigia na grande quadra do SESI, na Rua Grande - onde hoje funcionam os anexos da Procuradoria (acho que tenho essa memorável foto de nós dois como "caboclinhos" em algum lugar)! Sim, confesso, eu não tinha muito amor próprio nessa época, e Lícia ainda judiaria bastante de mim, abusando de minha apaixonada admiração por ela até a sexta série; Mirella viria a se tornar uma amiga cativante e divertida e, por alguns meses no terceiro ano (ah, esse Terceirão inesquecível que, direta ou indiretamente, sempre chega às minhas reminiscências dombosquinas), acabaria sendo minha namorada - a segunda das quatro daquele idílico 1994 (sim, eu cresci e aprendi!); ainda vi Lícia depois de adulta, algumas vezes (ela continua bonita, mas sequer é meu contato no Facebook) e demos boas risadas daqueles tempos ingênuos nas poucas vezes em que pudemos conversar; e, por fim, casei-me com Jandira​ - que nada tem a ver com essa história e sequer imaginava que eu existia em sua distante Codó, quando assistia, na sua infância, à divertida novela Cambalacho pela primeira vez...

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