quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Uma Reminiscência Paralela:
A Bezerra e O Rosa

Hoje, no aniversário de uma amiga que conheço desde a segunda série do Primeiro Grau, a mesma das brincadeiras no playground nos idos tempos matutinos do extinto Dom Bosco do Centro, a velha companheira das viagens nos lotados Angelim de volta para casa nos começos de noite do Segundo Grau, alguém de que ainda gosto muito apesar da perda de contato natural dos duros tempos adultos, veio-me à lembrança um inusitado momento nosso de infância de que fui o seu cruel "antagonista" - e que inevitavelmente me surge sempre que, simplesmente, ouço o seu nome: Ana Maria.

Recentemente (2014!), numa de nossas poucas conversas virtuais - via inbox numa famosa rede social - lembrei Aninha de que tinha um "débito" antigo para com ela, que me fazia corar sempre que me lembrava de que, um dia, pude ter sido capaz de tamanha maldade com uma garota tão legal... Perdida na recordação (ou na falta dela), minha querida de longa data deve ter arregalado bem aqueles seus sempre belos olhos esverdeados e foi logo dizendo que preferia nem lembrar nada diante da tão alardeada "canalhice infantil" - no que recuou com minha explicação de que a história era boa e tinha seu fundo cômico...

E assim, comecei a falar (ou melhor, teclar), meio sinteticamente, a trama sobre a qual ora me alongo um tantinho mais... Na longínqua quarta série, no doce seio educacional de nossa Turma 43, alguém de que não me lembro direito (teria sido o primeiro contato com o inspetor João?!) veio à nossa turma e proferiu os nomes completos de alguns alunos no final de uma manhã de aula - e, como as chamadas dos alunos eram normalmente feitas pelos números da respectiva ordem na lista, pela primeira vez, mesmo depois de já alguns anos de convívio, passamos a ouvir os até então "secretos" sobrenomes dos colegas citados (e, agora, fora da costumeira ordem alfabética): Dilberto Lima Rosa (Aqui!)... João de Deus da Costa Leite Júnior... Rosiane Farias Bastos... Fárida Suely Zaidan... Ana Maria Marques Bezerra...

Como aquele esquecido interlocutor deixava alguns segundos entre cada nome (igualmente, não me lembro o porquê... Seria uma das primeiras entregas das famosas "carteirinhas", nossos "passaportes" de entrada e saída da escola?), foi o suficiente para eu, mesmo nunca tendo gostado de zombar de ninguém, inventar de pôr as manguinhas de fora e aproveitar o burburinho geral da meninada após o anúncio do sobrenome "animal" (coisas da idade...) para colocar de lado o jeitão então calado e tímido e tascar um sonoro Béééééééé!, imitando, obviamente, o esganiçado mugido do filhote da vaca! Bom... Nem preciso dizer que quase toda a turma foi abaixo em gargalhadas com aquela tolice e a minha amiguinha acabou caindo no pranto com o duro projeto de bullying (hoje eu talvez fosse até processado!) que eu acabara de cometer - momento em que "caiu a ficha" (sim, a expressão é desse tempo, quando se usavam fichas em orelhões) do quanto eu havia me excedido...

Arrependido ao notar os olhares de reprovação de Ana Cláudia e Georgiana ao consolarem a amiga numa das últimas cadeiras da sala onde costumava sentar-se, respirei fundo e, como eu estava num dos lugares bem à frente, tive tempo de tomar coragem para lhe pedir desculpas enquanto a maioria deixava a sala - muitos ainda rindo, o que fazia aumentar a culpa (mal sabia eu que o Terceirão seria muito pior do aquela infâmia!)... No entanto, nem bem tentei olhar novamente para o fundão e constatar como ela estava, fui surpreendido com a ofendida garota já em pé, diante de mim, com os molhados olhos esverdeados cheios de raiva, pronta para dar o troco em alto e bom som - DAQUI PRA FRENTE, DILBERTO, SÓ VOU TE CHAMAR DE "ROSA PERFUMADA"!, no que saiu furiosa, batendo a mochila ainda mal colocada nas costas nos azulejos azuis de perto da porta da turma, obviamente debochando de volta sobre o meu "feminino" sobrenome...

Eis aí uma qualidade que sempre admirei na Aninha: muito antes das atuais discussões a respeito do necessário empoderamento feminino, ela sempre soube se defender e se impor sem levar desaforo pra casa! Entretanto, como diria o icônico Che, sin perder la ternura jamás... Sim, porque, ao lado da certa fama de "durona" que sempre alimentou entre os mais chegados com seu jeito despachado e suas respostas de bate-pronto a escorrer da ponta da língua, Ana Maria sempre foi uma doce e conselheira companheirona de todos! E, especificamente de gente como a Eline, outra colega dombosquina de longa data de quem a Ana viria mesmo a se tornar uma legítima irmã - e ao lado de quem viria a ver a Srta. Bezerra pela última vez, num encontro que as duas marcaram num restaurante em que me encontrava com a família de Jandira, em 2015...

O mais engraçado foi lembrar, nesse nosso último encontro fortuito, que Eline, assim como Ana Maria, infelizmente havia sido a outra "vítima" de de meu infantil segundo "Momento Joselito" (aquele, do pessoal do Hermes e Renato que não sabe brincar...), de quem também guardo uma engraçada história de "maldade" da infância cometida noutra ocasião descerebrada de minhas reminiscências mais joviais - e que lembro, inevitavelmente, toda santa vez que seu nome simplesmente é mencionado! Mas essa história fica para uma outra vez...

Béééééé!Parabéns, "Bezerrinha"! Do seu "Rosa Perfumada"...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Amendoins!

Olhando em retrospecto, percebe-se o quão "politicamente incorreto" era a animação Snoopy: um garoto azarado e cabeçudo é motivo constante de chacotas e bullying na escola; sofre assédio moral nas mãos de uma menina autoritária e preconceituosa; só se dá mal com a garotinha dos seus sonhos, com quem nunca consegue falar, mas desperta o interesse de uma menina "diferente" e com trejeitos masculinos; e só consegue ter como amigos um cachorro humanizado que só falta falar – e, por isso mesmo, por várias vezes demonstra total indiferença ao "dono" – e um menino inteligente, porém limitado a uma fixação infantilizada pelo cobertor... Isso sem falar que os meninos vivem independentes, aparentemente num "mundo sem adultos", uma vez que esses, praticamente, jamais aparecem, somente se ouvindo, aqui e ali, suas "vozes" ininteligíveis (sons de trombones: conflito de gerações)! 

Pois é, acontece que esses desenhos animados não foram necessariamente feitos para crianças: criação de Charles Schulz, que escreveu e desenhou esses personagens em forma de tiras para jornais, de 1950 até 2000 (ano da sua morte e do consequente fim das tirinhas: desde então, só relançamentos), realmente quase nada tinha de infantil a turminha dos Peanuts (decisão da distribuidora, em referência a "coisas pequenas" ou à peanut gallery, "galeria dos amendoins", plateia de crianças nos programas de auditório) – por aqui mais conhecido como Snoopy ou A Turma do Charlie Brown (embora conhecido também, por um tempo, como "A Turma do Mindoim", substituindo o "Chucky", como a Patty Pimentinha chamava Charlie Brown nos EUA). E assim, mesmo sendo crianças, os meninos e meninas da série filosofavam sobre a vida e compartilhavam neuras, ansiedades e angústias melancólicas típicas de adultos – não à toa, a durona Lucy mantinha um pequeno "consultório psiquiátrico", nos moldes de uma inocente venda de limonada, para ouvir os dilemas dos coleguinhas! 

E, com o imenso sucesso dos Quadrinhos, os produtores Lee Mendehlson e Bill Mellández (este, também animador, viria a fazer as "vozes" do Snoopy e do Woodstock) levaram a Snoopy e sua turma para a TV na década de 60, costurando várias séries de tirinhas em episódios ou especiais de cerca de meia hora (daí o tom de coletânea que aqueles filminhos aparentavam), com muito jazz, Beethoven (por causa do pianista Schroeder) e piadas muitas vezes incompreensíveis para a gurizada: nascia um clássico – que no Brasil, graças ao SBT, fez um enorme sucesso nos anos 1980, gerando uma legião de fãs de todas as idades e transformando o famoso beagle em sucesso instantâneo de vendas de pelúcias dos Brinquedos Estrela.
Não é de espantar, pois, minha imensa expectativa ao levar minha filha de quase 6 anos ao cinema nesse finalzinho de férias para ver Snoopy & Charlie Brown - Peanuts, O Filme (título desnecessariamente longo graças à confusão com o antigo título original): como o filme funcionaria ao entregar personagens com um viés mais adulto para uma companhia de animação tradicionalmente voltada para o público infantil (BlueSky, a mesma dos bonitinhos Rio e A Era do Gelo)? E a minha pequena: conseguiria acompanhar o ritmo? Tudo bem, já há algum tempo a minha Isabela assiste a uma versão francesa exibida durantes os intervalos do canal Discovery Kids, que readaptou a turma do famoso beagle para a TV em formato similar ao clássico (piadas rápidas de tirinhas entremeadas a histórias), só que em episódios bem curtinhos (cerca de 5 minutos cada). E ela até entende grande parte do sarcástico humor: a "voz" de trombone dos adultos, por exemplo, ela simplesmente adora!

Afinal, a boa surpresa: respeitosamente tratada por Craig e Bryan Schulz, filho e neto, respectivamente, do cartunista, juntamente ao diretor Steve Martino (do divertido Horton e O Mundo dos Quem), algumas piadinhas clássicas seguem presentes aqui e acolá, mas uma história maior, unindo tudo, foi desenvolvida para o longa, que, apesar de um pouco fraca e infantilizada, acabou se mostrando eficaz na adaptação daquele universo para o atual mundo infantil sem deixar de respeitar o legado dos personagens, tanto das HQs como das antigas animações. E, assim, os suspirantes Que puxa! do azarado Charlie Brown diante das provações continuam, porém, no lugar do bullying de antes, ele consegue ter um inusitado momento de sucesso e popularidade; a diabólica Lucy não deixou de ser intratável (não deixe de conferir a cena pós-crédito, com uma homenagem à eterna sequência da "bola de futebol americano"), porém já passa a ter momentos de bom senso; Snoopy segue (Joe) cool e humanamente independente ao lado do seu fiel escudeiro Woodstock, mas se mostra mais amigo do seu cabeçudo dono...

Apesar de alguns vacilos (como a insistência nas longas sequências com o Ás da Aviação contra o Barão Vermelho e o fim do segredo da Garotinha Ruiva, aqui revelada desde o começo) e da fraca dublagem brasileira do garoto Charlie Brown (o saudoso Marcelo Gastaldi, mesmo dublador do Chaves 
no SBT, e Selton Melo, na segunda versão da Globo, são insuperáveis), o novo longa acabou sendo um alívio para mim: sem descaracterizar os adorados personagens para as novas gerações (como se deu com a infantilização do Garfield, por exemplo) e sempre puxando pela memória dos mais velhos com tradicionais elementos do passado, o filme foi uma grata surpresa!

Por isso, ao longo de Peanuts - O Filme, pululam sorrisos largos nos rostos dos papais que tiveram as infâncias marcadas pelas tirinhas ou pelos desenhos da TV, embevecidos ao reconhecerem referências à Grande Abóbora, aos jogos de beisebol, às patinações no gelo... Até os divertidos grunhidos e as risadas marcantes de Woodstock e Snoopy foram reprisados (voz do falecido animador e produtor Meléndez é creditada no final) - sem esquecer da relevância do grande Vince Guaraldi e suas composições cheias de jazz e swing no passado, responsáveis pela "cara musical" da primeira adaptação animada e que agora abrem o longa, revivendo algumas daquelas sequências já eternizadas - como aquela adorável dança de O Natal de Charlie Brown (uma coreografia para cada um: vídeo ao lado)... Nostalgia pura!

Claro que, para agradar a impaciente criançada atual e fazer dinheiro (é uma indústria pesada essa do cinema norte-americano, Charlie Brown...), concessões foram feitas - como o abandono da animação tradicional pela computadorizada em 3D, tendência atual e moderninha... Mas, nem nesse caso, o gostinho original dos clássicos foi abandonado, uma vez que os personagens possuem ritmo e texturas quase idênticas aos filminhos dos anos 60 e 70! Por essa e por outras que, em meio a lançamentos pífios e muito mais infantilizados, como o tolinho lançamento de luxo da atualmente de criatividade oscilante Pixar (a mesma do inteligente e ótimo Divertidamente), O Bom Dinossauro - que nem à minha pequena agradou! - e a outros que foram "redescobertos" e só relançados recentemente em várias salas graças ao bendito Oscar, caso do brasileiro e lindamente poético, porém mais direcionado ao público adulto, O Menino e O Mundo - curiosamente, desse ela gostou mais... -, finalmente dá pra levar a criançada ao cinema e, de quebra, divertir-se bastante junto! Tanto que dá vontade de sair da sala imitando aquela famosa dancinha do adorável beagle malhado... Ou, melhor ainda, viver uma versão adulta de qualquer daqueles adoráveis tipos numa real "Escola de Dança do Charlie Brown" (delicioso vídeo de humor abaixo)!

 

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