sábado, 12 de dezembro de 2015

100 Sinatra


Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I've planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way
(Trecho de My Way - "meu caminho" ou "meu jeito": costumava, assim como na clássica canção, orgulhar-se da sua trajetória... E não era pra menos: poucos viveram tão intensamente como ele!)

Presenciei, pelos noticiários e à distância, a partida de ídolos muito próximos na minha juventude, coisa que acabou marcada na memória afetiva, tamanha a admiração descoberta, ainda na pré-adolescência, do poder artístico daqueles sujeitos: assim, fiquei extremamente triste, em dezembro de 94, quando da ida precoce do maestro Jobim (67 anos), bem como, alguns anos depois, das mortes do sublime Sinatra (83) e do genial Nelson (79), também nos anos 90... Hoje, 17 anos depois de sua partida, tomo conhecimento do centenário de nascimento dos "Velhos Olhos Azuis" e penso com meus botões - Grande Frankie... Mas acho que não postarei nada, não: já devo ter escrito uma pá de postagens nos Morcegos sobre esse cara! - e qual não foi a minha surpresa quando, procurando pelo blogue, descobri que jamais escrevera qualquer coisa diretamente endereçada ao gigantesco cantor jazzístico, a não ser algumas menções em posts sobre outros grandes artistas - como o próprio Jobim, com quem "A Voz" realizou um dos melhores discos de todos os tempos, Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim, naquela perfeita fusão do jazz romântico do cantor estadunidense e a então estonteante novidade do romantismo da Bossa Nova... Pois é: nenhum mísero post dos Morcegos dedicado ao grande cantor norte-americano!

E Frank Sinatra merece muito mais! Afinal, ser um ítalo-americano franzino nos anos 10 do século XX, nascido a fórceps (com a extrema vaidade que lhe era peculiar, sempre usou maquiagem para disfarçar as marcas deixadas entre o rosto e o pescoço do lado esquerdo) e extremamente humilde de uma cidadezinha próxima à Nova Iorque, Hoboken (cuja maioria dos citadinos jamais perdoou o famoso cantor e ator, porque este nunca teria feito nada pela Cidade), crescer e se tornar um dos maiores cantores de todos os tempos, sendo referência viva até hoje, a despeito de seu começo um tanto quanto "marqueteiro" (moças eram pagas pelo seu agente para gritarem e desmaiarem durante as primeiras apresentações) e apesar de seu gênero mais representativo, o jazz big band, não ser nada popular entre os ruidosos "gêneros" musicais atuais, não é coisa para qualquer um! E tudo isso se deve ao seu talento único, um jazzista branco cheio do melhor swing musical negro (tal como uma de suas mais famosas adoradoras, a também falecida Amy Winehouse) e com marcantes e definitivas interpretações para clássicos como The Girl from Ipanema (da parceria sua com Jobim) Fly me to the moon, Night and Day, Something Stupid, I got you under my skin, The lady is a tramp, In the wee small hoursI get a kick out of you, Strangers in the night, Let me try again, My Way (que ele não gostava nem um pouco de que caracterizasse o seu repertório, a ponto de ter sempre de cantar aquela canção melancólica e decadente) e, é claro, Theme from New York, New York, música-tema de um filme de 1977 - com Robert deNiro e Liza Minelli (que ficou igualmente famosa com a canção), musical de Martin Scorcese (!) desconhecido do grande público - e que só se tornou famosa graças à pungência dada pela gravação de Sinatra, três anos depois, em 1980.

- Talento, nada: ele só ficou famoso por causa da Máfia italiana por trás de tudo, esse criminoso!, diriam alguns dos seus detratores... Talvez, mas só no comecinho da carreira ou em épocas particularmente mais difíceis, como na dura separação de sua segunda esposa, a belíssima atriz Ava Gardner (logo ele, um conquistador inveterado, de amantes do naipe da estonteante Juliet Prowse e do mito Marilyn Monroe, chorando e tentando o suicídio por causa do "animal mais belo do mundo", como estranhamente Jean Cocteau chamava a linda Ava): ninguém se transforma no "cantor do século" e se mantém amado por milhões ao redor do mundo ao longo de tantas décadas por mera imposição de grupos escusos! Embora seja famosa a história de como ele teria conseguido o papel de Maggio, que lhe renderia o Oscar por A um passo da eternidade e elevaria sua carreira novamente nos anos 50 - tanto que muitos afirmam que aquela passagem do cantor ítalo-americano decadente e assustadoramente ajudado por Dom Corleone no livro O Poderoso Chefão tenha sido diretamente inspirada na vida de Frankie... Fofocas do submundo à parte, o certo é que talento lhe sobrava, e não só na esteira de sua perfeição como cantor, como também na arte da atuação: foram muitas e muitas interpretações memoráveis no Cinema, em clássicos como Alta Sociedade e A Bela Ditadora (início marcado pelos musicais e pela exploração de seu carisma e poderosos vocais em intermináveis cenas de canto e dança), passando pela sua reinvenção em A um passo... e por trabalhos puramente divertidos entre amigos, como Onze Homens e Um Segredo e Os Quatro Heróis do Texas (ambos com Dean Martin) até chegar à maturidade em filmes incríveis, como O homem do braço de ouro e Sob o domínio do mal. 

Assim, se ele começou "imitando" ídolos como Bing Crosby e Billie Holliday, com o tempo cresceu ao ponto de superar aqueles em potencial vocal ou em poder de interpretação. No fundo, o bon vivant Sinatra, o mesmo líder do grupo machista e beberrão do Rat Pack ("pacote de ratos", sugestivo nome dado por Lauren Bacall ao bando de cantores safados capitaneados, inicialmente, por seu marido Bogart e formado por Frank, Dean, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop), sempre se manteve como um bom vinho: quanto mais envelhecia o magrelo ex-crooner, mais encorpava (literalmente, o que lhe emprestou mais charme) e melhorava em qualidade - no caso, graças ao meticuloso perfeccionismo e sua extraordinária intuição (nunca estudou Canto ou Música e ainda tinha um tímpano perfurado, por causa do fórceps), cada interpretação se mantém única e com um indescritível frescor, mesmo com tanto tempo de "engarrafada"! Curiosamente, ele não escreveu nenhuma de suas milhares de canções tão amadas - tantas que existe um programa de rádio novaiorquino que só toca canções do Old Blue Eyes! Mesmo assim, com sua voz inigualável e poderosa, sua postura máscula e cheia de sedução e o sua figura de poder (não só o ligado à Máfia...) e respeito, transformou-se num mito! Tantos anos sem Sinatra, mas sempre haveremos de tê-lo!

New York New YorkTive o prazer de descobrir Frankie por volta dos 11 para 12 anos, quando, numa de minhas muitas idas à casa de um amigo no meu bairro, passei a criar a mania de fuçar nos discos do seu pai, entre LPs e os então recém-lançados CDs, para gravar fitas K-7 - ocasião em que encontrei New York, New York, famosa coletânea de hits lançada em 1988 que reunia alguns dos seus maiores sucessos. Como, desde então, ouvia muito essa fita, fiquei bastante conhecido entre amigos e parentes como um "cara das antigas", "fã de Sinatra", o que, invariavelmente, acabou me entranhando ainda mais no gosto pelo old fashion de outros artistas da Era de Ouro do Jazz, como Billie Holliday, Duke Ellington, Tommy Dorsey e Sua Orquestra (da qual o Sr. Olhos Azuis foi crooner), Glenn Miller e The Platters. Já enraizado com essa "pecha", fui muito presenteado por amigos, alguns anos depois, com um sem-número de coletâneas de Frank Sinatra após a sua morte, em 98 - algumas, meros "caça-níqueis de defunto", com gravações não-remasterizadas ou interpretações pífias de começo de carreira, mas que guardo com carinho; outras, porém, excelentes, como um dos meus discos favoritos, Classic Sinatra - His Great Performances 1953-1969, que reúne algumas pérolas preciosas de um intérprete imortal...

E assim os ídolos que se iam nos primeiros passos da minha juventude foram se mostrando, com o tempo, imortais em minha admiração - especialmente agora, em minha maturidade, quando posso comprar ou encontrar, nalgum qualquer site que disponibilize bons torrents, para baixar e gravar, no mais espaçoso pen-drive ou HD externo, todos aqueles que pereceram, mas não deixaram de existir graças ao poder de suas Artes... E se até hoje a Memória coletiva ainda traz, merecidamente, nomes como os de Sinatra e de Tom sempre à tona, infelizmente alguns monstros sagrados, como Nelson Gonçalves, um dos maiores cantores brasileiros (particularmente entre a morte de Chico Alves, em 1952, e a entrega para as drogas, em 59) - e que também começou imitando um ídolo seu, Orlando Silva, ambos tão bons quanto o grande Frank -, andam injustamente esquecidos pela Grande Mídia... Uma pena, porque, com o injusto esquecimento de Nelson, muitos brasileiros, já dados ao comumente infeliz "complexo de vira-latas", jamais poderão colocá-lo "frente a frente" com Sinatra num "dueto" de "competição" entre os dois grandes para ver quem seria o "maior"...

No fundo, acho que todos foram geniais no que se propuseram a fazer: Frank, Nelson, Orlando, Nat King Cole, Francisco Alves, Tony Bennett (único ainda vivo e em atividade)... Entretanto, penso que Frank Sinatra foi o maior na sua completude inigualável e na figura icônica que manteve na mais constante longevidade para um cantor! Por outro lado, nas opiniões deles mesmos, sempre houve "o maior", a depender da sensibilidade artística de cada um: eu me lembro bem que Frankie disse, em certas ocasiões de (falsa?) modéstia, que não seria ele o maior, mas Bennett; já Nelson, num dos seus arroubos de sobriedade totalmente despidos de vaidade, teria uma versão diferente de si mesmo: num encontro com o próprio Frank Sinatra em Nova Iorque, "The Voice" teria dito ao cantor brasileiro, após ouvi-lo apresentar-se, - É, meu amigo: eu sou bom, mas você é melhor! (história que, para além do próprio falastrão Nelson, costumava ser endossada por muitos dos seus fãs, como o seu compositor favorito, Adelino Moreira, e pelo meu saudoso avô Sebastião)... Tudo invenção, tal como comprova a maioria dos biógrafos da Música Brasileira (e a própria realidade: ao contrário de Jobim, costumeiramente citado como um dos maiores compositores, não se tem registro de Frank falando sobre Nelson)! Encontro de Tom, Frank e Nelson, por aqui, somente em antigas rodas de amigos, onde eu costumava brincar, depois de algumas taças de vinho, de imitar os três ídolos de longa data (claro que deixando a desejar aos originais, logicamente)! Mas bem que esse grande encontro entre boêmios de diferentes realidades e estilos poderia acontecer, seria incrível... Quem sabe se eles já não se encontraram no além, trocando ideias sobre suas experiências no botequim?!


Uma bela e inteligente fusão, de imagens e músicas, entre as confidências de botequim dos estilos de Nelson Gonçalves e de Frank Sinatra...

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