Na semana passada, numa breve postagem que fiz em meu perfil
na rede social Facebook, alguns
amigos captaram tão somente a beleza poética da foto que compartilhei e nomeei com
o título “Retrato de São Luís do Maranhão”, quando, na verdade, referia-me à
metafórica relação “Davi e Golias” no contraste entre uma pobre embarcação no canto direito
e, no oposto da foto, um gigante navio a esperar a vez de desembarcar sua milionária carga no Porto do Itaqui... Nada que não exista em qualquer cidade brasileira de
qualquer estado deste nosso País de tantos contrastes. Mas aqui no Maranhão a situação é sempre mais desesperadora: temos Sarney e seus asseclas! E estes são tantos
que, mesmo depois de anos vindouros de finda toda a família de mafiosos bigodudos, ainda
perdurarão as vicissitudes deste paupérrimo Estado...
E eles seguem aí, a olhos vistos, a renegar esta terra a décadas de atraso e de exploração, a condenar o pobre maranhense a sempre se contentar com o pouco que lhe é ofertado, com as migalhas que caem das mesas das negociatas, condicionando-se a um eterno sentimento de pequenitude, de se achar sempre em desvantagem perante o resto dos brasileiros e de, por conseguinte, adorar tudo que é "de fora"... Trocando em miúdos, é como se o querido leitor pudesse pormenorizar o eterno complexo de vira-lata do brasileiro diante da dominação imperialista norte-americana e a encaixasse no microcosmo de um pobre estado nordestino como este, diante do resto do Brasil – e elevá-lo à quinta potência!
E eles seguem aí, a olhos vistos, a renegar esta terra a décadas de atraso e de exploração, a condenar o pobre maranhense a sempre se contentar com o pouco que lhe é ofertado, com as migalhas que caem das mesas das negociatas, condicionando-se a um eterno sentimento de pequenitude, de se achar sempre em desvantagem perante o resto dos brasileiros e de, por conseguinte, adorar tudo que é "de fora"... Trocando em miúdos, é como se o querido leitor pudesse pormenorizar o eterno complexo de vira-lata do brasileiro diante da dominação imperialista norte-americana e a encaixasse no microcosmo de um pobre estado nordestino como este, diante do resto do Brasil – e elevá-lo à quinta potência!
Tanto é que ontem, no Teatro Arthur Azevedo, quando da última apresentação desta temporada da inteligente e divertida Pão com Ovo, dirigida e estrelada por artistas maranhenses, a peça começa sua alucinada sátira de costumes regionais brincando com tais estereótipos, logo após uma interessante exibição de uma espécie
de “videoclipe” com imagens locais ao som do hino do Maranhão em ritmo de reggae
(a lembrar aos presentes: “esta é
sua terra: aprenda a amá-la com suas graças e imperfeições!”), com a aspirante a nova-rica
Clarice Milhomem (Cézar Boaz), logo em seguida, desabafando com a plateia: “Gente, fico feliz com os engarrafamentos que
finalmente nós temos; afinal, qualquer cidade desenvolvida sempre teve
isso e eu morria de inveja quando falava com minhas amigas de São Paulo e uma
delas dizia ‘Estou presa no engarrafamento’: São Luís merece, né, gente?"...
E esta Cidade é mesmo assim: uma rica Poesia traçada em trapos de cueiros sujos que poderosos usaram há décadas... E, o que é pior, ainda estão por aí para serem reutilizados! Mas nós, os ludovicenses, somos bem-humorados! O problema é que, se por um lado isso é ótimo por termos farto material para rir de nossas mazelas, tal como na histriônica peça local em que se ri da "lenda urbana" chamada Sarney, o diabólico octopus estende seus tentáculos infinitos a novos discípulos ignorados pelo grande público... Só resta batemos palminhas quando um “artista do Sul” fala o nome desta pobre ilha nalgum show lotado – tal como qualquer outro irmão brasileiro diante de algum figurão estrangeiro que grita “I love Brazil” em qualquer desses megaeventos transmitidos pela Globo!
Exatamente como se deu na semana passada, na passagem da turnê Verdade Uma Ilusão, da diva pop da boa MPB Marisa Monte, por esta cidade, quando, já no bis e desacompanhada de seus ótimos músicos no palco, ao mudar os últimos versos de uma de suas mais famosas canções para “São Luís I Love you...”, fez a audiência vir abaixo em histéricos gritos de alegria. Nada a criticar sobre a mais que caprichada apresentação da imagética cantora de voz divina, com toda a sua ternura coreográfica de finos braços ao ar em cada belíssima interpretação, em meio a belas projeções de variadas obras de artistas plásticos brasileiros, e seus delicados bate-papos com o mar de ludovicenses que lotou o ginásio Castelinho no último dia 22. Críticas sobraram, entretanto, para a produção local do espetáculo: não só faltaram mínimas organizações de trânsito no local (cones já ajudariam!) como a venda de ingressos a mais do que o possível para a arquibancada gerou uma absurda lotação, o que acabou por obrigar todo o meu lado, onde já estava comodamente sentado, a assistir ao show de pouco mais de uma hora e meia em pé por conta do povo que foi se aglomerando na frente com o passar do tempo...
E tome um infernal calor e uma única saída (as outras
estavam fechadas para as arquibancadas!) para toda aquela multidão gigantesca
sair, a passos de formiga, após o show – só eu e minha esposa levamos uns 45
minutos entre o sair do ginásio, pegar o carro e deixar as abarrotadas ruas do
complexo esportivo! Mas obrigado, Senhor: vimos Marisa Monte, pagando 140 reais o casal e temos que
agradecer aos honrosos membros do Marafolia (espécie de “agência do
entretenimento única” do Maranhão, empresa ligada à família Sarney, é claro) que
nos deram a oportunidade de estar perto de uma cantora daquele quilate, não
importando o calor, a venda de ingressos acima da capacidade (e sem respeitar o
direito do mínimo legal para meias-entradas) e as péssimas condições de
acomodação!
E agora, vendo com pesar uma tragédia de proporções gigantescas
numa cidade do Rio Grande do Sul, onde centenas de jovens foram pisoteados,
asfixiados e queimados pela ganância do jeitinho brasileiro de subjugar o povo
em nome do lucro fácil e da falta de fiscalização, infelizmente não me saem
da cabeça as palavras da personagem cômica da peça maranhense, referindo-se à
nossa costumeira auto-humilhação em nome do “desenvolvimento”... Imagina se algo acontecesse de
errado no show da Marisa: não só eu não estaria aqui a teclar estas mal
traçadas linhas como milhares de outras pessoas estariam mortas após eventual
desespero diante de uma catástrofe como o incêndio lá do Sul – Clarice Milhomem, do alto de sua visão tragicômica deste estado (para quem é lindo um "tornado dos Estados Unidos, bem diferente daquele tufãozinho da nossa praia da Raposa"), facilmente diria em alto e bom tom: “Uma tragédia no show do Castelinho, chique igual ao das cidades grandes
de fora, finalmente...". Afinal, São Luís merece, né, gente?
















