Costumo dizer que me mantenho jovem por meio das minhas lembranças – e algumas pessoas, dentro dessas memórias, carregam mais tenras lembranças minhas que outras. Acho que por isso eu escrevo, para fixar essas memórias nalgum lugar, antes que eu as perca – ou melhor, que eu me perca... Por isso é tão bom revê-las a qualquer hora, em qualquer lugar – assim eu não envelheço nunca!
Uma dessas queridas é Mariana! Adoro cruzar com ela, não há santa vez que eu não a veja que eu não me lembre de duas coisas fortemente ligadas à infância: primeira, é claro, impossível não cantar "Mariana conta uuum, Mariana conta um" (... "é um, é um: Ana, viva Mariana, viva Mariaaana") – o que indissociavelmente me traz a infância de minha Rainha Isabela, primogênita do meu coração, que aprendeu a contar os primeiros números com essa canção nos vídeos da Galinha Pintadinha.
A segunda razão é uma crônica pronta – na verdade, semipronta, porque ficou sem final até bem pouco tempo... História de infância, que vivemos juntos no Dom Bosco do Centro, pelos idos da 6.ª série: ela da turma 61, embaixo, ao pé da caramboleira; eu, da 63, na "sala do alto" e ao lado da biblioteca "fantasmagórica", todos na famosa região do "Barracão", do universo paralelo que nos protegia dos mais velhos – éramos os mais jovens do turno vespertino (turmas com séries mais "infantis" só pela manhã) e havia mesmo um portão gradeado branco, como que nos separando do resto da escola (ou do mundo infantil matutino...), até com uma saída própria (só que quase nunca utilizada).
Estabelecido o idílico cenário, eis o introito da trama: começávamos aquele delicioso 1989 de minhas melhores reminiscências, o último ano de nossa infância, e reinava absoluto com a meninada da época o álbum de figurinhas de um filme maravilhoso, Uma Cilada para Roger Rabbit, meio infanto-juvenil, meio comédia policial, misto de homenagem aos filmes noir e às antigas animações à lá Looney Tunes. No meu caso, já com álbum avançado em páginas completas de figurinhas, ainda tentava obter aquelas mais difíceis, especialmente algumas especiais, estilo stickers menores e fofinhos, geralmente com um personagem em destaque – e que, além de preencher o álbum, ainda ficavam lindas na capa de um caderno ou agenda (e eu não conseguia nunca)!
E eis que, encontrando meu primeiro adesivo fofinho, com o famoso coelho do Cinema com os braços estendidos, no último dos pacotinhos comprados naquele dia e que acabara de abrir num cantinho da sala, dou de cara com Mariana, que, devendo ter ido visitar uma das meninas da minha turma (conversávamos, mas não éramos tão próximos), não me deixou saborear o momento: – Dilberto, que legal... Ainda não tinha achado um desses... Me dá?!
– Claro que não, Mariana: também é a primeira vez que encontro um, nem pensar!... Adiantou alguma coisa? Sem pedir licença e logo pegando da minha mão, ela simplesmente saiu correndo com meu macio trofeuzinho! Ainda corri atrás, mas Mariana havia sumido e, logo em seguida, o barulhão da sirene anunciava que já era 1:20 h e começaria o primeiro horário... No recreio ela continuou foragida, só me restando recorrer à temível Tia Silvia, nossa coordenadora pedagógica e disciplinar da cara mais fechada, sempre surgindo de sua soturna salinha do Barracão para aplicar os devidos corretivos nos alunos incautos: – Agora Mariana ia ver uma coisa...
Na saída, vi a meliante ao longe! Mas, no que vou avançando em sua direção, sou interrompido por Tia Silvia, que, quase em tom sepulcral, tratou de me atualizar das suas diligências em perseguição à pequena ladra de raros adesivos alheios: – Falei com Mariana: ela pediu desculpas, mas disse que não podia mais devolver o adesivo porque já havia colado no caderno e rasgaria se ela arrancasse...
Genial: que argumentação! Deveria ser advogada essa menina... E era só isso?! Aquela criminosa ficaria impune? Nem a poderosa e cruel coordenadora faria Justiça e me vingaria? Aquele era um duro marco, o fim da época da inocência e o triunfo da desfaçatez! Só me restava buscar, noutro pacote repleto de figurinhas possivelmente já repetidas, um novo adesivo fofinho... Mas não me lembro mais de nada desse episódio: nem se achei outra figurinha fofinha igual ou comparável, nem se vi ou falei com Mariana naquele ano, tamanha a raiva que a sensação restante foi de bloqueio... Porém, depois de anos, vendo Mariana em qualquer lugar, a lembrança que instantaneamente surgia era Mariana conta um... Sim, conta um adesivo FURTADO!
Depois de muitos anos – quantas vezes a teria visto antes? –, encontrei-a no meu universo jurídico: casada com um servidor de uma Vara em que eu tinha algumas ações no Fórum, por lá nos encontramos e conversamos um pouco. Fiquei sabendo que era odontóloga, falamos um pouco sobre passado e presente, mas tanto nessa quanto em qualquer outra vez que a reveria, jamais a lembrei da lembrança "criminal" que ela me trazia: da infância guardada e liberada toda santa vez que a via... Sim, porque aquilo foi coisa de criança: criança má, levada e com tendências criminosas, sem um pingo de consideração com coleguinhas que lutam para completar um álbum de figurinhas, mas coisa de criança...
Tempos depois, estava eu dando uma aula sexta à noite, alunos entediados pelo dia e pela hora (jamais pela minha aula!), no que vejo Mariana pela janelinha de vidro da porta, passando pelo corredor – no que ela volta e me vê e me pede com os olhos alegres para dar um "oi" lá fora! Atendo-a prontamente, pedindo breve licença à turma: abraço-a, sorrisos, quiproquós ligeiros e descubro que ela, assim como eu, também tem gêmeos... Mais sorrisos rápidos, já sabia que ela era odontóloga e professora da área naquela Instituição, no que ela me surpreende dizendo que precisava seguir para a sua aula de... Direito!
Rio internamente, segundos depois da despedida, voltando para a minha aula – Que loucura: depois de Odontologia, ela agora é aluna de Direito... Nem o melhor cronista preveria esse irônico final para aquela crônica pronta: a menina mais doce, que flertou com o mundo do crime, após tantos anos de realizações pessoal e profissional em área completamente diferente, será... advogada! Sim, finalmente ela estaria no caminho profissional correto! Não havia como não pensar num sem número de clássicas piadas folclóricas com advogados, minha própria classe – assim como não há como não lembrar a infância revendo uma amiga de tão simpáticas e surpreendentes atitudes!









