domingo, 17 de abril de 2016

Batman vs. Superman:
A Origem de Um Novo Universo Cinematográfico

Batman vs. Superman - A Origem da Justiça ***½

De início, somos apresentados, em bom e cansativo 3D, às já velhas (e igualmente cansativas) tomadas em câmera lenta do diretor Zack Snyder - que, mesmo não tendo sido o criador do estilo, já tanto dele usou e abusou (especialmente em 300 ou Watchmen, ambas decepcionantes adaptações de famosas HQs), que o recurso virou sua marca registrada! Trata-se da velha sequência do menino Bruce Wayne, que, desesperado no funeral após testemunhar a morte dos pais assassinados, cai numa área inóspita da Mansão Wayne e descobre uma caverna cheia de morcegos por baixo da propriedade... Curiosamente, a sequência de abertura consegue ser linda e tocante e Batman Vs. Superman - A Origem da Justiça começa muito bem!

Em seguida, somos arremetidos a um Bruce Wayne bem mais envelhecido do que suas costumeiras versões cinematográficas: o desespero, agora, é contra o tempo, a fim de evacuar um prédio financeiro das Wayne Enterprises em Metrópolis durante a devastadora sequência de luta (que encerra o polêmico Homem de Aço) entre o Super-Homem (quem quiser, que o chame de Superman - not me!) e o General Zod, mas só consegue salvar uma garotinha em meio aos destroços e olhar, com muita raiva, para os céus, como que a odiar o surgimento daquele Novo-Deus capaz de tanta destruição... Mais curiosamente ainda é como aquela longa sequência cataclísmica do final do primeiro filme do Super (também dirigido pelo exagerado Snyder), para a qual tantos, como eu, torceram o nariz, agora, vista por outro ângulo, o das pessoas normais, impotentes diante daquela espécie de 11 de setembro deles (só que com alienígenas superpoderosos no lugar de terroristas), funciona, e muito bem!

Mas, para além do acachapante e perfeito início, o mais surpreendente foi ver o tão criticado Ben Affleck, tão cercado de expectativas negativas pelos fãs do Morcego por ser mais conhecido por papéis canastrões em dramas clichês ou comédias românticas e de besteirol dos anos 90 - e por sua nada memorável passagem pelo péssimo Demolidor, em que viveu o famoso super-herói cego da "outra editora" -, simplesmente já anunciando, naqueles poucos instantes, que entregaria o melhor Bruce Wayne do Cinema, situação que só se confirmaria ao longo dos mais de 150 minutos de projeção! Sim, o melhor Bruce, porque o seu tão aguardado Batman, neste longa mostrado como uma versão atenuada do velho, ultraviolento e inescrupuloso herói da graphic novel Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, assustou muita gente... Mas, frise-se, não por culpa do maduro ator (compenetrado e tenso na medida e com a aparência bem similar ao Bruce espadaúdo e de queixo quadrado da clássica animação Batman - A Série Animada), mas, sim, pela abordagem escolhida para o herói - capaz de dar de ombros com as mortes pelo seu caminho e até marcar os criminosos com um morcego em ferro quente! Deu até saudade da já durona versão do Christian Bale...

Sim, há algo de tenebroso surgindo entre Gotham e Metrópolis e toda a atmosfera do filme possui um tom seco, violento e bem lúgubre... "Tirem as crianças da sala": foi-se o tempo em que podíamos chamar os pequenos para vermos, todos juntos, numa Sessão da Tarde inofensiva, um super-herói com sorriso carismático para a câmera, a salvar um gatinho de cima de uma árvore ou pegando um helicóptero em queda livre com uma só mão (ambas famosas sequências de Superman - O Filme, homenageadas com interessantes citações neste longa)! O mundo mudou, ficou muito mais cínico, e alguém que possa voar, soltar raios de calor pelos olhos e destruir uma cidade inteira, ainda que lutando a favor da humanidade, pode ser visto com muita desconfiança - além de ter que dar explicações aos poderes constituídos (em especial, a políticos liderados por uma senadora muito bem interpretada pela veterana Holly Hunter, de O Piano) e refletir sobre o seu papel em meio a tantas manipulações de notícias e incitações a ódio em tempos de rápidas e viscerais redes sociais na internet!

São tempos sombrios... E nem é preciso lembrar que o clima opressor está garantido pela fotografia costumeiramente escura e saturada em tom sépia (em que quase não se vêem as cores reais, com tudo tendendo para o bronze) de Larry Fong, habitual parceiro de estilizações do diretor. Só que, outra surpresa: o estilismo serve muito bem a esta dura história de construção de rivalidades, bem típicas nas últimas décadas de encontros e desencontros ruidosos entre os dois medalhões da DC nas HQs, e dos conflitos que cada alter-ego vive em suas privacidades por baixo das máscaras e dos collants (finalmente livraram o Homem-Morcego das amarras daquelas imobilizadoras roupas emborrachadas pretas!)... Decididamente, super-heróis não são mais para crianças!

"Ah, mas com tantos personagens, tramas e subtramas, tudo deverá ser bem raso"... E, novamente, morde-se a língua das piores previsões: a história principal vai-se aprofundando paralelamente ao devido tempo necessário para que todos os personagens cumpram com seus papéis: Lois Lane com sua "vida conjugal" ao lado de Clark; Perry White com suas manchetes ora críticas, ora sensacionalistas; Martha Kent, embora em pequena participação, decisiva na trama; o mordomo Alfred (incorporado à perfeição por Jeremy Irons) e seu papel de parceiro, diretamente da caverna, no combate ao crime com as altas tecnologias do "Mestre Wayne"; e Diana Prince - sim, ela também é coadjuvante -, surgindo de relance aqui e ali, ora para desfilar sua intrigante beleza, ora para criar expectativas que quase nunca se cumprem...

E aí começa um dos primeiros defeitos do roteiro: por mais que se saiba que a trama girará em torno do confrontamento entre os "Melhores do Mundo", além de Batman e Super-Homem - e, mais especificamente, Clark Kent e Bruce Wayne -, Diana é colocada, insistentemente, apenas como um incômodo teaser, como que somente provocar e a marcar presença para as continuações - "Agora ela vai reagir"... "Ela vai explicar algo"... "Acho que é agora que ela vai se revelar uma super-heroína"... que bem poderia ter mais destaque e background além de simplesmente surgir devidamente caracterizada como Mulher Maravilha no combate final (o que não é nenhum spoiller, uma vez que fartamente evidenciado nos vários traillers)...

E, falando em teaser, isto é o que não falta no roteiro de Chris Terrio e David Goyer (este último um velho conhecido dos fãs da Trilogia do Batman de Christopher Nolan): heróis como Aquaman (Jason Momoa?!), Cyborg (assustador vídeo de "origem" revelado!) e Flash (vivido por um ator desconhecido, de traços orientais...?) dão as caras rapidamente, por segundos, de maneira a revelar que um filme da Liga da Justiça está a caminho. Em alguns pontos do novo longa, rápidos inserts televisivos (quando noticiam fatos com pequenos saltos de informação sobre o que estamos vendo: outra influência herdada de Frank Miller) e algumas referências para os ávidos leitores de Quadrinhos, mesmo que sem nenhuma conexão com o restante da trama (como nas excitantes cenas onde se vê o gigantesco ômega de Darkside ou o aviso desesperado do velocista escarlate, tal qual em Crise nas Infinitas Terras), em nada comprometem a narrativa, tampouco deixam a sensação de "filme-pipoca" sem profundidade!

O que desacelera mesmo a empolgação é ver que, após estabelecidos os personagens principais (o Batman de Affleck, o Super-Homem de Cavill e o Lex Luthor de Jesse Eisenberg, mais para Coringa alucinado do que para um jovem Lex Luthor Jr.), os coadjuvantes e a trama principal - que, frise-se, resulta num belo e bem realizado embate entre "A Noite" e "O Dia", com excelente direção de ação e efeitos por sobre inúmeras citações às HQs (como a já clássica armadura do Homem-Morcego e a reação cadavérica diante da explosão nuclear de um míssil, ambas, novamente, de Cavaleiro das Trevas), a trama se rende à tentação dos mais-que-batidos clichês do gênero... Não há como não torcer a boca para tantos vacilos que, atropeladamente, marcam a projeção antes mesmo do tão ansiado embate do título e já nos fazem calcular exatamente o que vai acontecer no restante do longa: meio que contamos os minutos para ver o que ainda cabe e a até então excelente construção para o clímax, com a luta do século no Cinema, acaba eclipsada!

"'Tá tudo muito bom, tudo muito bem..." E eis que, voilá: o vilão se revela um "oráculo" de interminável criatividade em seus planos - quase tão onipresente como o Coringa de Heath Ledger, de Batman - O Cavaleiro das Trevas -, e consegue prever antecipadamente todos os passos de cada personagem da trama, num inverossímil painel de artimanhas; o herói, cheio de poderes sobre-humanos, peregrina pelo mundo como um mero mortal, a buscar sua humanidade (lembrando muito o enredo de Superman II, com Clark voltando ao Polo Norte sem seus poderes, e do próprio Homem de Aço), encontra um fantasma inspirador (justificativa para uma breve aparição de Kevin Costner como Jonathan Kent, numa cena meio forçada, meio tocante...) e, enquanto fica na dúvida se volta ou não, some da trama; o vilão sabe de coisas que não poderia dominar (tecnologia kryptoniana... alguém?); de repente e "não mais que de repente", o superpoderoso é requisitado e, do nada, volta à ativa como se nada tivesse acontecido; o vilão "cria" vida (baseado num antigo vilão...) e surge um supervilão nababesco como desculpa para uma forçada reunião dos heróis; e o final será marcado ou por uma tragédia ou por uma acelerada conclusão - e, infelizmente, ambos ocorrem no encerramento de tudo...

Bom, creio não poder dizer nada além do que os diversos traillers de lançamento já anunciavam: sim, o supervilão é mesmo o Apocalipse, do arco de histórias A Morte do Superman, da década de 1990 (só que com algumas diferenças bem incômodas...), e, sim, o final, em meio às aceleradas conduções derradeiras numa história que prometia bem mais, termina sendo gratuitamente estranho e picotado (ainda mais se considerarmos as mais-do-que anunciadas sequências que virão)! Pois é: a mão pesada do diretor Snyder, que poderia redimir-se de uma vez por todas neste Batman vs. Superman e se consagrar num feito histórico como uma das melhores adaptações modernas de HQs para o Cinema, faz-se sentir da metade para o final e compromete, no cômputo geral, o que poderia resultar num excelente feito - maior mesmo que Os Vingadores, pequeno clássico simplista, porém extremamente bem conduzido pelo quadrinhista e diretor Joss Whedon para a rival Marvel! A propósito: coincidentemente (ou não...), os estúdios da Casa das Ideias vêm com tudo em mais um filme de embates memoráveis de heróis contra heróis com Capitão América: Guerra Civil, neste mês particularmente especial - além de grandes adaptações cinematográficas dos personagens mais amados pelos nerds de todo o universo, os Morcegos completam 12 anos na blogosfera!

Apesar dos senões, há em Batman vs. Superman, assim como em todas as adaptações cinematográficas da Warner/ DC um estilo diferenciado em relação às produções da Disney/ Marvel, meio por "culpa" do sucesso da "Escola Nolan" de realismo fantástico visto na Trilogia Batman (encerrada com o razoável O Cavaleiro das Trevas Ressurge), meio por culpa do "tempo perdido" em relação ao Universo Marvel já construído no Cinema: Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha (cuja aventura solo está prometida para 2017) e o grande panteão dos heróis que formarão a Liga - alguns já fazendo sucesso na TV, como o seriado Flash - parecem ter mesmo que correr a fim de fazer frente à já avançada "linha de produção" da outra editora/produtora... De qualquer forma, este "padrão diferenciado em realismo" me soa mais adequado aos dias de hoje e menos gratuito e mal ajambrado do que alguns filmes da concorrente (como o fraquíssimo Vingadores e A Era de Ultron) - que parece só ter acertado completamente com os títulos do Capitão América (não por acaso, Guerra Civil é dessa linha, embalada num ritmo mais próximo dos atuais rumos do gênero ação/espionagem no Cinema, como a Trilogia Bourne)! Por isso é que, fatalmente (ops) se pode afirmar que, "entre mortos e feridos, salvaram-se todos"... Silêncio, Morcegos: olha os spoillers! Já bastam as guerras políticas diárias da internet e a polarização DC vs. Marvel...

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