segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Infantil?!


Facadas e rebolados sensuais de vilões e protagonistas dos novos contos de fada para as criancinhas? Só se for na Disney...

Desde o comecinho dos anos 2000, com o fenômeno do politicamente incorreto Shreck, tem sido bastante difícil encontrar uma animação, especialmente do mercado norte-americano, com conteúdo cem por cento voltado para as crianças: seja por referências voltadas exclusivamente para os adultos, seja por piadas mais "sujas" camufladas entre bichinhos falantes, seja ainda por cenas fortes de violência nada apropriadas a quem está começando a viver, faz tempo que muitos pais se questionam se determinado filme animado não deveria ser censurado para menores... Bom, pelo menos eu me pergunto! Também, com uma pequena de 4 anos começando a descobrir a Sétima Arte (seu début foi com dois clássicos, Mary Poppins e Cantando na Chuva, absolutamente sem contraindicações, mesmo não sendo animações) e ávida por repetir os próximos chavões da moda e louca para cantar os novos hits das trilhas sonoras, no carro, por semanas a fio, todo cuidado é pouco com o que se vai mostrar aos pequerruchos...

Infelizmente, nem todo pai ou mãe pensam assim e acabam por confiar cegamente nalgum "padrão Disney de qualidade" (assim como normalmente acham que a Malhação ou a novela das seis global é inofensiva para a gurizada em frente à TV) e deixam seus pimpolhos, a esmo, vendo e revendo coleções de DVDs de intermináveis princesas e se empanturrando com todo e qualquer produto licenciado daqueles personagens. Mas se engana muito quem age assim, e é por isso que os Morcegos, sempre atentos a mensagens subliminares e polêmicas ocultas em cenários lúdicos, resolveram relembrar os principais últimos lançamentos e destacar algumas coisas no mínimo estranhas que têm se dado com os queridos ídolos de pixels em CGI que inundam a imaginação dos nossos rebentos e faturam bilhões de dólares no mundo todo.

E falando no "Reino da Fantasia", de se começar com os últimos dois grandes sucessos dos estúdios do reacionário pai do Mickey Mouse: Enrolados e Frozen (por que não traduziram para "Congelados"?!), que, embora baseiem seus títulos na novidade dos particípios de verbos-chave, que sintetizam seus enredos em torno de longos cabelos mágicos e descontrolados superpoderes de congelamento, respectivamente, não passam do velho requentar de seculares contos europeus - especificamente, Rapunzel (conto reunido de tradições orais pelos irmãos Grimm) e A Rainha da Neve (conto de Hans Christian-Andersen) - para transformar tudo no "Caldeirão Disney de Princesas", apesar de nenhuma das duas, em suas origens, passarem nem perto de ser filhinhas de qualquer Monarquia em busca do famoso Príncipe Encantado... Mas isso é mero detalhe e não se engane com a roupagem mais estilosa, nem com as deslumbrantes cores e animações em três dimensões, repletas de canções moderninhas: ambos os filmes seguem os velhos clichês de sempre, só que, agora, descobriram um novo filão de ouro, as adolescentes, animadas herdeiras de sucessos crepusculares com seus vampirinhos bonzinhos e que querem seguir cantando as musiquinhas das novas ninfas criadas nos laboratórios dos grandes estúdios fonográficos, como a atual queridinha Demi Lovato.

Então lá estava eu, acompanhando Enrolados com a filhota - sempre o mesmo procedimento: baixo o filme da internet em HD e o vejo (ou revejo) ao lado da minha menina para garantir que tudo está adequado à sua idade - e, em meio a inúmeros furos e incômodos com a historiada toda (absurdos de "flor mágica" com "canções liga-poderes", protagonista masculino desnecessário - que, ainda por cima, é dublado por Luciano Huck! -, entre outras asneiras e cançõezinhas melosas), eis que um susto toma conta da sala já quase no final da exibição: a ex-bruxa da torre, agora "Mamãe Gothel", fere mortalmente com uma adaga o ladrão-herói Flyn (!), para, em seguida, aterrorizada diante da instantânea perda de sua beleza e juventude com o corte dos cabelos de Rapunzel (!!), transforma-se numa velha horrenda e, aos gritos, cai do alto da torre, com sua morte meramente "minimizada" com um "efeito Jedi", onde o corpo simplesmente some do seu manto (o que não diminui o impacto)... Nem preciso dizer que minha garotinha passou semanas falando da tal adaga e de como era assustador a vilã ter morrido deformada e caindo do alto de uma torre!

E o que dizer de Frozen?!  Claro que, de cara, torci o nariz para a minha filha querer ver esse filme com o maior jeito teen de "para meninas a partir dos 12 anos", graças a uma bendita professora de Inglês que resolveu ensinar o grudento sucesso Let it go na sua escola: uma completa colcha de furos e exageros melodramáticos, em meio a um meticulosamente estudado score de canções prontas para agradar às garotas - e com direito ao bom e velho personagem engraçadinho da vez (Olaf) -, que desrespeitam profundamente o belo conto do dinamarquês Andersen, do qual teria sido "inspirado"! Pra que os tais trolls - além do prólogo, eles não fazem mais nada na trama a não ser irritar? Por que a pequena Elsa tinha que ficar trancada, se bastava à família amá-la e ensiná-la a controlar os poderes (e como ela não enlouqueceu isolada naquele quarto?!)? Como a "louca do gelo" vivia naquela "Fortaleza da Solidão": comia gelo e bebia neve? E, o mais importante: como ela podia gerar... vida? Sim, e dois seres vivos, a partir da neve: o próprio Olaf e um monstro (batizado do nada de) Marshmallow!

Mas, logicamente, o filme é muito bem feito para o seu público-alvo e a minha filha jamais se incomodou com esse desfile de bobagens - dentre muitas outras... O que aflige realmente são as "pitadas adultas" ao longo da exibição, como o desnecessário rebolar erótico de Elsa na forçosamente icônica cena da canção vencedora do Oscar 2014, em que ela se "descobre" e se "revela", com direito a vestido de "cristal" com um enorme fenda para coxas à mostra, a olhar para a câmera e sorrir maliciosamente - quem ela quer seduzir, afinal?! E o que dizer da capciosa pergunta que um personagem faz à irmã da protagonista, que queria se casar com o primeiro príncipe que lhe apareceu no reino: "E você ao menos sabe qual o tamanho do pé dele?", no que a moçoila responde "O tamanho do pé não importa..." - hã?! Tem criança pequena na sala, seus maldosos! E, algumas "reviravoltas" depois, a fim de reiterar que se trata de um filme "moderno", com o velho "amor verdadeiro" saindo do foco num príncipe vindo do nada (que se revela, por fim, um cruel vilão) e sendo carreado para uma irmã em apuros, e a protagonista não necessariamente precisando se casar no final para ser "feliz para sempre" (bastando aprender, instantaneamente, como controlar seus poderes devastadores simplesmente com... amor!), e o filme acaba revelando não só que a Disney poderia ter reduzido o tom adolescente de um filme infantil como também que o Reino de Arendelle, onde a "trama" se passa, é o lugar mais abandonado em termos de poder que se tem notícia - quem é que governa aquela bagunça?!

Por fim, um filme bem melhor e, tal como Shreck, uma legítima comédia em desenho, com tons muito mais reconhecíveis pelos mais crescidos e atípica para a criançada se não fosse o uso criativo de três menininhas como chamariz de identificação (minha filha perguntava o tempo todo quando Agnes, Edith e Margo apareceriam na tela novamente) e os já mais que celebrados Minions, versões amarelo-Simpsons e porra-loca dos antigos Oompa-Loompas da Fantástica Fábrica de Chocolates, para fazer com que essa produção virasse um estrondoso sucesso infantil. Na verdade, todo o filme Meu Malvado Favorito é uma grande costura de cópias escancaradas de outros filmes: o vilão-herói Gru é chupação direta do grande Dr. Evil, de Mike Myers e seu Austin Powers (que, por sua vez, é uma paródia ao famoso Ernest Blofeld, aquele vilão de gatinho no colo da série 007); a trilha sonora de base (as canções são do astro do momento, Pharrel Williams), bem como o visual sessentista dos cenários e situações vilanescas, tudo remete ao clássico da Pixar, Os Incríveis etc. Mais uma vez, entretanto, não vem de nada disso o potencial polêmico para os menores de idade - até porque o filme é bom (os diálogos são ótimos) e engraçado, com dublagens tão boas no original (com um sempre ótimo Steve Carrel) quanto na versão brasileira (com os surpreendentes Leandro Hassum e Marciu Melhem) e nada soa violento ou pesado...

O "problema" está nos... Minions! Pois é: os aparentemente inofensivos bichinhos de fala esquisita gostam de maldades e de bullying gratuito, sem esquecer a forte conotação sexual que os envolve em muitas "piadas de fundo", que, mesmo não compreendidas pela maioria das crianças, são facilmente perceptíveis por qualquer um com mais de 14 anos... Ou ninguém aí notou que os sujeitos, aparentemente assexuados como um bom e velho Smurf dos anos 80 (a Smurfette era uma só e, obviamente, era mero adorno para as centenas de seres azuis restantes do "sexo" masculino), vira-mexe estão envolvidos nalguma conversinha safadinha no fundo de muitas cenas, especialmente naquelas em que aparecem aos milhares? É só lembrar que alguns deles "gostam" de se disfarçar de personagens femininos - e são justamente esses que levam descaradas "cantadas" dos mais saidinhos, de bebida em punho ou caracterizados como "conquistadores cafajestes"... Isso sem falar na sugestiva versão do "clássico gay" Y.M.C.A., do já folclórico grupo The Village People, que marca o final de Despicable Me 2.

Nada contra homossexualidade, crossdressing ou qualquer outro modo alternativo de identidade de gênero ou sexualidade, tampouco considerando tais temas como "pervertidos" ou "proibidos" para crianças, que devem sempre conhecer da realidade, na medida de suas capacidades, e perceber que tudo isso é natural. Mas fazer piada com base em temáticas complexas como estas ou enaltecer temas mais adultos, como o despertar sexual de uma personagem tão cara a um sem-número de crianças - ou, ainda pior, mostrar facas em ação nas mãos de vilãs que extrapolam as maldades de outrora -, são, no mínimo, de mau gosto se levadas a um público mais inocente e desprovido de tais informações prévias para um entendimento melhor do todo...

Que saudade do tempo em que "violência" nos cartuns não passava de um piano ou uma bigorna caindo na cabeça de um personagem ou uma arma que estourava na cara de um personagem, deixando-o neguinho com beiçola vermelha - mas isso é preconceito racial... - e o máximo de "erotismo" que se via era a calçola da Minnie em dias mais ventilados ou as meias costuradas da empregada negra, que falava errado, dos filmes de Tom e Jerry - ei, mais preconceito racial! E assim, sigamos a rir, com nossos filhos, das animadas comédias ou dos recauchutados contos de fada nas modernas computações gráficas e em 3D: os pais, achando que ainda estão no controle; os filhos de todas as idades entendendo bem mais do que supõem os seus crédulos pais; e os produtores da meca hollywoodiana das animações meio-infantis, meio-adultas, que não dão a mínima pra "discussões filosóficas" como esta, querendo mais e mais sequências cheias de "recheio"...


Minions: você nem imagina o que eles aprontam por trás do Gru, lá no fundão...

sábado, 10 de janeiro de 2015

Feliz Ano Velho

Até cheguei a pensar nalguma consideração mais amarga por sobre algum verso amarelado de novo, mas, diante dos lindamente acesos olhos de jabuticaba de Isadora, do azougue de pernas fortes e ligeiras de Dilberto Filho e do sempre alegre companheirismo faceiro de Isabela, desisti pelo caminho e pensei que meus novos versos serão repensadamente mais vivos, leves e soltos, para dizer o mínimo, sobre o que vier daqui pra frente... Infelizmente, entretanto, em meio aos primeiros dias do novo ano ao lado da feliz filharada, presenciamos mais um momento inglório da bestialidade humana e inúmeros artistas se foram porque "passaram dos limites" com suas sátiras desenhadas, em Paris, já nos lembrando de que velhos problemas seguem mais vivos do que nunca... Então me lembrei, no ato, de um antigo poema meu em que, homenageando um dos grandes do século passado, meu querido Franz Kafka, e, particularmente, sua icônica obra A Metamorfose, refletia sobre os anseios e as acomodações da vida em meio às desumanidades bem mais asquerosas do que a surpresa diante de um inseto gigante... E assim é esta primeira postagem de 2015: os Morcegos seguem meio felizes, meio incomodados e melancólicos, nesta postagem meio poema, meio imagem; meio pra cima, meio taciturna e reflexiva...

Metamorfose de Nós Mesmos

Num eterno espreguiçar
Não mais vejo a mesma vida
(Embora 'inda sinta cheiro de ferida
Em meu vazio cá ficar...)

Comédia de não se rir
Em luz que não se refrata:
Acordei-me uma barata
E me pus a refletir...

– A condição humana é mesmo uma merda!

(Dilberto L. Rosa, 2004)
 

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