sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Amy & Tony



Quando a ouvi pela primeira vez, pensei: "Mais uma antiga de jazz que 'atualizaram' com uma roupagem moderna... Mas quem é essa cantora negra norte-americana, que lembra a Billie?!". Estava errado nos três aspectos: a música era novíssima em folha (só depois fui atentar para os palavrões da letra, coisa incomum ao 'cool' jazz de outrora) e a cantora era uma pequena e magrinha branca inglesa... Descobri o disco Back to Black e me apaixonei perdidamente por Amy Winehouse e por seu 'soul' jazz (com generosas doses de 'ska') perdido no tempo! Uma pena que aquela moça incrível também acabaria por se perder...

Desde menino que conhecia "I left my heart in San Francisco", mas foi só no final da adolescência que encontrei Tony Bennett de verdade. E ouvindo "Rags to Riches", "Boulevard of Broken Dreams", "Beacuse of You" e tantas outras na potente e jazzística voz rouca daquele baixinho narigudo ítalo-americano foi que finalmente entendi por que Frank Sinatra disse, certa feita, que o considerava o maior cantor do mundo, justamente aquele que um dia deixara o coração em San Francisco...

Dois monstros "maiores que a vida", como dizem os ianques do 'showbizz': cada um maior do que seu tempo, maior do que seu corpo franzino. Amy, infelizmente, já se foi. Tony, aos 85 anos, acaba de gravar um disco de duetos com os grandes nomes da nova geração, tal como Sinatra o fez no finalzinho da carreira ("A Voz" se calaria pouco mais de 3 anos depois do lançamento de Duets II), para despedir-se de mãos dadas com os jovens que então já pareciam teimar em ignorar uma era de ouro na Música. Graças a Deus a jovem Amy não era assim: sabia tudo do bom jazz atemporal – não por acaso, seu primeiro disco já vinha batizado de "Frank"! Lamentavelmente, ela não viveu a longevidade de Tony para principiar a dizer adeus de forma tão bela...

Nem preciso dizer o quanto me emocionei ao ver Tony na MTV (santo choque de gerações!), prestando um tributo a Amy, no VMA deste ano: "De todos os cantores que conheci nos últimos 20, 30 anos, ela era a mais verdadeira cantora de jazz, na legítima tradição de Ella Fitzgerald ou de Billie Holliday", afirmando ainda, com categoria e propriedade, que ou se é cantor de jazz ou não se é, "e Amy tinha todo aquele dom"... O comediante e então anfitrião da festa, Russel Brand, foi além: "Poderia até parecer que ela não passava de uma garota comum com um cabelo extraordinário", "mas ela era um gênio" – acrescentando que Amy "tinha uma doença", referindo-se ao uso indiscriminado de álcool e outras drogas não legalizadas pela genial cantora...

Hoje, exatos 2 meses após a morte de Amy, eu me emocionei ouvindo sua voz impecável numa de suas várias composições, Love is a losing game: não sei se pela melancolia da melodia ou se pela interpretação perdida no tempo ou ainda pela letra, "O amor é um jogo de azar", tocou-me o coração aquela voz poderosa abrindo o coração num 'pen-drive' esquecido no carro... Como é bom ver o vídeo de Amy e Tony cantando o clássico Body and Soul ("Corpo e Alma", nada mais apropriado para ela: confira acima), um belo legado de março deste ano, com duas gerações em mútua admiração. Tony está tendo todo o seu tempo, despedindo-se aos poucos e cantando até o fim. Amy terá sua imagem "retrô-tatuada" erigida a uma estranha diva pós-moderna, a despedir-se eternamente somente por meio de suas canções, numa vida interrompida comum aos grandes fenômenos (Billie se foi aos 44 anos, também vítima de drogas), para quem parece que a felicidade, assim como o amor, é um eterno 'losing game'...

domingo, 18 de setembro de 2011

"Na eterna insatisfação de mim mesmo,
Vejo meus poemas vivos
Independentes mesmo de mim"
(Dilberto L. Rosa, 2006)

Vôo

A roda gigante
E acéfala
Da moenda pulsante
De meus dias perdidos
Avança
E me alcança
E atropela o meu próprio tempo

E destrói
E rói
A borda de meu destino

Vôo

E em desalinho
Tento salvar-me
Equilibrando-me na beirada
Por sobre o mais alto de meus pensamentos dispersos
Antes de meu céu desabar sobre mim

(Dilberto L. Rosa, 2001/2011)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Amigos & Diretores


Dedicado ao 'friend' de longa data Sérgio Ronnie, que faz aniversário hoje, idolatra Spielberg e era apaixonado pela Rachel (Jennifer Aniston), porque o fazia lembrar-se de Kiki...

Hoje convido todos a visitarem o Especial Friends do CinEbulição, onde escrevo sobre a deliciosamente saudosa primeira temporada... Todos os fãs dos adoráveis amigos do Central Perk: corram até lá e comentem!

Falando nisso, agora me pego lembrando da inusitada proposta que recebi algum tempo atrás do hoje amigo virtual Luiz Santiago: tal qual o conjunto de regras do genial Clube da Luta, ele convidava alguns felizardos cinéfilos a ingressarem num distinto Júri de Cinéfilos, onde, a cada mês, um tema era debatido por 'e-mail' na forma de eleição dos 10 (às vezes um pouco mais...) melhores daquele tópico: assim começavam os famosos "Veredictos" do excelente 'blog' CinEbulição. E eu, se no começo, mal tinha tempo para votar nas categorias, acabei firmando uma gostosa parceria com o Luiz fazendo as apresentações dos temas: assim nasceram alguns textos bacanas sobre Sidney Lumet, Orson Welles, filmes metalinguísticos, trilhas sonoras cinematográficas (gancho que aproveitei, obviamente, do último 'post' da última temporada dos Morcegos) e os maiores diretores (Veredicto nº 5) – texto que ora transcrevo, pela primeira vez, aqui nos Morcegos:


Ainda me lembro de uma famosa crítica de Cinema de Vinícius de Moraes (sim, dentre outras coisas, o grande poeta e diplomata também foi crítico da Sétima Arte), "Os Onze Grandes do Cinema", onde o velho Poetinha dedilhava, como numa espécie de 'scratch' futebolístico, seus "11 maiores diretores" – figurando, nas primeiras colocações (gol e zaga, no caso), Charles Chaplin, Eisenstein e Grifth. Amo o Cinema, a genialidade e o caráter precursor dos três, mas, entre o melodrama inteligentemente cômico de Chaplin, os temas reacionários e exagerados de Grifth e a perfeição roteiro/edição/música de Eisenstein, ainda prefiro o velho russo...

Alguns amigos e eu fazíamos nossa "pirâmide" dos maiorais no Cinema na juventude: Sérgio, cineasta e professor, elegia Spielberg como o mais versátil de todos em seu apogeu. Eu sempre colocava Kubrick, pelo conjunto mais harmonioso e consistente de todos em criatividade e beleza plástica na tela... Hoje, tentando ser mais "objetivo", avaliando segundo critérios mais voltados para a História do Cinema e sua fundamentação como arte, mudaria um pouquinho a ordem das coisas - e aqui vai ela: 1º. Eisenstein, pela genialidade pioneira e completa; 2º. Kubrick, pelo perfeccionismo e pela harmonia grandiosa de toda a sua obra em todos os gêneros; 3º. Fellini, por ter criado conceitos oníricos e personagens imortais, bem como por ter trazido humor aos sonhos no Cinema; 4º. Kurosowa, pela maestria em contar ricas histórias em tão belas fotografias; 5º. Hitchcock, pela frieza de sua técnica genial de suspense e pelo pioneirismo em tornar-se "gênero de si mesmo"; 6º. Wilder, por "jamais chatear o espectador" com seus dramas e comédias genais de sutis análises da alma humana; 7º. Monicelli, por ter mostrado sublinhas do Drama sob uma Comédia mordazmente perfeita; 8º. Ford, por ter criado dramas pungentemente humanos por sobre capas empoeiradas do Velho Oeste; 9º. Truffaut, por ter conciliado, com poética leveza, crítica e público; 10º. Wyler, pelos dramas épicos, intimistas e clássicos, em qualquer gênero; 11.Capra, pelas sutilezas cinematográficas inteligentes sob o manto do cinema do otimismo; 12º. Spielberg, pelas aulas de edição e Cinema, pela criatividade e empenho infantis, por tudo que fez (e desfez...); 13º. Polanski, pelo seu marcantemente bem humorado teatro de horrores; 14º. Coppola, "simplesmente" pelos 4 maiores filmes dos anos 70 (e 4 entre os maiores de todos os tempos); 15º. Scorcese, pela estética da edição a serviço do "Cinema macho"; 16º. Almodóvar, pelo novo (e colorido) "gênero em si mesmo"; 17º. Lean, pelos inesquecíveis espetáculos nababescos; 18º. Welles, por "Cidadão Kane" e outras genialidades independentes; 19º. Allen, pelo lubitschiano (e, ao mesmo tempo, marxiano) Cinema ironicamente genial e novaiorquino de sempre; 20º. Von Trier, pelo inovadorismo por sobre uma arte ainda em construção e com muitas surpresas por vir...

Claro que amo Chaplin, Bergman, Buñuel, Peckinpah, Rosselini, Visconti, Keaton, Pereira dos Santos, Rocha, Minelli, Godard, Iñarritu... Mas, pelo legado e pelo conjunto da obra, "objetivamente falando", minha listinha dos 20 melhores diretores tenta fazer jus da forma mais honrosa possível às delícias de todas as listas de todos os diretores por este mundão de cinéfilos afora...

(Dilberto L. Rosa, "Meus Maiores Diretores", in CinEbuli.blogspot.com)

domingo, 11 de setembro de 2011

11 de Setembro

Em 11 de setembro de 1973, Pinochet, apoiado pelos EUA, liderou um dos mais sangrentos golpes de todos os tempos no Chile de um então promissor Allende. Mas toda a mídia sensacionalista e dominada pela patriotada norte-americana só mostra o 11 de setembro deles. De fato, uma data a ser lamentada, um ataque covardemente absurdo e violento, inúmeras perdas de inocentes num dos maiores cartões-postais mundiais, que nada tinham a ver com o imperialista idiota governo deles, que, juntamente a órgãos mundiais que com eles desrespeitam regras e soberanias alheias, cava há décadas a sua própria sepultura anti-americanista, criando e alimentando os seus próprios monstros (que, no fim, voltam-se contra os seus "donos"). Por isso é que prefiro, guardadas algumas troças e/ou outros exageros, o inteligente Fahrenheit 911, do documentarista estadunidense Michael Moore. Por isso é que, hoje, prefiro lembrar a agonia "em nome da liberdade" sofrida por dezenas de milhares de 'hermanos' sul-americanos mortos e torturados 'with their support', Estados Unidos da América, carrascos que são, foram e ainda serão por algum tempo "contra o terror" de que eles mesmos são causadores... Com vocês, uma ótima matéria para reflexão do 'site' OperaMundi (Para ler a matéria na íntegra, acesse operamundi.uol.com.br)...


Charge do cartunista Carlos Latuff

Vítimas em 2001, EUA foram os algozes do 11 de setembro no Chile
Opera Mundi, João Paulo Charleaux

Antes de serem vítimas do 11 de Setembro de Osama bin Laden, os Estados Unidos foram algozes num outro 11 de setembro, no Chile, 38 anos atrás. O golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende, com apoio norte-americano, instaurou uma ditadura brutal, responsável pela morte de seis mil pessoas e pelas torturas cometidas contra 28 mil, na estimativa conservadora dos registros oficiais.

Mas se lições ligam estes dois episódios, elas não foram aprendidas. É o que disse ao Opera Mundi um dos protagonistas desta data negra para o Chile, o cientista político Heraldo Muñoz, de 63 anos, membro do breve governo Allende. Hoje, Muñoz é subsecretário geral do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em Nova York. Mas o cargo diplomático não o impediu de fazer uma leitura crítica da política norte-americana.

“Estas duas histórias se comunicam pela porta dos fundos, já que os EUA foram atores em ambos os casos”, disse Muñoz, em entrevista concedida por email. “Primeiro, Washington ajudou a perpetrar a violência no Chile contra um povo indefeso. Mais tarde, os norte-americanos foram objeto da violência fanática no 11 de Setembro de 2001, que também cobrou vitimas inocentes. Mas não sei se a lição histórica – da necessidade de respeitar irrestritamente os direitos humanos – foi aprendida por eles”, afirmou.

No dia 11 de setembro de 1973, o general chileno Augusto Pinochet liderou o golpe de Estado contra Allende. O Palacio de la Moneda, sede do governo, foi bombardeado por caças da Força Aérea do Chile (Fach), enquanto atiradores posicionados nos edifícios do centro de Santiago disparavam contra os poucos membros da guarda presidencial, leais a Allende. Cercado, o presidente fez seu último discurso, transmitido pela rádio, antes de suicidar-se com o disparo no queixo de um fuzil AK-47, presente do amigo cubano Fidel Castro.

“O 11 de setembro do Chile significou a perda da democracia e a interrupção da aspiração de construir o socialismo por uma na via pacifica, pela força dos votos”, analisou Muñoz. “O golpe marcou as vidas de toda uma geração, em todo o mundo. Uma vez, nos anos 1990, eu estive com a ex-primeira ministra do Paquistão Benazir Bhutto, assassinada em 2007, e ela me falou do impacto que o nosso 11 de setembro teve nas forças progressistas paquistanesas neste momento, não apenas no Paquistão, mas também em toda a Ásia e no mundo inteiro.”

O governo norte-americano – que travava, então, uma guerra sem fronteiras contra o comunismo – viu no Chile o embrião de uma experiência com potencial para levantar uma verdadeira onda esquerdista na América Latina. A resposta de Washington veio por meio do então chefe do Departamento de Estado no governo de Richard Nixon, Henry Kissinger. “Não vejo porque temos de esperar e permitir que um país se torne comunista por causa da irresponsabilidade de seu próprio povo”, afirmou Kissinger.

Um dia depois do golpe no Chile, Kissinger conversou com Nixon sobre o ocorrido. “Há algo novo, que seja de importância?”, perguntou o presidente. “Nada grave. A coisa do Chile é questão de consolidação e, é claro, os jornais são sangue por todos os lados porque um governo pró-comunista foi derrubado”, respondeu Kissinger, antes de agregar: “no período de Eisenhower (presidente norte-americano que forjou a doutrina segundo a qual os EUA deveriam intervir em qualquer país do mundo que sofresse influência soviética) teríamos sido heróis.” Nixon, receoso, perguntou: “Bom, como você sabe, nossa mão não pode ser detectada neste caso”. E ouviu de seu braço direito: “Claro. Não há nenhuma dúvida disso. Eu me refiro ao fato de que nós os ajudamos (trecho ilegível) a criar as condições mais favoráveis possíveis”. Nixon encerra a conversa dizendo: “Muito bom. É o que deveria ter sido feito.”

Mas Muñoz reconhece que o dramático golpe de 1973 também provocou inevitavelmente respostas positivas da sociedade. “O movimento global dos direitos humanos nasceu, em grande medida, em resposta ao 11 de setembro chileno. Hoje, acredito que a data lembra, além da dor da perda de vidas humanas e violações dos direitos humanos, a necessidade de conjugar mudanças sociais e consolidação da democracia”, disse.

Outros tipos de aviões invadiram os céus chilenos naquele distante 11 de setembro...
Leia ainda Outro 11 de Setembro: um Chile 'em parafuso' relembra o golpe contra Allende, por João Peres, sobre os altos preços pagos pelo Chile até hoje.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Nossa Ilha Abandonada...


Felizes 399 anos: interessante matéria na Folha 'on-line' evidencia nossa situação "privilegiada"... Acima: vídeo com Louvação a São Luís, cantada por nossos maiores intérpretes. 
E você: ainda se encanta ao ouvir Ilha Magnética? Eu juro que tento, mas dói... Dói muito ver nossa ilha abandonada...


"Ó, minha cidade, deixa-me viver/ que eu quero aprender tua poesia": estes são os primeiros versos do poema "Louvação a São Luís", do maranhense Bandeira Tribuzzi, tido como o hino da capital maranhense. Mas não, não estou poético diante do aniversário de São Luís como de costume... Na verdade, cantarolo hoje estes versos mais como um protesto: assim como os muitos adesivos dos carros da cidade brincam com a logomarca eleitoral do prefeito João Castelo (vários "São Luís é Caostelo" proliferam...), eu canto este hino para rogar a Deus ainda estar vivo para olhar, um dia, quem sabe, a poesia de volta a esta cidade abandonada...

Mas a culpa não é só do prefeito atual (uma matreira raposa velha, antigo governador biônico de nosso estado), vem de antes: desde os mandatos de Tadeu Palácio ("Palácio, Castelo e o povo na lama", brinca, outra vez, o espirituoso e bravo povo ludovicense), desde o último mandato de Jackson Lago... Desde os tempos da Ditadura, quando Sarney já mandava... Problemas tão antigos que impedem este assim dito "Patrimônio da Humanidade" ser mais humano! Mas a culpa também não é só dos políticos: há muito que a "Ilha Rebelde", de "Atenas Brasileira", virou "Apenas Brasileira" com um povo que se acostumou ao comodismo e segue à deriva nesta nau secular caindo aos pedaços, esperando o boi, o 'reggae', a banda passar...

E falando em festa, ano que vem nossa Ilha Magnética comemorará 400 anos e a Prefeitura... Bom, a Prefeitura já lançou uma campanha para que os internautas elejam a "marca comemorativa"! É brincadeira... E quem pediu festa? A marca que eu queria para esta cidade, às vésperas de seu quarto centenário, era a marca do desenvolvimento, do respeito, do zelo por parte dos políticos, por parte de um povo esquecido e sem vontade... Eu quero pensar numa São Luís com Poesia outra vez... Mas, por enquanto, eu só quero dormir um pouco mais, é o que me resta, que hoje, por aqui, é feriado!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Quando os heróis dominavam a Terra...


Eram tempos em que a voz do velho rádio trazia calor, filmes mudos falavam mais do que a tecnologia dos efeitos de hoje e simples folhas de jornais ou de revistinhas eram o passaporte para uma era dourada, acima das galáxias mais distantes, por sobre guerras de depressões das mais sombrias... Eram tempos em preto e branco quando aqueles seres extravagantes de eras futuras ou vingadores de 'colants' coloridos, tal como o homem mais forte do circo, realizavam prodígios e maravilhas... Quando os heróis dominavam a Terra... Eles traziam esperanças para um mundo anacronicamente sem cor...

O Sombra, Fantasma, Doc Savage, Buck Rogers, Tarzan, Zorro... Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash... Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Thor, Hulk, Homem de Ferro... Eras diferentes, mas que guardavam entre si o frescor de um mundo atemporal e cheio de fantasia. O mundo real podia ficar chato - como ficou, várias vezes, com seus códigos disciplinares nos quadrinhos e listas do medo entre artistas; com sua opressão transviada à juventude; com suas épocas dominadas por 'cowboys' de uma Política fascista e recicladamente ruim... Mas eles estavam lá, para qualquer um que quisesse acreditar em dias melhores...

E tais "dias melhores" eram sempre os do futuro, com seus mundos maravilhosamente práticos e sem violência... E todos aqueles sonhos de "dias de glória" futuras de antigas feiras científicas, enfim, chegaram: cinemas 'multiplexes' que te deixam surdo com seus exageros sonoros e sem opção de ver um filme alternativo; os 'I-pads', 'tablets' e afins, que repetem uma desenfreada sociedade atual através de suas personalidades de 1 minuto por entre assobios de passarinhos azuis globais e vídeos de gosto duvidoso... A violência se agravou e, se não houve (ainda) os carros voadores e os criados robôs, pelo menos o idealismo por dias melhores não morreu, apesar de todo o realismo pungente. E os heróis? Bem, eles já morreram, ficaram paraplégicos, mudaram de nome, uniforme, poderes, aderiram ao homossexualismo ou assexuaram-se de vez e ressuscitaram em revistinhas apodrecidas por editoras que se renovaram demais... Sim, porque, como imortais, não importa o que aconteça, eles sempre voltam - ainda que totalmente diferentes daquele tempo em que eles dominavam...

E numa era ferozmente moderna, porém multicolorida, como a dos dias atuais, nada mais justo do que aqueles heróis cheios de cores voltarem à tona, nas mais modernas mídias possíveis. Entretanto, bem antes que Batman, Homem-Aranha e Homem de Ferro se transformassem em indústrias movimentadoras de fortunas em filmes de bom entretenimento, houve um tempo em que as tramas adaptadas eram no preto e branco dos capítulos das matinês dos cinemas ou nas séries de uma televisão ainda primitiva dos anos 40 e 50... E se herói na TV era sinônimo de ‘pow’, ‘soc’ e ‘crash’, no mais exagerado ‘nonsense’ dos anos 60, um kryptoniano mudou por completo o conceito de adaptação de HQs: nada deste ‘boom’ cinematográfico de hoje em dia seria possível se em 1978 um certo alienígena sedutor não sorrisse para a câmera no final, naturalmente rindo-se dos que até então duvidavam que um homem de ‘collants’ pudesse voar num filme tão bom... Atraindo aos cinemas crianças maravilhadas e adultos ainda desconfiados (ou um pouco envergonhados), Superman - o filme ressuscitou a magia de outrora com uma trama cheia da fantasia daqueles antigos e bons tempos, com respeito e inteligência aos gigantes de uma era já quase esquecida no Cinema realista da década de 70.

Hoje, em meio ao caos de imagens tão cheias de cores e sons, truques tão acelerados quanto vazios de seriedade e compromisso, por entre 'nerds' e 'geeks' que desejam aparecer mais que o próprio filme em seus cultos a uma babaquice desvairada, parece que a magia toda, matéria-bruta na qual aqueles heróis um dia foram forjados, anda bem esvanecida... Por isso, de assustar que, num só ano, surjam, pela primeira vez na tela grande Lanterna Verde, Thor, Capitão América... Sem contar o interessante reinício jovem dos X-Men com sua "Primeira Classe" (o melhor da safra, readequando-se aos bons e velhos anos 60 de suas origens)! Todos eles lá, aprisionados a campanhas de 'marketing' mais agressivas que as atrocidades de Caveira Vermelha, Loki, Sinestro e Magneto juntos e mais assustadoramente obtusas que qualquer Zona Fantasma: e tome bonecos (adendo: gosto de colecioná-los... Eu me rendo!), publicidades virais pela rede mundial de computadores (coisa da Shield, provavelmente...), lanchonetes vorazes com suas "ofertas" casadas... E tome vontade e esperança de vê-los novamente com a aura de majestade de antes e com eles dialogar sobre uma época que não mais existe!

Mas, mesmo as "versões moderninhas" me faltava tempo de vê-las, nessa correria desenfreada de tentar corrigir tantas mazelas no meu tempo que ficou pra trás, já quase sem fantasia... Eis que Odin, generoso como só um deus pode ser, parece ter-se apiedado desta pobre alma, ó, irmão, e me conduziu, depois de longo e tenebroso inverno sem ver um filme sequer, às terras mágicas da sala escura, com toda aquela luz de arco-íris na grande tela dos últimos dias! Tive que correr, mais rápido que o velocista escarlate (que, dentre suas dezenas de versões chatas e cansativas, ainda prefiro Barry Allen!), para driblar o realismo sem fantasia de meus últimos meses e pôr a prosa com meus antigos heróis em dia: forçando uma folga recentemente, eis que voei aos cinemas para ver suas novas versões pirotécnicas!

Sim, porque, infelizmente, é mesmo o que pode ser dito quanto a um equivocadamente engraçadinho (e aceso!) Lanterna Verde (bastava adaptar o arco Origem Secreta, de Geoff Johns, e teríamos um filme bem melhor!), sem se esquecer de um fraco Thor (que direção de arte tosca era aquela?!): se a DC ainda se esforça (em vão) para iniciar novas séries fora do brilhantismo de um Batman (pouca fantasia, mas ótima franquia de cerebrais filmes de ação) ou da nostalgia de um Super-Homem (ao contrário de muitos, gostei do filme-homenagem do Bryan Synger) e a Marvel Studios segue tropeçando desde Homem de Ferro numa insana correria para apresentar a todos os seus medalhões antes do filme-evento dos Vingadores, fiquei sozinho na platéia, a tatear no escuro, literalmente, o ocaso de personagens tão ricos e bacanas, como o sentinela esmeralda e o deus do trovão, que mereciam filmes bem melhores...

Mas parece que Capitão América - O Primeiro Vingador tem sido a mais "redonda" das últimas abordagens: com sua homenagem aos tempos áureos em que surgiu o personagem, o spielbergiano discípulo do bom cinema oitentista Joe Johnston conseguiu, ainda que sem muita novidade ou emoção, edificar aquele sentimento de matinê perdido em algum lugar de nossas retinas fatigadas, entregando um bem razoável entretenimento com a calma de que a Marvel vinha precisando: Capitão América agrada mesmo em tempos de sentimentos anti-americanos com grande elenco, aventura e efeitos na medida (muito interessante a reconstrução em CGI do Steve Rogers franzino) e uma gostosa trilha de herói como há muito o amigo Jorge Saldanha não ouvia (eu diria que desde James Horner em Rocketeer, com aquela ótima trilha para um personagem novo com cara de antigo)!

Ah, os heróis e a fantasia inspiracional daqueles dias dourados... Eu mesmo, como se dominado pelo dia mais claro, enchi meu peito daquela verde esperança de outros tempos, época em que mais me aproximava do espírito daqueles heróis, e lutei contra todos o desafios que surgiram no último agosto, mês de maior correria pra mim dos últimos tempos... Porém, apesar de aqueles que ainda me vêem de capa reluzente contra o sol (mas com uma bandeira brasileira ao fundo, faz favor!) jurarem ter-me visto voar em alguns momentos, infelizmente também tive meus tropeços, acompanhados de quedas livres... E, por isso, mesmo enfrentando todos os medos amarelos que me cobram os poderes até hoje (afinal, "com grandes poderes"...), e ainda querendo muito acreditar naqueles semideuses de outrora, sigo com meu super-uniforme no lixo, lutando o mero dia-a-dia como o mais realista dos mortais...

Não resta dúvida de que eles, um dia, dominaram a Terra... Muito tempo antes de toda essa patacoada visceral de efeitos desenfreados e de mundos virtualmente vazios... Muito antes de meus largos vôos por sobre a Terra terem-se transformado em, no máximo, corridos passos (sempre atrasados) em direção a faculdades de alunos desinteressados e a fóruns e juizados cinzas e sem esperança... Mas, se não sou mais um super-homem, ainda posso ser o superpai de minha doce Isabela, para quem salto mais alto que o próprio Hulk e tenho mais truques do que um Mandrake e um Zatara juntos! E minhas letras persistem, mesmo diante da kryptonita mais forte! Por isso fico feliz ao ver tantos fiéis Jimmys Olsens acompanhando as letras que jogo aos ventos virtuais, sempre por aqui antenados tal como se possuíssem aquele famoso relógio-trasmissor do fotógrafo camarada do Planeta Diário, à espera de mais uma nova temporada!

Pois ajustem a freqüência e ouçam a boa nova de setembro, caríssimos blogueiros de plantão: o Sombra já sabe e agora todos fiquem sabendo que os Morcegos estão de volta em cartaz! O meu muito obrigado a vocês, que jamais me abandonaram voando sozinho rumo a um crepúsculo esmeralda qualquer...

"Eles nos matarão se puderem, Bruce! Eles não devem ser lembrados de que gigantes caminham sobre a Terra!"
(Super-Homem, em Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller)
Ainda assim, sempre será possível recomeçar e fazer a diferença, sendo alguém especial, um gigante...
Dedicado a Sérgio Ronnie, Jimmy (Olsen) Ranyer, Ricardo Alexandre, Dennis Guilhon, Henrique Spencer, Quézia Custódio, Lígia Calina, Diogo Rodrigues, Marcos Dhotta, Marco Santos e Adriana Bello (uma Liga da Justiça inteira!) e a todos aqueles que carregam dentro de si um herói de tempos idos...
 

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