terça-feira, 28 de fevereiro de 2006



"É carnaval, é a doce ilusão, é promessa de vida no teu coração"... Resolvi começar com este lindo samba da Mangueira, Se Todos Fossem Iguais a Você em homenagem ao nosso grande maestro, Tom Jobim (que nem gostava da multidão, mas mergulhou na Sapucaí feito criança ao lado de seu piano branco no alto de um carro alegórico), neste último dia de folia de 2006... Mas qual o quê, foi-se o tempo que carnaval "acabava" na quarta-feira de cinzas - hoje a festa dura o ano inteiro,a vida toda, nas intermináveis micaretas e folias e 'shows' fora de época que este País do samba, suor e cerveja resolveu atribuir a si próprio! E foi esta nostalgia que me acometeu há pouco, saudade do tempo que carnaval "acabava"! E foi por isso que fui tachado de "só ver o lado ruim" do carnaval... Que é isso! Logo eu, um saudosista que sempre viu poesia nos bailares do confete e da serpentina antes de cair nos corpos encharcados dos foliões? Não brinco, mas vejo de longe, especialmente quando se trata da Mangueira (que, com o perdão das típicas piadinhas infames da época, quase não desfila neste ano, já que a Porto da Pedra se trancou e não deixava de jeito nenhum a Mangueira entrar!) - e, não é por nada, não, mas parece que a Verde-rosa este ano é campeã! E sigamos, que a quarta-feira está aí, o trabalho e a ROTATÓRIA também, hoje especial: com outro saudosista-mor, Arnaldo Jabor, com um trecho de sua crônica "O carnaval virou uma paisagem de nádegas", e o eterno Vinícius de Moraes, com o samba "Marcha da Quarta-feira de Cinzas", em parceria com Carlos Lyra, encerrando esta SEMANA ESPECIAL CARNAVAL com um pouco de "pessimsimo" e de saudade de poesia de folias perdidas... Ah, e desde 1880, o morcego é símbolo no carnaval em vários países, entre máscaras e tradições!

Os Dissabores do Jabor!


O carnaval virou uma paisagem de nádegas


Hoje é carnaval e como ando numa onda nostálgica sou arremessado para 1950, no colo de meu pai, na Avenida Rio Branco, vendo passar as sociedades carnavalescas. Eram grandes carros alegóricos, cheios de rodas moventes, de estátuas de papel e massa, toscas e épicas com grandes rostos, estrelas, engrenagens brilhantes, sóis, luas, cobertos de mulheres provocantes. Meu pai me lavava pela mão e eu olhava um imenso carro (seria grande mesmo ou era a escala de minha infância?) que era um despotismo de cachos de bananas, com uma lindíssima mulher morena e nua no alto. Os pais de família, as mães de família (todo mundo era de família...) diziam: "Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!". Elvira Pagã era apenas uma vedete, mas, naquele ano remoto, ela queria provar alguma coisa. Algumas mulheres como ela (Luz del Fuego e outras) transcendiam o palco e viravam o símbolo vivo de alguma loucura no ar, de algum desejo reprimido no coração das famílias.

Eu olhava em volta e via nas senhoras distintas a inveja infinita e escandalizada e via no meu pai um olhar que eu não conhecia, voltado para a Elvira Pagã (que nome anticristão e nu!). Havia naquela nudez uma coragem que não vejo nos tempos libertinos de agora. Hoje, as mulheres das escolas de samba não tem mais o que despir. Travam uma competição frenética de coxas e bundas e seios. Mas que mostrarão no futuro? Que querem elas provar do alto de sua imensa euforia? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias? Querem provar que o sexo sem limites poderá resolver os problemas do Brasil? Querem provar que nossas vidas são escuras e mesquinhas?

Há qualquer coisa de agônico e lancinante nestas mulheres nuas. As mulheres alegóricas de hoje se oferecem numa violência de curvas e rebolados, numa ostensiva volúpia, num excesso de ofertas que inviabilizam qualquer tesão. Há uma certa angústia nesta oferta panorâmica de sexo.

(...)A ruptura total de todas as barreiras tirou da nudez seu traço de liberdade. Choca-me (ouso dizê-lo) fazer parte de um país cujo símbolo é o rabo de nossas mulheres. Choca-me ver nossas filhas esfregando o sexo nas lentes da tevê. Que é isso? É o ato sexual da globalização? Não há francesas, americanas ou alemãs fazendo este elogio infinito do desejo, inclusive mentiroso, porque ninguém é tão sexy assim. Nós viramos uma espécie de curiosa Sodoma subdesenvolvida!(...)

(Arnaldo Jabor, 2004)

Ó, abre alas para a poesia passar...

Marcha da Quarta-feira de Cinzas


Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija e se abraça
E sai caminhando, dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir, voltou a esperança
É o povo que dança, contente da vida feliz a cantar
Porque são tão tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver e brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz

(Vinícius de Moraes e Carlos Lyra)
 

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